Encarcerado no Batalhão de Choque desde 15 de abril por suspeita de ligações com uma milícia, o sargento Marcos Vieira de Souza (Falcon) andou recebendo uma média de oito visitas por dia, entre abril e meados de maio. Do jeito que vai, certamente precisará de secretária e distribuição de senha para organizar essa verdadeira peregrinação à sua cela.

No Brasil tudo foge a regras ou padrões. Seria de se supor que um sargento PM recebesse visitas de seus pares, outros sargentos, ou mesmo de colegas de corporação de patente mais baixa. Mas Falcon tem mesmo prestígio e recebe até comandante de Batalhão e oficiais, além de delegado da Polícia Federal.

Ao todo, só no período de um mês, Falcon foi visitado por 17 pessoas de diversas forças da área de segurança, entre policiais militares, policiais civis, bombeiros e cabos da Marinha. As justificativas são as mais interessantes, todas têm a ver com aspectos profissionais.

Todos estão investigando, mas investigando o que? Pode um detento, ainda que em situação provisória, receber tantas visitas? O que Falcon tem a ver com um assessor parlamentar? E com os dois pastores e o empresário que foram vê-lo na cadeia?

É bom lembrar que Falcon foi detido quando acompanhava à delegacia o senhor Paulinho do Gás, procurado por pertencer à milícia da região de Campinho. O sargento carregava pistolas, munição e R$ 33 milem sua Pajero, veículo cujo valor de compra não condiz com os modestos ganhos de um policial de sua patente.

Para fechar com chave de ouro a relação de visitantes, Falcon recebeu em sua cela até o capelão auxiliar da PM. Será que o nosso herói quis se confessar? Será que a consultoria precisa de segredo do confessionário? Será que a lista de sua clientela é secreta? Ou será que a concorrência anda forte?

Quando pensei em escrever essas linhas achei que o título seria óbvio: Escravos do Trabalho. Mas logo lembrei que o Trabalho é apenas a ponta do novelo de uma relação que foi inaugurada pelo Capital, em nome da “liberdade”.

O capitalismo nasceu na Europa feudal, contestando os senhores, nobres, grandes proprietários de terras. Era fácil convencer o camponês, servo e vinculado à terra, que o futuro e a prosperidade estavam num novo sistema, no qual ele e qualquer um poderiam vender sua força de trabalho e morar onde bem entendesse.

As revoluções burguesas, apoiadas pelos servos, romperam as cercas do campo e incharam os burgos, fortalezas do livre comércio e da manufatura ainda incipiente. Logo, os antigos camponeses foram percebendo que o sonho de liberdade era mesmo uma quimera.

“O trabalho enobrece o homem”, dizia-se na Reforma protestante. Qual homem? O correto talvez fosse afirmar “O trabalho enriquece alguns homens”, ou quem sabe “O trabalho escraviza a maioria dos homens”.

Passados três séculos de sua existência o sistema capitalista experimentou profundas transformações, notadamente no plano da tecnologia. E foi justamente esse avanço tecnológico espantoso que propiciou a elevação dos ganhos dos capitalistas. Com menos trabalhadores é possível produzir mais e extrair muito mais mais-valia em muito menos tempo. Um avanço que segue a cada dia, com a introdução da informática, robótica e microbiologia aplicadas à produção.

A modernidade capitalista criou outros mecanismos para nos prender. Um deles é a apropriação indébita da rede mundial de computadores, pela qual não só executamos tarefas na produção, como podemos ser seguidos e mapeados. Felizmente ainda podemos usar essa ferramenta para discutir e até contestar injustiças. 

Hoje as modernas relações de trabalho incluem a “cessão” de um smartfone ou, no mínimo, um celular a todo trabalhador. A maioria se encanta ou se sente importante desfilando com o brinquedinho, sem perceber que ele é justamente a algema que o prende à empresa e o torna escravo 24 horas do patrão.

