Quando perdemos um amigo é comum lembrarmos dos momentos que passamos juntos. Mas quando se perde um grande amigo a sensação é que uma parte da nossa vida se foi. Ainda mais quando se trata de uma amizade de infância ou da adolescência.

Este tipo de amigo – “coisa para se guardar do lado esquerdo do peito” – é daqueles que a gente pode ficar um bom tempo sem ver e sabe que continua ali, sempre por perto, pronto a atender ao nosso chamado. O Flávio Goulart era assim. Vivemos uma infância e uma adolescência bacana e inventiva, que atravessou a ditadura militar, tempo de repressão política e autoritarismo.

Nossa diversão de garotos em Santa Teresa era ir à praia, jogar bola e futebol de botão. Na escola ou na rua nossas cabeças refletiam tempos de brincadeiras saudáveis, dos primeiros contatos com as meninas, das festinhas e com a bebida. Tudo era novidade e havia um mundo a desvendar.

Quem não entendia bem o que se passava, mas sofria as conseqüências daquela época sombria na escola ou em casa, instintivamente procurava seus pares para refletir, discutir, produzir e contestar a ordem estabelecida ou, simplesmente, negar aquele clima de caretice que pairava no Brasil dos anos 70.

Lembro do nosso grupo de amigos, em torno de cinco, fora as meninas. Ora estávamos juntos, ora em pares. Inesquecível o Festival de Música do Colégio Cruzeiro em que inscrevemos duas canções e tiramos o primeiro e o terceiro lugares. Também arriscamos passos no mundo do cinema, num filme de Super 8, com roteiro e personagens que criamos, mas nunca concluimos.

Não esqueço do quarto do Flávio, pequeno espaço de uma casa no Largo do França, em que se espremia uma cama entre armários velhos e uma bateria, além dos equipamentos de som e da guitarra Fender, que ele abraçara desde garoto. Foi ali que fizemos os nossos campeonatos de botão, com direito à súmula e narração dos jogos, além de regras próprias que nós mesmos inventamos.

Como esquecer dos finais de semana em Saquarema, no sítio do nosso grande amigo Paulo Torres? Nem sei como conseguíamos chegar lá naqueles carros meia-sola que o Flávio arrumava. O samba no extinto Foliões de Botafogo e o Carnaval eram parte especial do nosso calendário, já na faculdade. Foram bons anos da nossa Unidos de Bacaxá, uma escolinha da Região dos Lagos em que montamos a bateria, comandada pelo nosso querido mestre PC.

Não esqueço do dia em que Flávio me procurou na véspera do encerramento da inscrição para o Vestibular. Pressionado pela família (que só queria o melhor para ele), chegou desorientado, perguntando o que eu achava. Disse que ele devia se inscrever para cursar o que gostava de fazer. Até então, nem ele mesmo acreditava que pudesse viver de Música.

Cursou dois anos de Comunicação e, quando surgiu a primeira oportunidade, zarpou para trabalhar com o que gostava na Europa. Passou uns dez anos por lá, onde conheceu sua inseparável companheira, Karla, com quem teve seus filhos Gregório (Bezerra) e Heitor (Villa Lobos).

De volta ao Brasil foi para São Paulo trabalhar com o pai, o jornalista Goulart de Andrade, o “Vem comigo” da madrugada. Mas, decididamente, sua vida era a Música. Retornou ao Rio e produziu discos de sua autoria, só de música instrumental. E quem disse que existe cultura em nosso país para isso? Montou seu estúdio, se tornou maestro, aprofundou os estudos de harmonia musical.

Era um arranjador de mão cheia, um cara simples, antenado, que enxergava o óbvio, aflito com as sacanagens e desigualdades do Brasil. Adorava jazz e bossa-nova, mas se encantava com a variedade de ritmos e possibilidades da música popular brasileira.

Assim era o meu grande amigo Flávio Goulart. Assim era a nossa vida de garotos, cheia de sonhos. Alguns se tornaram realidade, outros se perderam no tempo. Quando queríamos nos encontrar, mas por algum motivo a agenda não deixava, encerrávamos a conversa com um clichê: “Então fica combinado assim…”

Fica combinado assim, meu querido amigo. Você parte agora, mas a gente sabe que vai se encontrar mais adiante.

