Devo reconhecer que no auge da minha juventude fiz vista grossa para a História do Brasil e fui injusto com algumas personagens fundamentais. Hoje, na meia idade, já posso e devo fazer autocrítica sobre o que pensava a respeito destas figuras e o que elas representaram para o país e seu povo.

Fui injusto com Getúlio Vargas, a quem grande parte da esquerda brasileira considera como populista, demagogo e conservador. O Getúlio do Estado Novo cometeu muitas injustiças e foi instado a isso por conta da realidade histórica de seu tempo. Seus erros são públicos e notórios.

Já o Getúlio pós-guerra e do segundo mandato mostrou uma face progressista e realizadora. Não só impulsionou a industrialização de parte do país, como comprou algumas brigas estratégicas (entre elas a legislação trabalhista, o salário mínimo e a fundação da Petrobras), que lhe renderam o ódio das elites.

Pressionado pelos setores mais conservadores e sem apoio popular organizado, Getúlio sacrificou a própria vida, adiando por dez anos o desfecho da crise política a favor das classes dominantes, o que só ocorreu em 1964, com o golpe militar.

Outro que subestimei foi João Goulart. O estancieiro de São Borja, que fora ministro do trabalho de Getúlio, vice de Juscelino e de Janio (pelo voto e não na mesma chapa), era apenas um bravo brasileiro, que escolheu o lado do seu povo propondo e lutando até o fim pelas reforma de base, conjunto de medidas que resgatariam a dignidade da maioria dos brasileiros, caso tivessem sido implantadas.

Alguns o acusam de fraqueza, eu incluiria a consoante “n” a esta palavra. Jango foi franco: não tinha como enfrentar o golpe e a cúpula militar sem derramar sangue dos brasileiros. Ele temia por uma intervenção norte-americana e a divisão do país em dois, como ocorrera na Coréia e no Vietnam. Preferiu o exílio, mas jamais se conformou com o atraso e o obscurantismo a que a ditadura condenou o país.

Talvez o mais injustiçado de todos tenha sido Leonel Brizola. O caudilho, como muitos o chamavam, admitia suas costelas à esquerda e à direita, mas era um político firme e realizador. É dele e de Darcy Ribeiro o último projeto educacional de massas no Brasil, com base nos CIEPs.

Além disso, Brizola teve trajetória política irretocável, ao comandar a cadeia da legalidade contra a cúpula militar que não queria dar posse a Jango, quando da renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Ele arriscou até mesmo seu cargo de governador do Rio Grande do Sul, convocou a população e venceu aquela batalha histórica.

Sua atitude sempre firme contra as Organizações Globo dava bem a noção que tinha do que representa o monopólio da comunicação no Brasil, a serviço do imperialismo. Por isso foi tão caluniado e jamais perdoado pela cúpula do Plim-Plim.

Darcy Ribeiro, antropólogo e indigenista, foi outra figura extraordinária. Não bastasse ter desbravado a Amazônia para conhecer a cultura das tribos indígenas brasileiras, Darcy foi idealizador da UNB, dos CIEPs e autor de grandes obras que revelam a formação do povo brasileiro, entre elas o estudo “O Povo Brasileiro”.

Comparados a essas quatro personagens, passados 12 anos de governos petistas, Lula, Dilma e José Dirceu são apenas moscas mortas, num prato de comida envenenado. O ex-presidente revela toda a sua incapacidade de contra atacar os adversários, acuado que está pela crise política e econômica. Sequer vem a público reconhecer que seu erro foi tentar fazer omelete sem nem ao menos tentar aquecer a frigideira.

Dilma – um nome tirado da cartola por Lula para substituí-lo – é outra figura inexpressiva. Não fede e nem cheira, lê discursos de assessores e se atrapalha quando tem que improvisar. Uma típica burocrata, sem qualquer capacidade política e disposição para arriscar um passo fora do baile das classes dominantes.

Dirceu, único dos três que pode ser considerado um estrategista, mudou de lado e optou por ser apenas um lobista de grandes empresas, jogando fora seu passado respeitável.

