O segundo mandato de Dilma mostra-se inteiramente inócuo do ponto de vista dos interesses populares. Envolto em uma crise econômica internacional, que afeta a cesta de produtos exportados pelo país, o governo produz uma política econômica ineficaz para a burguesia e absolutamente injusta para a maioria dos brasileiros.

Desvaloriza a moeda para fortalecer a posição dos exportadores, aceita conviver com a inflação, corta investimentos públicos em áreas essenciais, mantém uma das maiores taxas de juros do mundo e não move uma palha para reduzir o abismo econômico e social entre a burguesia e povão.

O país assiste ao esforço de gerações ser jogado fora, com a crise e desmantelamento da Petrobras. Enquanto analistas se mostram mais preocupados com o futuro das empreiteiras, a Petrobras, responsável por um terço da economia brasileira, é desmontada e retaliada.

Em mais uma pantomima com script previsível, Dilma reuniu o chamado “Conselhão” para anunciar sua disposição em insistir no imposto sobre o cheque e uma nova linha de crédito de R$ 83 bilhões para aquecer a construção civil e outros setores da economia. Na verdade, mais transferência de recursos públicos para grandes grupos parasitários.

Na mesma reunião, o senhor Trabuco – nome sugestivo para um banqueiro – afirma que todos perdemos com a recessão. Todos!? Certamente os bancos e banqueiros não estão entre os “todos”. Tão pouco os donos de empresas que vivem das tetas do Estado brasileiro em todas as suas instâncias, como o agronegócio, as Organizações Sociais e outras terceirizadoras de tudo.

Será que neste tal de Conselhão não existe uma viva alma para levantar e dizer que a arrecadação de impostos só vai crescer e ser mais justa se as grandes fortunas, os lucros e dividendos em operações financeiras e as heranças forem finalmente taxadas? Não tem ninguém para dizer que as taxas de juros estão na estratosfera, arrebentando com o crédito? Ninguém com coragem suficiente para defender uma auditoria da dívida pública, que consome quase a metade do Orçamento da União todos os anos? Não tem ninguém para defender a educação e a saúde pública de qualidade? Afinal, para que serve essa bodega?

As medidas anunciadas por Dilma e seus ministros são inócuas porque não contam com o apoio da maioria no Congresso, não empolgam o apetite voraz dos tubarões do capital – que não veem representatividade neste governo – e muito menos representam avanços para as condições de vida da maioria da população.

Como pouco ou nada fizeram até hoje para destravar o monopólio da comunicação, os governos do PT construíram seu próprio cárcere. Bombardeados por um noticiário de baixo nível e sem nada a oferecer para as classes populares, o governo Dilma II vai se esvaindo em descrédito. E o cidadão comum que ainda deu um crédito de confiança neste governo, pensando que poderia evitar o pior, está cada vez mais descrente.

Por sua vez os movimentos cheira-bunda do PT, como CUT, MST e UNE, continuam no rabo de Dilma, para ver se conseguem sentir o aroma de “esquerda” que um dia sairia do Planalto, mas não se cansam de respirar o perfume desagradável que exala deste governo. Se ainda tivessem um mínimo de representatividade, já teriam mudado o disco e passariam a cobrar medidas concretas a favor da população. Mas para que? É melhor culpar os adversários do que perder as benesses oficiais, não é mesmo?

Já a esquerda ortodoxa não consegue produzir nada de novo, como aliás não seria de se esperar mesmo. Perdida entre seus dogmas e as intermináveis e pequenas disputas internas, não tem fôlego para entrar numa luta política de cachorro grande.

Daí porque as previsões para 2016 são mesmo sombrias. A continuar do jeito que vamos, e parece que vamos, teremos eleições mais desinteressantes ainda, com o risco do avanço significativo da oposição conservadora e até de candidatos de extrema direita, com exceções que só justificarão a regra.

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Fala sério!

26/01/2016

Do jeito que determinados órgãos de imprensa estão com sede de buscar provas para incriminar Lula na Operação lava-jato, vão acabar transformando o ex-presidente em um homem rico só em indenizações.

As Organizações Globo e seus comentaristas de plantão, notadamente Merval Pereira e Renata Loprete, toda semana encontram pistas fundamentais em declarações de delatores da Lava-jato, que podem relacionar Lula diretamente com ilícitos praticados a favor deste ou daquele grupo econômico.

