Foi só a candidatura de Marina Silva subir nas pesquisas para que se formasse uma nuvem de ataques pesados de todo tipo contra tudo e todos que a cercam. Não pretendo aliviar nenhum candidato e nem tão pouco enxovalhar ninguém, mas vejamos.

Petistas de todos os matizes (com exceções) abrem suas baterias de maneira gratuita, usando para isso, inclusive, fontes que sempre criticaram, como O Globo e o Jornal Nacional.

Marina é criticada porque anda com Neca, uma das herdeiras do Banco Itaú. Ué!? Mas o dinheiro sujo do Itaú não serviu para financiar as campanhas do Lula e da Dilma? Outra crítica pesada diz respeito à origem do jatinho em que viajava Eduardo Campos quando faleceu. Quem sabe a origem dos jatinhos em que viajam os candidatos do PT e de outros partidos da sua base aliada? Quem possui jatinho é gente endinheirada e, via de regra, com boas relações e interesses junto ao governo. É só investigar.

Marina defende a independência do Banco Central, dizem seus críticos petistas, baseando-se em entrevistas de André Lara Rezende e Eduardo Gianetti. Particularmente não gosto nem um pouco dessas figuras neoliberais, mas ao defenderem isso ao menos não adotam uma postura dissimulada, como o atual governo do PT, que entregou o Banco Central ao banqueiro e tucano Henrique Meirelles na gestão Lula.

Foram os governos dessa mesma turma, que hoje grita a favor “da autonomia do Banco Central”, que mantiveram uma das mais elevadas taxas de juros oficiais do Mundo, sem contar as taxas de juros reais, praticadas pelo mercado no Brasil nos cartões de crédito e cheque especial, terror do cidadão comum.

Marina também é criticada por tentar se aproximar do agronegócio. Mas como algum petista pode criticar outro candidato por isso, se os governos do PT encheram o agronegócio de subsídios e, por isso mesmo, Dilma conta com apoio de ninguém menos do que a senhora Kátia Abreu, presidente da CNA?

Ah! Marina foi muito criticada por ter citado Chico Mendes como parte da elite, assim como pessoas de posses. O que eu entendi da opinião de Marina, e que considero absolutamente correto, é que a elite de um país é formada não por gente rica, mas por gente que é capaz de pensar o país dentro de projetos mais amplos.

Já os petistas hoje críticos de Marina, que destilam ódio às elites, não levantaram suas vozes para criticar a política das grandes multinacionais brasileiras, (entre elas as grandes empreiteiras) financiadas pelo BNDES, cujo grande representante era, até pouco tempo atrás, o senhor Eike Batista. Lembram de Dilma com Eike a tira colo?

Marina não mudou, ela sempre esteve ligada ao setor mais moderado do PT. Quem mudou e não admite é justamente o setor majoritário do PT, que comandou o país por 12 anos e não foi capaz sequer de implementar as reformas mínimas necessárias para se criar as bases para o rompimento com o atraso econômico, político e social no Brasil.

Sinceramente, não tenho por Marina Silva nenhum apreço especial e nem ilusão de que, se eleita, fará grande diferença. Afinal – insisto – seria necessária uma candidatura que retomasse como programa as Reformas de Base de João Goulart, para romper com as oligarquias e abrir novos caminhos para um Brasil mais justo e solidário.

Ora, se Marina não parece a mais inclinada a abraçar esta tarefa, certamente Dilma (e sua base aliada), por tudo que fez e deixou de fazer, não é a mais indicada para isso.

Irrelevante

27/08/2014

Mais um debate eleitoral e a impressão que se tem é que os candidatos não vão a esse tipo de evento para debater, como seria de se esperar, mas para convencer. Por isso mesmo, acabam esclarecendo pouco e convencendo menos ainda. Eu e alguns poucos brasileiros tivemos a pachorra de aguentar até o fim.