Sem dúvida, os três patetas do PT de hoje são figuras bizarras diante da grandeza de Getúlio Vargas, João Goulart, Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Os quatro nunca pretenderam “ser de esquerda”, mas em suas atitudes e medidas, sempre que foram chamados a tomar decisões optaram por estar ao lado de seu povo. Já os três patetas…

*Texto em homenagem a Frank Justo Acker, que com sua sabedoria me alertara sobre muitas das coisas que abordei nestas linhas.

No Brasil há uma verdadeira cortina de fumaça que encobre a realidade das relações econômicas, políticas e sociais. Elas estão presentes de cabo a rabo, impregnando de hipocrisia a sociedade. O que parece não é e o que é não quer parecer.

O PMDB, por exemplo, agora jura que é de oposição. Mas desde o final da ditadura e o restabelecimento da nossa frágil democracia o PMDB participou de todos os governos, eu disse TODOS.

Muita gente ainda acredita que Lula é de esquerda. Como alguém pode ser de esquerda e ao mesmo tempo exercer o papel de garoto-propaganda de empreiteiras no Brasil e no exterior? Dilma também seria de esquerda, só que faz tempo que seu governo adota uma política econômica que só satisfaz ao “mercado” e os projetos de seu governo atacam os trabalhadores, como os projetos das reformas da previdência e trabalhista.

O senador José Serra é identificado como progressista. Afinal, foi presidente da UNE. E daí? Serra é autor – por exemplo – da emenda constitucional que retira da Petrobras a obrigatoriedade pela exploração do petróleo das áreas do pré-sal, projeto comemorado pelas grandes multinacionais petroleiras.

O juiz Sérgio Moro se apresenta como uma vestal, vendendo ares de imparcial. No entanto, nas diversas etapas da operação lava-jato, Moro dá nítida preferência em expedir mandados de prisão para petistas e figuras ligadas ao PT.

FHC, tido como um homem acima de qualquer suspeita, posa até hoje de bom velho, condenando a tudo e a todos por desvios de conduta. Agora se confirma que durante seu mandato o ex-presidente mantinha uma relação extraconjugal – era casado com dona Ruth – com uma jornalista, que foi mandada para fora do país e recebia mesada, via pagamentos a partir de uma empresa no exterior.

As Unidades de Pronto Atendimento (UPA) são apresentadas como solução para os primeiros socorros e tratamentos simples. Na prática reproduzem em menor escala junto à população carente a mesma tragédia vivida pelo povão nos hospitais da rede pública de saúde, sem médicos, estrutura e equipamentos.

A polícia deveria zelar pelo estrito cumprimento da lei, dando o exemplo em sua conduta para a sociedade. No entanto, o que se vê nas ruas é violência, uso de força desproporcional contra manifestantes e moradores de favelas, assassinatos e extorsões. Um verdadeiro grupo de extermínio do Estado.

A Petrobras é tida como a maior empresa estatal de petróleo do mundo. Ocorre que 49% de suas ações são negociadas em bolsas de valores e mais de 70% de seu pessoal é de empresas terceirizadas, operando nas unidades da BR muitas vezes em condições degradantes.

Paulinho da Força, que se apresenta como sindicalista, é um dos parlamentares mais patronais no Congresso Nacional, apoiando e atuando pela aprovação de todo tipo de projeto que prejudica justamente os trabalhadores.

Marina Silva posa de ambientalista e identificada com a luta dos seringueiros da Amazônia. Mas prefere viver de palestras pagas por empresas privadas e pedir votos para os tucanos quando tem que definir um caminho pelas urnas.

São tantos e tantos casos que ilustram esta conclusão que eu poderia escrever muitas páginas a respeito. É que o confronto não convém, o que convém é a conciliação. Daí porque a esquerda flexibiliza sua linguagem para se tornar mais palatável. O centro prefere ser identificado com a esquerda e a direita com o centro. Se bem que de tantas frustrações políticas com o PT, a própria direita saiu do armário e está dando a cara a tapa.

