Com o final da guerra fria a máquina bélica norte-americana precisou alimentar paranóias e criar novos inimigos potenciais, capazes de justificar sua existência e até seu crescimento. Meses depois dos atentados que derrubaram as torres gêmeas, em Nova Iorque, as Forças Armadas dos EUA iniciaram o bombardeio do Afeganistão, para combater a Al Qaeda e o governo dos talibãs, seus ex-aliados contra a URSS. Mais tarde o alvo passou a ser o Iraque, governado pelo também ex-aliado Sadam Hussein.

As duas campanhas deixaram rastros de devastação e inúmeras denúncias de ataques a civis e desrespeito aos direitos humanos, que culminaram com as prisões arbitrárias de milhares de combatentes e “suspeitos” na base militar de Guantánamo, em Cuba.

O fim dos governos de Bush filho encerrou o ciclo de combates diretos, com o uso de tropas regulares dos EUA nos fronts de batalha. No entanto, apesar das promessas de desmonte e retirada total do Oriente Médio, o governo Obama adotou outra tática no trato dos conflitos internacionais.

Com o verniz dos democratas, os EUA passaram a patrocinar conflitos internos em países em que lhes interessava desestabilizar governos. O objetivo era construir uma campanha de “democratização” de velhos regimes hostis no Oriente Médio e norte da África, pegando carona na chamada primavera árabe.

O início desta nova política se deu nas provocações contra o governo do Irã, particularmente na tentativa de provar que aquele país estaria pronto a produzir armas nucleares e ameaçar Israel. O intento não foi adiante, mas a situação ainda não está totalmente resolvida.

O maior triunfo do governo Obama no cenário internacional até agora foi a derrubada do regime de Muamar Kadafi, na Líbia. Outra tentativa ocorre na Síria, com o armamento de milícias para a derrubada do governo de Assad. O problema é que ao desestabilizar governos no Oriente Médio, os EUA atingiram velhos aliados do governo russo, de Vladimir Putin.

Como país membro titular do Conselho de Segurança a Rússia impediu a tentativa de intervenção militar na Síria com o aval da ONU. Agora as milícias sustentadas pelos EUA dão sinais claros de que estão perdendo o conflito, ainda mais com a reeleição de Assad.

Em resposta, o governo Obama abriu nova frente de fustigação aos russos, desta vez nas barbas de Putin, na Ucrânia. Ciente da crise econômica daquele país, o governo norte-americano alimentou provocações e a queda do regime, até então aliado de Moscou. Em seu lugar foi colocado um governo de plantão, extremamente nacionalista e aliado da União Européia. O projeto era levar as tropas da Otan até as fronteiras com a Rússia.

Putin reagiu e alimentou grupos separatistas pró-russos, cuja raiz está mesmo na herança cultural russa. A separação da Criméia e sua reincorporação ao território russo garantiu o controle de Moscou novamente sobre o Mar Negro, passagem estratégica para o Mar Mediterrâneo e ligação com o Atlântico.

A reação russa recolocou aquele país no cenário político internacional com muito mais intensidade, desde o final da guerra fria. A disputa não é por projetos distintos de sociedade, mas por mercados e alianças no novo mapa da geopolítica.

Ainda não se pode definir em que o novo conflito entre Israel e o Hamas interfere diretamente neste jogo de interesses de grandes potências, mas o governo sionista aproveita a perplexidade do governo Obama para avançar em suas ambições e ampliar seu domínio sobre território palestino.

O atual conflito entre Israel e o Hamas interessa ao primeiro-ministro Netanyahu, que reunifica a coalizão de seu governo que ameaçava ruir, e também ao Hamas, já sofrendo o desgaste de seu governo na Faixa de Gaza. Quem paga por isso são milhares de civis palestinos.

Mesmo obtendo alguns êxitos, como no Iraque, Afeganistão e na Líbia, a verdade é que a nova realidade nestes países retoma rivalidades do passado. Os conflitos tribais internos daquelas populações, com países e fronteiras criadas artificialmente depois das duas guerras mundiais, foram parcialmente contidos por governos de mão de ferro, como o de Sadam Hussein e Kadafi. Hoje, com a derrubada daqueles governos, o que resta é terra arrasada, a retomada de guerras civis sangrentas e sem controle.

