Se é possível julgar os feitos de um governo, então é preciso estabelecer critérios. E num país tão atrasado como o nosso eu apontaria três aspectos bem básicos: Educação, Saúde e Transporte. Assim, para saber o que fez ou faz um governo no Brasil basta visitar uma escola pública, um hospital público e usar um módulo de transporte de massa.

Por esses três critérios pouca gente seria aprovada. Paciência, se nem isso os governantes conseguem fazer de bom é porque não estão assumindo suas responsabilidades e nem investindo os impostos que arrecadam com algo que preste.

O olhar marejado de uma professora com 38 anos de carreira, que reconhece o fracasso da rede pública de ensino médio, é a imagem mais forte que fica da reportagem de O Globo (28 de maio de 2012). Ela é uma das tantas profissionais que abraçam até hoje o magistério como um sacerdócio, porque os salários e as condições de trabalho são as piores possíveis, numa das 107 escolas da rede estadual do Rio (37% do total) que reprovam mais da metade de seus alunos.

O desabafo de uma médica plantonista na porta da emergência do Hospital Rocha Farias,em Campo Grande, é outro retrato fiel do descaso das autoridades do Estado do Rio, desta vez coma Saúde pública. Sozinha ela encarava dezenas de pacientes de toda a Zona Oeste, que espera há dois anos pela recuperação do Hospital Pedro II. Em sua dignidade ela alerta: “Sei que serei punida, mas será por uma causa justa”.

A foto publicada pelo Jornal O Dia, mostrando o curral de entrada das barcas na Praça Araribóia, em Niterói, dá a nítida certeza de que a população que necessita de um transporte digno é tratada como gado por uma das tantas concessionárias que lotearam o Rio. Esta mesma empresa tem no secretário de transportes do Estado seu grande defensor e, porque não dizer, porta-voz.

Este governo tem como figura de proa um senhor que se intitula jornalista, mas que deve ter bem menos anos de redação de jornal do que os que passou na Assembléia Legislativa. Este mesmo senhor se disse indignado com “ilações que parte da imprensa faz”, pelo fato de ser amigo de empresários (leia-se, o senhor Fernando Cavendish, ninguém menos do que o dono da Delta construtora). Na frente das câmeras este senhor se diz desrespeitado por um repórter, apenas porque no exercício de sua profissão o colega perguntou se ele não temia a quebra de sigilo das contas da Delta.

Depois de flagrado em festinhas particulares fora do país com seu amigo Cavendish, o governador reapareceu para enaltecer a si mesmo e ao seu governo. Por uma conjunção de interesses políticos escapou da primeira convocação para depor na CPI do Cachoeira/Delta. Mas a abertura das contas da Delta deverá trazer à tona os contratos entre a construtora e o Estado do Rio de Janeiro, um dos que mais contratou aquela empresa nos últimos anos. E aí pode ser que ele tenha que sentar na cadeira dos depoentes. Ou será que também vai usar da “prerrogativa constitucional” de permanecer calado?

A grandeza das pessoas está em encarar os maiores desafios e dar conta deles como algo natural e necessário. A grandeza de alguém que governa às vezes pode estar no fato de reconhecer que algo não vai bem. A grandeza dos grandes homens está na certeza de que são apenas parte de um todo, não são a totalidade. Esta grandeza não se pode mesmo esperar de quem chama médicos de vagabundos, bombeiros de baderneiros e se sente desrespeitado por um jornalista, somente porque este exerce sua profissão. Talvez seja demais para alguém que pouco entende da necessidade de trabalhar para ganhar a vida.

O “jeitinho brasileiro” nada mais é do que uma expressão popular para definir a forma como as elites tupiniquins encontraram de fugir de suas responsabilidades históricas e rapinar o país. A oposição ao colonizador português não formou uma consciência nacional, disposta a ir às últimas conseqüências para enfrentar a Coroa lusitana. No máximo tivemos uma “Inconfidência Mineira”, cujos membros se safaram e deixaram a cabeça do alferes Joaquim José da Silva Xavier a prêmio.