Uma legião de imbecis, alguns até de certa notoriedade, sentencia governos e governantes pelas redes sociais. Carlos Vereza, Dr Rey, Lobão, Roger e outros menos cotados exprimem toda a sua ignorância quando o assunto é política, carregando suas convicções de preconceitos.

A frase que mais se repete é “a casa caiu”. Infelizmente para estes boçais, a casa que eles pensavam que teria caído continua de pé. Eles se alimentam e alimentam o senso comum, que joga a todos na mesma vala, sejam os filhos de Lula, o próprio Lula, o marqueteiro do Lula, etc, incentivando o Festival de Besteiras que Assola o País versão século XXI.

A premissa da qual este pessoal parte só revela ignorância. Para todos eles o PT é de esquerda e estamos vivendo à beira de um regime “comunista”. Se assim fosse não só eu como tantos outros descontentes estariam defendendo este governo com unhas e dentes, que certamente já teria tomado algumas medidas básicas para dar um freio à desigualdade que impera neste país.

Os ídolos dessa gente são o juiz Sérgio Moro, o deputado Bolsonaro e o japonês da Polícia Federal, um meganha já condenado em processo por corrupção. Por sua vez, os governistas de carteirinha teimam em negar o óbvio: a direita mais reacionária está na ofensiva porque seu governo e suas lideranças aceitaram participar do jogo político das elites, acreditando que sua aposta quebraria a banca. Ledo engano, a banca continua dando as cartas…

Os petistas e seus simpatizantes procuram argumentos semelhantes aos de seus detratores, para defender seus líderes e seu governo. Atacam Sérgio Moro com insinuações, incentivam a rede de intrigas contra FHC e sua ex-amante, pedem investigação da mansão dos Marinho, além de esculhambarem a figura tosca de Aécio Neves.

Enquanto a grande mídia alimenta sua campanha antipetista com muita suposição e pouco fato, seja com matérias pouco fundamentadas ou por comentários eivados de preconceitos, o cidadão comum enfrenta um dos piores momentos da vida política contemporânea, com serviços públicos que não funcionam, cidades jogadas às traças e a roubalheira desenfreada nas três esferas de governo.

Essa situação estimula entre a população um sentimento de que nada vai mudar e que o melhor mesmo é cada um tratar de si. Mas nem isso garante conforto, a não ser uma falsa sensação de viver melhor à classe média, pagando por serviços que deveriam ser garantidos pelos impostos.

Se os hospitais públicos e postos de saúde estão quebrados, os planos de saúde também não garantem os serviços que vendem. A polícia segue com sua habitual corrupção e truculência nas comunidades e favelas, mas também não garante a segurança da classe média. As escolas públicas caem aos pedaços, com professores mal remunerados e salas lotadas, o que também se verifica em grande parte das escolas particulares. O trânsito nas grandes cidades é um caos para quem tem que pegar trem, metrô ou ônibus, mas também está insuportável para quem tem seu carrinho particular. O desemprego que primeiro atinge aos que ganham salário mínimo, também já atinge os que têm nível superior.

É por estes motivos que as manifestações da direita e pró-governo não seduzem a grande massa. Esta falsa polarização não expressa projetos de governo diferentes, métodos de ação distintos ou propostas de mudanças efetivas para o país e sua população. Eles se limitam a disputar quem é mais ou menos corrupto, num campeonato de moralismo piegas que está longe de resolver os problemas do cotidiano. E olha que eles são muitos…

O moralismo esvazia a política, desqualifica lideranças e desvia o debate de projetos e objetivos para o campo da subjetividade, dividindo o mundo entre “bons” e “maus”. Ao comprar o debate neste campo, parte da esquerda cai na vala comum e inevitavelmente dá ao inimigo de classe o que ele quer: o perigoso terreno para uma solução reacionária e até golpista.

Intrigante esta história da zika no Brasil. Os governos da Colômbia, El Salvador e Venezuela já confirmaram a incidência da doença em escala preocupante em seus territórios, mas praticamente nenhum caso de microcefalia relacionado à zika.
Agora anuncia-se uma epidemia em Cabo Verde, pequeno país insulano da África, com mais de sete mil casos, mas nenhuma das 130 grávidas que contraíram a doença tiveram bebes com microcefalia.