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O Paraguai de hoje é uma caricatura, um país de narcotraficantes, que vive da soja e da venda de produtos contrabandeados. Mas nem sempre foi assim. Em meados do século XIX o Paraguai alcançou um grau de desenvolvimento bem superior ao de todos os seus vizinhos, instalando seu próprio parque industrial com siderúrgicas, estaleiros, fábricas de armas, tecidos, tintas e outros produtos. Havia uma grande rede de estradas de ferro e de telegrafia. O analfabetismo era residual e as estâncias da pátria eram extensões de terras públicas entregues aos camponeses em troca da metade do que produziam.

Os governos da Argentina e do Brasil promoviam uma espécie de bloqueio ao Paraguai, cuja grande fonte de exportação era o fumo e erva-mate. A grande nação imperialista de então, a Inglaterra, decidiu frear o que poderia ser um “mau exemplo” para os demais países da América Latina. Em 1864 selou em Buenos Aires o acordo de formação da Tríplice Aliança, com seus parceiros: Brasil, Argentina e Uruguai.

O Império do Brasil, na época governado por Pedro II, decidiu depor o presidente do Uruguai, que tinha um tratado de ajuda militar com o Paraguai. O exército brasileiro sitiou Montevidéu e, em resposta, Solano Lopez entrou no Mato Grosso e na província argentina de Corrientes. No primeiro ano de guerra os uruguaios praticamente não combateram, dominados que estavam pelo Brasil. Os argentinos se retiraram do front de batalha, visivelmente inferiorizados frente ao exército paraguaio.

Nos demais quatro anos da Guerra (até 1870) coube ao Império do Brasil combater as tropas paraguaias e promover a maior carnificina da História das guerras da América Latina. O clímax desta matança é lembrado no dia 16 de agosto, no Paraguai. Nesta data, no último ano da Guerra, o exército brasileiro, comandado pelo Conde D´Eu, enfrentou crianças paraguaias em Acosta Nu, onde mais de 3.500 meninos foram degolados. O fascínora ainda mandou incendiar o cenário da batalha.

Ao término da Guerra, mais de 75% da população do Paraguai foi exterminada (600 mil mortos), 40% do território paraguaio foram entregues a Argentina (94 mil km2) e ao Brasil (60 mil km2). Quem lucrou com o conflito foram os ingleses, com seus empréstimos de guerra e a dívida que cobraram até o fim do Paraguai.

Hoje, quando fazemos caricatura do Paraguai, devíamos lembrar da contribuição lamentável que Brasil e Argentina, patrocinados pelos interesses do Império Britânico, deram para o atraso daquela nação e da América Latina. De lá pra cá o que se viu foi uma história de retrocessos, golpes e ditaduras no Paraguai. E por aqui continuamos venerando Caxias como herói nacional…

Num país em que predominam o cultivo da soja e o narcotráfico, um grupo de cerca de 400 mil brasileiros vive muito bem,obrigado. São os brasiguaios, brasileiros que migraram para o Paraguai desde a década de 60 e se fixaram naquele país. Foram atrás de terras baratas, griladas e construíram suas vidas como fazendeiros. No Paraguai cerca de 2% da população controlam 80% das terras férteis, dentre eles os brasiguaios.

Foi extamente contra este grupo que os paraguaios sem-terra se insurgiram e que Fernando Lugo derrotou nas últimas eleições presidenciais. Lugo abandonou a bandeira da Reforma Agrária, mas os carperos (como são chamados os sem-terra de lá) seguiram na luta. Esses brasileiros, tão reivindicados com preocupação pela grande mídia nacional, nada mais são do que grileiros de terras públicas que se instalaram no país vizinho, fenômeno que tanto conhecemos por aqui.

Não por acaso em sua esmagadora maioria viram com simpatia o golpe de Estado e a posse de Federico Franco, além de repudiar a postura do próprio governo brasileiro, que condenou a virada de mesa parlamentar no Paraguai.

Triste sina a dos nossos hermanos guaranis. Montamos um exército de escravos “voluntários da pátria”, comandados por fascínoras como Caxias e Conde D´Eu, para massacrar o povo paraguaio quando ele lutava por sua independência contra os interesses do Império britânico na região. Cerca de 80% da população masculina adulta do Paraguai desapareceu após a guerra.

