Dramático

27/02/2015

O que foi aquilo em horário nobre da TV, na noite de quinta-feira, 26 de fevereiro (int) Um desfile de múmias paralíticas da vida política nacional, uma seleção de desqualificados que se intitularam como “escolhidos”, desfiando um rosário de baboseiras, a partir de textos prontos.

Ministros, presidentes da Câmara e do Senado, presidente do partido e vice-presidente da República gastaram dez minutos na TV, em meio a uma crise política e de credibilidade dos partidos, para convencer o cidadão comum de que estão fazendo o melhor pelo Brasil e que ainda pretendem fazer mais.

A frase que resume o programa do PMDB na TV foi lida por Michel Temer, para o arrepio de todos os brasileiros: “Os ganhos que tivemos nos últimos anos vão continuar”. É isso que todos tememos…

Anúncios

Revoltantes as imagens gravadas em celular por um menor de idade na Favela da Palmeirinha, que filmou seus últimos instantes de vida. Quatro rapazes brincavam do lado de fora de seus barracos, porque faltava luz, quando resolveram correr. Foi o suficiente para um grupo de policiais militares disparar suas armas contra o grupo.

Triste ouvir os disparos, o diálogo que se seguiu entre um deles que estava ferido e policiais. Mais triste ainda ouvir o gemido do rapaz que morreu, caído no chão. Por coincidência tanto o PM quanto a vítima foram batizados com o mesmo nome.

O Alan que disparou montou uma farsa, registrando com os colegas de farda um “auto de resistência” na delegacia, com duas armas que pretensamente pertenciam às vítimas.

O Alan que morreu era um rapaz trabalhador, estudante e evangélico, cuja grande culpa foi nascer e crescer numa favela, ser jovem e negro.

Os dois são apenas mais um das dezenas de milhares de casos de morte por armas de fogo no Brasil. Neste caso, o mais grave é que o Estado apertou o gatilho. Até quando (int) Até quando vamos consentir que a pena de morte possa ser executada por policiais despreparados, que acreditam ter o poder de disparar a qualquer momento dentro das favelas (int)

É nos momentos de crise que a humanidade busca soluções plausíveis, factíveis, mesmo que elas sejam dolorosas e tenham um custo elevado. O que assistimos nos últimos meses é um tiroteio sem princípios, uma queda de braço entre setores ultraconservadores, velhos conhecidos no cenário político e econômico nacional, e um grupo que comanda o Executivo, que se enredou numa política perniciosa para manter-se no governo.

No meio disso está o destino do país, largado às traças por inúmeras denúncias de escândalos, envolvendo a maior empresa brasileira, responsável por 1/3 de todo o investimento produtivo nacional. Agarradas à Petrobras, gigante petroleiro construído pela pressão do povo brasileiro contra a vontade das próprias elites, estão inúmeras empresas que sobrevivem do negócio do petróleo e de grandes empreendimentos necessários para sua prospecção e refino.

A grande mídia qualifica de “o maior escândalo que a nação já viu” qualquer denúncia que possa envolver membros do governo petista. É a velha tática sensacionalista, para criar um clima de que tudo está errado e o país caminha para trás. Por sua vez, a cúpula petista e seus aliados do PMDB e companhia insistem em fazer pouco caso e desqualificar os casos de corrupção que afloram. Agora passaram a adotar o cinismo como forma de justificar seus atos, ao repetirem que a corrupção não começou nos governos do PT.

Porta-voz dos interesses dos setores entreguistas e neoliberais de carteirinha, as Organizações Globo apostam abertamente na desmoralização do governo Dilma, ainda que a custa de qualquer denúncia sem comprovação, seja de quem for. Já o PT e seus aliados apelam a manifestos, primeiro de uma federação governista de petroleiros (FUP) e a gora de intelectuais alinhados ao governo.

Para as elites mais conservadoras não basta um governo que mantenha intactos seus interesses, é preciso um governo seu, mais reacionário ainda. O problema é que a experiência popular indica que seus líderes e a própria Globo não inspiram qualquer confiança. Do outro lado, a paralisia e a submissão ao setor mais fisiológico e corrupto do governo – PMDB e adjacências – impede qualquer contraofensiva séria, capaz de empolgar e mobilizar o povo em defesa do governo Dilma.