Foi preciso que o Imperador da família real portuguesa desse o Grito às margens do Ipiranga para que o Brasil deixasse de ser colônia. Seu sucessor, D. Pedro II, homem de muita instrução e a frente de seu tempo, até que tentou dar ao país um impulso no mundo da cultura e das artes, mas as elites tupiniquins não queriam mais do que manter seus privilégios e distância, muita distância de seu povo.

Uma princesa, evidentemente pressionada pelos comerciantes britânicos, foi quem decidiu pela abolição da escravatura, em 1888. Afinal, esqueceram de avisar por aqui que escravidão não combinava com capitalismo. A proclamação da República nada mais foi do que uma quartelada, tramada por grupos minoritários, inclusive a maçonaria.

No século XX o Brasil sequer realizou uma Reforma Agrária, coisa que qualquer nação democrático-burguesa fez. As grandes empresas se associaram ao capital estrangeiro para usufruir das benesses que sempre tiveram por aqui. Quando um presidente trabalhista ousou falar em Reformas de Base, foi condenado como populista e comunista e derrubado por um golpe militar que durou 21 anos, apoiado por essas elites e tramado pelo Império norte-americano.

Hoje atravessamos um período de relativo crescimento econômico, mas somos obrigados a reconhecer que faltam técnicos de nível médio e profissionais de nível superior capacitados – os quais temos que importar – para dar conta dos desafios da produção. E por quê? Porque essas mesmas elites e seus governantes reduziram a escola pública a um depósito de crianças, sem qualquer estrutura. A Educação, a Cultura, a Ciência e a Tecnologia continuam relegados a percentuais ridículos do Orçamento da União.

Não que o povo brasileiro tenha deixado de lutar e pressionar por melhores dias. O movimento dos quilombos, as rebeliões regionais do período da Regência, as lutas populares dos séculos XIX e XX, as Revolta das Vacinas e das Chibatas são exemplos marcantes da vontade de mudança. Todas foram aniquiladas a ferro e fogo por essas mesmas elites. Quando não, suas bandeiras e objetivos foram surrupiados e esvaziados em composições de mentirinha.

A conciliação de interesses, a política de bastidores, o faz-de-conta, o toma-lá-dá-cá, se tornaram uma cultura da meia-sola. Ou seja, nada é resolvido, tudo é acomodado para os que detêm o poder continuem se perpetuando e seus interesses permaneçam intocados. A aparente “bagunça” em que vivemos não é uma cultura popular, é uma forma sutil das classes dominantes se perpetuarem. E nesta “bagunça” que impera a pirataria, a rapinagem, a extorsão, a corrupção endêmica e conchavo, que predominam na vida pública brasileira.

Essa cultura, convenhamos, também impregnou as camadas médias e os setores populares. Daí a tradução carinhosa da “bagunça” para “jeitinho”, que está presente em tudo em todo momento da vida nacional, aceito como uma espécie de maneira brasileira de resolver as coisas.

Eis porque a ex-ministra que confiscou a poupança dos brasileiros dá entrevista dizendo que faria tudo outra vez, o Presidente que foi “impedido” vira senador, o ex-ministro da Justiça advoga para contraventor, o partido político que está no poder com qualquer governo e outras coisas aparentemente inexplicáveis serem perfeitamente compreensíveis na realidade brasileira.

No Brasil não houve rupturas, fraturas, enfrentamentos históricos de grande vulto que provocassem mudanças profundas nos destinos do país. Quando sentem que a coisa começa a ficar feia as elites se antecipam e tratam de arrumar um jeito de criar uma solução por cima, que não muda nada, mas aparenta solucionar o problema. Até quando vamos aturar este país da gambiarra, da bagunça, do jeitinho, o país da meia-sola?