Dilma continua na mesma toada. É como se nada estivesse acontecendo, a não ser as realizações do seu governo. Os juros altos, a precariedade da educação, da cultura, dos transportes públicos e dos hospitais não é com ela. Não muda nem a maquiagem e o cabelo…

Aécio, que começou desacreditado e chegou a ensaiar uma ida ao segundo turno, também fez de conta que nem era com ele se a pesquisa mostrou sua queda. Quando tentou entrar na canela de Dilma levou o troco. Tão fraco no debate que fez os analistas e os tucanos terem saudade de Serra e FHC. Agora inventou a bolsa segundo grau como mote de campanha.

Marina usa como apelo de campanha o fim da polarização entre PT e PSDB. Muito justo, não fosse pelo fato de que a solução que apresenta é somar os dois. Na política este tipo de soma quase sempre acaba em divisão. Foi até lúcida no debate, mas sua receita é uma sopa de tudo com gosto de nada.

Luciana Genro partiu para o ataque e decidiu denunciar os três candidatos mais cotados nas pesquisas como expressões do neoliberalismo, mas esqueceu de apresentar alternativas concretas quando perguntada sobre temas da atualidade. Parecia estar numa disputa para o Centro Acadêmico.

Pastor Everaldo é a expressão do fundamentalismo neoliberal, uma espécie de reedição de Collor. Quer privatizar tudo e promete isenção de impostos para quem ganha até R$ 5 mil. Claro, com o dinheiro que sobrar o cidadão vai poder fazer uma Previdência complementar…

Levy Fidelix representou o candidato profissional. Sempre indignado com tudo, atira para todo lado. E ainda defendeu o direito do cidadão ter arma em casa. Fidelix é o legítimo 171 combinado, daqueles que fazem do seu partido nanico um grande negócio de dois em dois anos.

Já o verde Eduardo Jorge se saiu melhor, abrindo o verbo sobre o comportamento dos parlamentares em Brasília, defendendo posições claras sobre os temas. Mas tropeçou feio quando respondeu a Boris Cassoy, o indignado âncora da Band, que pediu sua posição sobre a regulamentação da mídia. “Sou contra”, respondeu secamente Jorge.

Ao final, para os mais exigentes e os que ainda fazem sacrifício para acompanhar este tipo de evento, ficou a nítida impressão de que o processo está tão desacreditado que nem debate consegue requentar a panela eleitoral. Pelo adiantado da hora e o desinteresse geral o debate não deve ter atingido 2 pontos de audiência.

Ninguém apresentou nada de relevante que pudesse ser lembrado. O melhor do debate são os comentários hilários no Facebook, a respeito das performances dos candidatos. Certamente não foi para isso que tanta gente lutou contra a ditadura.

Campanhas paralelas

27/08/2014

Os números das pesquisas do IBOPE reforçam um fenômeno eleitoral: as campanhas para os governos estaduais correm cada vez mais em paralelo à disputa para a Presidência da República.

Basta observar os dados do Rio, S. Paulo e Minas, maiores colégios eleitorais do país. Em nenhum deles as pesquisas indicam um bom desempenho dos candidatos do PSB. No entanto, Marina Silva aparece nos três estados com força eleitoral suficiente para desbancar Aécio Neves no primeiro turno e projetar um segundo turno com Dilma Roussef.

O eleitor está separando a sua escolha de voto à Presidência do voto que dará para os candidatos aos governos estaduais, senador e deputados estadual e federal. Os partidos, mais preocupados em eleger bancadas, abandonaram de vez o debate político. Os candidatos a governador viraram candidatos a gestores/administradores e os candidatos a deputados e senadores apresentam qualquer coisa como plataforma de campanha, menos idéias e propostas.

Neste quadro perdem tanto o PT quanto o PSDB. No Rio os tucanos sequer lançaram candidato e apesar de uma sólida vantagem em S. Paulo, devem perder o governo de Minas. Já o PT não supera a barreira dos 5% em S. Paulo, tem esperanças de chegar ao segundo turno no Rio e surpreende em Minas, batendo os tucanos. Quem ganha são as oligarquias regionais e seus candidatos.