A existência de crises e conflitos localizados em vários fronts de batalha é um sintoma da nova realidade mundial, em que não há um mundo dividido em dois blocos e alianças bem definidas. O jogo é complexo e exige uma análise muito mais profunda na hora de mexer qualquer peça no tabuleiro internacional.

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O recente episódio da prisão de manifestantes acusados de formação de quadrilha e bando armado pela polícia do Rio, trouxe à tona uma série de questões que precisam ser analisados. A pior maneira de fazê-lo é embarcar no jogo maniqueísta e histérico da grande mídia, sobretudo as Organizações Globo, que divide o mundo entre mocinhos e bandidos.

Há em tudo isso uma série de fatores: 1) o papel do Judiciário e do Ministério Público; 2) a atuação da polícia; 3) a cobertura da mídia; 4) a resposta dos acusados/perseguidos; 5) o entulho autoritário ainda vigente, que herdamos da ditadura militar. Mas há também algo que transcende todos estes aspectos: a liberdade de organização e manifestação, seriamente ameaçadas pelas medidas legais e políticas adotadas neste caso, um precedente gravíssimo que coloca em risco o ordem democrática.

Não se sabe direito com base em que elementos o magistrado responsável pelo caso determinou uma investigação, que permitiu escutas telefônicas e detenção preventiva dos acusados às vésperas de uma manifestação. Só agora, depois de concedido o Habeas Corpus para os 21 implicados, é possível entender que as “provas incontestáveis” são frágeis, inconsistentes e até risíveis.

A única irregularidade flagrante encontrada na casa de um dos menores foi um revólver de seu pai, cujo porte de arma estava vencido. O resto são facas de cozinha, uma bituca de maconha, máscaras contra gás e joelheiras, além de literatura de esquerda. Isso depois que policiais chegaram às residências dos acusados com o mesmo tom violento e ameaçador que se usava nos tempos da ditadura militar.

O processo correu em segredo de Justiça e os advogados dos acusados sequer puderam ter acesso à íntegra dos autos para prepararem as defesas de seus clientes. Agora se sabe que bastou o testemunho de uma menina enciumada com a perda do namorado, para o magsitrado e o MP do Rio embasarem as acusações.

O papel das Organizações Globo e da maioria dos demais grupos de comunicação foi o pior possível. Com acesso “exlusivo”, a Rede Globo reproduziu em cadeia nacional trechos de conversas entre os acusados. Note-se que os diálogos exibidos eram tão pouco esclarecedores que os editores da Globo tinham que se esforçar para acrescentar às matérias longas explicações sobre o que os termos usados queriam dizer.

Houve até o episódio da caneta, em matéria debatida pelo RJ-TV. A tal “caneta”, que apareceu numa das escutas telefônicas entre acusados, seria, na versão da polícia, uma caneta comum preenchida com explosivo e dois parafusos nas extremidades. De acordo com o comentarista da Globo, trata-se de perigoso artefato, porque a explosão daria aos parafusos a velocidade e força de um projétil, como uma bala.

Outra expressão ouvida numa das escutas e usada como prova contra os acusados foi que a manifestação iria “bombar”, quando tratavam da expectativa para o protesto convocado para o último dia da Copa do Mundo, na Praça Saens Peña, na Tijuca. Francamente…

Infelizmente, a mídia do Rio não só comprou como reproduziu o discurso do Estado e seus atores, o MP, a Justiça e a Polícia. A cobertura dos fatos não só foi superficial, repetindo e reforçando a criminalização dos acusados, como não deu espaço igual para a defesa destes. Isso ocorreu, certamente, em função da forma como as Organizações Globo e a maioria da mídia comercial foi recebida nas manifestações de rua de junho/julho de 2013.

É verdade que os manifestantes têm a obrigação de saber distinguir os profissionais de imprensa dos meios para os quais eles trabalham. Mas também é verdade que os profissionais de imprensa têm o dever de saber as consequências do que gravam e escrevem e o que é reproduzido pelos meios em que trabalham. E isso deveria se refletir nas redações.

