Mágoa e rancor são palavras duras que constam de qualquer dicionário da língua portuguesa, mas podem doer muito mais para aqueles que acumulam estes sentimentos. Muitas vezes os que magoam o fazem de forma inconsciente, acreditando estarem adotando a postura correta.

A falta de diálogo e até a interpretação diferente das palavras e atitudes de alguém pode conduzir a um labirinto de dificuldades entre as pessoas. Elas estão presentes às vezes até entre os que se amam. O que para um tem valor para outro nem sempre tem o mesmo significado.

O carinho de um pode ser frio para outro. O desejo de um pode não ser compreensível para o outro. A beleza e a emoção de um momento não necessariamente passam pela mesma interpretação. No intuito de preservar quem se ama muitas vezes cria-se a falsa impressão de lhe dar pouca importância.

Um distúrbio, ainda que passageiro, pode ser facilmente confundido com uma deformação de caráter. Um simples olhar, uma mensagem carinhosa para outra pessoa no celular ou mesmo a falta de comunicação por um período pode ser suficiente para causar estragos, quando muitas vezes não passam de mal entendidos. O caminho para dissipar as sombras, creio, só pode ser o do diálogo franco, de coração aberto.

Barreiras morais não ajudam, julgamentos preconceituosos impedem que se encontre um caminho. Ao contrário, só consolidam a impressão, muitas vezes equivocada, de que o outro é incompatível consigo. Alimentar desconfianças é o caminho mais fácil para destruir uma relação.

Guardar ressentimento só ajuda a quem acredita que a melhor saída é sempre se livrar de um problema pela vai mais fácil. Do amor se extrai mágoa e a pessoa magoada constrói então a “vingança” pensando que assim vai punir o outro, capítulo mais trágico de uma relação.

Tratar de alguém que se ama não é, decididamente, tarefa fácil. É preciso conhecer o outro mais a fundo, compreender sua origem e sua forma de ser. Por isso é ruim julgar as pessoas. Melhor seria tratar de ajudá-las. Isso tudo é muito comum entre irmãos, entre pais e filhos, entre amigos. Mas é muito pior quando ocorre entre pessoas que se amam. A sensação que fica é de enorme frustração e repulsa.

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Eles são como um fio de continuidade, esperança que se renova, um prolongamento da vida, a projeção de desejos e a tentativa de superar nossas frustrações.

Tudo de bom queremos para eles e até determinamos o que seria esse “bom”, que na verdade se baseia em expectativas dos pais. Às vezes, na tentativa de poupá-los de alguma experiência que sabemos ser amarga, não reparamos em nossa atitude superprotetora. Outras vezes cedemos às suas chantagens com o coração mole de pai.

Pai e filho fazem um jogo permanente, regado a cobrança, cumplicidade, pressões, afetividade, amizade, angústia, desobediência, respeito, amor e ódio.

Quem tem mais de um filho muitas vezes sente dificuldade em classificar sua relação com cada um deles. O mais velho, primogênito, é sempre admirado. Dele se espera que ajude o mais novo e, mais a frente, assuma a condução da família. Do mais novo, o caçula, se espera tão somente travessuras e palhaçadas, molecagens de menino.

Hoje os psicólogos já acumularam bastante conhecimento sobre as relações pais e filhos. Já há algumas gerações de crianças de pais separados, às vezes perdidas num tiroteio frenético que desmente a pretensa racionalidade dos adultos.

Por via das dúvidas é sempre prudente adotar o diálogo, a conversa, falar a verdade e dar o exemplo. É preciso dar norte, corrigir erros, ensinar valores e dar discernimento às crianças. Não se deve transigir com erros graves. A imposição de limites ou o “castigo” (sem violência física) não é algo estranho ou absurdo na Natureza. Ao contrário, as crianças pedem limites, testam permanentemente seus pais para saber até onde podem ir.

Pai presente, mesmo que distante fisicamente, é sempre um porto seguro, exemplo que pode ser decisivo na formação do caráter de uma criança, um adulto no futuro.

Muito do que se tem visto de crimes e coisas bárbaras cometidos por jovens e adolescentes nos dias de hoje pode ser atribuído à ausência ou a deficiência dos pais na Educação dos filhos. A escola não substituirá isso jamais, porque cumpre apenas a parte do aprendizado.