Este cenário eleitoral, aparentemente confuso, explica a dissociação cada vez maior que o eleitor brasileiro faz entre candidatos e partidos. Por outro lado, prova que os candidatos aos governos estaduais e a vagas nos parlamentos estão mais preocupados com suas disputas regionais, do que em ser fiéis aos presidenciáveis de suas coligações.

Isso evidencia que haverá um novo rearranjo político-partidário após as eleições deste ano. Se Marina vencer terá que formar base parlamentar capaz de sustentar seu governo no Congresso Nacional. Poderá surgir um novo Centrão ou Base Aliada, com desgarrados de diversas legendas, inclusive do PT e PSDB. Certamente a Rede será legalizada e abrigará gente das mais distintas origens.

Se Dilma vencer, dependerá cada vez mais do PMDB e dos partidos da chamada Base Aliada, porque o PT deve reduzir sua força no Congresso e nos estados. Já o PSDB, que parece perder fôlego com a subida meteórica de Marina nas pesquisas, tende a sofrer um sério esvaziamento, ainda mais se não chegar ao segundo turno.

Talvez seja por isso que os ideólogos da campanha de Marina e a própria candidata já falam em convidar gente do PT e do PSDB para um hipotético governo da Rede/PSB.

Em tempo de eleição o que não falta é candidato. Tem para todos os gostos, matizes e tamanhos, inclusive as esquisitices. Os nanicos desfilam seus perfis com propostas resumidas, quase sempre num tom indignado com tudo.

Administrar partido político deve ser um bom negócio para alguns, a julgar pelas candidaturas de Levy Fidelix (será da família do Obelix?) e José Maria Eymael. Chova ou faça sol eles sempre são candidatos ao Planalto. Este ano também temos a participação de Pastor Everaldo, que pretende amealhar votos no meio evangélico. Ruim de tudo, sobram sempre as polpudas doações de campanha e todos ficam felizes até a próxima eleição.

Entre os partidos de esquerda aparecem os mesmos candidatos de sempre. Ruy Costa Pimenta, que se apresenta como jornalista (ninguém o conhece no meio) e acena com o socialismo, como se fosse a redenção da humanidade. Já Zé Maria traz sempre aquele chavão que rima com 16. Diga NÃO a isso e NÃO a aquilo. O cidadão comum não entende a pregação dessa gente.

Luciana Genro e Mauro Iasi procuram destoar da esquerda tradicional, mas são ilustres desconhecidos no cenário político nacional. Será que essa turma não é capaz de construir um programa mínimo e uma candidatura comum, mais sólida e viável eleitoralmente pelo menos para o primeiro turno? Será que não têm vergonha de ficar abaixo de 2%, sob o risco de terem menos votos que os caricatos da direita?

Vergonha mesmo é o que não falta aos três mais cotados. O programa do PT/base aliada apresenta Dilma no País das Maravilhas. Tudo se resume a uma avalanche de obras gigantescas, progresso e a promessa que vem mais por aí. Para Dilma o Brasil tem que conhecer tudo que está sendo feito e não é mostrado.

Já Aécio abre a porta do Paraíso e convida o eleitor a entrar num projeto de crescimento e prosperidade, contra o país estagnado do PT e da bruxa malvada Dilma. Mais comedida em seu estilo manso, Marina aparece com uma conversa do senso comum, de que tem gente boa em todo lugar e em todos os partidos, sem deixar muito claro o que pretende e a que veio.

Enquanto o cidadão comum não é convidado a debater política e propostas para os principais problemas concretos do país em que ele vive, nas páginas de economia dos jornais o destaque vai para os assessores dos principais candidatos. E eles repetem o mesmo mantra de outras eleições.

Inflação no centro da meta, manter os compromissos financeiros, garantir os programas sociais, fazer superávit primário, ajuste fiscal, etc. São estas palavras que embalam o sono manso em berço esplêndido dos credores internacionais, da banca e das grandes empreiteiras, principais financiadores de campanhas milionárias. É só isso que eles querem ouvir para definir quanto vão desembolsar para apoiar os três.