A qualquer hora você pode ser localizado e chamado a cumprir tarefas profissionais fora da sua jornada formal de trabalho. Além disso, perde sua privacidade, visto que os aparelhinhos podem ser localizados por um sistema de rastreamento.

A jornada de trabalho oficial no Brasil é de 44 horas semanais, com oito horas de segunda a sexta-feira e mais quatro aos sábados. Só na Lei, porque o tempo que se perde para chegar e sair do trabalho e as horas extras trabalhadas elevam essa carga para algo em torno de 12 horas/dia.

Com o avanço tecnológico acumulado seria possível não só reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais, como permitir ao cidadão ingressar mais tarde no mercado de trabalho, trabalhar menos e se aposentar mais cedo.

Ao contrário disso, o que vemos são as pessoas cada vez mais apressadas, atônitas, correndo de um lado para o outro, sem tempo para nada. Comemos mal, conversamos pouco com os amigos, vemos os filhos tarde da noite ou pela internet. Namorar só nas horas vagas. Viajar só pra quem pode.

E quando perguntamos a alguém, por hábito, “Como você está?”, a outra responde “Tudo bem, só uns probleminhas pessoais, mas isso passa.” Os “probleminhas pessoais” são justamente aqueles problemas verdadeiros que definem a nossa felicidade.

Trabalha-se para pagar as contas do mês, para comprar uma casa, para pagar as prestações do carro, para pagar o carnê do crediário das Casas Bahia. Trabalha-se para pagar porque o trabalhador está sempre devendo. E está sempre devendo porque a máquina do sistema é uma roda-viva, que o empurra ao consumo de bugigangas que precisam ser consumidas.

No final das contas somos mesmo escravos do Capital. Uns mais outros menos conscientes. Afinal, dá um trabalho danado jogar a nossa vida medíocre para o alto e chutar o balde dos capitalistas…

O sinistro Pallocci faturou alto em consultorias. Nenhum problema, um dia antes da Dilma tomar posse ele mudou o objetivo social de sua empresa, a Projeto. Assim, legalmente está tudo nos conformes… Ministro não pode, mas parlamentar pode prestar “consultoria”? Pode!!! Pelo menos dizem que está na Lei. Pouco importa se Pallocci prestava consultoria a empresas ao mesmo tempo em que era da Comissão de Finanças da Câmara dos Deputados.

Pallocci, para os que não se lembram, é reincidente no ramo. Começou com o escândalo do lixo na Prefeitura de Ribeirão Preto, onde foi Prefeito. Uma empresa com o nome sugestivo de Leão Leão abocanhou contratos milionários em transações suspeitas que acabaram sendo abafadas. Foi o primeiro estágio de Pallocci no mundo dos escândalos.

Mais a frente, em 2008, então ministro da Fazenda, Pallocci montou uma espécie de casa da luz vermelha, próximo ao Lago Paranoá, em Brasília, onde garotas e convidados especiais travavam contatos de primeiro grau e o prato principal eram as questões mais cabeludas da política nacional. Só esqueceram de calar a boca do caseiro, que mais tarde foi investigado e teve suas contas devassadas.

Agora aparece o conto da carochinha da “consultoria”. Já surgiram a Amil, a N. Odebrecht e a WTorres entre a clientela da Projeto. Coincidência ou não, a WTorres já financiou campanha de Pallocci e até de Dilma. Aguarda-se mais detalhes nos próximos capítulos dessa história. Diga-se de passagem, um verdadeiro remake da política brasileira, já que ministros, ex-ministros, presidentes de todos os partidos que já estiveram no governo sempre engordaram suas contas depois de “servirem à nação”.

Que os partidos mais conservadores e os grandes grupos de mídia tenham interesse em fragilizar o Governo Dilma vá lá, nenhuma novidade. Faz parte da “função social” da oposição, num regime de alternância no poder. O teatro admite todos os tipos de atores e papéis. Compra ingresso quem quiser. Mas o caso é que quem toma conta do cofre não pode revelar o segredo. Será que no Brasil pode?

