O brasileiro pouco lê, mal estuda e não tem o costume de acompanhar a vida política de seu país. Isso não é de hoje não. Até o final da década de 80, que coincide com o fim do governo militar, um percentual bem reduzido de brasileiros alcançava o ensino médio e outro percentual ainda menor concluía o ensino superior.

Com pouca capacidade crítica sobre o que se passa à sua volta, é natural que muitos dos que hoje estão beirando os 60 tenham saudades daqueles tempos. Afinal, dizem, não havia violência, a criminalidade era menor, havia respeito, não tínhamos essa corrupção deslavada, a escola pública e os hospitais funcionavam, o país prosperava.

Os estádios de futebol viviam cheios, os casais eram felizes, os negros sabiam o seu lugar, o homossexualismo era mínimo, índio era tratado como objeto de museu, a nudez era castigada, a mulher aceitava seu papel de dona do lar, imperava a lei e a ordem. Grandes obras cortavam o país de Norte a Sul, como a Transamazônica e Itaipu. Era a época do “Brasil grande”, do país integrado, via satélite, pela Embratel. “Esse é um país que vai para frente”, dizia a propaganda do governo.

Diziam, como hoje, que seria uma intervenção militar para dar uma “arrumada na casa”. Logo depois, superada a ameaça “comunista”, o poder seria devolvido aos civis e a democracia voltaria mais pujante do que nunca. Ocorre que o projeto não era esse.

Em plena guerra fria, o governo dos EUA montou a escola de oficiais, no Panamá, que treinou milhares de militares de toda a América Latina. A ideologia da “segurança nacional” incutia nas Forças Armadas a teoria do “inimigo interno” (os civis), que deveria ser combatido.

Não era apenas uma assepsia passageira, era um projeto de poder. E logo o governo militar brasileiro precisou de especialistas de inteligência e tortura, para sufocar e debelar os “inimigos”. Com o AI-5 fechou o Congresso Nacional, os partidos e instituiu a caça aos “subversivos”, em sua maioria jovens que, como em todo o mundo naquela época, lutavam por liberdade, um ensino público de qualidade e direitos sociais.

Depois foi preciso chamar os especialistas das finanças, para dar cabo da economia. Mário Henrique Simonsen e Delfim Netto cumpriram esse papel, submetendo o país aos ditames do sistema financeiro internacional, com a tomada de empréstimos externos para financiar o crescimento e impondo altas taxas de juros como remuneração aos banqueiros.

Na teoria de Delfim o bolo crescia, mas a verdade é que só uma parcela da população comia. O povo entrava com a massa e o fermento. Parte da classe média financiava a casa própria e o fusquinha, feliz da vida. Enquanto isso, a dívida externa inchava mais que o bolo, atrelando o país ao pagamento de juros e amortizações estrondosas.

Esse conto de fadas se sustentou até 1975, quando o chamado “milagre econômico” foi para o brejo, como consequência da crise internacional do sistema, mal batizada de “crise do petróleo”. A inflação disparou e os salários foram ao chão. E aí grande parte da classe média branca, que saiu às ruas para marchar com Deus e a Família em 64, passou a sentir as consequências do modelo econômico implantado pelo regime militar. Para o povão sobraram o desemprego e a carestia.

Generais se sucederam na Presidência: Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Com eles toda uma estrutura de comando, que governava com mão de ferro. Partidos políticos proscritos, lideranças populares cassadas, jornais e demais veículos de comunicação censurados, artistas e suas obras sob vigilância e censura. Nas favelas e periferias o couro cantava, com os esquadrões da morte e a repressão policial.

Na telinha da TV muita propaganda do regime, como “A hora do Presidente”, todo domingo durante o programa de Sílvio Santos. A publicidade estampava: “Brasil, ame-o ou deixe-o!”. “Salve a seleção”, comemoravam os narradores de futebol.

Foi uma “ditabranda”, sentenciou um dos principais jornais do país, subestimando os efeitos que os 21 anos de regime militar impuseram à nação. Recentemente o conto de fadas começou a ser desvendado. O que era a tristeza contida de alguns milhares de brasileiros presos, torturados, mortos e exilados e seus familiares, passou a ser de conhecimento da sociedade.

Documentos da CIA recém revelados relatam como os comandantes do regime militar conduziam a nação: a partir da política de terrorismo de Estado, prendendo, torturando e eliminando seus opositores.

Mas os saudosistas teimam em desconhecer ou subestimar os fatos. Apesar de seus limites, a CNV trouxe à tona que 25 mil foram presos, 10 mil torturados, 7 mil condenados em tribunais militares e 434 foram mortos ou desapareceram durante a ditadura militar. E mais: através da colaboração com as ditaduras de outros países da América Latina, o regime militar brasileiro exportou a tecnologia da tortura e dos assassinatos (Operação Condor).

No entanto, o pior não está no que se fez naquele período, mas no legado que a ditadura deixou. Um rastro de destruição intelectual, violência, obscurantismo e bitolação tomou conta da sociedade brasileira. Uma geração inteira foi castrada, impedida de desenvolver projetos e sonhos em prol de seu país.

Com a transição “lenta e gradual” da ditadura para a “democracia”, arquitetada por Golbery do Couto e Silva, o sistema preservou o que lhe era essencial: o controle da informação e da mídia; o controle e a ampliação da repressão policial e seus métodos brutais; o apartheid entre os poderes e o cidadão comum. Tudo isso permaneceu intocável, e é a base pela qual se estabelece o jogo político e econômico até hoje.

“E o que temos hoje?”, perguntam os saudosistas. A continuidade do que a ditadura nos legou: Uma escola pública pobre e desmoralizada; uma saúde pública caótica; uma violência capaz de vitimar 60 mil pessoas por armas de fogo por ano; um modelo econômico financeirizado; um território rural loteado pelo agronegócio exportador de comodities; cidades inchadas; serviços caóticos, uma juventude semi escolarizada.

Existe um evidente fio condutor que liga a ditadura militar e a democracia limitada que sucedeu aos anos de chumbo. Não vê quem não quer ou quem prefere acreditar no conto de fadas. Portanto, não se trata de retroceder aos tempos de “Alice no País das Maravilhas”, mas criar uma nova democracia, que supere os limites do direito de votar.

Não há mais lugar para o atraso, os justiceiros, os recalcados, os mandões, os idolatrados. O Brasil precisa se conhecer, olhar no espelho, enxergar suas feridas e rugas. Daí porque precisamos reconhecer nossa História e, mais especificamente, nossa história recente.

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