O Jornal O Globo chegou a publicar matéria em que atribui a Lula a propriedade de um imóvel tríplex no Guarujá, litoral paulista, fruto de suposto esquema da Bancoop (ex-cooperativa habitacional dos bancários).

Agora a Revista Veja, que não podia ficar atrás, estampa na capa com fotos e tudo a mesma matéria de O Globo, cujo editor e os jornalistas responsáveis estão sendo processados por Lula.

Todas as semanas aparecem novas supostas denúncias contra os filhos de Lula. Um dinheiro da empresa tal, um iate, que é sócio ou dono do frigorífico Friboi e outras tantas baboseiras. Essas asneiras são reproduzidas de forma espetaculosa nas redes sociais e viram até mesmo pautas para jornalistas.

Essa obsessão em incriminar o ex-presidente e seus familiares é parte de um tipo de jornalismo baixo, rasteiro, que se preocupa em atingir as pessoas e não as suas ideias e projetos. Se querem meter o pau no Lula existe uma série de possibilidades e pistas mais sólidas. Mas será que querem mesmo?

Anotem aí algumas sugestões:

. Digam quanto as Organizações Globo e as demais famílias que controlam a grande mídia empresarial brasileira obtiveram em recursos de patrocínio direto do governo federal e das empresas estatais nos governos de Lula e Dilma;

. Digam quanto as grandes empresas tiveram de isenções de impostos em todos esses anos para continuar tocando seus negócios, enquanto a maioria da população paga impostos sobre consumo;

. Digam que a política econômica dos governos do PT não tocou na propriedade da terra, não fez reforma urbana, subsidiou e financiou os grandes grupos econômicos, em vez de destilar preconceito contra cotas nas universidades e programas como o bolsa família;

. Digam que estes mesmos governos não quiseram e não querem realizar uma Auditoria na dívida pública brasileira, que consome quase a metade do Orçamento da União anualmente, em vez de acusar o governo de ser “gastador”;

. Digam que Lula e o PT fizeram exatamente a mesma coisa que FHC e seus tucanos fizeram e farão, se retornarem ao governo, dividindo ministérios e empresas estatais com seus aliados do PMDB;

. Digam que muitas das obras faraônicas das grandes empreiteiras vieram dos megaeventos, notadamente a Copa do Mundo e as Olimpíadas, que também renderam grandes contratos de patrocínio das transmissões esportivas;

. Digam também que a corrupção deslavada neste e noutros governos é fruto não da ganância de alguns corruptos, mas de um pacto das elites brasileiras, que loteiam o Estado, os órgãos públicos e empresas estatais.

Dizer essas coisas não convém, não só porque seria uma confissão do parasitismo da própria mídia empresarial em relação ao Estado brasileiro, como também desnudar a podridão da engrenagem que sustenta os governos do PT e da oposição conservadora. Todo este ódio é destilado apenas porque Lula e o PT não pertencem ao clube fechado dos abastados. Imagine se eles fossem mesmo instrumentos de transformação deste país?

Pega ladrão!

11/01/2016

As manifestações promovidas pelo Movimento Passe Livre na sexta-feira, 8 de janeiro, contra os aumentos das passagens de transportes levaram alguns milhares de pessoas – sobretudo jovens – às ruas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

A iniciativa contou com o apoio de diversas outras entidades e foi importante para constranger o poder público, que nos últimos anos limita-se a justificar os aumentos porque já estavam previstos nos contratos.

E quem fechou esses contratos? Com base em que dados os aumentos são calculados e aprovados? Alguém já viu cabeça de bacalhau e planilha de empresa de ônibus? No Rio e em S. Paulo o cidadão já está desembolsando R$ 3,80 (quase um dólar) para pegar uma condução, sem falar nos transportes sobre trilhos (metrô e trem) que deveriam ser bem mais baratos e não são.

Passeatas e manifestações públicas são importantes, fundamentais. Mas em casos extremos de roubalheira descarada e cinismo como este, por mais que eu tente não consigo me opor à atitude de alguns manifestantes que decidem ir às vias de fato.

Recorro à história recente do país para exemplificar o efeito que o quebra-quebra tem sobre governantes e empresários de transportes.
Será por acaso que os aumentos de passagens só passam a vigorar nos finais de semana?

Faz alguns anos, em situação semelhante e sem convocação prévia de nenhum movimento popular, um grupo de pessoas (muitos eram office-boys e ninguém usava máscara) ateou fogo nos ônibus enfileirados na Avenida Rio Branco. A imagem era dantesca, com uma novem preta cobrindo todo o Centro do Rio. No dia seguinte as “otoridades” suspenderam o aumento das tarifas de ônibus.

