Na quinta-feira, 30 de julho, a Folha de SP trouxe em sua edição um caderno especial intitulado “O Brasil que dá certo – Agronegócio”. A foto de capa do caderno é até bonita, mas chocante para qualquer um que tenha alguma informação sobre agricultura: um caminho de folhas e grama, em meio a duas colunas de troncos de eucaliptos. Trata-se do que os especialistas chamam de “floresta morta”. Nela não há vida.

Numa linguagem absolutamente ininteligível para a maioria da população, sobretudo o homem do campo, os dados são apresentados como impressionantes. Segundo a Folha, agora o setor “concentra esforços no uso da tecnologia, na gestão da propriedade e na agregação de valor”, seja lá o que isso queira dizer.

O gigantismo do setor é comemorado em tom triunfal. Afinal, estamos entre os maiores exportadores de açúcar, café, suco de laranja, soja, carne bovina, carne de frango, etanol, milho e carne suína para a China e os Estados Unidos. A soja, apresentada como carro-chefe das exportações e exemplo do agronegócio, já alcança 32 milhões de hectares de área plantada (16% das receitas do país nas exportações).

Em resumo, somos o país das commodities. O problema é que os valores destes produtos estão caindo vertiginosamente no mercado internacional. No entanto, apesar do triunfalismo expresso nas matérias, pouco ou nada se diz a respeito do aproveitamento da produção para o mercado interno e muito menos sobre o número de empregos gerados pelo agronegócio.

Tão pouco se imprimiu uma palavra em oito páginas sobre os gastos com água potável e energia, consumidos para a produção das indústrias do campo. O caderno “especial” na verdade é uma publicação bancada pela BASF e a Mitsubishi, multinacionais interessadas em agregar seus produtos a este setor do business.

O agronegócio como motor da economia, ao contrário de significar avanço, representa um enorme atraso para o Brasil. Mostra que em 500 anos seguimos como país agro exportador, quando muito produtor de matérias-primas para abastecer os mercados internacionais.

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DESTAQUE1

Quatro pessoas me influenciaram diretamente na carreira de jornalista. Um deles, sem dúvida, foi o meu querido amigo Vito Gianotti. Muita gente conheceu o Vito, mas eu tive o prazer de conviver com ele.

Foi lá pelos idos do início dos anos 90. Tinha acabado de chegar a São Paulo para trabalhar na CUT Regional SP, uma espécie de CUT da capital, que tinha organização nas diversas áreas da cidade.

O governo Collor já dava sinais de fragilidade, em meio a uma chuva de denúncias. A CUT Nacional, com aquela linha água de flor de laranjeira, não queria radicalizar. Depois do confisco da poupança e de tantas outras presepadas, Collor estava isolado.

Ao contrário da Nacional, a CUT Regional São Paulo adotou uma linha de botar o bloco na rua. Com caminhões de som nas praças, os microfones eram abertos e o povão mandava ver. Vito delirava e a cada semana chegava com a ideia de uma nova edição do jornal, sempre com manchetes em letras garrafais.

Ele me passava a proposta, eu redigia, ele revisava e eu tocava a produção. Chegamos a rodar 100 mil exemplares numa edição. O povo das subsedes ía buscar o material na Praça da Sé, quartel general da campanha do Fora Collor em São Paulo.

Nas horas vagas Vito me chamava para um café no balcão, num bar nas proximidades. Era quando podíamos conversar, trocar impressões sobre aquele momento. E ele repetia: “Peão não tem tempo nem vocabulário para ler coisa complicada. Tem que ser curto e grosso”.

Certo dia me chamou para ir até o Mercado Municipal, no Parque Dom Pedro. É lá que se saboreia o melhor sanduíche de mortadela de São Paulo (o melhor que comi até hoje).

Lembro bem dos debates que precederam o IV Congresso da CUT (1991), quando a maioria do PT impôs seu projeto água com açúcar para a Central. Vito não perdia a oportunidade para denunciar em alto e bom tom, com aquele seu sotaque de carcamano: “O que o Bargas (Osvaldo – ex-diretor da CUT Nacional) propõe é desideologizar a CUT. A CUT tem que ter lado: o lado do trabalhador, caralho!”.

