Você é o que você come, pelo menos é o que garantem os nutricionistas. E o que os brasileiros estão comendo? No estudo “Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil” (Ministério da Saúde), com base nos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (2008/2009) do IBGE, fica evidente que comemos mal. O estudo revela que 86% consomem gorduras saturadas em excesso e 61% usam açúcares demais em sua alimentação. Em compensação 68% não consomem o necessário em fibras.

 

Apesar do feijão e do arroz ainda constarem como dois dos alimentos mais consumidos diariamente pelos brasileiros, é preocupante o crescimento de salgadinhos industrializados (56,6%), pizzas (42,6%), sanduíches (41,4%) e refrigerantes (em torno de 40%) na dieta dos que comem fora de casa. A deseducação alimentar preocupa ainda mais quando se verifica o perfil do consumo de alimentos entre jovens e adolescentes, em que prevalece o baixo consumo de cálcio e vitaminas D e E e o elevado consumo de sódio.

 

O grupo que destoa dessas estatísticas é o de pessoas das áreas rurais do país, onde o consumo diáro de arroz, feijão, peixe fresco, batata-doce, farinha de mandioca, manga, entre outros aliimentos mais saudáveis, é maior. O problema é que a população rural corresponde hoje a apenas 15% do total do país.

 

Os dados desse estudo nos levam a considerar dois problemas: 1) Por que se come mal, sobretudo nas cidades? 2) Por que se paga caro pela alimentação? Essas duas questões podem ser respondidas por vários aspectos, dentre os quais se destacam alguns.

 

O mundo do trabalho de nossos dias impõe ao trabalhador e ao profissinal liberal um ritmo alucinante de tarefas, encurtando cada vez mais o tempo livre necessário para uma alimentação saudável. Quem trabalha fora de casa não leva mais marmita, não tem mais sua hora de almoço, come com tíquetes-refeição nos bares e restaurantes self-services da vida. Ou seja, o cidadão se submete ao cardápio e ao preço que se apresenta.

 

Não basta comer, é preciso uma boa alimentação, em local adequado e com tempo para uma boa digestão. As redes de fast-food e os restaurantes self-service, nos quais o indivíduo das cidades permanece entre dez minutos e no máximo meia hora, torna a refeição um detalhe da vida cotidiana, com o agravante de que a alimentação se torna um ítem caro.

 

E por que a alimentação se tornou tão cara? Basta lembrar que mais da metade das terras agricultáveis no Brasil está nas mãos do Agronegócio, que produz somente para exportação. Cerca de 70% dos alimentos que estão disponíveis nos mercados e feiras e vão para a mesa do brasileiro são produzidos pelo pequeno agricultor, subordinado a uma cadeia de intermediários atacadistas, o que encarece em muito os preços das carnes, frutas, legumes e verduras.

 

Os números do estudo do Ministério da Saúde, baseados na POF 2008/2009, apenas expõem algumas das maiores mazelas da sociedade brasileira: a concentração da propriedade da terra e o privilégio para o Agronegócio exportador; a cadeia de grupos monopolistas que domina o mercado atacadista de compra e distribuição (atravessador) e venda de alimentos (supermercados); as redes de fast-food e de alimentos industriais nocivos à saúde; e o mercado de tíquetes-alimentação. Mais uma vez salta aos olhos a absurda concentração de capital no Brasil.

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Tem gente que não entende a paixão do brasileiro pelo futebol. Trazido para cá no início do século passado pelos ingleses, o futebol até então era um esporte desconhecido. O esporte de massas mesmo era o remo, que levava multidões à Enseada de Botafogo e às margens do Rio Tietê, em São Paulo. Não por acaso Botafogo, Vasco e Flamengo tiveram origem nas regatas.

Bangu, Botafogo e Vasco da Gama (este último com maior intensidade) foram os clubes que enfrentaram até preconceito racial por colocarem entre seus primeiros quadros de futebol jogadores negros. Até a primeira década do século XX os clubes de football – como o Fluminense e o Paysandu – ainda eram restritos a uma elite.

A presença do negro no futebol brasileiro e uruguaio deu o tom diferenciado do futebol sul-americano em relação ao praticado pelos europeus. Um misto de esporte e dança, imortalizado nos pés de grandes craques. Na segunda década do século XX o “rude esporte bretão” caiu nas graças do povo brasileiro, com a proliferação de novos clubes e estádios que já acolhiam milhares de torcedores em todo o país.

