Mais um sufoco…

29/06/2014

Ufa! A selenike do Felipão passou pelo Chile… Como brasileiro acredita que Deus é patrício, só atribuindo a ele mais este feito no país do futebol. No plano concreto dos mortais, nos 120 minutos de jogo, o que se viu, mais uma vez, foi muita luta e pouco futebol.

A família Scolari carece de algo fundamental: um cérebro no meio de campo que a comande dentro das quatro linhas. Isso ficou provado contra os adversários na fase de grupos e agora outra vez contra os chilenos. O esforçado time adversário por diversas vezes dominou a partida, sobretudo no segundo tempo, com Vidal e Sanchez no meio, tocando bola e ditando ritmo do jogo.

Pergunto aos senhores analistas: o que Fernandinho, Ramirez e Willian fizeram na partida? Eles são filhos diletos da escola de cabeças de área, da Era Dunga. É essa galera que está campeando nas escolinhas de futebol no Brasil desde o final dos anos 80.

Atrás, em vez de chutões, os limitados zaqueiros chilenos ao menos tentavam sair jogando, em vez de se livrar da bola com chutões, como fazem os nossos. Já os nossos atacantes… Pobre Hulk, o responsável é quem o convocou para envergar a amarelinha. Fred, com seu bigode de mariache ou cafetão argentino, fica esperando a bola chegar, como um centroavante do tempo do onça. Jô é uma espécie de Dario dos tempos atuais. Só que em 1970 Saldanha se recusou a fazer a vontade do ditador de plantão. Quem terá convocado o centroavante do Atlético Mineiro?

Se não temos ao menos um meia armador de qualidade entre os convocados, bem que o time de Felipão poderia usar as pontas para atacar, justamente com os laterais Daniel Alves e Marcelo. Afinal, não é por acaso que esses caras jogam no Barcelona e Real Madri. Mas eles continuam ali, plantados, chegando no máximo até a intermediária dos adversários.
Julio Cesar teve boa atuação contra o Chile, mas quem salvou a selenike do Felipão foi mesmo a trave, primeiro no final da prorrogação e por último quando Jara desperdiçou a cobrança de um pênalti.

A arrogância e a presunção fizeram com que Luis Felipe Scolari afirmasse antes da Copa que a sua selenike teria a obrigação de levantar a taça. Ele certamente se fiou nas atuações da Copa das Confederações, um ano antes, para tirar essa conclusão.

O velho beque de roça do Caxias do Sul continua demonstrando sua pouca capacidade para entender as engrenagesn elementares do futebol dentro de campo e muita indignação com qualquer coisa. Ele ainda acredita que pode motivar seus comandados com apoio de torcida, hino berrado com cara feia e o velho “vamos lá, rapazeada”, dos boleiros.

Pode ser que a Família Scolari até conquiste a Copa das copas, como afirmam os patrioteiros de plantão. Mas, ao contrário de 58, 62 e 70, vencer nessas condições será desastroso para o futebol brasileiro. Vai ficar a lição de que basta juntar um grupo de “guerreiros”, armados com facas nos dentes, para fazer sucesso no esporte.

Enquanto isso, o futebol brasileiro de verdade, aquele a que assistimos todas as semanas na TV, se esvai dia a dia, com média de público baixíssima, treinadores antiquados, clubes falidos por dirigentes inescrupulosos, poucos talentos e muitos botinudos.

 

Obs: Lamentável que parte da torcida brasileira tenha vaiado o hino do país adversário. Pior ainda o comportamento de membros da Comissão Técnica, que se envolveram em brigas com jogadores chilenos no túnel que liga aos vestiários do Mineirão. E mais lamentável ainda as brigas entre alguns uruguaios e brasileiros, ao final do jogo com a Colômbia, no Maracanã.

Fim da fase de grupos da Copa. Segundo a imprensa local, esta é a “Copa das copas” ou a maior Copa de todos os tempos. Duas expressões presunçosas e patrioteiras, como se fôssemos capazes de capturar e analisar o tempo passado e futuro…

Fora dos estádios a confraternização entre gringos e nacionais é grande, como era de se esperar pelo espírito festeiro do povo brasileiro. Dos problemas se fala muito pouco, até porque os jogos e a cobertura das seleções tomam praticamente 90% do noticiário dos jornais, rádios e TVs.