É impossível a qualquer ser humano, em sã consciência, descrever com objetividade a realidade de um país ou mesmo de uma cidade numa viagem de três semanas. Mas os dias que passei em Barcelona, Lisboa, Londres e Paris serviram para duas coisas: 1) Conhecer de perto um pouco da cultura e dos costumes destas cidades européias; 2) Refletir sobre o estágio em que vivemos no Brasil.

É preciso levar em consideração que se trata de países e cidades com séculos de existência, que atravessaram invasões, guerras civis, conflitos mundiais e devastações. Também é importante levar em conta o fato de que as cidades que são capitais destes países herdaram muito das riquezas do saque colonial, promovido por seus governantes do século XVI ao século XX.

Outro aspecto fundamental foram as revoltas e mobilizações populares dos séculos XVIII e XIX, tendo a Comuna de Paris como a maior delas, que deixaram como legado as conquistas sociais alcançadas pelos povos da Europa Ocidental. A influência da Revolução Russa de 1919 também se fez sentir em todo o continente europeu, espalhando as idéias socialistas e cobrando de governos e patrões os direitos dos trabalhadores e da maioria.

Mas é determinante o papel que Educação e Cultura ocupam nessas sociedades. Não há dúvidas que nelas os povos conquistaram um padrão de vida em que é possível viver com dignidade. A escola é basicamente pública e universal, em horário integral. Em alguns países há aulas seis dias por semana. A saúde é pública e com um padrão de qualidade bom, o que desobriga a maioria dos cidadãos de pagar plano de saúde e medicamentos caros.

O transporte de massa está calcado no sistema ferroviário, com destaque para metrô e trens. Tudo é integrado, oferecendo um serviço digno, com horário cronometrado e informado aos usuários. O ente público não é temido, é respeitado. Sua ação não parte de pressupostos subjetivos que levam em conta raça, credo, crença política ou outros aspectos, mas a condição de prestar um serviço a todos com base no que prevê a legislação e suas funções.

Os canais da TV aberta mais qualificados e com credibilidade são as emissoras públicas, que ocupam3 a4 estações, com produções para gostos e públicos diversificados, além de noticiários plurais e democráticos, com liberdade para questionar os governantes. Crianças e idosos são tratados com prioridade. Os aposentados podem usufruir de uma vida digna depois de contribuírem para a Previdência, inclusive programando excursões e viagens ao exterior.

Há grande e variada quantidade de opções culturais, destinadas a distintas faixas etárias, como museus, centros culturais, praças, passeios, excursões, convênios, etc. Enfim, as pessoas são tratadas com respeito e delas também se exige respeito ao próximo. Os direitos básicos do cidadão são intocáveis. Nada disso é obra do acaso, mas de muitos anos de luta, persistência, educação e cultura.

É evidente que ali também existem problemas. A corrupção, a forçado poder econômico, a ganância de grandes grupos capitalistas e seus executivos, o cinismo de boa parte dos políticos e seus partidos tradicionais, tudo isso está presente.

Pode ser que a atual crise econômica, cuja origem e responsabilidade é a roda especulativa do grande capital financeiro, reduza ou até aniquile algumas das conquistas sociais dos europeus. Se isso ocorrer será com muita resistência daqueles povos. Mas seja como for, a verdade é que no Brasil estamos muito distantes do grau de exigência dos cidadãos da Europa ocidental.

Basta ver que ainda há resistências para aprovar um Projeto que prevê o fim do trabalho escravo, quando formalmente a abolição da escravatura foi há mais de 100 anos. E o que dizer de um país em que um ex-ministro da Justiça é o advogado de um infrator da lei envolvido num escândalo de corrupção e desvio de verbas públicas?

Não por acaso Paris é considerada a cidade dos românticos. A cidade-luz é mesmo linda, sobretudo pelas suas avenidas largas, praças espaçosas, a arquitetura tradicional de seus prédios residenciais e comerciais, o esplendor de seus palácios, igrejas e monumentos. Qualquer um se sente bem nos jardins e parques de Paris.