Os teóricos da conspiração acenam com um viés golpista na ação do PSDB/DEM/Rede Globo. Não há dúvidas que estes grupos até poderiam atentar contra a ordem democrático-burguesa estabelecida, mas para tal necessitariam de apoio popular. Resta ao PT fazer propaganda da trama de um golpe, como uma tentativa desesperada de dar a volta por cima e retomar uma ofensiva. Enquanto Eduardo Cunha e Renam Calheiros estiverem dando as cartas no Congresso Nacional não haverá Impeachment.

Se para limpar as feridas abertas pela corrupção for necessário quebrar grandes empreiteiras e suas “gatas” (subempreiteiras que prestam serviços às grandes), paciência. Não se pode alegar que o fim de construtoras vai significar a perda de 500 mil empregos, até porque toda essa gente sobrevive de empreitadas, ou seja, nunca teve e não tem relação de trabalho fixa.

O que deve ser preservado é o papel da Petrobras não só como empresa nacional de pesquisa e de prospecção de petróleo, mas também de mola propulsora de toda a política do setor. Para isso é determinante acabar com a indicação política de seus dirigentes e colocar a escolha de sua direção nas mãos de quem produz, ou seja, os próprios petroleiros.

De resto, esta aparente crise política resulta não de uma luta entre grupos com interesses de classe distintos, mas para manter a disputa pelo botim dos recursos do Estado. E no meio dessa guerrinha, que pode quebrar a Petrobras, está o povo brasileiro, maior interessado na preservação da empresa, sobretudo com transparência e democracia em seu comando.

Por motivo de força maior me vi obrigado a passar o Carnaval deste ano de molho, em casa. Por isso, tive que acompanhar os festejos pela TV e ver, o quanto foi possível, os cortejos das Ex-colas de Samba no Sambódromo do Rio.

No Grupo A deu o que tinha que dar: uma Estácio de Sá riquíssima atropelou outras grandes agremiações, como o Império da Tijuca, Unidos de Padre Miguel e a Caprichosos de Pilares. O Império Serrano continua na decadência, como jogador do passado, vivendo de nome, apesar do bom samba de Arlindo Cruz. Mas, hoje em dia, samba não pesa, no gogó e nem no pé.

No Grupo Especial também deu a lógica: o sempre correto desfile da Beija-Flor de Nilópolis, agremiação que cresceu tecendo loas à Ditadura Militar brasileira, este ano fez convênio com o governo da Guiné Ditatorial, um dos países mais autoritários e corruptos da África. Com uma bateria perfeita e um samba bom, na voz impecável de Neguinho, a Beija-Flor é, sem dúvida, a agremiação mais profissionalizada para concorrer aos títulos do espetáculo da Sapucahy.

O curioso é que a Imperatriz Leopoldinense, que em outros tempos também apresentou desfiles impecáveis e chatos com Rosa Magalhães, este ano desenvolveu um enredo sobre a luta pela liberdade, tendo como carro chefe a figura de Nelson Mandela. Pois não é que os jurados do quesito Enredo deram nota máxima à Beija-Flor e tiraram pontos da Imperatriz!

Reclamar para que (int) Afinal, o sambista e o samba são o que menos importa nessa ópera bufa, embalada por um acordo tácito entre o jogo do bicho, que lava dinheiro nas agremiações, e as Organizações Globo, que lucram com a venda da transmissão para o mundo inteiro.

É mais ou menos a mesma coisa que aconteceu com o futebol, em que os cartolas parasitas e cafetões de jogadores fazem suas negociatas a frente dos clubes e vendem o espetáculo para a Globo.

Quem entra nesse esquema já sabe as regras e os objetivos da disputa. É uma competição, que é vencida por quem for mais fiel aos critérios exigidos pelo regulamento. A classe média do Rio descobriu faz tempo que vale muito mais a pena curtir seu Carnaval nas ruas, do que perder tempo com o cortejo fúnebre da passarela do samba. Centenas de blocos estão por aí, arrastando multidões, com a única pretensão de divertir os foliões.