O Brasil Colônia foi o país do Pau-brasil, depois do ouro, depois do gado. No Brasil Império éramos o país do algodão, depois do café. Mais a frente na História o Brasil República virou o país do açucar, do cacau, depois da borracha e depois novamente do café.

Pois é… E dizia-se que éramos um país agro-exportador, ou seja, atrasado mesmo. Hoje somos a sétima ou oitava economia do mundo, bradam os analistas internacionais, um país em franca expansão, dizem. Será!?

Em estudo publicado recentemente pela Revista Radar, do IPEA, os pesquisadores Fernanda De Negri e Gustavo Varela Alvarenga demonstram que, em 2010, 51% das exportações brasileiras eram de commodities (mercadorias negociadas em bolsas internacionais), ou seja, de produtos primários semi-industrializados. O gráfico publicado indica que esta tendência é crescente. Se somarmos a isso os recursos naturais exportados, chegaremos a cerca de 55% da pauta de exportações brasileira.

Para falar claro, o grosso das nossas exportações é de mercadorias agrícolas e minerais: minérios, carnes, soja, açúcar, papel, café e resíduos de alimentos. É o que os autores chamam de “primarização” da pauta de exportações brasileiras.

Como se vê, o “grande” crescimento econômico nacional se expressa no que exportamos. Acontece que países em desenvolvimento como o Brasil, notadamente a China e a Índia, apostam justamente na tendência contrária, de investir e exportar cada vez mais produtos industrializados. Para isso, estão qualificando cada sua mão-de-obra, inclusive em áreas de ponta, como a informática.

Países que produzem e exportam commodities, gêneros com menor valor agregado, empregam pouca mão-de-obra e geralmente trabalhadores pouco qualificados, com salários baixos e, consequentemente, mercado de consumo interno frágil. Ora, isso significa o emprego de pouca tecnologia na produção, pouca escolaridade da massa trabalhadora e uma cadeia de problemas que já conhecemos.

O pomba-rolou da sociedade brasileira, embalado pela idéia de que o “mercado” regula a economia, só provoca o atraso. As elites querem investir o menos possível, querem incentivos do BNDES a rodo, a juros baixos e a perder de vista. O Estado só serve como fonte de empréstimos para bancar seus negócios. Estão aí na pauta de exportações a Vale (privatizada) e o Agronegócio, que nada produz para a mesa do cidadão brasileiro.

Este é o resultado concreto da política econômica dos governos que se sucedem, do PSDB ao PT. Por isso, continuamos no atraso, apegados aos programas sociais que fazem grande parte da população refém do clientelismo eleitoral dos governos de plantão. Um círculo vicioso que se sustenta da exploração e exportação de recursos naturais, da pobreza, da baixa escolaridade e da perpetuação das velhas oligarquias no poder.

Curiosa a situação do SAMU, aquele programa de atendimento de prontos-socorros móveis em ambulâncias, que atende pelo telefone 192. Até o final de 2008 o programa coordenado pelo Ministério da Saúde funcionava razoavelmente bem, pelo menos no Estado do Rio de Janeiro. Mil e quinhentos servidores contratados para aquele atendimento trabalhavam há cerca de cinco anos.

No final de 2008, depois de anos de bons serviços prestados à população pelas ambulâncias e equipes do SAMU, o Governo estadual demitiu os servidores e em seu lugar colocou bombeiros. Aliás, os bombeiros também foram levados para atender nas UPAs, em acordo com o Prefeito Paes.

Hoje, com exceção da Capital, os serviços do SAMU são de responsabilidade das prefeituras que, por sua vez, terceirizaram a contratação de pessoal através de empresas privadas. O resultado é a piora considerável do serviço, reclamações da população e uma média de espera de até 4 horas por uma ambulância. Atualmente na capital o SAMU conta com 170 ambulâncias.