A profissionalização veio capenga a partir da década de 50, mas o jeitinho brasileiro continuava a imperar, com a exploração vergonhosa dos craques de origem muito humilde por cartolas. Foi com a Lei Pelé, na década de 90, que a coisa virou o que é hoje. Infelizmente o maior craque de futebol de todos os tempos protagonizou uma das piores passagens de sua carreira, entregando aos empresários o controle dos contratos e do que existe de mais importante, que é a formação e exploração dos craques.

Quando assistimos a jogos como Flamengo 5 X 4 Santos (27/7/2011) entendemos o quanto o futebol brasileiro ainda tem de maravilhoso. Mesmo sem entender de futebol qualquer pessoa pode se emocionar com o balé de Neymar e a sutileza de Ronaldinho Gaúcho. Isso para não falar de outros bons jogadores que deram a emoção a todos os 90 minutos do jogo.

Ao mesmo tempo, quando somos informados de que o governo e o município do Rio patrocinam a farra do sorteio das eliminatórias de 2014, ao custo de R$ 30 milhões, apesar do Comitê Organizador Local (COL) ter um orçamento de mais de R$ 800 milhões, é que se pode ter a idéia do tamanho da exploração do sentimento popular. Tudo com dinheiro público.

Isso sem falar das obras faraônicas, do Estádio do Corinthians, o R$ 1 bilhão para descaracterizar o Maracanã, a remoção de milhares de famílias para abrir pistas que cortam a cidade e tantas outras barbaridades. Parece evidente que o legado da Copa será uma especulação imobiliária sem limites, que vai encarecer ainda mais os serviços e tudo na cidade.

Definitivamente não é o futebol que aliena, mas a apropriação indébita praticada por empresários, mídia e cartolas que empobrece o futebol, hoje transformado, em sua essência, num negócio sem graça, com raras emoções. Felizmente os craques – como Diego Forlan e Luis Soares – ainda teimam em provar que o futebol bem jogado é belo e emocionante.

Por isso estou pouco ligando para a selenike, que já foi comandada até pelo Dunga e agora é dirigida dentro de campo pelo Mano. Aquilo não é futebol, é só uma mercadoria sem graça vendida pela mídia. Quem viu Jairzinho, Gerson e Paulo César jogar não vê a menor graça na mediocridade da atual seleção brasileira.

Dois anos blogando

24/07/2011

O tempo voa… Parece que foi ontem e já faz dois anos que escrevo aqui no Blog. Ele é como um canto especial, um espaço para o desabafo pela rede mundial de computadores. No fundo Blog de jornalista é um pouco isso também. Tem que ser factual mas polêmico, quente, opinativo. Blog sem opinião é como carro sem motor.

Por aqui desfilaram assuntos mais complexos, da economia à política internacional. Já passaram temas do cotidiano, dos transportes ao futebol, dos costumes ao inusitado. Jornalista tem que estar antenado com tudo, pesquisar sobre todos os assuntos, meter o bedelho e levantar polêmicas.

Mas também existe espaço para refletir sobre assuntos existenciais, amor, esperança, medo, sentimentos humanos que nos desafiam todos os dias, a todo momento. Lidar e mexer com as emoções faz parte da vida, aliás é a essência da vida. Em alguns momentos escrevi sobre experiências pessoais que podem levar a uma reflexão mais ampla sobre assuntos de maior profundidade para outras pessoas.

Hoje o Blog é um instrumento fundamental para que alguns temas e pontos de vista que não aparecem na mídia possam vir à tona na sociedade. Uma forma de burlar a caretice e a padronização de um jornalismo pretensioso e desinformativo.

Nem sempre muito frequentado, às vezes comentado, só tenho a agradecer a sua existência, meu Blog. Espero que você continue existindo e me acompanhando ao longo dos anos, porque assuntos não faltam. Aqui sou polêmico, fraterno, duro e terno quando necessário, como em todos os momentos da minha vida. Agradeço, sobretudo, à minha querida Renata Leonardo, colega que idealizou esse meu cantinho na internet. Espero que você, leitor, continue gostando, divulgando e enviando seus comentários, críticas ou elogios.

Que a economia brasileira é oligopolizada não há novidade. Mas que o Governo incentive e contribua para isso é grave. Não fosse a grita de parte da mídia e a pressão do grupo Casino, o BNDES seria o fiador do Carrefour numa operação de financiamento de um grande grupo econômico francês, tendo como testa-de-ferro o senhor Abílio Diniz e seu Pão-de-Açucar. A tramóia melou porque a outra parte não interessada emperrou a operação.