Um jornalista não pode sair enxovalhado de uma manifestação popular, com escolta policial, sem pensar o porquê desta reação popular. Para os patrões trata-se de um atentado à liberdade de imprensa, para qualquer jornalista trata-se de um fato que também precisa ser apurado e debatido pela própria mídia.

Afinal, por que carros de TVs foram queimados e seus profissionais impedidos de trabalhar? O problema é que isso não pode ser discutido nas TVs e jornais, visto que levaria o debate para a questão do monopólio da comunicação e os interesses da grande mídia privada no Brasil. Ou será que a ação violenta de alguns não expressa o desabafo de muitos que veem a distorção descarada dos fatos virar verdade na telinha da Globo?

A reação descabida e exagerada de parentes e companheiros dos acusados libertados na porta do presídio, em Gericinó, contra fotógrafos que cobriam o episódio, deve ser veementemente condenada. Nada justifica a agressão física a profissionais que exercem suas funções.

No entanto, o que se esperaria de pessoas que nas últimas semanas foram massacradas e não tiveram sequer o direito de defesa por esta mesma mídia? Quem lembrou de dar voz aos que tiveram suas casas reviradas, objetos subtraídos e telefones devassados? Isso não causa indignação em ninguém? Isso também não seria objeto de matéria jornalística? Como foi tratado o direito de defesa dos acusados, quando seus advogados sequer tiveram acesso aos autos, enquanto a Rede Globo exibia trechos de escutas telefônicas de seus clientes e reproduzia a versão oficial?

Todo este episódio expôs, mais uma vez, a fragilidade da democracia no Brasil, negociada ao final de uma ditadura de 21 anos, numa transição que preservou intactos os interesses dos poderosos. Agora, essas frágeis estruturas revelam o quanto ainda estão presentes os poderes discricionários na Justiça e na Polícia e o quanto a ordem democrática brasileira é insuficiente para garantir a liberdade de organização e manifestação.

Não se trata de defender grupos radicalóides ou fazer de quem quer que seja mártir contra o sistema. Nem tão pouco de condenar uns poucos que ultrapassaram o limite do tolerável na convivência democrática. Trata-se de alertar que tudo que envolveu este episódio deve servir de lição, para que não se incorra no grave erro de criminalizar as lutas sociais e os movimentos populares. Isso é o mais importante.

A realidade clama por uma nova ordem legal, que acabe de vez com o lixo autoritário, que permanece intacto no país. Este papel caberia a uma Assembléia Nacional Constituinte, convocada exclusivamente para rever e atualizar a ordem jurídica do país. Infelizmente, os candidatos e suas coligações devem jogar este tema para debaixo do tapete nas próximas eleições presidenciais, para não incomodar aqueles que financiam suas campanhas e se beneficiam da ordem vigente.

Enquanto uma minoria brinca de rodízio de poder no Planalto – o que a Globo apelidou de “show da democracia” – aqui embaixo os simples mortais continuam convivendo com as mazelas. No cotidiano o cidadão convive com uma Justiça morosa, serviços públicos desmantelados e insuficientes e, de quebra, a violência de grupos de traficantes, policiais, milicianos e até com a intervenção das Forças Armadas nas comunidades.

Os mandados de prisão expedidos pela Justiça do Rio contra 21 ativistas envolvidos em manifestações de rua estão eivados de vícios absurdos. Não se trata aqui de defender as convicções e métodos de quem quer que seja, mas os argumentos e “provas incontestáveis” apresentadas para justificar os mandados de prisão são risíveis.

As Organizações Globo têm acesso exclusivo aos autos do processo, o que está difícil até mesmo para advogados dos acusados. Todos os 21 acusados desta leva foram colocados no mesmo barco com os dois rapazes do caso Santiago, cinegrafista da TV Bandeirantes, morto numa manifestação em frente à Central do Brasil.

