Ainda durante as eleições o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) já tinha em mãos os dados sobre a movimentação atípica de dinheiro por parlamentares e seus assessores na Assembleia Legislativa do Rio. Entre eles o esquema do gabinete de Flávio Bolsonaro com seu assessor, Fabrício Queiroz.

O método não é novo, sempre envolvendo o repasse de parte dos salários de funcionários para o próprio parlamentar, uma forma de retribuir o emprego. Para os envolvidos uma forma de arrecadar uma graninha, até porque boa parte deles sequer aparece para trabalhar. O que estranha é que houvesse repasses de mais de 90% de parte dos salários.

No entanto, o escândalo não veio à tona durante as eleições, o que prejudicaria o futuro políticos dos acusados. Acontece que no caso de Flávio Bolsonaro o esquema envolve outras atividades suspeitas, inclusive a de milícias.

A venda de um imóvel foi usada como álibi para a movimentação de R$96 mil, divididos em depósitos de R$2 mil pelo deputado, hoje senador. Flávio arrumou até um possível comprador, que teria repassado parte do valor em dinheiro vivo. Ocorre que a data dos depósitos dos envelopes nos caixas da Alerj não coincide com a data do registro de venda do imóvel no Cartório.

O pior é que uma investigação do Ministério Público (Operação Intocáveis) chegou ao grupo de milicianos Escritório do Crime, ligada a Ecko, que atua na Zona Oeste do Rio. Este grupo é acusado de inúmeros crimes na Região, como a exploração de transporte clandestino, compra e venda de imóveis de forma irregular, cobrança de taxas e execuções.

Dois ex-oficiais da PM detidos já haviam sido homenageados, através de moções de louvor na Alerj, pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Pior ainda: a mãe e a esposa de um dos ex-PM preso trabalharam até o final de 2018 no gabinete do deputado.

Flávio também apareceu em foto de campanha com outros dois milicianos. Vale lembrar que a quadrilha de Ecko é suspeita de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, em março de 2018.

Todo o esforço das Organizações Globo para jogar sujeira no ventilador dos Bolsonaro tem um propósito, o mesmo de sempre: chantagear o governo de plantão para que assegure os negócios e, principalmente, as verbas publicitárias oficiais para as empresas dos Marinho. Como Bolsonaro sinalizou que pretendia endurecer com a Globo, os Marinho reagiram à altura. Na verdade, a Globo procura um interlocutor que a satisfaça junto ao novo governo.

Que Queiroz é miliciano e laranja todo o país já sabe. Mas a proximidade do clã Bolsonaro com as milícias era apenas uma suspeição, que vai se confirmando com os novos fatos. Isso só atesta que o grupo político do Presidente da República pertence ao baixíssimo clero, sendo incapaz de propor e apresentar qualquer projeto ao país. Quanto isso vai durar?

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O que esperar de um governo que é uma colcha de retalhos? É assim que se apresenta até aqui o projeto de governo que tem Jair Bolsonaro na cabeça. Formado por quatro grandes núcleos, nenhum deles com origem no núcleo tradicional das classes dominantes e sem gente com experiência comprovada na política e na condução da máquina pública, a tendência é que a aventura bolsonarista enfrente crises gestadas a partir da falta de projeto e de sua absoluta incapacidade de acomodar interesses.

O núcleo da família Bolsonaro e seus chegados (Onix, Moro, etc) a cada dia demonstra mais fragilidade, com anúncios do Presidente desmentidos por ministros e assessores. A cada dia o núcleo familiar do governo gera mais problemas, simplesmente pela conduta eivada de irregularidade de seus próprios membros. Vide o caso da lavagem de dinheiro do gabinete na ALERJ, a partir das atividades do senhor Queiroz.

O capitão entende tanto de economia e educação quanto sua mulher entende de umbanda e candomblé. Isso torna o tal “mito” cada vez mais uma figura folclórica, frágil diante da dura realidade de comandar um país de 206 milhões de habitantes, uma economia que está entre as dez maiores do mundo e um território de 8,5 milhões de km2, com inúmeros problemas e desigualdades.

Agora as frases de efeito não geram consequências, como na campanha eleitoral. Ao contrário, o que se fala vira pedra contra a vidraça do governo. Trata-se de encarar problemas concretos, como o desemprego, a crise da segurança, da educação, da saúde, etc. Há também a crise das dívidas dos estados, que já se alastrou e se tornou um problema para praticamente todos os governadores, o que vai exigir uma resposta por parte do governo federal.

Já o grupo de economistas do senhor Paulo Guedes (conhecido como o “Posto Ipiranga”) também carece de credibilidade de gestão do setor público, justamente porque são figuras que sempre transitaram no baixo clero do ”mercado”, ou seja, do setor privado. Sua grande meta é leiloar o que for possível de empresas estatais, tocar uma reforma previdenciária que ainda não tem linhas básicas anunciadas e entregar o comando da infraestrutura do país a grupos privados.

Isso tudo esbarra em problemas de grande monta: os possíveis recursos obtidos com as privatizações não resolvem o problema econômico a médio e longo prazos; ao destruir o setor público compromete-se uma das principais alavancas do setor privado no país, via financiamentos e infraestrutura; ainda não se sabe bem qual a dimensão da reforma da Previdência que se pretende, como viabiliza-la e como aprova-la no Congresso Nacional.

O grupo dos oficiais da reserva das FFAA está mais ligado propriamente a questões de infraestrutura, logística e segurança. Não tem qualquer ambição de um projeto nacionalista, como ocorrera tempos atrás. O próprio Bolsonaro não goza de grande credibilidade na cúpula das FFAA, em função da forma como foi afastado dos quadros do Exército.

Há ainda o grupo neopentecostal, cuja pretensão está exposta no documento lançado no final do ano passado, no qual se funde um projeto privatista de país na economia com ideias retrógradas no que diz respeito à educação, aos costumes e à moral. Sua pretensão é elaborar uma plataforma de governo que aponte para a possibilidade futura de um projeto de evangelização do Brasil, com a chegada de um presidente ao Planalto, que seja fruto deste projeto.

O problema de todos esses grupos é a falta de quadros experimentados e sérios para pensar um projeto estratégico e como viabiliza-lo a frente da máquina de governo. Um exemplo claro disso é que o partido do Presidente eleito não tem quadros sequer para apresentar na disputa da Presidência da Câmara e do Senado, o que prova a fragilidade política dessa gente.

Todo esse enrosco pode gerar uma situação de anúncios, desmentidos, crises e dificuldades internas que o governo Bolsonaro, que nasce de uma crítica ultraconservadora à política dos partidos tradicionais, poderá recorrer às velhas raposas do MDB, PSDB, PP e outros, caso a situação fuja do controle. Mas aí já não será propriamente o governo eleito. De “mito” Bolsonaro passará a mero estafeta das elites que sempre mandaram no país.