A Praça da Concórdia – onde muitos foram enforcados após a Revolução Popular – é o ponto de ligação da cidade. Atrás dela um parque e do outro lado a Avenida dos Campos Elísios, que nos leva ao Arco do Triunfo. De um lado a parte que dá para a Montmartre, parte boêmia e artística da cidade cheia de cafés e cantinhos, de outro o Rio Sena, que ao ser cruzado por uma das pontes que o cortam leva à Torre Eiffel. A Torre dispensa comentários… Um espetáculo!

Cultura para todos os gostos e idades. Exposições no Centro G. Pompidou, museus, teatros, muitos cinemas e tantas outras opções fazem de Paris a cidade-luz em todos os sentidos, sobretudo nas artes e na história.

Aqui se fez a Primeira grande revolução popular conhecida no mundo ocidental, a Comuna de Paris. Cansados da injustiça, da opulência e da opressão da realeza, os descamisados tomaram o poder e sacudiram o mundo com seu lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Durou pouco, é verdade, mas a partir dali o mundo ocidental nunca mais foi o mesmo. Muitas das conquistas sociais ainda hoje presentes na sociedade ocidental são frutos da aspiração libertária da Comuna.

O socialismo francês foi uma escola de política, inclusive para o alemão Karl Marx, o mais famoso de todos. Foi com base nos estudos dos socialistas franceses, dos economistas ingleses e dos filósofos alemães que Marx pode avançar e descrever com maestria jamais questionada o mecanismo de exploração intrínseco da sociedade capitalista, em “O Capital”.

Os parisienses não são exatamente um exemplo de simpatia com os turistas. Sua educação excessivamente formal impede que acolham com calor humano os estrangeiros. Mas são educados, como de resto são os catalães, os lisboetas e os londrinos. É claro, cada povo com seus hábitos e costumes.

Em Barcelona se acentua o orgulho catalão, em Lisboa a ternura dos portugueses e em Londres o respeito e o humor contido dos ingleses. Nenhum é festeiro como o brasileiro, mas todos passaram por sofrimentos que nós desconhecemos: duas guerras mundiais, guerras civis, regimes ditatoriais por décadas e muitas privações.

É preciso compreender a história desses povos para entender porque e como chegaram até aqui. Por tudo isso, vale a pena conhecer essas cidades e seus habitantes. O mundo mudou muito rapidamente nas últimas décadas, os povos e as línguas se aproximaram e se misturaram na Europa, coisa impensável faz pouco tempo.

Ainda assim a impressão que fica é que, apesar da crise, não há espaço para a ladainha preconceituosa e a velhacaria conservadora, ainda que elas teimem em se fazer presentes. Pode ser que este jornalista esteja totalmente equivocado, mas as políticas de austeridade, reacionárias e racistas batem de frente com a realidade das novas gerações que povoam o velho continente.

*De Paris

Ao contrário de Londres, que é mais aconchegante, Paris é uma cidade de grandes praças, diversos monumentos e avenidas, largas avenidas. Maior ponto de atração turística do Mundo, a capital francesa é hoje uma verdadeira salada de frutas. Aqui se houve gente falando todos os idiomas possíveis e imagináveis dos quatro cantos do mundo.

Se um cidadão desavisado for sequestrado e acordar dentro do Metrô pode ter a nítida sensação que está num país da África, tal a quantidade de negros que se vê pelas ruas. Argelinos e Marroquinos, além de gente de outros países árabes, estão por aqui em grande monta. Indianos e paquistaneses também em bom número.

Muitos migraram para tentar uma nova vida, emprego e salário, coisas básicas que a maioria da humanidade ainda não conhece. Chegam a Paris e vão ficando. Uma parte consegue ser aceita e se integra aos hábitos e costumes da cidade luz, mas grande parte sobrevive de trabalho temporário, o que ainda é mais negócio do que olhar para trás.