No Brasil o governo confirma mais de 3 mil e 500 casos da doença e cerca de 400 recém nascidos com microcefalia. Ora, se é verdade que não se pode descartar a relação da zika com a deformidade nos cérebros de bebes, tampouco se pode afirmar que exista tal relação.

Dos 421 casos de microcefalia registrados em 2015 apenas 41 têm relação confirmada com a zika. Há outros 3.852 casos da doença que aguardam confirmação. Dois estudos realizados por pesquisadores no Nordeste e publicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que a incidência da microcefalia seria de cerca de seis mil casos por ano, contrariando os dados do governo.

Uma entidade médica argentina que acompanha o uso de agrotóxicos em larga escala e suas consequências para a saúde, denuncia a pulverização de lavouras e reservatórios de água do larvicida pyriproxifen (de uma empresa da Monsanto), como causadora da maior parte dos casos de microcefalia no Nordeste brasileiro.

A mesma preocupação é apontada pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Em entrevista à Agência Brasil, o coordenador Marcelo Firpo afirmou que “as populações mais atingidas são justamente as mais pobres, com problemas estruturais de saneamento básico, de acesso à água potável. Consideramos um contrassenso sanitário, um absurdo a colocação de veneno larvicida na água potável, e consideramos também um absurdo o uso de uma substância considerada cancerígena pelo Iarc [Agência Internacional de Pesquisa para o Câncer, na sigla em inglês], da OMS [Organização Mundial da Saúde] – o Malathion – nos fumacês pelo país.”

Segundo pesquisadores do Sydney Ayurveda Center, na Austrália, a aplicação das vacinas dTpa e DTA, que é parte de uma campanha do Ministério da Saúde e foi feita em caráter “obrigatório” sem ter sido testada e aprovada para gestantes, seria a causa da incidência de tantos casos de microcefalia em bebês.

Assim como não se pode afirmar que a zika esteja relacionada a todos os casos de microcefalia no Brasil, não há provas de que um larvicida ou uma vacinação imprópria sejam as causas de tantos casos da má formação cerebral em crianças recém-nascidas.

Pode haver uma mutação genética do vírus da zika que se concentra no Brasil? Em tese sim, mas é no mínimo intrigante que em outros países com a incidência de grande quantidade de casos da mesma enfermidade não se registre microcefalia em bebês.

Este caso apenas ilustra a confusão em que estamos metidos no Brasil, com estatísticas no mínimo questionáveis e sem um trabalho preventivo para enfrentar situações emergenciais de saúde pública. Aos que pregam a redução do Estado, vai aí um exemplo concreto do estrago que a política neoliberal pode causar.

Passei o Carnaval em casa. A intensão não era descansar, desculpa da maioria dos que não gostam do Carnaval. É que não restava alternativa diante das opções que se apresentam durante o reinado de momo.

Tá certo que o Carnaval de rua cresceu, que este ano foram mais de 500 blocos, que havia bloco para todos os gostos, mas há algumas questões básicas que são chaves para a gente se divertir: espontaneidade, alegria e respeito ao próximo.

Definitivamente não é isso que se assiste nas ruas. Os blocos se agigantaram, são dezenas de milhares, quando não centenas de milhares de pessoas se espremendo para acompanhar as agremiações. Todas elas – com raras exceções – contam com aquele gigantesco carro-de-som, de cima do qual um grupo de cantores e músicos “comandam” o espetáculo, animado por uma banda de metais ou uma bateria. Do lado de fora vão os foliões, apertados pela corda.

Os blocos viraram mini escolas de samba, com direito a enredo, samba escolhido e tudo. As fantasias não são pesadas, mas criam uma separação entre componentes e não componentes. Some-se a isso a ansiedade e o receio da aglomeração de milhares de pessoas, pelas ruas e praças de uma cidade que se transforma num forno no verão.

Bom, então restaria acompanhar as escolas de samba, quem sabe dar um pulinho na Avenida. É verdade que tivemos uma safra de sambas-enredo razoável este ano, mas nem isso conseguiu ajudar a superar o clima de mesmice que cerca os desfiles das “superescolasdesamba s.a.”. É a mesma toada do início ao fim, num sambódromo que sempre espera algo novo, que fuja do lugar comum e surpreenda.