É verdade o que os especialistas em segurança afirmam: não se deve reagir em caso de assalto à mão armada. Neste caso o cidadão está sendo furtado por batedores de carteira. Vale o risco de correr atrás do prejuízo.

Aqui em solo pátrio, apesar do recesso parlamentar, seguem as manobras de bastidores envolvendo governo e oposição conservadora. Dilma declara que podem revira-la de ponta a cabeça que não vão encontrar nada. E manda avisar aos que pensaram que ela daria uma “guinada à esquerda” que isso nunca existiu, reafirmando que a mulherada vai ter mesmo que trabalhar mais para se aposentar, a partir da nova reforma da Previdência proposta pelo governo.

Mais sujo que pau de galinheiro, Eduardo Cunha finalmente teve seu sigilo bancário e o de sua família quebrado. Novos indícios de movimentação de valores em contas fora do país apareceram com a busca e apreensão de documentos nas residências do presidente da Câmara. Já Michel Temer se equilibra na corda bamba entre duas alas, para não perder o controle do PMDB. Vêm aí novos capítulos da novela da luta interna do partido.

Agora os ministros da Casa Civil (Jaques Wagner) e das Comunicações (Edinho Silva) aparecem em mais conversas telefônicas, desta vez com o ex-presidente da empreiteira OAS. Edinho confirmou que em suas atividades parlamentares teria desenvolvido relações legais com o até então dono da empreiteira. Wagner soltou nota dizendo que está tranquilo e pronto a prestar quaisquer esclarecimentos.

O “caos na saúde” finalmente foi descoberto pela mídia empresarial, que antes só lembrava da situação precária dos hospitais em época de greve, para bombardear os servidores. A Prefeitura do Rio dá uma mãozinha para o Pezão, e decide administrar o Rocha Faria e o Albert Schweitzer. No entanto, nos hospitais da rede municipal só consegue pronto atendimento quem dá entrada ferido a faca ou a bala.

E por falar em bala o tiro continua comendo solto. As UPP seguem em processo acelerado de desmoralização, visto que os policiais não são treinados para se integrar às comunidades e continuam sob a orientação de largar o dedo contra qualquer “suspeito”, de preferência jovem, negro ou mulato. Volta e meia um policial também é ferido ou morto. Tudo pela pacificação das comunidades da cidade olímpica.

Enquanto isso, o aedes egipty – mosquito da dengue, xicungunha e da zika – não para de fazer vítimas e cresce o número de bebes nascidos com microcefalia (mais de três mil casos registrados) em todo o país. Uma estatística macabra, própria das nações mais atrasadas do Planeta.

A lama da Samarco chegou às praias de Linhares (ES) e atingiu o arquipélago de Abrolhos (litoral sul da Bahia), uma das mais ricas diversidades da fauna marinha brasileira, contida nos recifes da região. Agora a empresa foi notificada pelo Ibama para fazer exames da qualidade da água que chega ao mar. É mais ou menos como convidar o assassino a fazer a autópsia do cadáver. E ninguém vai preso…

Pesos e medidas

08/01/2016

Desde que o governo George Bush passou por cima de todos os princípios e tratados internacionais, bombardeou o Afeganistão e o Iraque, a ONU foi colocada em xeque. Um grupo seleto de grandes potências econômicas e militares determina suas resoluções e tem poder de veto no Conselho de Segurança.

Assim, as últimas duas grandes resoluções da ONU são, no mínimo, contraditórias. A ONU condenou o ataque à embaixada da Arábia Saudita no Irã, mas não emitiu um comunicado com a mesma veemência sobre a condenação à morte de dezenas de opositores do regime saudita, inclusive de um líder religioso.

A mesma ONU agora condena o teste do governo norte-coreano com uma bomba de hidrogênio, mas não tem uma resolução concreta sobre o desarmamento nuclear de todas as nações, inclusive das que possuem os maiores arsenais nucleares, como os EUA.

As lágrimas de Obama, derramadas quando da apresentação do projeto que prevê restrições à compra de armas nos EUA, só servem para o mercado interno norte-americano. Afinal, os EUA continuam sendo os maiores produtores e exportadores de armas do mundo.