Agora, ajudamos a organizar uma espécie de UDR, que grila terras, planta soja, tem privilégios (plantadores de soja pagam 3% de impostos) e apóia golpistas naquele país. Não basta baixar sansões contra os golpistas, é preciso exigir a retirada desta escumalha do Paraguai, gente que só envergonha nosso país.

Infelizmente mais um golpe de Estado se consolidou na América Latina. O sinal de alerta de que essa prática não estava extinta foi dado em Honduras, anos atrás,quando o Presidente foi derrubado por militares. A omissão de alguns e a indiferença da maioria criou o precedente histórico para que esta prática se repetisse, agora no Paraguai.

Mas não basta lamentar ou discutir sanções econômicas e políticas ao Paraguai. O fato é que Fernando Lugo cometeu os velhos erros de políticos progressistas e de esquerda quando chegam ao governo na América Latina: recuar do programa social e econômico das forças que os elegem e ceder às elites.

Em vez de aproveitar a popularidade com que contava no começo de seu mandato e tratar de impulsionar a Reforma Agrária logo de início, Lugo recuou, descontentou sua base de apoio e deu o tempo necessário para as forças conservadoras se organizarem e partirem para o contra-ataque.

Mesmo alertado da trama de um golpe, Allende empossou Pinochet como chefe das Forças Armadas do seu governo, no Chile. Lugo foi eleito numa chapa em que seu vice era um conservador, do mesmo partido que o traiu e assumiu a presidência por um expediente golpista. Deu as costas para os movimentos de luta do campo e da cidade, instalou a desconfiança em sua base de apoio e deixou seus adversários à vontade para conspirar.

Sofreu mais de 20 tentativas de golpe, ataques à sua vida pessoal, etc. Fora o cerco da grande mídia, num país em que o poder sempre foi das oligarquias de famílias ricas. A reação de Lugo e seu discurso de despedida foram patéticos. Nessas horas a personalidade da liderança faz a diferença. Ainda que tenha cometido erros, Allende defendeu seu governo de armas na mão e seu pronunciamento de despedida foi um poema em improviso, que ecoou por décadas por seu país.

As milhares de pessoas que se concentraram na praça central de Assunção para defender o governo Lugo certamente esperavam outro recado. Quem sabe os irmãos paraguaios agora encontrem um caminho e lideranças firmes, que os libertem do atraso representado pelas suas elites golpistas.

O que está em jogo no Paraguai não é um governo, mas o respeito à soberania popular. Os conservadores (Partido Colorado), retrato das elites atrasadas daquele país no Parlamento, decidiram dar um golpe pela via institucional, num processo um tanto rápido e estranho.

Fernando Lugo é acusado de responsabilidade direta pelo desfecho de uma desocupação violenta de terra pela Polícia, que redundou em 17 mortes e diversos feridos sem-terra, em Curuguaty, no dia 15 de junho. Esta é mais uma das dezenas de conspirações armadas pelas elites nos últimos anos, que ainda não engoliram a derrota de três anos atrás.

O mesmo Parlamento de maioria conservadora, que não admite aprovar uma Reforma Agrária, julga o Presidente do país por conta de mortes provocadas justamente pela concentração da terra.

Lugo não compareceu ao Parlamento para usar da palavra em defesa de seu governo, preferindo acompanhar a sessão do Palácio do Governo, ao lado dos representantes da Unasur. Talvez esta prudência esteja ligada à sua formação clerical.

Do lado de fora, na praça em frente ao Congresso, em Assunção, uma multidão se manifesta contra a atitude do Parlamento de maioria conservadora. Nem todos são partidários de Lugo – que recebe muitas críticas pela timidez de seu governo frente aos problemas econômicos e sociais da maioria de seu povo – mas certamente todos sabem o que representa um golpe de Estado num país com tanta tradição golpista.

A tentativa de golpe parece mais uma atitude desesperada dos conservadores, que terão que enfrentar Lugo nas eleições presidenciais do ano que vem. Talvez prevendo um resultado negativo, essas forças retrógradas querem arrumar um jeito de interromper o mandato do Presidente e impedi-lo de concorrer a uma reeleição.