Todo ser humano tem vocações que expressa desde cedinho. Uns mais agitados outros mais reflexivos. É possível que muitas destas vocações aflorem mais tarde ou nunca se manifestem de maneira objetiva. O importante é estimular as crianças, conversando sempre com elas.

A midiocridade da TV e da internet ocupam o espaço e as cabeças das crianças do mundo contemporâneo com valores fúteis, tipicamente de mercado. Cabe aos pais apresentar outros valores e caminhos, humanitários, de solidariedade e amor. Resta saber se os pais mais jovens acumularam essa carga de sabedoria para repassar às novas gerações.

O certo é que não é fácil ser pai. Não há receitas. Sofremos muito mais com as lágrimas e frustrações de nossos pequenos, mas também vibramos em dobro com suas conquistas e avanços. Talvez o mais importante seja sempre estar por perto, pronto a ajudá-los quando preciso.

O ibope do primeiro debate da Band entre quatro candidatos à Presidência não pode ser medido numa comparação com os índices de audiência do jogo de futebol transmitido pela Globo no mesmo horário. Afinal, quem assistiria a um debate político na TV às 22h de uma quinta-feira?

É evidente que debates neste horário só podem ser dirigidos ao chamado público “formador de opinião”, iniciado e escolado em política. Intelectuais, jornalistas, profissionais liberais, empresários, etc, são os que ainda conseguem se interessar em acompanhar evento como este.

Do debate propriamente dito pode-se tirar algumas conclusões:

1)      Dilma é mesmo um boneco de ventríloquo, e nem cercada de assessores e marqueteiros consegue disfarçar sua imagem de candidato roda-presa. Ficou nitidamente nervosa e não conseguiu ser espontânea em momento algum. Ah se não fosse o Lula…

2)      Serra é um sujeito sem sal e sem bandeira, se limitou a fazer críticas periféricas ao Governo do PT, superestimando erros e tentando se mostrar “competente”. Sabe que não pode questionar a política econômica e nem a demagogia dos projetos sociais de Lula, já que eles têm origem no governo FHC.

3)      Marina é a candidata boazinha, de fala mansa e que não quer atrito com ninguém. Uma espécie de biscoito dietético, sem gosto e sem forma atraente. Só se saiu bem quando respondeu à pergunta provocativa de um jornalista sobre a dicotomia desenvolvimento e miséria. De resto, foi um saco.

4)      Plínio foi o único que destoou da mesmice. Do alto de seus cerca de oitenta anos foi enfático em defender outro modelo de desenvolvimento. Com suas perguntas desconcertantes colocou os demais candidatos na defensiva e os identificou com o atual modelo capitalista, elitista e excludente para as massas.

Seria surpresa se os telespectadores sintonizassem em massa na Band para assistir a um debate de presidenciáveis. Mas como primeiro debate até que deu pro gasto.

A dor da perda

02/08/2010

Vejo todos os dias nos noticiários pessoas chorando a morte de seus entes queridos. Mães e pais que pranteiam, alguns que sequer têm o direito a dar adeus aos corpos de seus filhos. A sensação é desesperadora. Vivi isso faz dez anos, quando do falecimento de meu querido pai. O chão simplesmente sumiu.

Mas também existem outras perdas muito difíceis de encarar. É o caso do fim inesperado de um relacionamento. De uma hora para outra, a outra pessoa com quem você esteve durante meses ou anos coloca um ponto final em tudo. O recado vem por telefone ou e-mail.

A sensação é de amputação, como um dente de siso extraído sem anestesia. Você sente o formão girando, as raízes e nervos sendo triturados. Inesperadamente cortam-se laços, vínculos com familiares e amigos, lugares e pessoas bacanas que passaram a fazer parte da sua vida.

Como se conformar? Arrumando defeitos no outro? Culpando-se por erros que tenha cometido? Como dormir, comer, trabalhar em paz nessas horas? Há quem consiga disfarçar, mas a dor da perda é profunda demais.

Talvez o melhor a fazer seja analisar os erros e aprender com eles. Nessas horas o apoio dos amigos parece determinante. O resto só o tempo pode dizer.