O interessante é que o Governo federal continua repassando mensalmente 1 milhão e 700 mil reais ao Governo do Estado para gastos com pessoal do SAMU. Ora, essa grana não está chegando aos bombeiros que, por sinal, andam insatisfeitos com os parcos R$ 950,00 mensais que recebem de salário. Então para onde vai o dinheiro? E os R$ 27 mil gastos mensalmente só com a manutenção das ambulâncias?

Trata-se de um caso típico de desmonte de um serviço que dava certo e era, inclusive, elogiado pela população, tal a rapidez e habilidade das equipes do SAMU. Mas como tudo que dá certo no Brasil deve ser desmontado para não dar um gostinho de que as coisas organizadas pelo Estado podem funcionar, o Governo Cabral decidiu intervir e desmantelar o SAMU.

A farra do boi do crédito fácil se tornou a mola mestra do capitalismo no Brasil. Pudera, numa sociedade em que as pessoas ganham pouco e não têm dinheiro para fazer suas compras à vista, o jeito é parcelar e ter aquela sensação de felicidade momentânea.

O chamado mercado interno foi a salvação da economia, em tempos de crise internacional. A mágica consiste em dar crédito para que qualquer cidadão possa comprar à prazo. Assim, fica garantida a produção de bens de consumo duráveis, como automóveis, geladeiras, móveis e toda a chamada linha branca de eletrodomésticos.

Quem se deu bem nessa onda foi, mais uma vez, o sistema financeiro. Com as taxas de juros reais mais elevadas do mundo, bancos e financeiras (incluindo as cadeias de venda de eletrodomésticos, lojas de departamentos, seus cartões e carnês) fazem a festa.

Dados da Fecomércio do Estado de São Paulo indicam que os brasileiros já gastaram R$ 54,4 bilhões, só com o pagamento de juros, de janeiro a abril de 2011. Em 2010 o total gasto com  juros pelos brasileiros chegou a R$ 129,2 bilhões.

A tal ponto que em no ano passado 53% dos lares brasileiros, cuja renda mensal corresponde a R$ 2.146,00 gastaram, em média, R$ 2.171,00, ou seja, mais do que sua renda. É o que aponta pesquisa da Associação Paulista de Supermercados.

O problema é que não há como assegurar que o emprego permaneça estável, ainda mais quando as compras são parceladas em até 72 vezes ou seis anos. Aí reside o problema de grande parte dos brasileiros que tomaram empréstimos para pagar suas compras.

Isso pode se transformar numa bolha, cujas conseqüências ainda não podem ser mensuradas. Bolha de país pobre não é para a compra de casa de campo, é de carro, fogão, microondas e outras bugigangas. Mas é bolha do mesmo jeito e o prejuízo para a sociedade pode ser incalculável.

Só pode ser deboche. Confira a íntegra da Nota distribuída à imprensa pela Secretaria Estadual de Transportes no dia 6 de maio de 2011. 

SP faz avaliação positiva do transporte aquaviário do Rio

O sistema de transporte aquaviário do Rio recebeu, na tarde desta quinta-feira, a visita do presidente do Dersa, Laurence Casagrande, responsável pela ligação hidroviária entre Santos e Guarujá, no estado de São Paulo. A empresa, ligada à Secretaria de Transportes local, veio conhecer a operação da concessionária Barcas S/A, que, diariamente, transporta mais de 100 mil pessoas, com uso integral da frota, e pontualidade de 98% entre as partidas.

Casagrande elogiou o serviço, considerado o maior do hemisfério Sul, e afirmou que aplicará em São Paulo, conceitos e métodos da operação fluminense.

– É impressionante o trabalho desenvolvido aqui. Embora seja carente de embarcações, a concessionária consegue gerir um sistema que comporta o fluxo de 100 mil pessoas por dia. Certamente vamos utilizar em São Paulo parte do que aprendemos aqui. Já estamos marcando uma próxima visita, com um efetivo maior de engenheiros, a fim de firmarmos uma parceria produtiva entre as duas regiões – disse o presidente do Dersa.

