Enquanto a mídia empresarial se ocupa em dar eco exagerado à dimensão da crise econômica no Brasil, visando acuar e enquadrar politicamente o governo Dilma, os brasileiros seguem em seu ritmo frenético na luta pela sobrevivência.

A recessão econômica, provocada pelas medidas adotadas pelo governo, também atingiu a arrecadação dos estados e municípios. A crise da Petrobras teve repercussão direta nos cofres do Rio e outras unidades da federação, que contam com os royalties do petróleo para custear suas despesas. O resultado é um atraso generalizado dos salários e benefícios de servidores públicos e fornecedores.

Para saldar os compromissos “sagrados” com credores da dívida pública brasileira, o novo ministro da Fazenda já anunciou reformas trabalhista e previdenciária. A previsão é que a idade mínima exigida para a aposentadoria da mulher pule de 60 para 65 anos. Assim, a Previdência poderá arrecadar mais e gastar menos, contrariando sua função precípua.

A rede de saúde pública está em crise faz tempo em todo o país, não por incompetência de gestão do Estado, como repetem os apresentadores de telejornais, mas porque estados e municípios não aplicam os 12% do orçamento (previstos na Constituição) no setor de saúde. Quando o fazem entregam a gestão de hospitais e postos a grupos terceirizados.

Assim como a saúde, o ensino público vai de mal a pior, apesar da Constituição brasileira vincular 18% da arrecadação federal de impostos às despesas com educação. Grande parte dos recursos aplicados na educação por estados e municípios vem do Fundef, Pnae e outros programas, cujas verbas são repassadas pelo governo federal. O que não se sabe é para onde vão os 25% dos orçamentos de cidades e estados, que obrigatoriamente deveriam ser destinados à educação.

Um péssimo exemplo para demonstrar o tamanho da crise é insistir que as compras de Natal nas lojas ficaram 1% abaixo do registrado no ano de 2014. Ora, ao mesmo tempo o volume de compras por internet subiu cerca de 20% no mesmo período.

Outro exemplo que desqualifica a grande mídia é a crítica ao reajuste do salário mínimo, que passará de R$ 788,00 para R$ 880,00 a partir de 1 de janeiro. Os jornais e TVs destacam que isso vai custar mais R$ 2,9 bilhões aos cofres públicos, por conta dos custos da Previdência com os novos valores de aposentadorias e pensões. Ora, nada menos que 48 milhões brasileiros sobrevivem com o salário mínimo.

O reajuste (11%) apenas recupera a perda inflacionária do último ano e é fundamental para manter o poder de compra do trabalhador. A mixaria paga à mais de 50% dos trabalhadores brasileiros vai contribuir e muito com o aumento da arrecadação de impostos, visto que no Brasil o que se taxa de verdade é o consumo. De acordo com o Dieese, o reajuste do mínimo deve injetar cerca de R$ 57 bilhões na economia em 2016.

No entanto, a mesma mídia se cala diante da previsão de gastos de R$ 277 bilhões só com juros e amortizações da dívida pública no ano que se inicia. Se há uma crítica correta a fazer é que o mínimo segue num patamar muito baixo (220 dólares) e está longe de garantir um padrão de vida digno para um trabalhador e sua família. Mas esta não interessa…

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Que há uma crise econômica no Brasil é inegável. O que é discutível é a sua origem. Afinal, é só o Brasil que está em crise? O que provocou esta crise? Até que ponto ela vai e que consequências tem?

Para a grande mídia, tendo as Organizações Globo como carro chefe, a atual crise é generalizada e teria sua origem no que difunde como “farra dos gastos públicos”, realizada ainda no primeiro mandato da presidente Dilma.

Então vejamos com o que e como Dilma gastou tanto. Estudo da Receita Federal aponta que de 2010 a 2015 o governo Dilma concedeu R$ 342 bilhões em desonerações de impostos, o que beneficiou a parcela mais rica da população.