A TV Globo e suas repetidoras apresentam diálogos de escutas telefônicas – obtidos com exclusividade!? – que não provam nada. Numa delas a polícia atribui à palavra “caneta” o significado de explosivo. Segundo as investigações a tal “caneta” seria um artefato letal, produzido com explosivo introduzido numa caneta, com dois parafusos nas extremidades. E o comentarista de segurança da Globo, Rodrigo Pimentel (ex-Bope), corrobora a versão policial de que, se detonado, o tal artefato teria poderio mortal.

É evidente que uma pequena parcela mais radicalizada de manifestantes e black blocs lançam mão de artefatos para enfrentar a polícia. Os conhecidos coquetéis molotov, miguelitos e morteiros são os mais comuns. Eles estão presentes em manifestações desde que o mundo é mundo. São instrumentos de defesa, justamente por sua fragilidade frente aos armamentos pesados da polícia, esta sim armada até os dentes para baixar o pau.

No entanto, nada disso justifica a ofensiva político-jurídica lançada pelo governo do Rio – que tem reflexos também em São Paulo – visando criminalizar todos os que se levantam para protestar. Pior ainda é a posição do ministro da Justiça, o petista José Eduardo Cardoso, que faz coro com o secretário de segurança do Rio de Janeiro, para justificar a perseguição e criminalização de manifestantes.

A única arma letal encontrada nas casas dos procurados, comandados pela “perigosa” Sininho, foi um revólver do pai de um menor, cuja autorização de porte de arma estava vencida. O resto são máscaras, joelheiras, uma guimba de maconha e outras tralhas que em nada acrescentam à periculosidade dos que são acusados de “formação de quadrilha” e “bando armado”.

Francamente, o senhor José Mariano Beltrame deveria estar mais preocupado em coibir a formação de quadrilha e bando armado entre seus comandados, em especial na PM. Ainda mais depois das imagens do camburão em que menores foram conduzidos por dois policiais para uma chacina no Sumaré.

A escalada da criminalização dos movimentos populares e ativistas só comprova o grau de conservadorismo de parcela importante do Judiciário e dos setores de segurança pública.  Se não for contida imediatamente, pela raiz, esta política poderá representar, em breve, um entrave à organização popular e às lutas sociais no país.

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Os três filósofos que comandaram a selenike na Copa 2014

Não penso como alguns críticos que atribuem todos os males do Brasil à realização da Copa do Mundo em nosso país. Apenas me guio pelo bom senso, quando assisto ao desperdício de dinheiro público com “arenas” que não terão qualquer uso pós-Copa e constato, com é óbvio, que a maioria das obras de mobilidade urbana não foram concluídas e muitas nem serão.

Portanto, acho que a roubalheira da Copa é mais um episódio que tem raízes no Estado brasileiro, cada vez mais vilipendiado pelas grandes empresas privadas. Não se trata de um problema apenas dos governos do PT, embora o PT tenha tido treze anos para trancar a porta arrombada pelos grupos monopolistas em nosso país e não o fez.

Também não me entusiasmam as vaias do público para dona Dilma, nas “arenas” construídas com dinheiro público e frequentadas pela classe média alta. Ela não foi e não será a última autoridade nacional a ser vaiada em estádios.

Os R$ 30 bilhões gastos com as obras para a Copa vão recair sobre a já pesada conta que o cidadão brasileiro paga. É uma despesa que vai se somar aos absurdos juros e amortizações da dívida pública do país, que consomem quase a metade do Orçamento anual da nação.

Criou-se tremenda expectativa, justificando que haveria grande retorno à médio e longo prazo em termos de turismo e recursos para o país. Ao contrário da dívida que a Copa deixa para a sociedade brasileira, isso ainda não se pode dimensionar, só com o tempo.

A principal lição que todos podemos tirar da Copa – os que acompanharam porque gostam de futebol, os que acompanharam apenas para torcer para o Brasil e mesmo os que não acompanharam porque são contra – está nos resultados que ela produziu dentro do campo. Como tudo em que se investe é preciso verificar o resultado.