As escolas dos grupos B ao E estão largadas à sua própria sorte. Não contam nem mesmo com o espaço da Av. Rio Branco, como acontecia até alguns anos atrás. São obrigadas a desfilar na Av. Intendente Magalhães (Campinho), sem nenhuma estrutura para os componentes e foliões. Uma bagunça, sem iluminação, arquibancadas precárias e tudo que há de pior para receber agremiações da maior dignidade e tradição no Carnaval carioca.

Restaria então o consolo de assistir a tudo pela TV. Sim, porque agora a Globonews transmite até desfiles de blocos. Na verdade a emissora faz uma colagem de imagens e sons do Carnaval das ruas do Rio, São Paulo, Brasília, Salvador e Recife, sem nenhum analista ou crítico que ajude o telespectador a compreender o que se passa.

As transmissões são marcadas pelo lugar comum de comentários e entrevistas banais, nas quais o importante é reforçar, a todo momento, a animação dos foliões. Uma chatice sem fim. A transmissão dos desfiles das escolas dos grupos A e Especial das Escolas de Samba do Rio pela Globo é um espetáculo de caretice.

Das imagens ao som, das entrevistas aos comentários, tudo é repetitivo e cheio de clichês. Não entendo até hoje porque narrador de futebol pode “narrar” desfile de escola de samba. Será por que este é o país do samba e do futebol? Os comentaristas desandam a gastar seus parcos argumentos, sem descrever os enredos.

E as câmeras? Estão sempre voltadas para as “musas”, os destaques e os carros alegóricos. Nem mesmo as baterias são alvos preferenciais da transmissão. O “Carnaval da Globo” transforma a equipe da emissora no grande destaque. Isso fica evidente porque o som da avenida some atrás do estúdio Globeleza, em plena passarela do samba, enquanto o telespectador é obrigado a ouvir as mesmices e asneiras dos apresentadores e sua equipe.

Será que Globo está mesmo querendo se livrar do “maior espetáculo da Terra”, como noticiam nos bastidores? Não se sabe ao certo, mas a decisão de deixar de fora das transmissões as primeiras que desfilam já demonstra a má vontade da emissora com o atual formato do espetáculo.

Méritos para o esforço da TV Brasil, que fez uma boa cobertura do desfile das campeãs, convidando pessoas que vivem as Escolas de Samba, cujos comentários foram, em sua maioria, pertinentes. As câmeras acompanharam os detalhes dos desfiles, os componentes e mesmo as entrevistas e entrevistados foram bem melhores que os da Globo.

Assim, me limitei a participar de meio desfile das Carmelitas, porque na confusão e gigantismo dos blocos nem mesmo os ritmistas têm mais espaço para tocar seus instrumentos. De que adianta participar dos ensaios se na hora do desfile a bateria fica cheia de penetras e gente que nunca deu as caras tocando qualquer coisa, menos samba? Me senti desrespeitado, enchi o saco e sai fora.

O melhor deste Carnaval, para mim, foram os bailes caseiros. Isso mesmo! Eu e minha namorada improvisamos nossos próprios bailes e fantasias, decorando o corredor do apartamento com confetes e serpentinas. O som nós puxamos do Youtube, com velhos sambas e marchinhas. E pode acreditar que foi muito legal, porque a animação está no folião. Aconselho aos amigos e a idéia pode ser estendida para matinés caseiras com a criançada. Vai que essa moda pega…

Faz tempo que Carnaval e Futebol viraram produtos cujos formatos foram adaptados aos interesses da TV, mais especificamente às Organizações Globo. Isso não pode ser atribuído somente à emissora, mas também aos dirigentes dos clubes e das escolas de samba.

Quando resolveu comprar a exclusividade dos direitos de imagem desses dois espetáculos, a Globo decidiu intervir no formato dos dois eventos. Os jogos passaram a ser disputados em horários impróprios para os jogadores e torcedores, geralmente às 22 horas. O desfile das Escolas de Samba do grupo especial foi dividido em dois dias e reduzido a 12 agremiações, com tempo de desfile e intervalos determinados dentro do que exigem os patrocinadores.