Mais do que trabalhar com ele naquele início da década de 90, foi um imenso prazer conhecer o Vito Gianotti. E eu que pensei que ele ficaria para trás. Certo dia, depois de um tempo de volta ao Rio, dou de cara com aquela figura inconfundível, ladeado pela minha amiga de faculdade, Cláudia Santiago. Estavam felizes, imagem que sempre me passaram.

De lá para cá nos esbarramos na cidade, em debates ou mesmo quando ele aparecia no Programa Boca Livre. Sorrindo, dizia meu nome com aquele sotaque carregado, sempre precedido de um “Porra!”. Aos amigos repetia: “Sou um escritor de pequenos livros”. Uma alcunha modesta para quem dedicou toda a vida ao movimento operário.

Talvez o sonho de uma rede de comunicação que dispute com a mídia patronal no Brasil ainda esteja longe. Mas não se pode dizer que ele não tentou. Foi um incansável batalhador pelas causas populares.

Vito foi o maior agitador contra a grande mídia que conheci, sobretudo quando pegava as primeiras páginas dos jornalões para exemplificar para as plateias: “Isso é o que o patrão quer que vocês repitam”, dizia.

Vito tinha luz própria. Para mim foi o exemplo mais comovente de que quando um operário adquire consciência de classe é capaz de remover qualquer obstáculo em sua luta. Quem como eu teve o prazer de conviver um pouco com o Vito não esquece a sua imagem iluminada.

Vamos ver se dá para entender:

1) O governo Dilma II, tendo a frente o chicago boy Joaquim Levy, promoveu o maior arrocho das contas públicas dos últimos anos, com cortes de 70 bi nos serviços públicos e as mais altas taxas de juros do Planeta;

2) A ideia era economizar o máximo, fazer um superávit primário de 1,1% do PIB, visando arcar com o pagamento dos juros e amortizações aos credores da dívida pública (interna e externa);

3) Só que o arrocho foi tão violento que causou redução da produção, desemprego e inflação. Com isso, como já era de se esperar, houve queda brutal também da arrecadação de impostos, tornando impossível ao governo arcar com a meta que ele impôs ou a ele foi imposta;

4) Apesar de reconhecer que sua política econômica não deu certo, o governo reduziu a tal meta fiscal para 0,15% do PIB, mas mantém a política de arrocho, anunciando uma nova tesourada de 8,6 bilhões nos investimentos públicos;

5) É evidente que vai sobrar para o funcionalismo público, que pede apenas o reajuste de suas perdas salariais e de benefícios, e para a população que necessita dos serviços públicos.

Parabéns, Dilma, Levy e Miriam Leitão (aquela que diz que o Brasil tem que fazer o dever de casa). E parabéns, com louvor aos “especialistas” de plantão, que repetem todos os dias na mídia que o remédio é amargo, mas que Levy está tentando fazer o melhor para o país.

Cavalo de Tróia

21/07/2015

Nestes dias atribulados de julho me vejo compelido a opinar sobre a crise da União Européia, que atinge a Grécia. Primo pobre da Zona do Euro, a Grécia foi governada por toda sorte de gente desonesta e comprometida com os grandes magnatas, incluindo os famosos “armadores”, cuja palavra em português é bem elucidativa.

A crise econômica levou o governo grego em 2010, então comandado pelo Pasok – uma espécie de PT helênico – a fazer um acordo mentiroso com a troika (cúpula da União Européia, FMI e BCE). De um lado o governo maquiou as contas do país e do outro os representantes do capital financeiro fingiram que estava tudo bem. Afinal, aos amigos tudo, aos inimigos a lei.

Quando o governo do Pasok se desmoralizou, depois de uma série de medidas que arrasaram o país (corte de aposentadorias, demissões de servidores, desemprego em massa), o povo grego foi às ruas e derrotou as tradicionais forças políticas. Foi na esteira desta mobilização nacional que o Sryza apareceu e cresceu, como uma força política de esquerda.

O compromisso eleitoral do Sryza, que venceu as eleições do início deste ano, era lutar por uma renegociação que garantisse a dignidade do povo grego e a capacidade do país de retomar seu crescimento. O primeiro-ministro Tsiparas foi fiel aos propósitos de sua campanha e atuou de todas as formas para obter melhores condições possíveis junto à troika.