Por meio da lei 13.043, sancionada em novembro de 2014, adotou-se alíquota zero do IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte) para remessas ao exterior no caso de receitas de fretes, afretamentos, aluguéis ou arrendamentos de embarcações, aeronaves ou motores, aluguel de contêiner, sobrestadia e serviços portuários. De 2011 a 2015 foram editadas ao menos 40 medidas provisórias, cujo volume total de desoneração ultrapassou os R$ 284 bilhões.

Além disso, a maior parcela dos recursos oriundos das manobras fiscais chamadas “pedaladas fiscais” (R$ 40 bi), alvo do inquérito do pedido de impeachment da presidente, foi destinada ao subsídio para as grandes empresas, por meio do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES, e empréstimos para empresas do agronegócio, através do Banco do Brasil. Desse total, apenas R$ 6 bilhões foram para programas sociais do governo.

Também nos seis primeiros anos dos dois mandatos da presidente Dilma o governo federal desembolsou 45% do Orçamento da União por ano para pagar juros e amortizações da dívida pública brasileira, cujos títulos estão majoritariamente nas mãos de bancos privados e financeiras.

O escândalo da Petrobras, apurado na Operação lava-jato, ainda nem chegou ao final, mas além de resultar na prisão de empreiteiros, doleiros e dirigentes da empresa, levou à paralisação de uma das maiores petrolíferas do mundo, responsável por 30% de todos os investimentos anuais no país.

Diante disso, qual foi a opção da presidente? Chamar para o Ministério da Fazenda um conhecido financista, cujas medidas foram todas no sentido de cortar investimentos públicos. Joaquim Levy foi adulado e elogiado pela grande mídia e suas medidas de “ajuste” aplaudidas. Resultado: cortes de investimentos do governo, aumento das tarifas de energia, desvalorização do real, queda na arrecadação de impostos, queda do PIB, desemprego, paralisia nos serviços públicos.

Levy saiu como inocente, afinal, segundo os analistas da grande mídia, foi o próprio governo Dilma que “não deixou” ele implementar suas medidas milagrosas, que recolocariam o país no caminho certo.

Em seu lugar assumiu Nelson Barbosa, que já tranquilizou os credores internacionais e anunciou como primeiras medidas as reformas trabalhista e previdenciária. Ou seja, quem vai pagar mais uma vez será o trabalhador, que terá menos direitos trabalhistas e que precisará trabalhar mais para se aposentar. Daqui em diante, os recursos para o Programa de moradia popular Minha Casa Minha Vida serão basicamente do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

E assim a grande mídia vai vendendo sua história da carochinha. A crise existe, sem dúvida, e foi provocada pelas opções conservadoras do governo Dilma, que só beneficiaram ao grande capital. Mas ela não é para todos. Ao contrário do que afirmam os analistas de plantão, que se revezam nos telejornais, a saída é taxar os 77 mil bilionários e seus negócios, para investir na infraestrutura necessária à maioria da população.

Há muito a política no Estado do Rio de Janeiro vem se transformando em prática mesquinha e mafiosa. Os antigos grupos econômicos do submundo do crime (bicheiros, contrabandistas, traficantes, etc) tomaram conta das instituições, num pacto que começou na década de 80, no final da ditadura militar.

Até então, o Rio (herdeiro da velha Guanabara e ex-capital do país) conservava a aura de cidade contestadora, de vanguarda, a frente de seu tempo. Isso ocorria pelo fato de ter sido capital, de concentrar escolas e universidades federais, a maior rede pública de saúde e toda uma camada de intelectuais e artistas que davam vida e luz em todas as áreas do pensamento, para se contrapor à mediocridade do cotidiano.

Não foi propriamente a fusão da antiga Guanabara com o então Estado do Rio que desmanchou a imagem progressista da ex-capital do país. O clientelismo político já existia, ele apenas tomou maior proporção com as velhas práticas comuns às cidades do antigo Estado do Rio, sobretudo Niterói, São Gonçalo, Campos, Nova Iguaçu, Caxias e outras.