A limpeza e a sinalização do Metrô de Paris não são um brinco, mas a cidade está no padrão de outras cidades européias mais desenvolvidas. Crescem a cada dia os espaços para os ciclistas e o uso da bicicleta de aluguel também é febre por aqui. O Metrô tem diversas linhas e de tantas acaba parecendo um pouco confuso para quem chega. Neste ponto se assemelha a Londres. Se vê camelôs e pedintes pelas ruas, mas ainda em pequena quantidade.

O ambiente político francês ainda está impregnado pela posse de François Hollande. O sujeito mal assumiu e já esteve com a dona Merkel e com Obama. Parece uma liderança emergente, mas já sinalizou que sua política externa não deve mudar muito, à reboque da paranoia anti-terrorista dos EUA. Aguarda-se novidades para a política interna e a Europa Unificada.

Depois da festa da eleição virão as cobranças. Espera-se de Hollande que ao menos se distancie um pouco das oligarquias financeiras e do discurso da austeridade, puxado pela chanceler alemã. Mas para seu azar a crise financeira voltou a bater à porta e a situação na Grécia aponta para uma saída que pode polarizar ainda mais a política e a economia na zona do Euro.

O eleitorado grego foi às urnas e deu seu recado: somados os votos dos partidos que não aceitam os termos do acordo de rapinagem do país e recusam o governo fantoche dos banqueiros, os gregos disseram que querem outra via para enfrentar a crise.

É evidente que os partidos não chegariam a um acordo para formar um novo governo, porque o eleitorado desautorizou os dois maiores (Nova Democracia e Pasok) e depositou, ainda que de forma dispersa, seu voto em três partidos de esquerda, apesar do crescimento também dos nazis.

Esta pulverização e polarização eleitoral se explicam porque os dois (conservadores e reformistas) não deram conta de apresentar uma alternativa à política de austeridade econômica, com cortes de investimentos sociais, no emprego, nos salários e aposentadorias. Preferiram obedecer à troika e suas metas de austeridade.

A imprensa internacional atribui à instabilidade política na Grécia as quedas das bolsas do mundo inteiro nos últimos dias. E a declaração de um alto executivo do JP Morgan, de que o banco tem um rombo de U$ 2 bilhões¿ Isso nada tem a ver com a reação desfavorável das bolsas¿

Os gregos estão desesperados. Sua economia é insignificante para a União Européia (quem sabe 1%), mas seu padrão de vida havia melhorado bastante depois de 20 anos de governos ditatoriais, como aconteceu na Espanha e em Portugal. Agora perdem seus empregos, suas pequenas economias, pequenos negócios, aposentadorias, assistem até as escolas de seus filhos ficarem sem merenda e sem material escolar. O país foi atirado ao caos pela irresponsabilidade de governos que se curvaram aos especuladores.

Agora, os porta-vozes do capital fictício e da roda-viva do grande capital financeiro, se arrogam ao direito de cobrar responsabilidade dos gregos. Amanhã vão cobrar dos portugueses e depois dos espanhóis. E depois? Virão os italianos, os holandeses e todos os povos que esta crise atingir de forma mais aguda? Os gregos já perderam o que podiam. Um governo da esquerda socialista pode lhes devolver pelo menos a dignidade para reconstruírem seu país.

Mesmo fora da Zona do Euro a Inglaterra sustenta um padrão de vida médio igual ou maior ao dos países mais desenvolvidos da União Européia. Provavelmente se estivesse na Europa unificada os britânicos rivalizariam com os alemães como país de ponta. Por isso é importante acompanhar os passos da economia e da política inglesas.

Apesar da presença massiva do Estado do Bem-Estar Social, com investimentos fundamentais na Educação, Saúde, Transportes de massa, estradas, portos, aeroportos, coleta de lixo, etc, a Inglaterra de hoje tem seus problemas, que já se anunciam como graves para um país dos mais adiantados do mundo.