Outro caso escandaloso é a compra da empresa aérea Webjet pela Gol. São só 5% do mercado interno, podem alegar alguns. Mas o fato é que Tam e Gol, que já constituem duopólio no setor, passarão juntas a ser donas de 85% do mercado de vôos domésticos. Depois que a Vasp e a Varig foram desmontadas e abocanhadas, essas duas companhias passaram a reinar todas poderosas e a prestar péssimos serviços.

Mas o pior de todos é a Operação Marmelada, montada para burlar a Lei e dar aval à compra da Perdigão pela Sadia. A coisa é tão escandalosa que o parecer técnico apresentado dois meses antes indicava a impossibilidade da “fusão” ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

Foi então que um dos conselheiros do CADE retomou a proposta original e inventou restrições, tais como a nova empresa se desfazer de parte do capital, deixar de comercializar determinados produtos por um tempo e outras artimanhas. Tudo para levar à formação de uma outra empresa vice-líder no mercado.

Ora, se a Perdigão é a vice-líder então pra que autorizar sua aquisição pela líder Sadia e inventar uma nova vice-líder? Quem garante que essa vice-líder não seria controlada por laranjas da líder? É papel do CADE montar operação de formação de empresa? Sem contar o fato que o próprio presidente do CADE pertence à família Furlan, acionista majoritária da Sadia…

Com a concentração de capital perdem os trabalhadores (ameaçados de demissão), perdem os fornecedores (submetidos a uma negociação desfavorável) e os varejistas (forçados a comprar e a comercializar produtos e serviços de poucas empresas). Mas quem perde mais é a população, que deve contar com produtos e serviços mais caros e de pior qualidade. Isso tudo com o aval e incentivo do Estado brasileiro.

Talvez seja a tradição judaico-cristã de perdoar os erros dos que morrem que leve a mídia brasileira a criar uma comoção em torno dos defuntos da vida pública nacional. Até ACM teve seu obituário de bom moço e virou santo. É o caso, agora, do ex-presidente Itamar Franco.

Vice de Collor de Mello, Itamar assumiu em meio ao movimento de rua que varreu o caçador de marajás do Planalto e deu conseqüência à implantação do projeto neoliberal no Brasil, com o Plano Real. O Real que elegeu FHC, então seu Ministro da Fazenda, foi aquele que tirou os zeros da moeda, implantou a URV, cortou 6 bilhões do Orçamento de 1993.

Foi o mesmo Plano Real que criou a Lei de Responsabilidade Fiscal, que limita gastos com pessoal no serviço público, o superávit primário para garantir o pagamento dos juros da dívida pública e facilitou a entrada em massa de capital especulativo no país. Em suma, o receituário do FMI.

E não esqueçamos das privatizações, maracutaias das mais graves em nome da necessidade de retirar o Estado da economia.

Diversos políticos destacaram a atuação de Itamar por sua honestidade. Tudo bem, mas essa deveria ser a conduta normal de qualquer cidadão de vida pública. Fora os episódios pitorescos de seu governo (o topete, a volta do fusca e o episódio Lílian Ramos) o que mais se viu na Era Itamar?

Alguns chegaram a repetir o chavão “O Brasil deve muito a ele”. Não se sabe o que o Brasil deve a Itamar Franco, mas certamente se sabe que Itamar deve toda a sua vida política a quem o elegeu prefeito, governador, vice-presidente e senador.

Nada contra Itamar, que até parecia uma figura simpática, mas como jornalista acredito que as pessoas são avaliadas por suas atitudes e as posições que assumem em vida. O resto é com S. Pedro ou o Diabo…

Depois do caso das Barcas S.A., cujo exemplo de “eficiência” foi elogiado na operação do sistema por autoridades paulistas, agora a Light resolve dar sua contribuição para a nossa seção Deboche aqui do blog.

Para amenizar o impacto de explosões de bueiros espalhados pelo Rio, a concessionária propõe instalar bueiros com molas. Assim, as tampas de ferro seriam contidas por um sistema de amortecimento ao serem arremessadas para cima.

Ao anunciar o novo e revolucionário sistema de prevenção de acidentes, o Presidente da Light acredita estar prestando um serviço ao usuário e contribuinte. Isso depois de alertar que existem 130 bueiros em risco de explosão espalhados pela cidade.

Os cidadãos mais sensatos devem estar imaginando se não seria mais fácil recuperar a rede subterrânea da empresa e acabar com as explosões, do que instalar bueiros com molas.

O Ministério Público cumpre seu papel ao procurar estabelecer um Termo de Ajustamento de Conduta com a Light, que prevê a cobrança de R$ 100 mil por bueiro voador. Já o governo do Estado…