Faltam os compositores, cantores, ritmistas, passistas e membros de velhas guardas se darem conta de que sua paixão pelo velho e bom samba precisa se expressar de outra maneira. As Escolas foram indevidamente apropriadas pelas mais diversas gangues e patronos interesseiros, que nunca tiveram nada a ver com o samba e lucram muito com ele. Ou os sambistas retomam suas agremiações e recolocam o samba como centro da festa, ou criam outras formas de apresentar sua dança, ritmo e canto.

Cenário grotesco

06/02/2015

É a única expressão que pode definir este início do segundo mandato de Dilma Rousseff. Agora o senhor Mangabeira Unger é chamado para ocupar a pasta da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Justo ele, que definiu o primeiro governo Lula como o mais corrupto da História do Brasil e, logo depois, aceitou cargo no próprio governo Lula!

Enquanto isso, a Petrobras, já desmoralizada por uma gestão desastrosa, sangrou durante meses pela lentidão de Dilma em tomar uma atitude, sob a pressão de uma campanha privatista da grande mídia.

Foi a mesma arenga quando da escolha do novo ministro da Fazenda: “É preciso um nome de confiança do mercado”, repetiram os porta-vozes do grande capital. Como, se a Petrobras é uma empresa de tecnologia (int) Ou será que para resolver todos os problemas do Brasil teremos que aceitar a direção de um dirigente ungido pelos banqueiros (int)

No Congresso o PT quis ser mais malandro que os velhos malandros do PMDB e se deu mal. Apoiou Renan Calheiros à Presidência do Senado para, em contrapartida, contar com votos do daquele partido para a Presidência da Câmara. Não só não obteve os votos do PMDB, como também deixou de receber o apoio de outros partidos da chamada “base aliada”, ficando de fora até da mesa diretora. Eduardo Cunha, astuto conhecedor do baixo clero, foi eleito o comandante da Casa. Sua primeira medida: apoiar a criação de nova CPI sobre a Petrobras.

Durante esses doze anos o PT tentou convencer a opinião pública de que para governar seria preciso ter maioria no Congresso Nacional, ainda que fosse preciso ceder os anéis para não perder os dedos. Corruptos e representantes das piores oligarquias deste país comeram tanto na mão do governo que acabaram comendo a própria mão.

O governo Dilma 2, eleito por estreita maioria de votos, é uma caricatura. O ministério é um amontoado de velhas raposas da política, que não dão conta dos problemas concretos do país e de sua população – crise da água e da energia, entre outros –, cada uma interessada em tirar proveito de sua respectiva pasta.

A Presidência da Câmara está entregue a um velhaco corrupto e chantagista, enquanto no Senado o já desmoralizado Renan Calheiros continua dando as cartas. O Planalto não tem qualquer firmeza em sua “base aliada” no Congresso Nacional.

Os movimentos populares, que já viam com desconfiança o governo petista, se preparam para voltar à carga e o descontentamento atinge até mesmo a pelegada da CUT, chateada com os ataques do Planejamento ao seguro desemprego.

Ou seja, o governo Dilma 2 perdeu o controle de sua base parlamentar, sofre com a desconfiança da intelectualidade e não tem apoio do movimento social. Como nesses doze anos não quis enfrentar a grande mídia, o PT está sob fogo cerrado do noticiário, com o escândalo da Petrobras. Isso em meio a uma crise econômica, inflação em alta e falta de credibilidade. Só o tempo poderá dizer onde Dilma 2 vai chegar. Se é que vai chegar até o final do mandato…

sevenagainstThebes

Faz tempo que a grande mídia carrega nas tintas para discutir os problemas econômicos sob a ótica do que se costumou chamar de “mercado”. Nos primórdios das sociedades humanas mercado era tão somente o espaço em que as mercadorias eram trocadas ou negociadas.

Nas sociedades primitivas não havia propriamente mercadorias, porque os homens e mulheres se organizavam para dar conta das necessidades básicas de suas comunidades. Caçar, pescar, produzir artefatos de defesa e vestimentas para enfrentar o frio eram, basicamente, essas necessidades.

