As estórias da carochinha que nossos antepassados contavam para as crianças dormirem, sempre começavam com a mesma introdução: “Era uma vez…”. Elas nos remetiam a cenários e personagens fantasiosos, mágicos. Via de regra, com sua leveza, nos conduziam ao inevitável labirinto do sono, nos lançando aos braços de Morfeu.

Essa também parece ser a estorinha que assistimos desde o dia em que foi anunciado o incêndio que destruiu 70% da Base brasileira na Antártida, com a morte de dois militares que cumpriam missão naquele local.

Os militares que morreram combatendo as chamas são tratados como heróis, seus corpos recebidos com emoção por ministros e com honras militares, além de receberem promoções póstumas. Já o Governo trata de apagar o incêndio, anunciando que reconstruirá o mais breve possível a Base.

Dizem os cientistas que a pesquisa é a base para a produção de conhecimento, mas pesquisa no Brasil nunca foi artigo de primeira, como se sabe. O próprio Ministério da Ciência e Tecnologia é tratado como cargo de menor importância. Nos últimos anos o orçamento para o MCT é minguado, assim como os recursos reservados aos estudos empreendidos na Base da Antártida.

Um oficial da Marinha, Antônio Sepúlveda, alertou há seis anos que era urgente uma reforma completa e estrutural da Estação. Em seu artigo “Tudo pela pátria”, Sepúlveda dava detalhes da situação alarmante das instalações da Base.

Agora, em pleno corte de 55 bilhões de reais do Orçamento da União para 2012, sempre visando economizar para pagar os famigerados juros e amortizações da dívida pública (interna e externa), somos obrigados a assistir dona Dilma anunciar – com aquela falsa emoção que lhe caracteriza – a liberação de recursos de emergência para a reconstrução da Estação na Antártida.

Essa é mais uma estorinha como a que nossos pais nos contavam, só que com final trágico e revelador. O que causou a destruição da Base, a perda de duas vidas e de diversas pesquisas, não foi o fogo, foi a política do governo de Dilma-mãos-de-tesoura, com seus cortes implacáveis sobre os investimentos (que teimam em chamar de gastos) públicos.

Piada de última hora: o pastor Marcello Crivella é o novo ministro da Pesca. Ninguém merece…

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Tudo muda, tudo se transforma. Não há máxima mais verdadeira que essa. No entanto, mudança que não seja transformação é só adaptação, acomodação. Qualquer mudança saudável e honesta preserva a essência, os traços originais da matéria.

Com o Carnaval não é diferente.  Muitos questionam, com razão, a aceleração do samba, que no início dos desfiles era quase um samba-canção. Esquecem de dizer que o que forçou isso foi o gigantismo das escolas, espremidas em desfiles cronometrados, determinados pela TV que compra os direitos de transmissão. A isso se somam as exigências da gravadora do disco dos sambas, no qual cada composição ocupava uma faixa de até 3 minutos.

As grandes baterias de Escolas de samba de hoje (cerca de 250 componentes) são verdadeiras orquestras do ritmo, nas quais cada instrumento tem um papel definido, com graves, médios e agudos. No início as Escolas levavam para a Praça XI uma simples batucada que desfilava,com algumas dezenas de componentes, com o samba batido na palma da mão e acompanhado por
alguns poucos instrumentos de percussão. Alguns curiosos, como colher- de-pau batida no chão e frigideira, porque o samba (manifestação musical e de dança) tinha a ver com a cozinha, as reuniões e festividades regadas a feijoada e outros pratos até então restritos aos pobres, nos terreiros das favelas.

Com os primeiros concursos patocinados pelo Jornal do Brasil, nos anos 30, foram estabelecidos os quesitos, as agremiações foram crescendo, adotaram enredos ligados à História do Brasil e necessitavam de um acompanhamento rítmico maior.

A entrada dos carnavalescos nas Escolas, a partir de Fernando Pamplona e seus discípulos da EBA/UFRJ no início dos anos 60, modificou em muito os desfiles. O aspecto plástico, de alegorias, adereços e fantasias, passou a ter grande importância na apresentação do enredo das Escolas de samba. O espetáculo foi ganhando ingredientes até então inexistentes ou pouco
representativos, como iluminação e sonorização.