Este filme foi visto na Venezuela alguns anos atrás. Foi o povo nas ruas que abortou o golpe, tramado com apoio da CIA.

Se lograr êxito, o golpe representará um duro retrocesso em toda a América do Sul, ressucitando o fantasma das ditaduras. Se for derrotado pela pressão popular, o golpe poderá representar um avanço definitivo das forças populares no Paraguai e a consolidação da democracia, ainda que tímida, em toda a região.

O diferente sempre nos parece estranho. Por isso nós, cariocas, estranhamos a quantidade de figuras de características tão distintas que desfilam pelas ruas da nossa cidade nos últimos dias. Indígenas pintados e com suas indumentárias coloridas, africanos de origens diversas, sem-terra de muitas bandeiras, gente falando outros idiomas e os mais diferentes sotaques do nosso Português. Jovens, muitos jovens e até os bichos-grilos.

Essa galera conforma o público participante da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Conferência Rio+20, que se realiza no Aterro do Flamengo. Eles não precisam de batedores para fechar o trânsito e nem de batedores da polícia para chegar ao seu destino. Suas causas, as mais diversas, nada têm a ver com os engravatados do Rio Centro. Ao contrário, eles chutam o balde dos poderosos, cada um do seu jeito.

Entre as atividades, além das passeatas e performances de denúncias, estão os debates e palestras sobre diversos temas. Assuntos do meio científico, demonstrações de experiências concretas de manuseio sustentável da biodiversidade, a criação de uma rede de comunicação da América Latina, questões polêmicas como a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte e tantas outras são alvos deste encontro, espécie de tenda de todas as tribos.

O certo é que no Rio Centro está o mundo da crise, dos senhores do Capital, dos experts da enganação, do “me engana que eu gosto”. Ninguém em sã consciência acredita mais no que fazem, pensam e dizem aqueles senhores. Seus códigos e receitas estão caducos para enfrentar os novos desafios da humanidade.

A diferença entre os participantes dos dois eventos é que na Barra existem alguns poucos ingênuos bem intencionados, cercados de uma maioria de espertos por todos os lados. No Aterro existem alguns poucos espertos, cercados de uma maioria de ingênuos bem intencionados do mundo todo.

Podem parecer engraçados ou inconseqüentes os participantes da Cúpula dos Povos. Afinal, o que quer essa gente de todos os cantos do Brasil e do Mundo para se reunir e debater de tudo num evento de duas semanas? Ora, se o mundo foi globalizado por que não realizar encontros mundiais? É nesta aparente ingenuidade dos que querem segurar o mundo com as mãos que saem novas idéias, se troca experiências e se consolida a noção de que a união dos povos pode criar algo novo. Essa é uma ambição saudável. Ainda bem que eles existem.

O resultado da Conferência Rio+20, resumido no documento oficial aprovado pelos chefes de Estado, é o rato parido pela montanha midiática em torno do evento. O texto “possível” não agradou a ninguém, reconheceu até mesmo o secretário-geral da ONU, que esperava um “documento mais ambicioso”.

Na prática o documento final é uma obra da diplomacia do “jeitinho brasileiro”: diz tudo e não diz nada. Avança o menos possível para ser simpático a todos. Não tem metas, prazos e nem determina os recursos necessários para o tal desenvolvimento sustentável ou “economia verde”, com preferem os modernosos ecologistas yuppies.

Para além dos erros de logística e o despreparo observados durante os dias da Conferência, o Brasil pagou mais um grande mico ao comandar um processo para fechar um texto sem sal, sem cheiro e sem cor.

É evidente que o destaque da imprensa internacional para a Conferência é o fracasso da Rio+20. Nem a Rede Globo, entusiasta de primeira hora, conseguiu esconder o fiasco, embora o governo brasileiro tente enaltecer o fato de que, ao menos, a Conferência aprovou um documento.

Aliás, de um governo que constrói Belo Monte (apesar de todos os alertas), segue com as obras de transposição do Rio São Francisco e aprova um Código Florestal que é um colírio para o agronegócio, não se poderia esperar grande coisa. O cinismo faz parte da conduta das classes dominantes brasileiras desde a sua origem.