A visita, guiada pelo secretário de Transportes do Estado do Rio, Julio Lopes, foi iniciada no moderno Centro de Controle Operacional da empresa, passando pela estação Praça XV, além de uma viagem até Charitas.

– O Dersa gostou do que viu. Queremos estreitar esta parceria, e gerar benefícios para os sistemas dos dois estados. O transporte aquaviário do Rio vem apresentando uma substancial melhora em sua performance operacional desde o início de 2007, e, estamos certos de que, com o iminente investimento que será feito pelo Governo Sérgio Cabral, incluindo compra de novas embarcações e reformas de estações, poderemos proporcionar aos usuários o serviço de excelência que a população merece – explicou o secretário Julio Lopes.

Osama, filho de família milionária da Arábia Saudita que tinha negócios no ramo de Petróleo com a família Bush, foi sustentado pelo governo norte-americano para combater os soviéticos no Afeganistão.

Gostou da coisa e decidiu seguir carreira solo. Com a retirada dos soviéticos, Osama decidiu montar seu próprio negócio. E fez do mesmo Afeganistão sua base. Botou os norte-americanos para fora e deu todo apoio aos talebãs para tomar o poder.

Lá pelos idos de 2001, quando o governo de Bush filho ia muito mal das pernas, dois aviões são desviados da rota e atirados contra as torres gêmeas do World Trade Center,em Nova Iorque. Três mil mortos e comoção internacional.

Bush reúne seus falcões e invade o Afeganistão. Meses mais tarde, sob a alegação forjada de que Sadam Hussein – também ex-aliado dos EUA contra a revolução do Irã – tinha armas de destruição em massa, Bush bombardeia o Iraque.

O pretenso combate à rede terrorista Al-Quaeda propiciou a venda de armas para atender a duas guerras, que já causaram centenas de milhares de mortos. Farra da indústria armamentista, base da economia dos EUA.

Os milhares de bobos que saíram às ruas de Nova Iorque e outras cidades dos EUA para comemorar a morte de Bin Laden são um termômetro da boçalidade da opinião pública norte-americana. Acreditam que os três mil mortos do WTC estão vingados e dão uma forcinha para a reeleição de Obama.

A atitude do Governo Obama só reacende a possibilidade de nova onda de atentados com mais vítimas, alimentando o círculo vicioso da indústria de guerra de seu país. Talvez muitos deles sejam convocados para servir no próximo front de batalha.

E assim se mantém a indústria armamentista e o governo dos EUA. O modelo de bem-estar e democracia que pretendem impor é sustentado pelo poder das armas. Nada melhor do que uma rede de terror internacional para dar fôlego a esse joguinho sinistro. Um conto de fadas que divide o mundo entre o bem e o mal. O problema é que esse conto tem um preço muito alto, em vidas humanas.

Às vezes me perguntam como me defino filosoficamente. Sou ateu porque não tenho religião, embora tenha muita fé na vida, esperança na humanidade e respeito aos cultos afro-brasileiros, por seus santos ligados às forças da Natureza. Tento ser marxista, mas ainda assim considero essa definição uma pretensão.

Karl Marx foi um estudioso da totalidade, da realidade global. Não li todas as suas obras, mas a essência de seus pensamentos está expressa em algumas sacadas geniais, fruto da observação da realidade, a partir da teoria dos seus estudos acadêmicos, e da prática junto a grupos de operários europeus.

Muitos acreditam que a derrocada da URSS e das sociedades do socialismo real condenou o marxismo e o comunismo ao fracasso. Nem se pode batizar de “socialismo” as sociedades que surgiram a partir da Revolução Russa de 1917. Eram tantas as carências ainda no terreno das necessidades básicas de uma população de mais de 80% de camponeses pobres e miseráveis, evidência de que nem o capitalismo ainda havia alcançado plenamente aquela sociedade.