Na Venezuela, a nova maioria conservadora de deputados, demonstrando todo o seu compromisso com a pátria, fez retirar do parlamento as imagens de Hugo Chavez e (pasmem) de Simon Bolívar, o fundador da nação. E na Argentina, o novo presidente Macri entra de sola na Lei de Medios, que regulamentou a atuação de grupos privados de comunicação, além de outras medidas impopulares.

Aliás, alguém sabe explicar o que o deputado federal Jean Willys (Psol/RJ) foi fazer em Israel?

Definitivamente, não é um bom começo de ano.

Que a direita e todo o pensamento liberal (e neoliberal) defendam o trabalho como fonte da felicidade e da justiça é compreensível. Afinal, as classes “produtoras” – como gostam de se autodenominar – sabem que é o trabalho que produz a riqueza, ou seja, sabem que dependem do trabalho alheio para acumularem sua riqueza.

Mas uma presidente que se toma como de “esquerda” dizer que “não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja 55 anos, para as mulheres um pouco menos” é uma calamidade.

A frase de Dilma, cunhada em entrevista para justificar a nova reforma da Previdência Social que seu governo pretende aprovar, dá a exata noção de que muita gente formada na esquerda construiu sua vida política centrada no mundo do trabalho.

Ora, Dilma vai na contramão das idéias socialistas e libertárias. Primeiro, porque desconsidera a realidade brasileira, em que a maior parte dos trabalhadores começa a labutar antes dos 18 anos de idade. Daí não ser nenhum absurdo que uma parcela deles consiga se aposentar aos 55 anos (homens) e até menos (mulheres).

O que Dilma e seus amigos não dizem é que desses aposentados muitos são obrigados a continuar trabalhando, dado que os valores das aposentadorias são irrisórios. Isso numa sociedade em que o avanço tecnológico nos permitiria discutir tranquilamente a redução da jornada de trabalho e do tempo a ser trabalhado.

O pior das palavras da presidente é que, como toda a elite brasileira, ela considera um absurdo que as pessoas possam se aposentar para gozar o que resta da vida. Isso demonstra que a raiz filosófica do pensamento de Dilma e de muita gente que se diz de esquerda está calcada na idealização do mundo do trabalho e não na libertação do mundo do trabalho.

A considerar que Dilma e muitos que a apoiam clamam pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, seria coerente defender a redução do tempo necessário de trabalho para a aposentadoria, equiparando a situação dos homens com a das mulheres (30 anos). No entanto, a presidente pretende igualar o tempo de trabalho para a aposentadoria aumentando o número de anos que a mulher terá que trabalhar para adquirir o benefício. Um feminismo interessante, esse.

E tudo isso para justificar mais uma reforma previdenciária que vai prejudicar ainda mais os trabalhadores. Por que essa gente não abre o jogo e diz que precisa honrar os compromissos financeiros com os credores da dívida pública brasileira? Pelo menos seria mais honesto.

2015 foi talvez um dos anos em que o Brasil mais se revelou. Tudo que ainda parecia escondido sob o véu da hipocrisia se levantou, para espanto de uns e a confirmação dos prognósticos de outros. O escândalo da Petrobras trouxe à tona as relações promíscuas mais do que conhecidas durante décadas, porém, acobertadas entre políticos, dirigentes da estatal, empresários e doleiros.

O Congresso Nacional viveu às turras entre oposição conservadora e governo petista e seus aliados. Estima-se que 50 parlamentares federais estejam envolvidos e citados nas investigações da Operação Lava-jato. Para dirigir o circo de Brasília, ninguém melhor que Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos do PMDB, conhecidos escroques da vida pública.

As pedaladas fiscais foram a forma como alguns pretenderam justificar legalmente a possibilidade de impeachment de Dilma. No entanto, um estudo da Transparência Brasil demonstrou que a maioria dos recursos das pedaladas foi para beneficiar grandes empresas, restando uma parte menor para os programas sociais.

Tudo que há de mais conservador apareceu, sob a motivação do pedido de impedimento da presidente Dilma. Nas ruas e nas redes sociais um festival de ignorância e intolerância transbordou, em manifestações e postagens de uma classe média reacionária, como não se via desde os tempos que antecederam a ditadura militar.

No parlamento discute-se a possibilidade de impeachment de Dilma apenas por conveniência. Acuado pela ameaça de perder o cargo, Cunha decidiu jogar no ventilador e contra atacar. Já a oposição conservadora se apega à possibilidade de impedimento da presidente, como válvula de escape para sua política moralista, visto que no plano econômico seus projetos conseguem ser ainda piores que os do atual governo.