O referendo do início de julho foi uma demonstração de força do governo, mas infelizmente a crise das dívidas não se resolve mais no âmbito das nações. A União Européia é um bloco econômico, não é um agrupamento de países. Seus dirigentes, em esmagadora maioria, não querem saber do bem-estar de seus povos, mas de assegurar os interesses do sistema financeiro.

Hoje leio críticas duríssimas ao governo grego, mas duvido muito da sinceridade de seus autores, particularmente de grupos esquerdistas que teimam em colocar sua vontade acima da realidade. É fácil atuar nas crises como franco-atirador. Afinal, esse tipo de grupamento político nada tem a perder. Duro é apresentar uma solução factível, sem ser o tradicional discurso revolucionário que serve para qualquer situação, país e momento.

Alexis Tsiparas reconheceu publicamente a inexequibilidade do acordo, mas entendeu claramente os limites de suas ações dentro da realidade concreta que o cerca. Sua atitude foi honesta, transparente e corajosa, reconhecida até mesmo por alguns dos opositores ao acordo com a troika, como o ex-ministro das finanças Yanis Varoufakis.

Este acordo pode apenas adiar o problema, visto que o grosso dos recursos direcionados à Grécia servirá apenas para cobrir o rombo dos bancos credores do país. Por outro lado ficou patente o papel nefasto da União Européia e de seus principais dirigentes (Merkel e Holande), representantes do capital financeiro.

A crise econômica que atingiu a Zona do Euro, a partir da crise da bolha imobiliária nos EUA, está longe de terminar. As pequenas recuperações aqui e acolá não vão aplastar as grandes diferenças (como uma moeda supervalorizada) entre as economias mais poderosas e as mais frágeis, das quais se exige tudo para recompensar os maiores bancos.

O neoliberalismo europeu pode esfacelar a originalidade dos países do velho continente, mas o preço a pagar será alto, tão alto quanto o avanço das forças de oposição ao projeto da União Européia nos próximos anos. O problema é que há forças à esquerda, mas também à direita, cuja receita beira ao nazi-fascismo, o que pode gerar um verdadeiro Cavalo de Tróia.

Depois do vazamento do depoimento de Julio Camargo à Justiça Federal, que compromete Eduardo Cunha, a vida política do país entrou definitivamente em rota de colisão, pelo menos até que os jogadores entrem em acordo e tudo volte à “normalidade”. Acuado e derrotado até aqui por Cunha e Calheiros, o Governo Dilma II decidiu contra atacar com a mesma moeda.

O chantagista sempre tem um arquivo com dados desfavoráveis ao chantageado. Foi assim que Cunha montou sua claque na Câmara dos Deputados, formada de parlamentares dos diversos partidos da oposição e da situação, gente do chamado “baixo clero” da política nacional.

Ocorre que quando a ambição e as ações de Cunha começaram a incomodar acima do suportável, o feitiço virou contra o feiticeiro. Até então, o vazamento de depoimentos de lobistas, doleiros e empreiteiros que apelaram à delação premiada atingia basicamente ao governo.

Nesta maré favorável Cunha nadava de braçada, mas sabia que ele e o Presidente do Senado também estavam sendo investigados na Lava Jato. Desta forma, usaram suas posições estratégicas o quanto puderam para desgastar e chantagear o governo Dilma, aprovando o que lhes convinha no Congresso.

Mexeram até com o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso. Ocorre que eles são peças-chave na estrutura de comando dos inquéritos da Lava-Jato. Portanto, sabem de tudo e um pouco mais sobre o que e quem está sendo investigado no mar de lama da Petrobras.

O encontro de Cardoso, Lewandowski (Presidente do STF) e Dilma em Portugal não foi propriamente um pique-nique. Ali certamente se desenhou a contraofensiva do governo para enquadrar Cunha e Calheiros. De tal forma que eles têm duas alternativas: ou baixam a bola e passam a rezar na cartilha do Planalto ou vão para a oposição.

A apreensão de dinheiro e automóveis de luxo do senador Collor de Mello parece ter sido um primeiro recado, como quem diz “sabemos de tudo e não vamos aliviar ninguém”.

Calheiros, raposa felpuda no cenário político nacional, preferiu até aqui fazer um jogo de morde e sopra na Presidência do Senado. Certamente ele entendeu o recado do Planalto e não será novidade se decidir moderar sua conduta e se alinhar ao governo.