Foram séculos de acumulação, com base no saque das suas colônias, primeiro com a pirataria de Sir Francis Drake e companhia (com as bençãos da Corôa), depois com governos coloniais e seus sócios locais. Desenvolveram o transporte ferroviário, mas não o fariam sem o carvão. Incrementaram a navegação, mas não poderiam fazê-lo sem a madeira. Desenvolveram as primeiras máquinas a vapor e a primeira vaga expansionista de produção capitalista, mas não poderiam fazê-lo sem o capital inicial, o ouro. E de onde saíram essas matérias-primas¿

Suplantada pelos EUA como primeira potência internacional após a II Guerra Mundial, a Inglaterra teve que reconstruir seu país, sua infraestrutura e todo o seu parque industrial, enquanto os EUA ficaram livres para investir capitais também na reconstrução do Japão e da Europa Ocidental. A rivalidade histórica com a França e a eterna desconfiança da Alemanha como possível parceira econômica e política, entre outros motivos, empurrou a Grã-Bretanha para se associar com sua antiga colônia. Conta aí também a dependência dos investimentos norte-americanos no pós-guerra.

A partir da década de 90 do século XX esta aliança estratégica com os EUA estava consolidada, fazendo com que a Inglaterra se tornasse o país com mais investimentos de capital e maior parceira naquele país. Não por acaso, quando a crise estourou em 2008 nos EUA, a primeira nação a sentir as consequências foi a Inglaterra. Bancos e financeiras britânicos quebraram ou perderam boa parte de seu capital, baseado na especulação do capitalismo fictício.

Aliados também nas aventuras de guerra dos EUA no Iraque e no Afeganistão, os governantes e as elites britânicas endividaram ainda mais o país para manter tropas naqueles países. Nesta crise mais recente a Grã-Bretanha também ajudou a evitar a quebra da banca privada e seus yuppies milionários. Por isso, mesmo atuando em linha própria na Europa e como parceira fundamental dos EUA, a Inglaterra atravessa a turbulência da crise provocada pelo capital fictício dos bancos especuladores.

Já são 2,63 milhões de desempregados, sendo que desses, 1,6 milhão estavam procurando emprego até março deste ano. Pelos dados oficias do próprio governo existem 8 milhões de pessoas em serviços par-time (parcial, de algumas horas semanais). São 4,1 milhões trabalhando por conta própria. Também caíram as promoções, os salários e os bônus pagos nas empresas privadas.

Trabalhistas e Conservadores britânicos, tal como os democratas e republicanos nos EUA, se revezam no poder, como administradores fiéis do grande capital. Neste momento os conservadores dão as cartas, mas pouco diferem de seus antecessores. E nenhum deles pensa em questionar a ordem estabelecida, sustentando as idéias de austeridade para enfrentar a crise.

Londres é mesmo uma bela cidade e cada um pode extrair dela o que mais lhe interessar. Aos mais eruditos recomendo os museus, teatros, concertos e livrarias. Com alguma sorte é até possível ver a rainha saindo do Palácio. Aos consumistas tudo é possível, desde que tenham o bolso forrado. O Centro está tomado de lojas de departamentos e cadeias de magazines mais famosos. Eles assumiram a parte comercial da cidade em Oxford e Picadilly.

Aos que como eu preferem um misto de tudo a cidade vale pelos seus museus, parques muito bem cuidados, metrô pra todo lado (são 11 linhas) e os pubs. Esses bares ingleses são como os botecos para os cariocas. Ali o que se serve é cerveja na serpentina, o que para nós corresponde ao chopp, e petiscos que eles chamam de fish and chips. Nas mesas e balcões os britânicos e demais frequentadores batem papo furado, jogam conversa fora, falam de futebol e política e se escondem do frio da cidade.

Os britânicos são muito educados, se um deles esbarrar em você pede desculpas na hora. As pessoas não interferem na vida dos outros, mesmo com as figuras mais estranhas. Mas não deixam de ter seu lado bem humorado, até mesmo os guardas de rua. Em geral os londrinos são atenciosos com os turistas, gostam de dar informação e fazem perguntas também. Muitos aproveitam o tempo no metrô para ler livros e jornais. Um simples passeio pelo Hyde Park ou às margens do Rio Tâmisa revigora qualquer um, desde que o vento não traga aquele frio congelante.