No final, tudo se resume a seguir o receituário do mercado financeiro internacional. Não há uma candidatura de fato independente, com projeto e força política capaz de impulsionar um programa que comece de onde paramos em 1964. Seria só resgatar as reformas de base de João Goulart, adaptá-las aos tempos de hoje e enfrentar os verdadeiros problemas do Brasil. Mas quem se dispõe a encarar?

O Rio às traças

22/08/2014

Que o eleitor anda de saco cheio faz tempo ninguém duvida. Mas no Rio o quadro é assustador, pela absoluta falta de opção real de mudança no cenário político.

O velho PMDB apresenta Pezão, governador em exercício, como seu candidato. Cabral saiu de fininho, jurando que iria voltar em forma de senador, mas o que fez mesmo foi jogar a bomba no colo de seu vice. Deixou como herdeiro político seu filhote, com espaço privilegiando do partido na propaganda eleitoral na TV. Parece que trabalhar não é mesmo o forte na família…

A Universal insiste com Crivella, mas o sujeito continua sendo visto com desconfiança pelos que não são crentes. E ainda inventou uma tese maluca de que a empresa holandesa Fokker, fabricante de aviões, teria ido à falência pelo uso de maconha por seus funcionários na linha de montagem. Ao menos ele arrumou um argumento original para ser contra a legalização da droga…

Já o casal Garotinho volta à cena, com Antony Matheus, mais uma vez candidato ao governo estadual. O clã administra Campos faz tempo e o que se sabe daquela cidade é a mais completa e absoluta decadência econômica e social. Garotinho não consegue nem vender o peixe de que também seria evangélico e ainda sai arrotando pelos quatro ventos as realizações de seu governo.

E por falar em droga, Lindberg Farias diz que quer governar para todos, não só o Rio do cartão postal. Nem quando era prefeito de Nova Iguaçu ele vivia naquela cidade. Seu partido ficou grudado no saco de Cabral até recentemente e continua ligado ao governo Eduardo Paes, na Capital. Dá para acreditar?

Todos os quatro candidatos e as coligações partidárias mais lembradas nas pesquisas eleitorais são ou foram parte do governo nas últimas décadas. Nesses anos todos agravaram as crises dos transportes públicos, da saúde e da educação públicas, a falta de segurança e de moradia.

Ao procurar uma candidatura séria e confiável entre as que se apresentam resta ao eleitor mais consciente escolher entre os nanicos da esquerda, que não têm a menor chance de vitória e ainda se apresentam divididos. Nas últimas eleições tenho procurado me guiar pela solução do “menos pior”. Mas desta vez está difícil até encontrá-lo. 

 

OBS: Em mais um episódio que demonstra a falta de bom senso e o sectarismo de parte da esquerda, a direção do PSOL/RJ excluiu da propaganda do Rádio e da TV a deputada estadual Janira Rocha. E o pior é que os seus pares não levantam sequer a voz para exigir a reparação de mais esta injustiça, com exceção do deputado Paulo Ramos. Também pudera, essa mesma turma não foi capaz sequer de lutar em defesa da própria companheira de partido, quando o governo Cabral ameaçava cassar seu mandato na Alerj.

Foi preciso a mão do Divino para que o processo eleitoral brasileiro tivesse uma mexida geral. Infelizmente, a mudança veio por força do acidente fatal que vitimou Eduardo Campos. Até então as pesquisas indicavam a estabilização da candidatura Dilma (cerca de 35%) e Aécio (20%) como espécie de prato requentado das últimas eleições presidenciais no país. A dúvida era se teríamos ou não segundo turno.

Eduardo Campos, ex-governador um tanto querido em seu estado, se equilibrava para cumprir desejos de seu partido e aliados, ao mesmo tempo que se esforçava para ter maior visibilidade do eleitorado. A morte precoce de Campos não só chocou o país pela forma estúpida como aconteceu, mas deu novos contornos à sucessão presidencial.