E o resultado da seleção brasileira já pode e deve ser discutido. Não se trata de uma abordagem superficial, do tipo troca o Felipão pelo fulano ou traz um treinador estrangeiro. Nem tão pouco de convocar outros jogadores. Trata-se de encarar que o “país do futebol” virou piada e apresentou em campo um dos piores resultados das últimas copas do mundo, apesar de ter chegado às semifinais.

Da cúpula da CBF, antes presidida por Havelange, depois por seu genro Ricardo Teixeira, hoje pelo senhor José Maria Marim e futuramente por Marco Polo Del Nero, até os 23 jogadores, passando pela Comissão Técnica, o que se percebe é uma absoluta incapacidade, conveniência ou leviandade quando se trata de fazer uma avaliação do que a seleção brasileira apresentou nesta Copa.

Não foi apenas o futebol brasileiro e sua seleção que foram derrotados. Toda uma engrenagem caduca, que mistura tradições obtusas, autoritarismo, arrogância e nossa pseudo-malandragem, foi exposta. Ela permeia toda a sociedade brasileira até hoje, porque a “transição para a democracia” no Brasil não permitiu que antigas estruturas fossem derrubadas.

Nosso futebol, que junto com o samba forma uma espécie de cartão-de-visitas do Brasil, escancarou suas mazelas dentro e fora do campo nas duas últimas partidas que disputou neste mundial de seleções.

Para o filósofo Carlos Alberto Parreira “a CBF é o Brasil que deu certo”. Ele também afirmou no começo da competição que estávamos com uma mão na taça… Já o elegante Felipão, paizão da Família Scolari, concluiu que tivemos uma “pane de sete minutos” contra a Alemanha, mas que o trabalho foi bom e estamos no caminho certo.

Depois de tentar culpar as arbitragens pela contusão de Neymar e possíveis dificuldades da seleção, a Comissão Técnica da CBF teve que engolir dez gols e duas derrotas com placares maiúsculos para Alemanha e Holanda. No caso da Alemanha, para Parreira, o que houve foi uma tsunami que não se repetiria. No caso da Holanda, erros de arbitragem.

Assim como o desfile das Escolas de Samba, vendido aos quatro cantos como “o maior espetáculo da Terra”, o futebol brasileiro foi privatizado e está nas mãos das Organizações Globo. Seu interesse é faturar com as duas atividades. Ocorre que ambas são como patrimônios do povo brasileiro.

A derrota da selenike da CBF é a derrota de um modelo de sociedade, na qual prevalecem os interesses de uma minoria autoritária e arrogante, apegada a esquemas que envolvem dinheiro público e interesses privados de patrocinadores. Este modelo, confrontado com outros – ainda que de outras sociedades capitalistas – não resiste às evidências.

Não há trabalho de base sério, para formar jogadores, treinadores e um estilo próprio de jogar. A Lei Pelé livrou ou jogadores brasileiros da escravidão do passe fixado aos clubes, mas os tornou escravos dos empresários do futebol.

Os clubes, células que revelam jogadores e alimentam a paixão pelo futebol brasileiro, estão subordinados ao contrato com as Organizações Globo. Os recursos gerados pelo direito de imagem das transmissões são irrisórios, se comparados com o faturamento da Globo. As Federações são organismos que se subordinam às oligarquias regionais, atendendo muito mais a interesses políticos que à necessidade de desenvolver o futebol.

A CBF tem uma estrutura caduca, autoritária e vive de seus grandes patrocinadores, que geram receitas bilionárias e pouco se importa com o futebol praticado nas competições nacionais e regionais. A CBF transformou a seleção brasileira em moeda de troca, que gira cifras astronômicas e alimenta uma cadeia de negócios obscuros, com jogos amistosos ridículos.

Por sua vez, parte considerável da imprensa esportiva vive exclusivamente da venda do espetáculo e não está disposta a comprar um debate mais profundo sobre os rumos do futebol brasileiro. Ou seja, para modificar o futebol apresentado em campo, a sociedade brasileira precisa colocar o dedo na ferida de suas próprias contradições.