Já Cunha, que adotou um estilo mais agressivo e de franco atirador, sabe que pisou fundo no acelerador e que pode ter seus dias contados a frente da Presidência da Câmara, caso as denúncias contra ele tenham mais volume na mídia.

Neste cenário o PSDB deve adotar uma linha mais cautelosa e se afastar dos dois, para evitar contaminação política. Já o DEM, mais agressivo, talvez decida comprar as dores de Cunha, pensando na formação de um bloco de oposição mais forte na Câmara.

Pode ser que o recesso parlamentar, que começa em meados de julho, sirva para que os diversos envolvidos em toda esta confusão cheguem a um acordo político de bastidores, até a volta das atividades do Congresso Nacional. É uma hipótese bastante provável. Assim, a carruagem da Operação Lava-Jato tomaria um rumo mais suave, levando para o sacrifício os bagrinhos, deixando os tubarões em paz.

Mas também não é descartável a possibilidade de uma crise política de maior monta, com tiroteio público entre Cunha e o Planalto, desgastando ainda mais o governo. Este cálculo quem deve fazer é o atual Presidente da Câmara, principal alvo das recentes denúncias na Operação Lava-Jato.

Vira e mexe assisto, leio ou ouço os comentários de analistas femininas e me assusto. Nada mais caricato do que uma mulher do “mercado”. É impressionante como essas pessoas conseguem ser tão frias em suas considerações e conclusões, assumindo o papel que sempre coube aos seus colegas do clube do bolinha.

Talvez alguns leitores considerem estas linhas um tanto machistas, mas prefiro assumir as consequências do que escrevo a me esquivar com adjetivos cheirosos para definir algo que incomoda.

E incomoda não pelo fato de serem mulheres pretensamente realizadas, disputando espaço com homens numa sociedade altamente machista. Ao contrário, o que incomoda é a perda de algo que difere as mulheres dos homens, ou seja, a sensibilidade no trato das pessoas e das coisas da vida.

O Capital e o capitalismo são criações típicas do mundo masculino. Sua afirmação nos últimos trezentos anos imprimiu um ritmo alucinante, submetendo os seres humanos a um estado deplorável, quando esconde sob o pagamento do salário a armadilha da própria exploração.

É verdade que em outras sociedades que antecederam ao capitalismo o papel da mulher sempre foi a de completa submissão aos homens. É verdade que nas últimas décadas elas lutaram e conquistaram direitos. Mas também é verdade que o capitalismo, em sua irracionalidade feroz, incorpora mulheres e até menores de idade à sua máquina de moer carne.

Mas assim como a lógica do Capital se alimenta da alienação do trabalhador, sua perversidade decompõe e destrói até mesmo o senso de maternidade, compaixão e a sensibilidade feminina.

Desde que a senhora Tatcher chegou ao poder praticamente todos os exemplos de governantes femininas que desfilaram mundo afora, com raras exceções, são patéticos. Não só por encarnarem a figura do governante, do vestir ao gesticular e falar, mas justamente por matarem a identidade feminina.

O discurso em defesa do “mercado”, da austeridade a qualquer preço, hoje encarnado pela senhora Merkel, passa a nítida impressão de que essa mulher não frequentou parques, nunca recebeu flores, não cozinhou para seus filhos, não fez pique-nique, não dançou de rosto colado ou mesmo não se emociona com a dor de uma mãe que mendiga pelas ruas de Atenas.

A mesma fórmula está presente na artificialidade dos discursos de Dilma Rousseff, que insiste em ser chama de Presidenta. Por que? Qual a diferença consistente de sua política para a de seus pares? Que toque feminino tem este governo, que assume a política da austeridade e do garrote sobre a sociedade brasileira?

Vejo todos os dias os comentários de uma economista, que define o mundo na fórmula “gastos públicos = desperdício”, e ainda recomenda há décadas que as nações façam o “dever de casa”. Foi numa dessas que seus conceitos, coincidentemente seguidos por governantes argentinos, quebraram aquele país. E até o seu patrocinador, um banco de investimentos, quebrou e deixou investidores ao Deus dará.

Essas mulheres do “mercado” renunciaram ou nunca souberam de fato o que é a luta feminina para driblar as agruras do dia-a-dia da mulher comum. A começar pelos salários menores que seus colegas do sexo oposto, mesmo cumprindo as mesmas funções e jornadas de trabalho.