Enquanto no Rio se realizava a Conferência café-com-leite, em Los Cabos, no México, os líderes dos países mais ricos do mundo aprovavam o documento que interessa ao mercado: “Apoiamos a intenção de considerar passos concretos para uma arquitetura financeira mais integrada, que inclua supervisão bancária, recuperação e recapitalização (dos bancos), e seguros de depósito”, diz a declaração conjunta apresentada pelo presidente mexicano. Para bom entendedor, meia palavra basta…

De bom mesmo ficou a grande quantidade de debates e atividades promovidas na Cúpula dos Povos, evento paralelo que deixou a esperança de novos dias, baseados em um modelo de produção e consumo que não explore o homem e nem destrua a Mãe Terra.

A Conferência Mundial Rio+20 foi programada para o desdobramento de acordos e metas de preservação do meio-ambiente, que foram consagrados durante a ECO 92, há vinte anos atrás.

No entanto, no plano da preservação ambiental, tão em voga nos discursos de governantes de todo o Planeta, metas e acordos foram todos minimizados ou simplesmente desconsiderados nos últimos anos. O Tratado de Kioto foi solenemente desrespeitado ou ignorado pelas grandes potências e a Conferência de Copenhagen redundou em fracasso.

Isso ocorre porque as potências capitalistas e os chamados países emergentes (EUA, Alemanha, França, Inglaterra, Japão, Rússia, Brasil, China e Índia) desenvolveram e seguem desenvolvendo suas economias pela expansão da produção e do consumo, cuja matriz energética ainda é o Petróleo. Foi por Petróleo que as tropas da OTAN invadiram e ocuparam o Iraque, além de sustentar a ameaça militar contra o governo do Irã.

A matriz Petróleo, que se consolidou no século XX e avança pelo século XXI, estabeleceu compromissos poderosos entre governantes e o grande capital. Dela derivam praticamente todos os setores mais fortes da economia capitalista mundial: petroleiras, indústria naval, indústria automobilística, indústria aeronáutica, usinas de energia à base de óleo (termoelétricas), etc.

O outro parceiro desta cadeia é o que se alimenta de energia elétrica, que abrange praticamente todos os demais setores da economia. Ao contrário de ser uma fonte limpa, a energia elétrica implica cada vez menos na utilização de aspectos da Natureza (quedas d´água e rios), para gerar cada vez mais usinas de grande porte e barragens artificiais, cujo custo ambiental é desastroso, como é o caso de Belo Monte. Em alguns casos ainda persiste o uso do carvão como fonte combustível.

Em meio ao avanço da preocupação ambientalista de uma parcela cada vez maior da população mundial, surgiram os teóricos da catástrofe, que se apegam a teses um tanto discutíveis sobre as ameaças de uma derrocada do Planeta Terra frente aos ataques à Natureza. Grande parte destes teóricos e suas ONGs vivem deste discurso, captando recursos e doações inclusive de grandes empresas, numa parceria cínica.

Outro lado do ambientalismo superficial se atém à defesa tópica de determinadas espécies animais e vegetais. Cuidam do ambientalismo de varejo e também sobrevivem da chantagem e da dor de consciência de setores da sociedade. No Brasil o cinismo de determinadas ONGs e ongueiros é tamanho que grande parte do chamado terceiro setor é financiado por governos e instituições públicas.

Seja como for, nenhum destes grupos tem interesse em atacar o principal fator de desequilíbrio ambiental em nosso Planeta: o sistema capitalista. Foi este sistema que impôs uma ordem de coisas que leva, inevitavelmente, a uma exploração irracional das riquezas naturais e uma agressão sem fim ao meio-ambiente. Minerais (metais, água), vegetais (alimentos, madeira), animais (gado), combustíveis fósseis (petróleo e carvão) foram e estão sendo devastados para sustentar a sociedade capitalista, cuja lógica é alimentar uma cadeia de produção e consumo de padrão insustentável.

A humanidade não tem como manter um padrão de vida baseado em dois imóveis e dois automóveis para cada família, toneladas de alimentos encharcadas de gorduras e agrotóxicos, bens duráveis e não duráveis em quantidades absurdas acumuladas por pessoa. Este padrão de consumo, se estendido às populações de países como a China e a Índia, exigirá uma exploração bem superior das fontes naturais do Planeta, com conseqüências ainda mais perversas também na poluição do ambiente.