Clubes, federações e CBF constituem uma engrenagem privada, é verdade. Mas também é verdade que o Estado pode e deve fiscalizar contas, movimento de caixa, dívidas e contratos com patrocinadores. Também pode caber ao Estado a iniciativa de propor um plano de reestruturação do esporte – não apenas o futebol – de forma a tratá-lo como um instrumento de inclusão de massa, das novas gerações.

A pantomima protagonizada por uma seleção com uma campanha pífia, só poderia acabar naquela fatídica tarde de sábado, 12 de julho, em Belo Horizonte, com um desfecho deprimente. Derrotada, a seleção brasileira de futebol foi conduzida ao vestiário sob vaias pelo seu paizão, deixando no gramado, de forma deselegante, o adversário que receberia as honras pela terceira colocação, conquistada com justiça dentro de campo.

Esperamos que entre os tantos legados da Copa não permaneça a Lei de Exceção, aprovada pelo Congresso Nacional, que permite aos governos prender preventivamente pessoas que participariam de manifestações, muito menos o absurdo aparato de repressão contra protestos de rua que se verificou na Tijuca, no dia do jogo final.

* Aproveito para parabenizar Paulo Cezar Caju, ex-craque do Botafogo e da seleção brasileira, por seus artigos maravilhosos durante a Copa no jornal O Globo.

 

A maioria dos analistas preferiu dar destaque à goleada sofrida pela seleção brasileira, com um discurso moralista, do que apontar pistas que levem a entender o que aconteceu no Mineirão. “Vexame, vergonha”, dizem.

É compreensível, porque muitos dos analistas, ex-jogadores e repórteres que atuam no futebol brasileiro não conseguem fugir do senso comum. Outros não têm sequer a coragem de dizer o óbvio. “Apagão, a escalação foi errada”, concluem.

Há também os comprometidos com esquemas do futebol. Esses foram os que mais se indignaram e logo procuraram encontrar culpados, como é do costume aos que não querem tirar lições das derrotas. Vão querer cabeças, entregar anéis para não perder os dedos, mexer em tudo para não mudar nada.

A raíz deste resultado não está na contusão do Neymar, na ausência de Thiago Silva, nos erros das arbitragens (que mais favoreceram do que puniram a selenike), ou mesmo neste grupo convocado. Se tomarmos os clubes brasileiros dos últimos anos vamos verificar que todos eles jogam mais ou menos dentro do mesmo sistema de jogo da Família Scolari.

Pode reparar: são sempre três cabeças de área botinudos para ajudar a defesa; dois defensores, dois laterais (esquerda e direita) e um goleiro. Dos onze que formam um time de futebol, quantos sobram para criar e atacar? Dois ou três, porque muitos clubes jogam com apenas um meia e um atacante. Como um time formado nesta maneira pode oferecer perigo e fazer gols no adversário?

Este tipo de formação, que prioriza a defesa, é usada em larga escala nas divisões de base dos clubes por todo o país. Por que? Porque os treinadores, além de serem em sua maioria curiosos, estão sempre sob pressão dos dirigentes para não perderem seus empregos.

Os jovens jogadores brasileiros não nascem mais nas peladas de rua, de praia, nos campinhos de várzea, jogando com bola de meia. Esses meninos pobres aprendiam a lidar com a bola da forma mais difícil possível como verdadeiros equilibristas. Agora, precisam de chuteiras e de padrinhos empresários para treinar e permanecer nos clubes.

Os poucos jovens valores que se destacam nas divisões de base são rapidamente cafetinados por empresários. Boa parte deles vai direto para o exterior, sem sequer vestir a camisa de profissional de seu clube de origem. Essa turminha vira moeda de troca e enriquecimento de empresários e dirigentes de clubes.

Nossos clubes deixaram de ser celeiros de craques e passaram a ser barrigas de aluguel de atletas que pertencem a empresários. Ou seja, vestem a camisa de um time para a valorização de seus passes. Há muito os grandes clubes brasileiros estão totalmente endividados e sob o controle de grupos inescrupulosos, que se revezam na direção e só pensam em lucrar com o futebol.

Fora das quatro linhas os campeonatos são mal organizados e os clubes passaram a ser dependentes da pequena verba que a TV Globo paga a cada temporada. Em troca, aceitam jogar em estádios precários, com gramados ruins, arbitragens desastrosas e em horários totalmente impróprios. Resultado: jogos de má qualidade e arquibancadas vazias.