A primeira geração de carnavalescos (Pamplona, Arlindo Rodrigues) teve o cuidado de introduzir elementos novos aos desfiles, procurando entender a origem das escolas, dialogando com seus componentes. A geração posterior de carnavalescos já pegou o Carnaval de negócios, com salários e superpoderes, inclusive para determinar o Enredo e regras para a composição dos sambas, dentro da lógica descritiva do enredo que eles próprios bolavam.

Aos poucos o desfile das Escolas se transformou num megaespetáculo, com elementos de música, teatro e artes plásticas alterando por completo a origem do samba e das próprias agremiações. Profissionais das escolas migram de uma para outra apenas por dinheiro, as quadras e barracões saíram das comunidades e foram para o asfalto, tornando-se mais atrativas para receber a classe média e a captação de recursos. A classe média tomou conta das alas e do desfile. Uma grande emissora de TV comprou o direito de transmissão e passou a influenciar direta e indiretamente nos critérios e na estética do
espetáculo.

O samba-enredo em si deixou de ter a importância inicial, passando a ser apenas mais um ingrediente do desfile. Some-se a isso o fato de que a escolha do samba passou a ser por critérios que atendem menos às necessidades da agremiação, e mais a acomodação de interesses internos e externos. Os grandes poetas-compositores, que insistem em fugir das exigências dos
carnavalescos, abandonaram a disputa e o que restou são, via de regra, os consórcios formados por gente que apenas assina composições pobres em melodia e letra.

Sem dúvida que o desfile das Escolas do grupo especial se transformou num grande espetáculo, mas de samba tem muito pouco.  Trata-se de algo mais parecido a uma grande ópera à céu aberto, cada vez mais previsível e monótono.
 
Com os blocos não foi diferente. Os blocos de rua do início do século XXI, é claro, não são os mesmos do século XX. É bom que se diga que eles têm origem nas sociedades, corsos, batalhas de confetes e outras formas de manifestação carnavalescas da classe média alta, que já faziam parte do Carnaval carioca do início do século XX.

Em franca decadência nos anos 70, os blocos só retomaram seus espaços nos anos 90, depois que muitos cariocas se cansaram da mesmice dos desfiles da Sapucahy e de fugir da cidade no Carnaval. Hoje são mais de 400 blocos oficialmente reconhecidos, fora os que não se preocupam com registros e relações com a Riotur.

O gigantismo dos blocos tem a ver com o fato de que o Rio de hoje é uma cidade de mais de 6 milhões de habitantes, na qual o Carnaval de rua é uma atração gratuita para os foliões de todos os gostos e idades. Num bloco é possível ouvir música e dançar, tomar cerveja e paquerar a um preço irrisório.

O ressurgimento dos blocos de rua, mesmo com outras características, foi uma reação positiva do carioca à pasteurização midiática do carnaval das Escolas de Samba. Mas os próprios blocos correm o risco de se transformar também em instrumentos de mídia, no joguete das cervejarias e seus camarotes. Já há uma indústria dos blocos, com baterias remuneradas, camisetas e outros pequenos esquemas que podem se transformar em armadilhas para essas agremiações.

Outro mito que o Carnaval de rua derruba é de que o povo brasileiro é pacífico e ordeiro. O entrudo do século XVIII era uma festa violenta. Os clóvis (mascarados) ou bate-bolas de hoje sempre promoveram batalhas nos bairros populares.  O bloco Chave-de-Ouro era reprimido pela polícia, porque seu desfile na Quarta de Cinzas era uma afronta ao calendário da Igreja católica. Os sambistas dos primeiros desfiles das escolas eram tratados como marginais e via de regra detidos pela polícia.

Outro grande foco carnavalesco do Rio eram os bailes de salão. Nos clubes mais pobres ou nos de classe média alta, eles atraíam os foliões para dançar as marchinhas e sambas. Eram municiados pelos concursos de músicas de Carnaval, promovidos pelas rádios Nacional, Guanabara e outras. Ali, grandes compositores (Lamartine Babo, Braguinha, Erivelto Martins, etc) e cantores colocavam toda a sua criatividade e emoção em canções simples e comunicativas, que incendiavam os bailes e as ruas.

Recuperar os bailes é uma grande idéia, mas que carece do essencial: os concursos e a divulgãção das músicas concorrentes pelas emissoras de Rádio e TV. Sem isso, os bailes tendem a ser apenas um espaço nostálgico para execução de antigas canções. 