O PSB, partido de expressão menor no cenário político nacional, cresceu aos poucos nas últimas eleições, quando conquistou alguns governos estaduais e teve crescimento considerável de sua bancada federal de parlamentares. O partido decidiu alçar vôos mais ambiciosos, descolando do governo Dilma para apresentar candidato próprio.

Os setores mais fisiológicos foram contra, mas não conseguiram conter a força de Eduardo Campos. O lançamento de uma terceira via – entre PT e PSDB – seria em 2014, na perspectiva de acumular forças para 2018. No meio do caminho o governo Dilma bloqueia a legalização da Rede, partido de Marina Silva.

Numa jogada política surpreendente e generosa, Marina e Campos selaram um acordo de candidatura de duas cabeças, que parecia bastante entrosada, pelo menos até o início de campanha eleitoral. Mas o resultado das pesquisas mostrou que Campos ainda não era um candidato suficientemente conhecido em todo o país, chegando a cerca de 10% da preferência dos entrevistados.

Ao mesmo tempo, as dificuldades para montar ou apoiar chapas proporcionais em São Paulo, Rio e Minas, principais colégios eleitorais brasileiros, não ajudava o crescimento de Campos.

Agora, se confirmada a proposta de Marina como candidata à Presidência, cria-se uma possibilidade real de quebrar a monotonia das últimas eleições presidenciais, todas disputadas entre PT e PSDB. Aliás, uma polarização em nuances, porque em muito pouco diferiram em projetos e métodos de governar. Muita gente que já havia desistido de votar pode reconsiderar a decisão, caso se confirme a candidatura presidencial de Marina Silva.

Tucanos e petistas não escondem o incômodo com o ressurgimento de Marina na disputa presidencial. Muda tudo, desde o tom da campanha até os cálculos eleitorais. Se Marina furar a barreira dos 15% da preferência de votos e Aécio não despencar, o cenário eleitoral apontará para um segundo turno.

O PSDB perderia o protagonismo como “oposição” e poderia sair da disputa antes da hora e teria que atacar Dilma e Marina. O PT teria que reprogramar Dilma para um embate com Marina, muito mais difícil pela capacidade da adversária e o fato de não ter rabo preso com escândalos no passado e no presente.

Ainda não se sabe até que ponto a aliança de Marina, que inclui Roberto Freire e outras figuras carimbadas da política tradicional, pode representar novidade e mudanças. Mas isso é conversa para outro post.

Em meio a um processo eleitoral frio, eis que o noticiário policial assume maior destaque que as promessas e aparições de candidatos. O senhor Rodrigo Bethlem, braço direito do Prefeito Paes e homem do “Choque de ordem” da Prefeitura do Rio, aparece revelando que tem conta na Suíça e que recebe “lanche” de empresas contratadas pela municipalidade, em gravações reveladas pela Revista Época.

Agora, fiscais do TRE descobrem uma gráfica – High Level Signs – com sede falsa, quatro CNPJ e que presta serviços ao governo estadual, abarrotada de material de candidatos da coligação do governador Pezão. O candidato a governador declarou que contratou os serviços porque a gráfica tinha um preço bom.

O esquema é simples: 1) A gráfica produz materiais de campanha para os candidatos do governo; 3) A gráfica produz quantidades maiores de material de campanha e os candidatos declaram quantidades menores; 4) O erário público arca com o restante dos valores necessários para cobrir os gastos com o restante do material produzido.

Usaram os serviços da High Level Signs, além de Pezão, os candidatos Leonardo Picciani, Rodrigo Bethlem, Rafael Picciani, Marco Antonio Cabral, Pedro Paulo, André Lazaroni, Jorge Picciani, Carlos Osório, Jorge Felipe Neto, Cidinha Campos e Otávio Leite.

Afinal o que está por trás destes “sinais de alto nível”? Seria uma prévia do que alguns candidatos entendem como “financiamento público de campanha”? O que a empresa recebe em troca desse fabuloso desconto a candidatos ligados ao governo? Com a palavra o Ministério Público Eleitoral.