As Federações são muito mais associações nas quais prevalecem interesses de grupos políticos regionais e financeiros do que entidades que estimulam e zelam pelo bom futebol. Qualquer investigação isenta vai encontrar problemas sérios nestas entidades.

Em meio a esculhambação da máfia da FIFA um torcedor filma dentro do Castelão, no jogo Brasil e Colômbia, um ingresso que comprou de um cambista meia hora antes da partida, com o nome do senhor Marco Polo del Nero, que vem a ser membro do Comitê Executivo da FIFA e o futuro presidente da CBF.

Nosso futebol fora de campo é o espelho da nossa própria desorganização e total improviso, tomado por mafiosos. O esquema de venda ilegal de ingressos da FIFA foi o legado da gestão Havelange, que prevalece nas federações e na CBF faz muito tempo. Dentro de campo é uma lástima, basta ver a média de público do Campeonato Brasileiro e as escalações dos clubes.

O que vemos na seleção alemã? Nada além do óbvio e necessário. Primeiro, todos sabem jogar, se colocar em campo, marcar com firmeza e sem violência, tocar a bola, passar e correr para receber. Todos se movimentam e jogam juntos. A filosofia de jogo é priorizar o conjunto e buscar sempre o gol. Isso certamente vem sendo trabalhado no futebol alemão, nos clubes alemães.

O melhor de uma grande derrota é tirar lições. A maior de todas, em meu modesto entender, é a necessidade urgente de reformular por completo, dentro e fora de campo, a estrutura do futebol brasileiro. É preciso democratizar a estrutura dos clubes e federações, abrir de vez a caixa preta da CBF e retomar um trabalho sério de formação de jovens jogadores.

Luis Felipe Scolari não esteve sozinho nesta empreitada da Copa de 2014. Seu grande assessor foi o já conhecido Carlos Alberto Parreira, que circula com desenvoltura no meio futebolístico nacional desde os tempos da ditadura.

A expressão do desconhecimento de causa de Scolari está nítido nas respostas que deu durante a entrevista coletiva, após a goleada para a Alemanha. Indagado se estamos muito atrasados taticamente, o treinador da selenike respondeu: “Não concordo com isso não”.

Outro repórter perguntou se o resultado levaria o futebol brasileiro vai ter que se reinventar, Scolari foi patético: “Por que? Porque perdeu um jogo hoje?”

Para explicar o que aconteceu no Mineirão, Luis Felipe definiu: “Foi um branco total. Hoje tudo deu errado em dez ou quinze minutos de jogo”.

Por último, questionado sobre a pressão psicológica sobre os jogadores brasileiros, Felipão disse que não se arrependeu quando afirmou que tínhamos a obrigação de sermos campeões, pelo fato do Brasil sediar a Copa. É óbvio que isso jogou sobre os ombros dos atletas brasileiros, a maioria garotos, uma responsabilidade para a qual não estavam preparados.

Rola nos bastidores que Scolari recebeu um relatório sobre a seleção alemã, assinado por Gallo, que hoje forma no grupo de treinadores das divisões de base da CBF. Pergunta: quem é Gallo?

O que este ex-medíocre jogador já ganhou como treinador? Pelo visto a CBF não tem nem olheiros capazes de enxergar o que se passa em campo.

Fica evidente que alguém com a incapacidade de analisar o que se passou no Minerão e durante a Copa, não teria a menor condição de dirigir uma seleção da expressão do Brasil. Seus métodos são ultrapassados, suas convocações atendem a critérios pessoais, suas escalações são previsíveis e a este tipo de treinador, muito mais paizão do que estrategista, resta apelar a chavões, como amor à camisa, garra, cantar hino, reclamar de juiz, etc.

No final das contas, Scolari nem é o responsável pelo desastre desta Copa, porque a campanha do Brasil foi apenas razoável contra adversários medianos. Ele é a expressão da mediocridade e da bagunça do futebol brasileiro dentro e fora de campo.