No caso do futebol os estádios foram se esvaziando, porque o torcedor de arquibancada não tem condição de sair do estádio à meia-noite e chegar em casa por volta da uma ou duas da madruga, tendo que trabalhar no dia seguinte. Daí porque ele prefere ou é obrigado a ficar em casa ou no bar da esquina, assistindo a partida pela telinha. Isso sem falar dos jogos disputados às 17 horas, durante o horário de verão, dentre tantas barbaridades.

No samba a situação chegou a um absurdo tal que de uns anos para cá a Rede Globo simplesmente não transmite os desfiles das primeiras escolas de domingo e da segunda-feira. Quem quiser que assista a um compacto, após a passagem da última escola dos dois dias de desfiles. Este ano as vítimas foram Estácio de Sá e Vila Isabel.

Ano a ano o nível da cobertura dos campeonatos e dos desfiles da Sapucahy vai caindo. Apesar do esforço da publicidade global e dos narradores da Globo para enaltecer os campeonatos e os jogos, raramente se assiste a uma partida emocionante.
O tom artificial das transmissões procura encobrir a mediocridade do espetáculo, comandado por dirigentes corruptos, presidentes de clubes tacanhos, treinadores despreparados e retranqueiros (para preservar seus empregos) e jogadores mal formados. E a TV, que poderia ser um espaço privilegiado para debater soluções, está apenas interessada em extrair lucros do futebol brasileiro, decadente e desmoralizado.

No caso do samba, a situação é ainda pior. Como manifestação cultural, as escolas de samba deveriam ser acompanhadas pela imprensa cotidianamente, como ainda acontece com os grandes clubes de futebol. Pelo menos assim evitariam o espetáculo de tiradas ridículas, gafes e comentários despropositados durante as transmissões. Sem contar as entrevistas eivadas de clichês durante os desfiles.

O pior: os narradores e comentaristas passaram a atrapalhar a transmissão, com o som da pista ao fundo e os microfones do estúdio abertos para um bate-papo completamente fora de propósito durante os desfiles. Um desrespeito ao público.

Este ano a Globo incorporou à sua grade de Carnaval a cobertura dos blocos em algumas capitais. Mas não sem um big contrato quase exclusivo entre a Ambev e a maioria dessas agremiações, o que facilitou a venda do “espetáculo das ruas”. E nem assim a qualidade das transmissões melhorou. Os repórteres e apresentadores – com raras exceções – cansaram de falar bobagens, piadinhas sem graça e perguntas chavão.

O nível das transmissões de futebol e Carnaval pelas Organizações Globo é baixíssimo e pouquíssimos são os espaços reservados para uma reflexão mais profunda sobre o que se produz. Está na cara que os estádios estão vazios, o torcedor anda desinteressado e o nível do futebol praticado no Brasil é abaixo da crítica. Mas para tratar desta crise seria necessário incluir o papel da mídia, que comprou e revende o espetáculo. Apesar disso, ainda temos uma das melhores matérias primas do Planeta, que é o jogador brasileiro.

As Escolas de Samba viraram presas do espetáculo, mais semelhante a uma ópera ensaiada do que a uma manifestação cultural original das comunidades do Rio de Janeiro. Quem vê uma já viu tudo. Este ano méritos para o desfile da Vila Isabel (apesar de não ter merecido a transmissão da Globo), do Salgueiro e da Mangueira, que apresentaram enredos, sambas e fantasias dignas.

O mais lamentável, além do enredo da Unidos da Tijuca sobre o agronegócio, foi a narrativa de Paulo Barros, o modernoso, que transformou o desfile da Portela numa espécie de Disneylandia, com carros alegóricos que nada tem a ver com as viagens da história do Brasil. Em vez de uma viagem pelo Rio Amazonas, um passeio pelo velho Chico ou mesmo as naus do descobrimento que cruzaram o Atlântico, Barros apresentou um monte de bobagens pirotécnicas com inspiração televisiva, como já fez em outras agremiações.