A Zona Oeste – antiga Zona Rural da capital – é hoje um cenário desolador em todos os sentidos. Ali se instalaram gangues, conhecidas como milícias, ocupando e ditando as regras em todas as áreas, da política ao comércio. A Leopoldina também está tomada por grupos político-militares que suplantam em muito o modo autoritário dos antigos bicheiros.

Nas áreas mais abandonadas nasce, cresce e avanças as seitas neopentecostais, que difundem o que há de mais atrasado em termos religiosos, culturais e comportamentais. Essas seitas acabam sendo o refúgio para a tormenta sofrida por uma grande parcela da população, cujos bairros e favelas são dominados por traficantes e milicianos.

São nesses redutos populares, onde a esquerda pouco ou nada tem de atuação cotidiana, que apareceram e cresceram os vereadores e deputados que hoje tem assento cativo e reeleição garantida para as Câmaras de Vereadores e a ALERJ.

Hoje, quando vemos o protagonismo de figuras nefastas como Eduardo Cunha e Leonardo Piccianni na Câmara de Deputados, nos damos conta de que o atual Estado do Rio foi o laboratório de práticas políticas mafiosas, que se baseiam em chantagem, compra e venda de emendas e projetos, promiscuidade política com grandes empresas e outras formas desqualificadas de atuar. E tudo sob as bençãos de pastores eletrônicos, como o Bispo Macedo e Silas Malafaia.

Como o Rio de Janeiro conseguiu eleger e reeleger Sérgio Cabral(int) Como Cabral conseguiu indicar e eleger Pezão (int) Como aturamos Cesar Maia e seu herdeiro e hoje desafeto, Eduardo Paes, por dois mandatos (int)

Essa gente cometeu as maiores barbaridades com dinheiro público, através das obras faraônicas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Não há limites na desfaçatez e nos desmandos, seja na corrupção desenfreada em todas as áreas da administração pública, seja no favorecimento a grandes grupos econômicos no Estado e nos municípios.

O resultado é que os serviços públicos essenciais estão largados às traças, como a rede pública de educação e a rede de saúde. O transporte de massa é comandado pela Fetranspor, a Supervia, as Barcas SA e o Metro Rio, todos grupos privados que oferecem péssimos serviços, enquanto recebem subvenções, isenções e outras regalias.

A Saúde foi entregue a 12 grupos de Organizações Sociais, que drenam diariamente milhões em contratos que não são fiscalizados, enquanto as UPAs, clínicas e hospitais públicos não têm sequer medicamentos a oferecer aos pacientes. Morre-se de infecção hospitalar e outras mazelas medievais nos hospitais do Rio.

A Educação só não foi totalmente entregue a grupos privados porque ainda não apareceu quem apresentasse um projeto mirabolante de gestão privada das escolas. Mas as salas de aula, as instalações e a falta de material básico provam que nossas crianças e jovens estão vivendo uma ilusão de ensino.

A Segurança pública está entregue a uma polícia corrupta, violentíssima, envolvida com todo tipo de crime e negócio ilícito. Os polícias honestos formam uma “banda boa”, porque a maioria age nas ruas e comunidades como gangue, igualando-se aos traficantes varejistas de drogas.

Se algum grupo político que tenha um mínimo de compromisso com seu povo chegar ao governo do Rio nos próximos anos e tiver força no legislativo da capital e do Estado, terá muito trabalho para desbaratar as quadrilhas que estão se refestelando em ganhos. Mais uma vez o que pode definir é o poder das ruas. A força está onde sempre esteve: no povo organizado.

Pouco importam as estimativas dos organizadores ou os cálculos da PM quanto ao número de pessoas que participaram das manifestações de domingo (13/12) e de quarta-feira (16/12). Aliás, não se entende como numa sociedade dita democrática ainda se atribui à polícia contabilizar o número de pessoas em atos públicos.