No Brasil a devastação é ainda mais assustadora, porque a ela é conseqüência da postura irresponsável de uma elite que não tem projeto de médio e longo prazo para a nação, mas uma mentalidade pirata, de rapinagem imediatista de tudo. As agressões a Amazônia pelo agronegócio, a construção de barragens e hidrelétricas que alteram por completo ecossistemas e a vida de populações inteiras somente para engordar as contas das empreiteiras, o incentivo à indústria automobilística, a falta de projetos e planos para a exploração racional da navegação de cabotagem e fluvial, a ausência de projetos de maior porte para o uso da energia eólica e solar são elementos que demonstram isso. O chamado “Novo Código Florestal”, mesmo com os vetos da Presidência da República, é um ataque aos recursos naturais de nosso país.

É nesta contradição entre o crescimento da consciência ambientalista e a ganância do grande capital que se realiza a Rio+20. Para burlar sua responsabilidade e avançar ainda mais sobre as riquezas naturais os ideólogos do sistema capitalista bolaram expressões que difundem largamente: “desenvolvimento sustentável” e “economia verde” são duas delas muito em voga. Qual desenvolvimento? Qual economia? A isso eles não respondem. Querem realizar pactos de “exploração sustentável”, que prevêem no máximo algumas compensações, tendo a sociedade e os movimentos populares como fiadores desta política.

Na verdade se trata de controlar definitivamente a água potável, trocar a poluição e as agressões ao meio ambiente das grandes empresas por bônus resgatáveis, realizar compromissos em que a devastação de espécies naturais é substituída por florestas mortas, a expansão da monocultura de espécies marítimas em áreas controladas por grupos privados. Em resumo, o discurso ambientalista de colaboração com governos e empresas privadas visa maquiar os estragos promovidos pela forma irracional do sistema capitalista.

O Estado capitalista também terá um papel importante neste novo pacto de “exploração sustentável”. O esvaziamento da fiscalização governamental e a criação de novos organismos, adaptados a esta nova realidade, fazem parte disso, como é o caso da Fundação Chico Mendes. Essa nova estrutura exige menos compromisso com os povos e mais flexibilidade com os interesses do Capital. Os servidores públicos que devem zelar pelos interesses da maioria da sociedade só podem fazê-lo com uma política determinada para isso e estabilidade no emprego, para fugirem das ameaças e recados de grupos políticos e setores privados.

O surgimento de grupos ambientalistas no início dos anos 80 gerou também toda uma gama de lideranças reformistas, que hoje pregam a inclusão das comunidades que sobrevivem de sua relação com a Natureza ao mercado. O exemplo a seguir é o de Chico Mendes e o de pessoas sérias e comprometidas com os povos, que se negam a pactuar com o Capital e seu sistema. É preciso repudiar os porta-vozes do ambientalismo fajuto, que nada mais são do que consultores do capitalismo verde.

Diante da gravidade do desequilíbrio ambiental, provocado por um sistema perverso e predatório da força de trabalho e da Natureza, resta aos povos denunciar este estado de coisas e construir alternativas de produção e consumo capazes de incluir os que têm fome e os excluídos. Este desafio está posto para todos os que se opõem à matriz da sociedade capitalista e buscam um mundo novo, baseado em relações de produção respeitosas, solidárias e em comunhão com a Natureza.

Tropa de cheque

15/06/2012

A tropa de cheque parece mesmo disposta a blindar algumas pessoas chave na investigação do escândalo Delta/Cachoeira. Por 16 a 13 os parlamentares da base governista rejeitaram a convocação de Fernando Cavendish, dono da construtora, e de Luiz Antônio Pagot, ex-diretor do DNIT.

Pagot já avisou que se for chamado vai colocar a boca no trombone e entregar os esquemas de financiamento de campanhas, tanto do PSDB quanto do PT. Já Cavendish prefere ser esquecido e, para isso, conta com seus amigos na CPI, entre eles Ciro Nogueira (PP/PI) e Maurício Quintella Lessa (PR/AL), que tiveram um “encontro casual” com Fernandinho em Paris, justamente alguns dias antes da instalação da CPI.