É bem verdade que ainda estamos em agosto, faltando dois meses para as eleições, mais o andar da carruagem desta campanha eleitoral dá pistas de que o processo eleitoral está cada vez mais distante das ruas e dos ambientes populares.

Até agora o que se vê são os três candidatos mais citados nas pesquisas apresentando seus pontos de vista em ambientes fechados para os industriais de São Paulo, aparecendo em cerimônias de seitas neopentecostais e se encontrando com a turma do agronegócio.

Não se pode nem dizer que são programas de campanha, são verdadeiros lobbies explícitos, feitos em auditórios nos quais os candidatos chancelam compromissos com determinados setores. O ambiente varia entre os salões refrigerados de grupos empresariais e templos lotados de fiéis, que fazem tudo que seus mestres mandarem (pelo menos prometem).

Dilma continua com aquela cara azeda de burocrata, embora tente parecer simpática, longe da popularidade de Lula. Por mais desgastado que esteja seu governo, o PT sabe que as alternativas são frágeis em termos eleitorais.

Aécio marca seu discurso pelo conservadorismo explícito, tentando reunir a insatisfação dos setores mais reacionários e anti-PT. Eduardo Campos continua acendendo vela para o santo e para o diabo, carregando Marina à tira colo para dar um verniz de moderninho. E ninguém apresenta qualquer novidade.

Os outros candidatos pouco interferem, até porque a maioria pouco é citada pela mídia. Mauro Iasi (PCB) adota um programa máximo e corre o risco de fazer apenas propaganda de uma nova sociedade, o que ao eleitor pode parecer algo distante. Zé Maria (PSTU) deve repetir os chavões de sempre. Será que desta vez muda o script? Luciana Genro (PSOL) certamente obteria mais sucesso como candidata a parlamentar em seu estado. Já o pastor Everaldo (PSC) elegeu o fim das estatais como mote de campanha, uma espécie de liberou geral do neoliberalismo. E Eymael (PSDC)? Continua se fiando em seu eterno gingle de campanha e mais nada. Levy Fidelis é uma incógnita, ninguém sabe a que veio.

Tudo bem que a propaganda no Rádio e na TV nem começou, mas a impressão é que a eleição está cada vez mais distante das ruas. Até mesmo os cabos eleitorais, distribuidores de panfletos e porta-bandeiras das campanhas estão tímidos, diante da impaciência do eleitor. A campanha está fria e pode ficar morna com a propaganda no Rádio e na TV.

Certo mesmo é que até agora nada e ninguém empolga o eleitorado, vacinado contra  promessas não cumpridas e a lábia desgastada dos candidatos. Talvez isso mude quanto mais a data do pleito se aproxime. Quem sabe algum deles decida falar da dura realidade do cidadão, do trabalhador, do estudante e da dona de casa e apresente algo novo aos olhos do eleitor até outubro…

Desde que o mundo é mundo os homens procuram explicações sobre sua origem na Terra, suas penúrias, o futuro e a morte. Aos deuses já se atribuiu de tudo: guerras, perseguições, doenças, fenômenos naturais, etc. O maior aliado da fé é a ignorância, visto que quanto mais ignoramos a realidade mais depositamos nossas esperanças em algo divino, intocável, superior ao ser humano.

Num país em que quase todos professam uma fé, é duro ser ateu. É pior do que ter religião esquisita, pior que candomblecista ou umbandista. A pressão é tamanha que às vezes fico pensando sobre minha convicção ateia. “Você é ateu!?” Essa é a pergunta que mais me intimida quando estou em grupo.

“Não é possível, você tem que acreditar em alguma coisa”, é a afirmação que mais ouço quando a conversa gira em torno de religião e crença. Ou então a já tradicional: ”Ah, no fundo você acredita em Deus, mas não quer confessar”.