O que importa é que tanto as manifestações da direita quanto as dos que são contra o impeachment não tiveram nem o público e nem o ibope que esperavam seus organizadores. O que isso pode significar? Para a direita e para os governistas absolutamente nada, porque eles continuam cumprindo seu papel, seja de garotos-propaganda das ideias mais reacionárias, seja dos amigos da cúpula palaciana da Dilma.

No plano político institucional, na corte de Brasília, os três poderes se acotovelam como que a empurrar a responsabilidade pela crise um para o outro. O Executivo trabalha nos bastidores para restabelecer maioria favorável ao Planalto no PMDB e envia ao STF um pedido de afastamento de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara.

O Legislativo entra em polvorosa com a expectativa de que pelo menos 50 parlamentares federais estejam entre os acusados de tirar casquinhas da Petrobras, escândalo apurado pela operação Lava-Jato. Atingido indiretamente pelas “catilinárias”, a banda governista do PMDB passa a atacar o Presidente do partido, o vice-presidente da República Michel Temer.

Renam Calheiros e os ministros peemedebistas querem se preservar e sabem que, para isso, precisam jurar fidelidade a Dilma. Temer, por sua vez, sabe que Dilma está bastante fragilizada, porque não conta com maioria no Congresso e nem o apoio das ruas, muito ao contrário. Assim, mesmo que sua traição seja própria dos piores carreiristas, o vice já articula com a oposição, preparando-se para um eventual afastamento de Dilma.

De sua parte a alta corte do Judiciário, o STF, dá demonstrações de dubiedade. Autoriza as buscas e apreensões das “catilinárias” contra líderes do PMDB, mas deve reconhecer o rito utilizado por Cunha para encaminhar o processo de impeachment de Dilma na Câmara*. De quebra ainda deixa para fevereiro a apreciação do pedido de afastamento de Cunha da Presidência da Câmara dos Deputados.

Enquanto isso, aqui em baixo, entre os simples mortais, os números do IBGE vão revelando a dura realidade da política econômica do “ajuste fiscal”, promovida por Joaquim Levy, aplaudida e tida como necessária pela mídia empresarial. Novembro de 2016 tem o maior número de desempregados dos últimos anos.

Se há algo que as manifestações de 13 e 16 de dezembro provaram é que a grande massa do povo brasileiro já entendeu um ponto fundamental de toda esta luta política: o que está em disputa é qual facção vai comandar o tráfico de medidas antipopulares. Seja qual for o setor vitorioso entre estes dois lados da mesma moeda, ao povo não caberá nenhuma consulta sobre os destinos do país.

  • Quando escrevi este post a votação sobre o rito do processo de impeachment não havia se encerrado. O Supremo rejeitou as manobras de Cunha, mas adiou a apreciação do pedido de afastamento do Presidente da Câmara.

Um conjunto de organizações e partidos, todos eles vinculados direta ou indiretamente ao governo, está convocando manifestações contra o impeachment para o dia 16 de dezembro. É um direito que assiste a quem quer que seja convocar mobilização em defesa do governo, assim como é direito da direita convocar suas manifestações de rua.

Não faço coro em nada com a velha direita brasileira, agora com nova roupagem, que pretende interromper o mandato da Presidente Dilma. Não por qualquer firula jurídica, até porque os argumentos pró e contra não são técnicos, são políticos. Não sou contra porque acredito na “legalidade” democrática, até porque nada disso foi suficiente para interromper o governo Collor.

Não sou contra o impeachment porque defendo Dilma e seu governo, mas porque é evidente que a resultante deste processo será um governo ainda mais conservador. Digo ainda mais conservador porque considero o que está aí um governo de centro, com práticas e políticas que não alteram em nada a raiz dos principais problemas vividos pela maioria do nosso povo.