O mais importante na polêmica entre “tradicionalistas” e “modernosos”, a meu juízo, não é saber quem tem razão, mas constatar que o povo sempre encontra seu jeito de driblar os megaeventos elitizados, produzidos artificialmente, e de criar o seu próprio espetáculo. E se esse novo Carnaval também for incorporado como mercadoria de mídia, dar as costas e voltar às ruas com novas formas de manifestação cultural.

Em resumo: a mídia se apropria do Carnaval, adapta suas manifestações às necessidades do mercado, mas não cria nada. Quem cria a cultura popular é o povo. No fundo o carioca tem uma consciência vaga de que sem ele o Carnaval não pode existir. Cabe a ele superar os descaminhos e determinar os caminhos do Carnaval.

Peço permissão ao antropólogo Roberto da Matta para usar o título do seu livro para analisar o movimento grevista na PM e no Corpo de Bombeiros e sua repercussão. A polícia, no entender de V. I. Lenin (líder da revolução Russa de 1917), é parte dos corpos especiais do Estado para garantir os interesses da classe dominante, no caso, a burguesia. É um instrumento profissional de força, de opressão sobre os trabalhadores e o povo, de garantia da ordem que interessa às elites.

É por este motivo que aos policiais é vedado a organização em sindicatos e a realização de movimentos grevistas. No caso do Brasil, se trata de um serviço essencial não à segurança de toda a sociedade e da população, como dizem os governantes e a grande mídia, mas à segurança do Estado e da burguesia.

A formação de policiais no Brasil é uma calamidade, a própria polícia que conhecemos é herança das Entradas e Bandeiras e das tropas imperiais, criadas para caçar negro fujão e reprimir revoltas populares. Piora o fato de que no Brasil a polícia é militarizada, seguindo a hierarquia da caserna.

A esse corpo especial de repressão tudo é permitido, desde expulsar sem-teto e sem-terra de suas ocupações, criar grupos de extermínio e assassinar jovens das favelas e periferias. Seus membros são incentivados a fazer “justiça” com as próprias mãos e, nas horas vagas, trabalhar de segurança (jagunço) em boates, condomínios de luxo, para contraventores ricos, em fazendas, bancos, etc.

Acontece que de uns anos para cá a tropa decidiu levantar a cabeça e reivindicar salários dignos. E neste ano o movimento coincidiu com a época do Carnaval. Logo a grande mídia e os governantes, se utilizando de diálogos gravados em grampos telefônicos, passaram a usar este aspecto para plantar uma campanha de terror, alegando que o movimento grevista ameaçaria o Carnaval, a maior festa popular do país.

De fato, o Carnaval é a maior festa popular do Brasil, mas o que interessa não é a festa em si, e sim os lucros e dividendos que ela gera. O Carnaval ameaçado não é o do povo nas ruas, porque esse, inclusive, sempre teve uma pitada de violência e nunca precisou de intervenção policial, desde a guerra de limões do tempo do Entrudo. O que estaria ameaçado é o negócio do Carnaval dos carros alegóricos e dos abadás, cujas imagens são vendidas pelas grandes emissoras de TV a peso de ouro para centenas de países.

Desde que Chico Buarque musicou sua Ópera do Malandro o Brasil todo mundo sabe que hoje o normal é malandro profissional, de terno, gravata e capital. São esses malandros, donos do grande negócio em que se transformou o país, que ficam preocupados quando a tropa decide se mobilizar e pedir melhores salários.

Juristas, deputados, governadores, todos numa só voz condenam o movimento, sob a alegação de que ele a greve é ilegal. Mas o “bico” de policiais e bombeiros – servidores públicos que podem portar armas de fogo – pode!? Não é ilegal!? Esses mesmos malandros profissionais nada falam sobre as barbaridades ilegais perpetradas pela sua polícia quando se trata de reprimir os trabalhadores e o povo. No máximo se dizem dispostos a apurar os “excessos” cometidos por alguns, o que nunca acontece.

Imaginem se esses malandros ficarem sem a proteção dos seus jagunços? Imaginem se seus jagunços adestrados decidem agir por conta própria e receber salários dignos? Como vai ficar a segurança dos negócios escusos, das mansões e terras adquiridas a partir de falcatruas e exploração?