Bernie Sanders, que disputa a indicação de candidatura do Partido Democrata dos EUA, fez um discurso curto e grosso após as prévias eleitorais do Estado de Iowa, em que chegou praticamente empatada com Hilary Clinton, candidata conservadora. O vídeo está com tradução em Português.

Que a operadora de telefonia que fez aquela propaganda com o Neymar (Nextel) elogiando os conselhos que recebeu do seu pai devia pedir desculpas, pelo menos aos seus clientes? Confira pelo link https://youtu.be/CoqxHoEKUl0

Que depois do estouro da barragem de Mariana uma certa atriz de renome bem que poderia vir à público e pedir desculpas pelas peças publicitárias que protagonizou em favor da Vale? Confira pelo link https://youtu.be/2HpuPXWwuZQ

Que um certo ator de telenovelas deveria ter pedido desculpas por ter recomendado às pessoas que investissem numa certa empresa (Boi Gordo), que meses depois faliu? Confira pelo link https://youtu.be/dnV-Gu3oalw

Que outro ator muito conhecido de telenovelas globais deveria rever sua participação em comerciais de um grande frigorífico (Friboi), envolvido em inúmeras denúncias e multado pela defesa sanitária? Confira pelo link https://youtu.be/3CYVMZW-0n4

Ou será que depois de maduro eu estou ficando muito exigente? Como diria um certo amigo, fica o registro.

Joio e trigo

02/02/2016

O noticiário da grande mídia empresarial sobre possíveis escândalos envolvendo o ex-presidente Lula e o depoimento do ex-ministro José Dirceu na Operação Lava-Jato busca desacreditar os principais líderes do PT, não há dúvidas. E pela pior via, a dos ataques pessoais. Qualquer suspeita lançada pode se transformar em fato e relacionado a outros fatos da Lava-Jato. Isso é o joio.

O mais importante não é que a Marisa seja ou não proprietária de um bote de alumínio ou de um apartamento no Guarujá, mas que o ex-presidente admita que esteve lá com o dono da OAS. Pouco importa que o tal sítio em Atibaia seja ou não de Lula, o que espanta é que as reformas do local tenham sido pagas por uma empreiteira.

Os fatos apresentados não colocam o ex-presidente em contradição pessoal, até porque com os salários que recebeu desde que foi deputado federal até Presidente, Lula teria plenas condições de possuir um apartamento e um sítio. A contradição está na política.

Não é de surpreender a ninguém que o ex-ministro José Dirceu preste consultoria a empresas. Afinal, quem considera normal que um ex-ministro desempenhe a atividade de “consultor” – popularmente conhecida como lobista – sabe que a carteira de clientes de Dirceu é definida em comum acordo com as empresas a que ele atende.

Em seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, o “guerreiro do povo brasileiro” disse com a maior naturalidade que analisava as condições de mercado e a legislação e emprestava seu prestígio pessoal a seus clientes, para que entrassem em outros países.

Não se trata de julgamento moral, mas de evidências que comprovam o vínculo de Lula e Zé Dirceu com as entranhas do sistema vigente. Os dois poderiam muito bem ter exercido as funções que exerceram, recebendo as demandas de empresas e até pessoalmente a empreiteiros, banqueiros e todo tipo de empresários. Isso é parte do jogo do poder.

Coisa bem diferente é virar garoto propaganda de empreiteiras na África, sob o pretexto de apoiar uma política de expansão de empresas privadas brasileiras em outro continente. Totalmente diferente é virar lobista de todo tipo de empresa, inclusive aquelas que estão associadas a escândalos e falcatruas.

O que tudo isso prova? O capitalismo não tem e nunca teve escrúpulos na busca pelo lucro fácil, e isso não é novidade. O que as relações íntimas entre Lula, Dirceu e grandes empresários comprovam é que, definitivamente, os dois maiores dirigentes do PT são homens perfeitamente adaptados a este sistema. E, como tal, não se propõem a desafiá-lo e muito menos reforma-lo. Isso é o trigo.