Um governo que não fez e não fará reforma agrária, reforma urbana, reforma tributária para taxar os mais ricos, reforma educacional para fortalecer o ensino público, reforma das polícias, reforma da mídia e do judiciário, que não tem um projeto para oferecer transportes de massa de qualidade, questões essenciais para alterar a realidade brasileira.

Portanto, se repudio veementemente os velhos golpistas de direita que gritam “Fora, Dilma!”, também não tenho motivo algum para sair às ruas e pedir “Fica, Dilma!”.

Confesso que é uma sensação esquisita, mas é como me sinto neste momento: órfão de uma proposta política de esquerda, capaz de galvanizar corações mentes para um projeto de nação que inclua de verdade a maioria de nosso povo.

Um palpite: a série de mandatos de busca e apreensão autorizados pelo ministro do STF Teori Zsavaski, cumpridos pela PF em alvos do PMDB em todo o Brasil, inclusive em Alagoas (terra de Renan Calheiros), pode provocar até a unificação do partido contra Dilma e precipitar ainda mais o processo de impeachment.

A baixa adesão às manifestações pró-impeachment da Presidente Dilma, no dia 13 de dezembro, pode ser atribuída a diversos fatores. Calor demais na maioria das capitais, época de Natal, a confirmação da abertura do processo de cassação do mandato de Dilma pela Câmara dos Deputados, etc. Mas há outros fatores que devem ser levados em conta para explicar o refluxo das mobilizações da direita.

As dezenas ou até centenas de milhares de pessoas, esmagadoramente de classe média alta, que tomaram as ruas nas manifestações passadas, parecem acomodadas e talvez uma parte delas decepcionadas com os promotores da causa. Com o tempo ficou evidente que grupos fascistóides como MBL, Vem Pra Rua e outras lideranças são sócias do que há de mais atrasado e retrógrado da sociedade brasileira, tendo como inspiração os golpistas de 1964.

Isso não alivia em nada a situação dos que pretendem defender a Presidente. Dilma , ao contrário de outros dirigentes da América Latina, é um prato sem sal, movido a discursos prontos e limitada a ações palacianas. A lógica de sua turma mais próxima é a política de bastidores, não demonstrando tino para produzir fatos de impacto e muito menos para mobilizar os movimentos sociais a seu favor.

Cristina Kirschner, cujo candidato foi derrotado nas eleições presidenciais, tratou de convocar seu povo e realizou uma das maiores manifestações na Praça de Maio, alertando aos argentinos para que se mantenham atentos e mobilizados contra possíveis ataques do novo governo conservador. Na Venezuela, o Presidente Maduro foi mais longe: demitiu todos os ministros e convocou os movimentos populares para uma avaliação das eleições parlamentares que deram a maioria à oposição.

E Dilma? E o PT? Continuam presos a uma política econômica recessiva, afastados da realidade popular, comprometidos que estão com a administração do caos. Por essas e outras as manifestações convocadas para 16 de dezembro também devem levar pouca gente às ruas, talvez até menos que as de 13 de dezembro.

Quem, em sã consciência, vai gritar “Fica, Dilma!”? É evidente que a inspiração do movimento pró-impeachment é claramente de direita, mas o governo Dilma II é um desastre, não consegue sair do atoleiro e nem convencer a parcela mais progressista da população.

Atoleiro que Dilma, sua turma palaciana e seus aliados produziram, impondo uma política econômica recessiva, voltada para cortar investimentos sociais e manter o pagamento dos serviços da dívida pública (interna e externa). Destaque para o banqueiro Joaquim Levy, artífice do “ajuste fiscal”, aplaudido e preservado pela grande mídia empresarial.

Neste cenário, Eduardo Cunha é apenas a expressão do que há de pior na política nacional, uma escória que começou com o Centrão na era FHC, passou a ser “Base Aliada” no governo Lula e agora é a chusma que sustenta Cunha na Presidência da Câmara dos Deputados. Ocorre que essa gente come tanto na mão que resolve comer a mão de quem a sustenta.