Elas ignoram que as mães pobres são capazes até de enganar o estômago de seus filhos ou de arrumar um bico para criar seus meninos, mas jamais desistirão de manda-los à escola. O sentimento feminino de sacrifício pelo seu semelhante é o que há de mais comovente na humanidade. Isso se dá pela ligação umbilical estabelecida pela maternidade e segue pela vida toda.

A sociedade do Capital e do “mercado”, que deforma os homens e os transforma em seres mais brutos do que as exigências de sua própria natureza, é ainda mais trágica para as mulheres. Muitas chegam a se prostituir para garantir o pão de seus filhos, mas o fazem por uma causa justa. Estão no “mercado” apenas para sobreviver.

Mas o pior de tudo são aquelas que adulteram sua condição humana e passam a encarnar o papel de porta-vozes do “mercado”, com suas fórmulas e análises prontas. Elas não imaginam o quão patético é se tornar caricaturas deste sistema, excludente, bruto e masculino. O terninho engomado ou o tailler elegante não disfarçam nem um pouco a tragédia de suas palavras e atitudes.

7 a 1

10/07/2015

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Faz um ano que a seleção alemã de futebol massacrou em campo o orgulho de milhões de brasileiros, a seleção canarinho. Com nossa tradicional empáfia, dias antes da partida Parreira e Felipão desdenhavam dos adversários. O auxiliar do treinador dizia que caminhávamos para mais um título.

Coincidência ou não, foi do 7 a 1 para cá que a trajetória do Brasil se transformou em espiral descendente. O escândalo da Petrobras se aprofundou, expondo o cartel da corrupção, o clube das empreiteiras e o financiamento de campanhas eleitorais. Não que isso seja exclusividade nossa, mas as atividades descaradas de desvio de dinheiro público desmoralizaram a própria Petrobras, orgulho e principal empresa do país, responsável por cerca de um terço dos negócios aqui dentro.

Coincidência ou não, depois do 7 a 1 tivemos uma eleição manchada pela baixaria e por promessas vãs. Valeu de tudo, sobretudo a difusão de boatos e mentiras, para a renovação do mandato da atual presidente. Mas o peixe morre pela boca e, como tal, Dilma fez exatamente o que o PT e sua campanha criticavam em seus adversários.

Coincidência ou não, de lá para cá um chicago boy foi oficializado como ministro da Fazenda e logo fez a vaca tossir. Os juros subiram, direitos e benefícios dos trabalhadores foram rifados e serviços públicos “tesourados”. Tudo em nome de um tal “ajuste fiscal”, que só beneficia os credores da dívida pública brasileira, comprometendo anualmente quase a metade do Orçamento da União.

Coincidência ou não, foi a partir daquele período que a política econômica do segundo governo Dilma passou a provocar recessão e desemprego, sendo elogiada pela mídia empresarial como “remédio amargo, mas necessário”. Dilma não é atacada pelo que faz, mas pelo que poderia fazer a mais para agradar a banqueiros e grandes financeiras.

Coincidência ou não, do 7 a 1 para cá os preços das tarifas de energia sobem de maneira inimaginável, para compensar supostos prejuízos das distribuidoras de luz. E ninguém ataca o verdadeiro problema, que está justamente na privatização promovida pelos tucanos e mantida pelos petistas, até que o modelo mostrasse sua completa irracionalidade para o consumidor, traduzida em contas absurdas.

Coincidência ou não, foi depois do 7 a 1 que um bando de arrivistas e chantagistas aboletado na Câmara e no Senado elegeu seus legítimos representantes para comandar o Poder Legislativo, fazendo aprovar todo tipo de matéria retrógrada, desde a manutenção do financiamento privado de campanhas eleitorais até a redução da maioridade penal para 16 anos.

Coincidência ou não, a inflação cresce e se distancia do “centro da meta” pensada pelo governo (6,17 em seis meses e 8,9% em 12 meses). O desemprego atingiu 8,1% de março a maio, ameaçando a estabilidade e o consumo dos últimos anos. Para compensar, o governo propõe a redução dos salários e anuncia que pode bancar metade das perdas dos trabalhadores com dinheiro do FAT (que também é deles).

Nesta goleada de retrocessos, o gol de honra que coube aos brasileiros foi cair na real, perdendo a esperança de que o atual governo, totalmente rendido à lógica do “mercado”, ao menos assegure o pouco que se conquistou nos últimos anos.