O deputado Miro Teixeira (PDT/RJ), que é da base governista e já foi até ministro, considerou a não convocação dos dois um caso estranho, rodou a baiana e ameaçou se retirar da Comissão. O líder Cândido Vacarezza acusou o golpe e, “indignado”, disse que Miro teria que apontar quem na CPI faria parte da tal tropa de cheque.

Pressionada por parlamentares da base do Nordeste, que querem ver suas emendas liberadas e as obras iniciadas em seus respectivos estados, a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvati, disse não ver qualquer problema no fato da Delta continuar prestando serviços a órgãos do Governo, como o DNIT. Segundo ela, o fato da CGU considerar a empresa inidônea é irrelevante, porque a declaração serviria só para novos contratos.

Está mais do que evidente que o Governo quer fazer da CPI um instrumento de pressão sobre adversários, justamente num ano eleitoral. Ainda mais quando o Supremo confirma para agosto o início do julgamento dos 40 réus do caso do Mensalão.

Para o PT trata-se da CPI do Cachoeira que, eventualmente, pode respingar em algum deputado ou governador desavisado. Para o PSDB o negócio é jogar algumas figuras do PT na lama, até para não afundar sozinho. Para o PMDB a saída é tirar o seu da reta, preservando o senhor Cabral.

Mas para a opinião pública está mais do que evidente que se trata de um esquema de lavagem de dinheiro público, para financiamento de campanhas eleitorais de praticamente todos os partidos.

A propósito: quando o governador Sérgio Cabral vai colocar seus sigilos bancário, fiscal e telefônico a disposição da CPI?

Faz de conta que você me cobra providências; faz de conta que eu fico de mal com você; faz de conta que eu vou cumprir o que eu anunciei; faz de conta que você não vai me dar o dinheiro para eu cumprir o que prometi; faz de conta que eu brigo com você porque você me cobrou as minhas promessas; eu peço perdão só para fazer de conta que eu te respeito.

Esse é o joguinho da Copa do Mundo. É um jogo de cena, com direito a pé na bunda, descompostura e reconciliação entre ministro e o secretário-geral da Fifa. Enquanto Londres estava com todas as obras fundamentais concluídas um ano antes das Olimpíadas, aqui muitas obras de infraestrutura das cidades para a Copa de 2012 sequer estão licitadas e devem ser esquecidas nos próximos meses. Mas os elefantes brancos vão ser concluídos em tempo.

Lembro bem que o então ministro dos Esportes, Orlando Silva, chegou a anunciar que não haveria um tostão do dinheiro público para financiar as obras da Copa de 2014. Foi substituído no primeiro tempo do jogo, antes que algum jornalista perguntasse sobre os gastos públicos com a Copa.

Hoje não se sabe ao certo quanto já se gastou com as obras e os aditivos contratuais de fim de festa ainda nem começaram. Agora o Governo Federal anuncia mais R$ 3,6 bi para o Governo do Estado do Rio finalizar 14 obras até 2013.

A julgar pelo improviso total na preparação da cidade para a Conferência Rio+20 dá para ter uma idéia do que nos espera. Um evento que estava agendado antes da definição do Rio como sede da Copa e das Olimpíadas foi empurrado com a barriga até as vésperas de sua realização. Só agora que as “autoridades” se deram conta do tamanho do evento.

O próprio prefeito já reconhece que haverá transtornos. Numa tentativa desesperada de não pagar mico internacional Eduardo Paes decreta o ponto facultativo e o feriado escolar de três dias na cidade. Para enfrentar os “transtornos inevitáveis” a saída encontrada é uma reunião diária pela manhã do Prefeito com o secretário da ONU para a Rio+20 – “O chinês mais carioca”, segundo Paes – para avaliar os problemas e encontrar soluções.

Enquanto isso, o alcaide inaugura o BRT da Transoeste só para lembrar que a obra é dele. E que obra, heim… Goteira, plataforma desregulada com a altura do piso do ônibus, porta de estação que trava e o pior: somente 9 das 47 estações estão prontas. Ou seja, a única obra verdadeira naquele caso – construir estações – não foi realizada e agora inauguram o sistema “em fase de teste”. Como se vê o faz de conta continua.