Esses desqualificados chegaram a Brasília porque seu fisiologismo foi aceito com entusiasmo pela maioria dos partidos durante décadas. Sem ideologia, projetos para o país e sem recursos, essas legendas serviram de incubadoras de figuras grotescas, que rezam, gritam, batem na mesa, xingam e vão às vias de fato dentro do Congresso Nacional.

É neste quadro que assistimos ao cenário de manobras e rasteiras políticas no Congresso, expedientes tão comuns na vida política nacional, mas que ainda causam repúdio a quem não está acostumado. Enquanto isso, o pau continua quebrando contra estudantes, sem-terra, sem-teto, setores que se organizam para reivindicar, e todos os dias no lombo dos que precisam de transporte, segurança, atendimento de saúde, educação e saneamento básico.

O Brasil de verdade, da maioria negra, mestiça e pobre, dos guetos, subúrbios, periferias e favelas, continua apartado e enquanto ele não entrar em cena não haverá mudança para valer.

O IBGE acaba de divulgar pesquisa sobre a Saúde no Brasil, dando conta que em 2013, como vem se demonstrando em anos anteriores, os gastos privados são superiores aos gastos públicos no setor. Ou seja, mais de 50% de tudo que se gasta no país com Saúde é pago com recursos dos cidadãos, enquanto o governo, que investe apenas 8% do PIB, gasta menos.

Diz a nota de divulgação do IBGE:

“Em 2013, a despesa per capita com consumo de bens e serviços de saúde de famílias e instituições sem fins de lucro a serviço das famílias foi de R$ 1.162,14. No mesmo ano, a despesa per capita com consumo do governo foi de R$ 946,21. Na despesa de consumo do governo, o principal item é a saúde pública, que variou de 2,7% do PIB em 2010 (R$ 106,0 bilhões) a 2,8% em 2013 (R$ 149,9 bilhões). A despesa do governo com serviços de saúde privados foi de 0,6% do PIB (R$ 31,8 bilhões) em 2013 e as despesas com medicamentos para distribuição gratuita foi de 0,2% (R$ 8,4 bilhões) em 2013.”

Gastos com remoção, medicamentos, consultas, internações, etc, estão sendo bancados pela parcela remediada dos brasileiros, que correm para os planos de saúde privados. Enquanto isso, explodem os escândalos de corrupção, envolvendo empresas públicas e privadas do setor, essas mesmas que consomem quase R$ 32 bilhões dos cofres públicos.

No Recife uma investigação da Polícia Federal apontou desvio de dinheiro público e direcionamento em licitações na Hemobras, Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia. Enquanto os agentes chegavam para cumprir mandados de busca e apreensão, choveu maços de R$ 50,00 pela janela de um dos endereços visados.

Por enquanto o levantamento da polícia aponta um montante de R$ 20 milhões nas atividades criminosas. Na casa do diretor da Hemobras, foram encontrados dezenas de quadros. Não se tratava propriamente de um colecionador de obras de arte, mas provavelmente um esquema para lavagem do dinheiro adquirido nas operações ilícitas.

No Rio, a Prefeitura tem contratos com as chamadas Organizações Sociais (que anunciam em seus estatutos não terem “fins lucrativos”), para que elas administrem unidades de saúde do município. Uma delas, a Biotech, desviou mais de R$ 48 milhões na administração dos hospitais Pedro II e Ronaldo Gazolla.

Os proprietários da empresa já são conhecidos no ramo, são suspeitos de terem praticado os mesmos delitos na época do então governador, Moreira Franco. Enquanto falta de tudo nos hospitais públicos do Rio, os irmãos Pellegrini têm fazenda, imóveis, haras e carros de luxo na garagem.

Quem nada de braçada nesse mar-de-lama é o mosquito da dengue, que voltou com tudo ao país em 1986 e veio para ficar. Além da ignorância de grande parte da população, o descaso das autoridades das esferas federal, estaduais e municipais são os grandes aliados do Aedes Egypt. O bicho gostou tanto daqui que agora, além da dengue, está transmitindo também a chicungunya e a zika.