Na Europa da Idade Média a sociedade feudal prendia o homem à propriedade rural, exigindo dele que produzisse para seu senhor e para seu sustento. Mais adiante, com o surgimento de vilarejos fortificados, conhecidos como burgos, fez florescer uma nova população, que pouco produzia e que necessitava de bens para viver. Daí o surgimento das feiras, nas quais o que era produzido no campo passava a ser negociado nas cidades.

Mercadoria era tudo que existia em excedente e podia ser negociado, a partir da necessidade concreta dos seres humanos. Alimentos, tecidos, vestimentas, calçados, produtos de higiene são exemplos concretos de mercadorias de interesse social. Com o tempo artesãos e seus aprendizes passaram a produzir mercadorias nas próprias cidades.

A sociedade foi evoluindo e o poder dos burgueses avançou, passando a surgir a manufatura, forma de produção que precedeu à produção fabril. Novas tecnologias passaram a ditar o ritmo da produção, mas as mercadorias continuaram atendendo a necessidades concretas das pessoas.

O crescimento da importância econômica da burguesia fez com que ela assumisse também o controle político da sociedade na Europa. As grandes expedições coloniais já eram sustentadas e, mais tarde determinadas, pela burguesia europeia. A partir delas foi possível a grande acumulação primitiva de capital, impulso fundamental para a predominância definitiva do sistema capitalista.

No final do século XIX e início do século XX o capital industrial (fabril) fundia-se ao capital financeiro (bancos), no que Lenin denominou de capital financeiro. É esse capital financeiro que vigora até os nossos dias. A partir daí a mercadoria já não atendia mais a demandas concretas dos seres humanos, mas a necessidades construídas pela publicidade.

A concorrência entre grandes grupos empresariais, que antes podia ser apelidada de “livre mercado”, no qual seriam bem sucedidos os mais capazes e astutos, deixou de existir. O que predomina em nossos dias é a cartelização do capital financeiro, com um número reduzido de companhias multinacionais ditando o ritmo de tudo.

As nações, que antes foram forjadas a partir da necessidade de demarcação de territórios da burguesia, estão completamente subordinadas aos ditames do capital especulativo. Com suas economias completamente definidas a partir dos interesses de grupos privados, os países emitem títulos de suas dívidas para que bancos e financeiras obtenham lucros estrondosos em negociações de papéis.

A irracionalidade do capital levou a sociedade contemporânea a obedecer ao ritmo da especulação, e o antigo mercado de artigos de necessidade básica para a humanidade foi substituído pelo mercado de capitais. A tal ponto que um ministro da Fazenda – homem do Mercado – planeja a economia da nação em função do pagamento de juros e amortizações da dívida pública do país.

Ou seja, os impostos e os serviços para dar conta das necessidades básicas da população aumentam e encolhem, a partir da prioridade determinada pelos interesses do Mercado. Discute-se a situação de uma empresa estatal da maior importância não pelos dividendos que suas pesquisas e sua produção podem render à população e ao país, mas a partir dos prejuízos causados a meia-dúzia de acionistas privados e a realização de lucros nas bolsas de valores.

É evidente que essa meia dúzia denominada “mercado” está em contradição com as necessidades da humanidade. Enquanto no Brasil, tido como um dos países emergentes e fundador do grupo dos BRICS, assistimos ao endeusamento do mercado de capitais pela grande mídia, outros povos se propõem a quebrar esse mito. É o caso da Grécia e, em breve, possivelmente, da Espanha.

Empurrados para compromissos que só ampliaram suas dívidas e redundaram em desemprego e outras mazelas sociais, os gregos avançam para dar as costas aos grandes bancos e enfrentar seus problemas a partir das necessidades de seu povo. País de fundamental importância para a civilização ocidental, a Grécia se prepara para enfrentar o deus Mercado com a sabedoria dos deuses do Olimpo. E nós, simples mortais aqui do lado de baixo do Equador, torcemos para que os 300 de Sparta dobrem os exércitos esquizofrênicos de Xerxes.