No entanto, ainda assim e apesar de todos os desvios autoritários na implantação dos regimes socialistas na Rússia, China e Cuba, as sociedades não capitalistas do século XX deram exemplos marcantes de como é possível atender às demandas mais elementares da humanidade e até desenvolver sistemas avançados em determinados setores. Sem falar da contribuição decisiva do povo soviético e do Exército Vermelho para derrotar o nazi-fascismo na segunda grande guerra.

Em algumas décadas as revoluções russa e chinesa fizeram mais pelas suas populações pobres que durante séculos de feudalismo. Milhões saíram da miséria absoluta, da ignorância e do analfabetismo. Milhões que não sabiam o que eram três refeições ao dia ou o que era um sapato puderam sair das trevas da subnutrição e das epidemias constantes para enxergar a luz do saber.

A revolução cubana foi uma chama que iluminou nuestra América por décadas, transformando um prostíbulo num país. Apesar de pobre, Cuba é referência em diversas áreas da medicina e deu exemplo de solidariedade decisiva à humanidade para o fim do Apartheid na África, ao derrotar as tropas sulafricanas na guerra de Angola.

Não há dúvida, o socialismo, mesmo como regime de transição ao comunismo, pode assegurar dignidade e oportunidades a todos, como o direito a uma saúde e a uma educação pública e de qualidade, como ficou comprovado nas sociedades não capitalistas na URSS, China e em Cuba. Mas ao mesmo tempo o socialismo só poderá triunfar com base nas mais amplas liberdades e respeito aos direitos humanos, como a liberdade de crítica, de imprensa, de organização social e política, respeito às diferenças e opções sexuais. Desmentindo o que dizem os arautos do capitalismo, as “democracias” capitalistas que conhecemos até aqui jamais respeitaram ou garantiram nenhum desses direitos a todos.

Ao contrário do que difundem os reacionários e reforçam as práticas de grupos sectários de esquerda, o marxismo não se baseia em dogmas imutáveis. As idéias básicas do pensamento marxista constituem um conjunto de ferramentas para a compreensão e a transformação da realidade. Essas idéias não são propriamente um roteiro a ser decorado e aplicado, mas um método dialético para análise e ação.

“A história da humanidade é a história da luta de classes”. Existe uma frase que defina com tanta clareza a nossa História? De fato foi o embate entre as classes sociais que possibilitou a liberação da humanidade da escravidão e da dominação feudal.

A luta de classes ainda não libertou a humanidade da exploração capitalista, mas possibilitou inúmeros avanços legais e sociais, conquistados com suor e sangue nas greves e confrontos diretos dos trabalhadores contra o patronato e seus governos ao longo do século XX. Por isso “A violência é a parteira da humanidade”, violência aqui entendida como força, pressão.

Foi Marx que em seus estudos para a obra O Capital identificou a existência da mola mestra do sistema capitalista, o valor a mais produzido pelos operários (mais-valia) que não é remunerado e é apropriado pelos patrões. Seus estudos comprovam que o capitalismo explora e avilta o trabalhador na produção.

O materialismo dialético, que identifica filosoficamente a linha de pensamento de Marx, é a ferramenta mais brilhante que conheço para identificar causas e efeitos dos fenômenos sociais. Tese, antítese e síntese são partes de um todo, da contradição, do choque de idéias que torna possível a superação dos problemas. Mas todo este instrumental teórico não serve de nada se permanecer restrito ao campo das idéias e não for utilizado na prática das lutas sociais e políticas para a transformação da realidade.

Por isso, voltando ao início do artigo, considero pretensioso me definir como “marxista”. Hoje prefiro dizer que tento ser “marxista”. Se me apresentarem algo melhor para explicar a complexidade da sociedade em que vivemos terei o maior prazer em mudar de idéia. Alguém se habilita?