Nossos heróis, no caso, não são aqueles mauricinhos e patricinhas que o Pedro Bial se esforça para elogiar no BBB. São uma espécie de anti-heróis. Bombeiros e soldados da PM pertencem à escória da sociedade. Moram mal, recebem salários baixíssimos e vivem com receio de mostrar sua identidade fora de serviço.

Apesar disso, por suas funções, são chamados pelo povo a “dar um jeito” e a “limpar a área” nas comunidades em que residem, tomadas por bandidinhos pés-de-chinelo. Daí a origem das atuais milícias, que sempre foram toleradas e incentivadas pelos malandros profissionais. Ou alguém nega que os malandros profissionais que ocupam o Palácio Laranjeiras e o Piranhão fizeram suas respectivas campanhas eleitorais em palanques com chefes de milícias?

Esses anti-heróis, recrutados entre a escória da sociedade, mal formados e com baixa escolaridade, se tornam uma ameaça quando levantam a cabeça e exigem melhores salários. O que antes era tolerado e incentivado pelos malandros profissionais é condenado como “terrorismo” e atos de “vandalismo”.

Ocupar o quartel central do Corpo de Bombeiros, no Rio, ou a Assembléia Legislativa da Bahia sem portar armas é crime, mas expulsar sem-terra de fazendas improdutivas ou sem-teto de terrenos baldios na base das bombas e cassetetes não é. Quando usam de todos meios (legais e ilegais) para executar os planos de segurança dos malandros profissionais são tratados como heróis e até condecorados, mas quando resolvem lutar por dignidade são achincalhados, presos e expulsos da corporação.

Como se vê, Carnavais, malandros e heróis têm seus lugares e papéis bem definidos no Brasil. O problema é quando os heróis decidem enfrentar os malandros e ameaçam estragar seus carnavais.

*Carnavais, malandros e heróis é o título de um livro do antropólogo Roberto da Matta

Uma pista me empurra a escrever sobre este assunto, em plena greve dos policiais na Bahia e as ameaças de um movimento grevista no Rio. Além de força de repressão do Estado (das elites), é da polícia que saem, em sua maioria, os jagunços e os grupos de justiçamento nas cidades e no campo, inclusive as milícias.

A jagunçada de farda ou sem ela reprimiu o Quilombo dos Palmares, as rebeliões que estouraram em todo o país durante o período da Regência, a Revolta das Vacinas e a Revolta das Chibatas, no Rio, os seguidores de Antônio Conselheiro (Bahia), as manifestações estudantis contra a ditadura militar. Parte deles formou o grupo que prendia e torturava presos políticos durante a ditadura. 

Ou seja, além de servidores públicos que cumprem ordens dos governantes de plantão, nas horas vagas policiais são contratados para o servicinho sujo, em forma de “bico” para compensar os baixos salários que recebem. Hoje são eles que reprimem a ocupação dos sem-teto de Goiânia e de São José dos Campos e são acionados sempre que os sem-terra ocupam alguma fazenda ou trabalhadores que fazem greve.

Isso talvez explique porque Jacques Wagner e Sérgio Cabral aleguem não ter recursos para melhorar os salários dos policiais. Se pagarem melhores salários vai diminuir aquela tropa informal da jagunçada, disposta a qualquer coisa para aumentar seus vencimentos. Além disso, setores com melhor formação escolar vão se interessar em ingressar na Polícia, o que pode criar dificuldades futuras para governantes e comandantes.

Uma greve de policiais parece mais uma de tantas greves, mas expõe todas as contradições da sociedade brasileira. Cassetetes, balas de borracha e bombas que antes serviam de instrumentos de trabalho contra trabalhadores em greve, agora são usadas contra quem os reprimia por uma Força Nacional de Segurança. Só falta os grevistas saírem em passeata com o slogan “Abaixo a repressão!”.

A grande mídia brada contra a “covardia” dos policiais grevistas, que usam seus filhos e mulheres como escudos contra a repressão. Será que esqueceram que até hoje os policiais são proibidos de se organizar em sindicatos e até de fazer greve?

E o Governador da Bahia? Ex-sindicalista e ex-defensor ardoroso das greves de policiais em seu estado, agora mudou de idéia? Será que vai imitar Cabral e chamar os grevistas de vândalos por terem ocupado a Assembléia Legislativa de seu estado? Aliás, em tempos de descrédito nas instituições, a ocupação da Aleba pelo menos deu até uma certa importância ao prédio, porque aos deputados ninguém dá mesmo.