A crise é tão grave que já se associa mais de 1.800 casos de microcefalia em recém-nascidos aos efeitos da zika, até aqui subestimados pelas nossas autoridades sanitárias. Será que vamos ter que ressuscitar Oswaldo Cruz?

Diante dos “Mexericos da Candinha” em que transformaram a política nacional, a resposta mais sincera que encontrei para a Carta de Temer a Dilma:

Os inconsequentes que incentivam abertamente a violência policial como forma de combater a bandidagem o fazem não só ao arrepio da Lei, mas também por cultivarem a intolerância e o preconceito. A justificativa dessas pessoas – que adoram tipos como Jair Bolsonaro – é que a barbárie da bandidagem deve ser combatida com a mesma moeda pelo Estado.

Debater o problema somente a partir de números ou exemplos, sem analisá-los, é simplesmente mascarar a ideologia da exclusão social. Legitimar o Estado como agente do assassinato de jovens negros, de periferias e favelas, com ou sem ficha criminal é carimbar na juventude pobre e excluída do Brasil o selo de culpada pela violência.

A execução de cinco rapazes do subúrbio do Rio, que voltavam para casa num veículo, por policiais militares, é mais uma demonstração da barbárie a que chegamos, particularmente no Rio de Janeiro. Seja qual for a justificativa, agentes do Estado não podem desferir mais de cem tiros contra quem quer que seja em nenhuma circunstância.

O mais grave é que esta ideologia da repressão e da morte à juventude pobre respinga sobre os próprios executores, visto que aumenta o número de PM mortos no Rio e Grande Rio. Ou seja, a violência desenfreada gera mais violência, numa escalada de assassinatos sem fim.

A desculpa do “imexível” secretário de segurança do Rio, alegando que o problema é do caráter dos policiais envolvidos no caso, demonstra que a cúpula da segurança pública e o governo do Rio de Janeiro deixam de assumir suas responsabilidades, preferindo jogar as “falhas” de sua política nas costas dos policiais.

O processo de recrutamento de pessoal é o espelho do objetivo da política de segurança pública no Estado. A formação exigida para um agente da lei, que terá a responsabilidade de andar armado e decidir se deve ou não atirar, é mínima. Os salários são irrisórios, o que empurra todo este contingente para fazer os chamados “bicos” de segurança privada nas horas de folga. E o mais grave, o discurso oficial é de que “estamos numa guerra”. Ora, uma guerra é o palco onde se admite as mais brutais demonstrações de força, inclusive a tortura e a execução.

Ocorre que a violência policial não se abate somente contra os que, em tese, poderiam ser “confundidos” com marginais. A PM de São Paulo, também conhecida por sua atuação homicida (vide a Rota), empreende uma ofensiva contra os estudantes que ocupam escolas públicas do estado, criticando a política de reorganização do ensino, anunciada pelo governador Alckmin. Sem mandato judicial, os policiais invadem as escolas, agridem e detêm menores de idade, em plena luz do dia.

Do jeito que a escalada de violência policial vai, com verdadeiros robocops armados até os dentes, estamos condenando parcela da juventude ao extermínio. Esta política de culto à violência trará consequências ainda mais graves para a sociedade brasileira, uma das mais violentas e que registra o maior número de mortes por armas de fogo no mundo.

A militarização da polícia – durante a ditadura militar – criou verdadeiros corpos de força, que se colocam e agem contra e acima da lei, a mando de governantes e do poder econômico no campo e nas cidades. Não há outra saída a não ser o fim das PM e a reorganização das forças de segurança, a partir de uma única polícia civil, com formação superior e técnico-científica, capaz de desbaratar a marginalidade com eficiência, sem a necessidade de cercos, blitzen e incursões que geram mortes e feridos.