E por falar em economia, nada mais revelador do que o projeto de “ajuste” defendido pelo financista Joaquim Levy e amplamente aplaudido pela mídia empresarial. Por ele não sobraria pedra sobre pedra de programas sociais, obcecado que esteve em satisfazer os interesses de seus pares, credores da dívida pública brasileira.

O resultado de um ano de Levy no governo foi uma recessão avassaladora, fruto da compreensão de que ao Estado cabe financiar o sistema financeiro. Se sobrar alguma coisa a gente gasta com coisas menores, como saúde, educação, transporte, cultura, etc.

Estados e prefeituras alegam que a crise comprometeu suas arrecadações e jogam a conta nas costas dos servidores públicos. Muitos continuam com salários e 13º atrasados. No entanto, os cofres estão sempre abertos aos amigos.

É o caso da Prefeitura do Rio, que repassa R$50 milhões à Fundação Roberto Marinho para administrar museus modernosos, enquanto 12 outros estão aos pedaços no Rio. Já o governo Pezão paga a conta da Supervia com a Light (cerca de R$ 40 milhões), afinal, as concessionárias não podem esperar. Enquanto isso, o governador vai a Brasília de pires na mão, buscar recursos para a saúde pública.

Em São Paulo, sob a desculpa esfarrapada de melhorar o serviço de educação, o governador Alckmin tentou fechar mais de 100 escolas públicas. Em Goiás o tucano Marconi Perillo vai mais além e quer repassar a gestão das escolas públicas a grupos privados. Não fosse a resistência da estudantada a coisa seria ainda pior. Já no Paraná, o senhor Richa manda a PM sentar o pau em professores, que protestavam contra mudanças na Previdência do funcionalismo daquele estado.

Até a lama veio à tona, com o rompimento da Barragem da Samarco (Vale/BHP) na cidade de Mariana (MG). Estudos já alertavam sobre a possibilidade de uma tragédia, mas para quem vive na merda parece que lama tóxica não é nada, não é mesmo? Passados quase dois meses nenhum dirigente da empresa foi preso e as famílias da região continuam aguardando as providências, apesar do cerco do Ministério Público.

Na virada do ano, antes mesmo dos fogos e shows, governantes prepararam seus pacotes de aumento da arrecadação de impostos e de tarifas públicas. O consumidor que se prepare para arcar com a conta salgada. Na Cidade Olímpica, além de aumentar de R$ 3,40 para R$ 3,80 a passagem do ônibus municipal, o prefeito aproveitou para revogar a medida que determinava cem por cento da frota com ar condicionado até 2016.

No plano do esporte ficou evidente a podridão na CBF, matriz que inspirou João Havelange a montar o esquema de arrecadação e enriquecimento de cartolas da FIFA. Del Nero, Marin e seu antecessor, Ricardo Teixeira, estão na mira da Justiça (norte-americana), por inúmeros ilícitos. Se dependesse da Justiça brasileira eles poderiam viver sossegados por aqui.

Dentro de campo mais um ano de mediocridade. Os 7×1 da Copa de 2014 ficaram para trás, e novamente assistimos Dunga dirigir a seleção. Afinal, o “curingão” conquistou mais um título nacional, sob o comando do “cerebral” Tite. No Rio, o tenebroso Eurico Miranda voltou a dar as cartas, conseguindo um título estadual e, ao mesmo tempo, o rebaixamento do Vasco da Gama.

Na saúde, além do tradicional colapso do atendimento à população mais pobre nas unidades públicas, foram registrados quase dois mil casos de microcefalia em recém-nascidos, que pode estar associada à zica, doença transmitida por um antigo conhecido dos brasileiros, o mosquito aedes egypti.

Na área da segurança pública continuamos apelando à jagunçada para manter a ordem. Mais um ano de chacinas e massacres, sempre com a participação explícita ou disfarçada de policiais.

Enfim, o Brasil pode mostrar sua realidade de forma mais explícita em 2015. E já começou 2016 com o pé trocado. Basta ver a quantidade de lixo que os serviços de limpeza retiraram das praias do Rio e Niterói. Em Copacabana, no maior révellion “do mundo”, como gostam de ressaltar os apresentadores de TV, foram recolhidas 370 toneladas de detritos, enquanto em Icaraí (Niterói) ficaram pelas areias 300 toneladas de lixo. Eis o retrato do Brasil.