No meio deste rolo volta a discussão sobre a PEC 300, aquela que concederia equiparação de todos os policiais do país ao salário de um soldado de segunda classe da Polícia de Brasília. O Presidente da Câmara, Marco Maia, já disse que o problema não é federal, mas dos estados. Já nos estados os deputados e governadores alegam não ter como pagar salários dignos aos policiais por falta de recursos. E neste jogo de empurra a capatazia das classes dominantes é envolvida em promessas e desculpas. Por sorte existe na tropa gente lúcida, honesta e corajosa, disposta a dar exemplo aos seus colegas e à sociedade.

Longe do debate de idéias sobre o mérito das privatizações, seria bom fazer um balanço junto à população acerca do resultado dos serviços que foram privatizados. É bom lembrar que o mote da privatização era o fim do “monopólio”, como se o Estado – ente que em tese representa a coletividade, portanto, a todos os brasileiros – pudesse exercer monopólio em qualquer atividade.

Outro argumento forte, além da “livre concorrência”, era o da eficiência das empresas privadas em prestar serviços mais ágeis. O barateamento das tarifas também foi muito prometido nas campanhas de privatização.

Nenhum destes argumentos se confirmou nos mais de dez anos de privatizações no Brasil. Foram privatizadas as riquezas minerais do subsolo (Cia. Vale do Rio Doce), o setor petroquímico, os bancos estaduais, as empresas de energia elétrica, rodovias, e o sistema de telecomunicações.

No Estado do Rio, verdadeiro balão de ensaio das privatizações, além dos setores já citados, foi privatizado o serviço de distribuição de gás encanado, os terminais rodoviários, as barcas, o metrô e a companhia de trens urbanos.

Quais são os campeões de reclamações nos serviços de defesa do consumidor? Empresas de telefonia, planos de saúde, cartões de crédito, dentre outros. Ora, o que aconteceu com o paraíso do mundo moderno privatizado?

Ao contrário do prometido, os serviços são péssimos, desde o serviço em si até o atendimento de reclamações do consumidor. As tarifas são muito mais caras e reajustadas em percentuais que excedem a inflação acumulada. O Brasil tem as tarifas mais caras do mundo em diversos serviços (bancários, de internet, TV fechada, telefonia celular, etc). Agora, sim, poucas empresas exercem seu papel monopolista, fazendo o que bem entendem, o que só pode ocorrer numa economia totalmente privatizada.

Com isso instaurou-se um verdadeiro salve-se quem puder, porque a lógica de mercado (lucro) se impõe com voracidade e desrespeito, atropelando qualquer planejamento com racionalidade, coisa que só o Estado poderia executar.

Bueiros explodem porque Light e CEG não se entendem e não querem se entender na rede subterrânea. O Metrô para porque a manutenção é cara e não interessa. O Trem quebra porque além de não ter manutenção decente suas composições são velhas e sucateadas. O sinal de telefonia e internet é fraco porque não há interesse das empresas em investir e expandir sua rede. Qualquer dificuldade o Estado está logo ali, pronto a dar uma mãozinha a juros baixos.

O problema das empresas e serviços estatais não está no fato de sua administração pertencer ao Estado, mas de quem exerce o poder de mando. Do ponto de vista do cidadão a saída está na democratização da gestão da máquina pública e no fim do loteamento de cargos em ministérios e em empresas estatais. A eleição direta de seus dirigentes pelos servidores pode garantir que os serviços públicos sejam geridos por gente séria, comprometida com o consumidor e com os servidores.

Seguindo o modelo tucano do risco zero os governos do PT fizeram leilões de privatizações de áreas de prospecção de petróleo e agora dos aeroportos. Uma sociedade entre grupos privados, BNDES e dirigentes de Fundos de Pensões de empresas estatais criou a PPP (Povo Paga o Pato).

É a parceria do Lobo Mau com Chapeuzinho Vermelho. O ágio arrecadado e comemorado (R$ 25 bi) vai para o Fundo da Aviação Civil, portanto, nenhum tostão para os cofres públicos. As obras necessárias para a recuperação dos aeroportos privatizados serão realizadas com verbas do BNDES (cofres públicos), a juros baixinhos e a perder de vista. Timidamente as empresas já anunciam que haverá reajuste das tarifas aeroportuárias e das passagens. E Chapeuzinho Vermelho ainda acredita que o Lobo Mau não vai comer a Vovó…