O londrino ainda prefere morar em casa, grande parte delas geminadas, mas espaçosas. O tapete é objeto obrigatório, até para aquecer os ambientes, além da calefação com aparelhos elétricos ou lareiras. Pobreza não vi, pelo menos nos cantos por onde andei. Riqueza de sobra para uma parcela da população, com carros das marcas mais caras do mundo (porsche, audi, mercedes, jaguar, etc). As ruas sempre bem cuidadas e ainda decoradas com as velhas cabines vermelhas dos tradicionais telefones públicos.

O Museu de Ciências Naturais é espetacular, porque mostra a evolução da humanidade em diversas áreas, partindo do conhecimento acumulado na mecânica, na eletricidade, na matemática, no conhecimento da natureza (astronomia, astrologia), na informática, na extração e produção de novos materiais, na astronáutica, na navegação, etc. Todas as peças são demonstrativas, muitas acompanhadas de painéis interativos com explicações simples, servem de ilustração para se entender como a humanidade construiu todo um acúmulo de conhecimentos que lhes deram os instrumentos para os avanços que conquistamos. Na visita que fiz, numa segunda-feira, o que mais se via eram crianças de escolas. Um museu de causar impacto a qualquer um.

O Museu Britânico também impressiona, com peças de civilizações do mundo inteiro que os ingleses expropriaram indevidamente. Mas não deixa de ser um serviço bacana e gratuito, para quem quiser conhecer um pouco dos povos que deram origem a humanidade que conhecemos. A lamentar as poucas referências aos povos das Américas.

Londres não é só uma grande cidade, hoje é uma capital do Mundo. Tipos os mais variados circulam com desenvoltura pelas ruas, praças, centros comerciais e todos os cantos, onde se ouve os mais diversos idiomas. Espanhóis, portugueses, brasileiros, orientais de todas as etnias, indianos e paquistaneses, negros de diversos cantos da África, poloneses, russos, romenos… Gente do mundo inteiro adotou a cidade como seu lugar de moradia. Também pudera, de frio Londres só tem o clima, de resto é uma cidade acolhedora e movimentada o dia todo.

Mas nem tudo são flores na Inglaterra. Existem 600 mil trabalhadores em regime parcial de trabalho só em Londres. Este número cresce a cada dia, esse tipo de trabalhador não tem qualquer proteção social e ganha o insuficiente para se sustentar, exercendo funções numa média de 13 horas por semana. Em sua maioria são estrangeiros.

Enquanto muita gente se distrai apostando em todo tipo de maluquice (os ingleses gostam disso) ou tietando a rainha, o governo gasta 24 milhões de libras com um funicular. São as Olimpíadas… Não por acaso a popularidade do primeiro-ministro conservador, David Cameron, anda em baixa.

Portugal não é só Lisboa, mas Lisboa tem a força da capital, da cultura e da História lusitana. Como já escrevi, é a matriz de Salvador, que por sinal foi a primeira capital do Brasil Colônia. A baixa e a alta são a maior prova disso, como a capital baiana.

Aqui se respira cultura o tempo todo, seja pela História dos conquistadores e do Império português e suas colônias, seja pelas expressões da cultura popular. Um Império que muito teve a ver com a Igreja Católica, que caprichou em seus monumentos arquitetônicos. Pelo que se vê gastaram muito do nosso ouro para ornamentar altares. É bem verdade que o grosso do vil metal foi parar na Inglaterra, mas aqui dá para ter uma boa idéia de como nossas riquezas foram aplicadas.

O Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém são passeios obrigatórios. Para quem gosta de igrejas estão enterrados no Mosteiro os restos mortais de Vasco da Gama e de Luiz de Camões. A obra é grandiosa por dentro e por fora. Mais adiante a Torre de Belém é um mirante que dá um panorama da entrada fortificada da cidade.