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É grande a indignação da sociedade brasileira com a violência urbana a que estamos submetidos, particularmente de uns 30 anos para cá. Já não se pode dormir de janela aberta ou sair à noite sem hora para voltar, lembram os mais antigos.

Roubos, homicídios, furtos, assaltos à mão armada são exemplos da situação caótica a que chegamos nas grandes cidades. Nas favelas e periferias prolifera o caos, com o tráfico varejista de drogas e as milícias controlando o território, de armas em punho.

A classe média, sempre apavorada, vive a sensação da violência. De nossas janelas ouvimos os tiroteios e vemos às vezes as balas traçantes. E reclamamos da impunidade. Qualquer início de confusão gera pânico, pedido de socorro e a tentativa de fazer justiça com as próprias mãos. Espancamentos e linchamentos de infratores virou coisa corriqueira, de forma covarde e injusta.

Já os pobres e marginalizados vivem a violência como experiência cotidiana. Seus barracos, lajes, becos, vielas e ruas de terra batida são o palco do confronto entre bandos de traficantes varejistas, milicianos e policiais, que controlam o território de armas nas mãos.

O choro das famílias pobres e negras por um de seus filhos assassinados em tiroteios, vítimas das “balas perdidas” todos os dias, não comove e nem pressiona os governantes. A classe média alta nem questiona se o inquérito e as prisões no caso do médico assassinado na Lagoa vão pelo caminho correto. Prolifera a cultura da “tropa de elite”, cuja vocação é matar. O importante para as “autoridades” é apresentar uma resposta à “sociedade”.

“Sociedade” é entendida como todos aqueles cidadãos brancos, bem vestidos, que residem nas áreas mais abastadas, presumivelmente acima de qualquer suspeita, para a qual os governantes devem satisfação.

Muitos são os que afirmam que a violência urbana é um fenômeno relativamente recente. E não deixam de ter certa razão. Afinal, o que mudou de uns 30 anos para cá?

Por falta de reforma agrária que mantenha o homem no campo as cidades foram inchando e, hoje, 85% da população reside em perímetros urbanos, sobretudo nas grandes metrópoles brasileiras. Por falta de reforma urbana e de uma política de moradia os mais pobres foram empurrados para as favelas e periferias.

Por falta de uma política educacional séria e pela degradação do ensino público centenas de milhares de jovens estão fora das escolas ou fazendo das salas de aula uma extensão do que assistem em suas comunidades. Por falta de uma política de formação técnica, de emprego e de oportunidades outras centenas de milhares de jovens negros e pobres são levados a engrossar as fileiras da criminalidade.

Mas, apesar de ter consciência disso tudo, a “sociedade” prefere dar as costas à realidade e exige ação: cadeia para todo mundo, danem-se os pobres e seus filhos! Afinal o que a “sociedade” tem a ver com isso?

Que tal pagar os impostos ou deixar de sonegar? Que tal parar de usar os favores de amigos no governo e no legislativo para obter vantagens pessoais? Que tal integrar seus filhos à realidade, em vez de comprar sua “felicidade” com mesada e carro? Que tal um passeio de família a uma escola pública ou a um hospital da rede pública uma vez por mês? Que tal deixar de viver de herança e do aluguel de imóveis? Que tal parar de obter vantagens em aplicações de mercado e investir em coisas produtivas? Que tal deixar de se fechar em condomínios de luxo, cercados de muros e segurança privada?

Ao acreditar que reduzindo a maioridade penal para 16 anos encontraremos solução para a violência infanto-juvenil, a “sociedade” dará mais um tiro no pé. Esses garotos marginalizados farão pós-gradução no crime dentro do sistema prisional e sairão prontos a devolver ao cidadão o que aprenderam no cárcere.

O Estatuto da Criança e do Adolescente é um balizador. Ali estão previstas as obrigações do Estado e as medidas punitivas (sócio-educativas) que devem ser aplicadas através de instituições que deveriam estar preparadas para ressocializar os menores infratores. É fundamental que as autoridades sejam devidamente cobradas para que o ECA seja respeitado e cumprido.

O mais importante, no entanto, é uma medida simples e que já não pode mais esperar: ensino público em horário integral (das 7h às 17 horas), em escolas dignas e bem equipadas, com profissionais da Educação bem pagos e bem preparados.