A coisa piora quando afirmo que sou materialista. A maioria associa materialismo a colocar as coisas materiais acima de tudo, ao desejo por possuir coisas e ao interesse por dinheiro. Fui ao dicionário online e no Michaellis achei uma definição grosseira para materialismo: “Teoria marxista segundo a qual as transformações da matéria determinam as transformações das ideias e que, por isso, a matéria tem prioridade não só no tempo, mas também na importância lógica sobre o espírito”.

Conheci pessoas que de tão tomadas pela convicção de idéias que julgam marxistas que se tornaram dogmáticas, ou seja, resumem a explicação de todos os fenômenos a um punhado de regrinhas nas quais pretendem enquadrar tudo e todos. Isto também é fé, dogma, não é ciência e muito menos marxismo. No entanto, se existiu um pensador avesso a esquemas e dogmas foi Karl Marx.

Fico imaginando por que a maioria das pessoas, em pleno século XXI, ainda precisa de fé, deuses e religião. Religião vem de religar, ligar alguém a algo ou a outrem, ligar o homem a Deus, no caso aquilo que está para além da nossa percepção terrena.  

O avanço da Ciência tratou de derrubar durante séculos uma série de crendices, que eram atribuídas aos deuses e justificavam tabus e dogmas religiosos. Levadas ao extremo determinadas religiões induzem a preconceitos, alimentam o afastamento entre os homens e até mesmo a guerras. Em nome da fé cometeu-se e ainda se comete as maiores barbaridades na face da Terra.

Foi em nome de Deus que a Igreja Católica deu suporte filosófico à tomada das Américas por espanhóis e portugueses, que promoveram verdadeiro genocídio contra os nativos “sem alma”. O mesmo se deu na África e na Oceania. Os “selvagens” ou “bárbaros” infiéis foram dominados, escravizados e dizimados.

Fundamentalistas e messiânicos de todos os tipos em verdade são seres que desprezam a humanidade, a capacidade dos mortais de construírem uma vida melhor, com paz, dignidade e igualdade. Quase sempre cobram do rebanho o que não são e não praticam. Exploram a fé alheia, enriquecem e, por isso, apostam na ignorância.

No Brasil o que há de mais genuíno na religião, a umbanda e o candomblé, são mal vistos e tratados pelas elites com repressão e desprezo. Afinal, os santos dos cultos afro-brasileiros são apenas elementos da Natureza, estão ao alcance de qualquer um.  

Os neopentecostais são o que há de mais nocivo, porque difundem preconceitos e intolerância. A psicologia de seus pastores está baseada na elevação da autoestima do ser humano pela riqueza. É a Teologia da Prosperidade, da busca do reconhecimento através da fé, que leva milhões de brasileiros pobres a encher os cofres destas seitas que todos os dias prometem o Reino do Céu.

A ignorância é a maior amiga da religião. Para viver em paz não é preciso negar a si mesmo como simples mortal, cheio de contradições. A tentativa de depositar nossos “pecados” e esperanças na fé é fugir de nossas responsabilidades.

Fruto desse idealismo sem fim, graça a tese da busca da “outra metade”, aquela pessoa perfeita, ideal, pura e sem pecados. Como isso não se adapta à realidade de um ser humano, do simples mortal, prevalecem a frustração, a separação, a solidão e a conclusão de que tudo que há de ruim está depositado no ser humano. Isso reforça a opinião comum de que a saída não está na Terra, mas num plano “mais elevado”, e o desprezo pela força da humanidade.

Os seres humanos já possuem ferramentas suficientes para construir um mundo de paz, prosperidade e harmonia, sem fome, exploração e injustiças. Não será nunca o Reino do Céu aqui na Terra, mas pode ser muito melhor do que é.

No entanto, é mais fácil atribuir a outrem – no caso os deuses de todas as crenças – aquilo que deveria ser da alçada da humanidade e esperar a hora de encontrar o Paraíso ou o Reino do Céu. Por isso, quando discuto esses assuntos sempre lembro daquele samba:

“Os habitantes da Terra estão abusando / Ao nosso senhor do divino sobrecarregando / Fazendo mil besteiras e o mau sem compromisso / Deus não tem nada a ver com isso”