O Castelo, na Alta, é outra construção que dá a idéia do sistema de defesa dos portugueses para a sua capital. Ainda assim não conseguiram segurar Napoleão, que entrou pela Espanha e conquistou o território luso. São inúmeras as praças muito largas de Lisboa. O casario da parte antiga da cidade, refeita depois do terremoto de 1755, que arrasou tudo, é deslumbrante. Prédios com 4 a 5 andares, todos com sacadas nas janelas e portas de entrada muito grandes, algumas que ainda conservam os azulejos originais.

Em cada esquina do Centro velho de Lisboa se descortina um cantinho agradável, com um café de mesas e cadeiras nas calçadas. Quiosques antigos também fazem a decoração das praças, em geral bem tratadas. Você pode cruzar uma ruela e se deparar com outra rua menor ainda, uma escadaria ou mesmo os trilhos do bonde (aqui é o “elétrico”), que eles levaram do Brasil.

A diferença é que em Lisboa os bondes são fechados, mas com janelas amplas, e bem conservados, integrados à malha de transportes coletivos da cidade, que funciona muito bem, obrigado. Com um bilhete integrado para 4 dias, no valor de 20 euros, pude viajar em todos os sistemas de transportes quantas vezes eu quis, até mesmo em atrações turísticas, como o elevador da Santa-Justa. Isso inclui trem, bonde, metrô, barca, plano-inclinado, trans (VLT) e ônibus comuns ou articulados. Em Lisboa sistema integrado de transporte é para beneficiar o passageiro. Existem também planos inclinados, com bondinhos conservados e graciosos, ligando alguns pontos da cidade alta à cidade baixa.

Transporte aqui, como de resto nas principais cidades da Europa, é para simplificar a vida das pessoas, que assim vão produzir e estudar melhor. Não é apenas mais uma fonte de lucro. Como em Barcelona, o comércio de rua dá de dez nos shoppings centers. Os negócios estão integrados à cidade, mas a cidade não foi arrendada aos negócios.

*Direto de Lisboa

A capital lusitana é uma cidade dividida como Salvador, em cidade alta e a baixa. Destruída por um terremoto em meados do século XVIII, Lisboa foi reconstruída por um povo que só tem uma saída: o mar. Não por acaso é uma terra de navegadores, acostumados a enfrentar todos os oceanos e continentes.

O Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém são construções tão antigas que impressionam a qualquer um. O Castelo é outra construção que marca a cidade alta. O Casario baixo com ladrilhos rebuscados dá um ar de cidade decorada, tranquila. O Rio Tejo faz a brisa soprar e refrescar o ambiente.

Aqui o tempo passa como em qualquer outro lugar, mas as ruas, praças e monumentos do império decadente deixaram marcas profundas, uma História de desbravadores tão corajosos quanto hospitaleiros. O Bonde de Lisboa carrega uma civilização pelas ruas sinuosas de Lisboa.

Esse país que vive de um passado de conquistas de terras d´além-mar, hoje é só uma sombra do que foi. Sua importância econômica é quase inexpressiva para a Europa Unificada. Sua cultura e os valores que assimilou de outros povos são desprezados pelas leis do mercado. Seus governantes parecem figuras patéticas, repetindo chavões de “austeridade” e corte dos gastos públicos.

A coragem dos governantes de outrora deu lugar à covardia dos tempos atuais. O povo, desesperançado com a crise econômica que se abate sobre o país, provocada pela ganância dos banqueiros, parece desanimado. Apesar de tudo, a cidade preserva sua vida, sua beleza e sua simplicidade.

Lisboa é bela e jeitosa. Vinho, azeite e bacalhau dão o tom culinário. Os doces de ovos de todos os tipos dão um toque especial ao paladar da culinária portuguesa. Os lusitanos, mesmo seriamente atingidos pela crise, continuam recebendo a todos com muita cordialidade.