Afinal, quem quer saber se mais um menino (3 anos) levou um tiro de fuzil da PM em Costa Barros? Tem estádio por lá? Qual seleção está hospedada na região? Se bobear, nem repórter tem para cobrir o acontecimento. Ainda é possível saber um pouco do que se passa no Brasil real nas emissoras que não ganharam o direito de explorar as transmissões da Copa.

Em verdade parece que tudo deixou de ter importância. O oba-oba tomou conta do país, regado a Funfest, muita publicidade e patriotismo de ocasião. Vivemos e viveremos por mais 15 dias sob o governo na FIFA, que trata as delegações dos 32 países participantes como vips e monta um cerco para que as “arenas” estejam protegidas de qualquer situação que incomode os jogos.

Em certos momentos é possível acreditar que o futebol é a realidade e o resto é jogo. Há uma inversão de valores, com a elevação da Copa ao topo dos desejos de todos os cidadãos. Acordamos, trabalhamos (menos), comemos e dormimos com Copa do Mundo na cabeça. Eu mesmo confesso minha rendição quase que incondicional à rotina do calendário da Copa, porque gosto demais de futebol.

A FIFA tem suas leis e tribunais próprios. Tão absurdos que condenam um jogador a nove jogos oficiais de suspensão por sua seleção, quatro meses de afastamento total de qualquer atividade ligado ao futebol e multa de 100 mil francos suíços. Tudo isso porque mordeu o ombro do outro. Até mesmo a vítima considerou a pena exagerada. E daí? A FIFA decidiu está decidido. Mas esta mesma FIFA não vai punir o juiz, que sequer deu cartão amarelo para Suarez? E o auxiliar?

Este episódio ilustra bem o que é a FIFA: uma entidade privada, conservadora e que se considera acima de tudo e de todos. É bom lembrar que a FIFA de hoje é fruto das mudanças introduzidas pelo brasileiro João Havelange, que a transformou numa grande multinacional do futebol, movida a contratos milionários, corrupção e politicagem. Ele simplesmente transportou para a FIFA a experiência e o modelo das Federações estaduais de futebol brasileiras e da CBF.

No campo, dentro das quatro linhas, até agora as seleções que mostram futebol acima da média são a da Alemanha e da Holanda. França, México, Colômbia, Chile, Brasil e Argentina apresentam um futebol de altos e baixos. Daqui em diante, com jogos em sistema mata-mata, podemos ter surpresas, até porque o futebol sempre prega suas peças.

Praticamente no final da segunda rodada de classificação desta Copa selecionei as melhores partidas a que assisti. Foram dez jogos bem disputados, alguns eletrizantes, como Holanda e Austrália, Uruguai e Inglaterra, Chile e Espanha, Alemanha e Gana e até Argélia e Coréia, por que não? Os piores jogos estão no grupo A (Brasil), grupo C (Colombia), grupo F (Argentina) e grupo H (Bélgica).

Por que? Em alguns grupos estão seleções de países de pouca tradição no futebol, que contam mais para a disputa interna pelo controle político da FIFA. Em outros simplesmente porque as seleções protagonistas estão decepcionando dentro de campo. É o caso do Brasil – que não tem meia armador e não usa seus laterais ofensivamente – da Argentina, que até aqui só venceu porque pode contar com o genial Messi, e do Uruguai, que se fia em Soares.

Os jogos do Brasil até aqui valeram pela disputa dura com a Croácia e o México. Os da Argentina foram de baixíssimo nível técnico, não só por conta dos adversários fracos, mas porque os hermanos pouco fizeram em campo. Os do Uruguai serviram pela grande lição da seleção da Costa Rica e a luta contra os ingleses, mais nada.

Felipão e Sabella não convocaram jogadores importantes, como Everton ou Paulo Henrique Ganso e, no caso argentino, Carlos Tevez. Enquanto na Europa seus jogadores aprendem a lidar com um futebol em que a tática prevalece sobre o talento individual (embora com grandes craques), os treinadores do Brasil, Uruguai e da Argentina continuam se fiando na “magia” e na garra do futebol latino-americano.

No caso do Brasil a CBF mantém o mesmo regime fechado de 1970, com concentração e os jogadores tratados como se estivessem num colégio interno. Mais uma herança da ditadura militar, coisa atrasada e ultrapassada. Soma-se a isso a cobertura vazia e infantilizada de boa tarde da imprensa esportiva nacional, com destaque para os colegas que cobrem o dia a dia da Granja Comary. O que importa se Neymar mudou seu cabelo ou se Davi Luis deu autógrafo a mais uma criancinha? Nem eles acreditam nessa babaquice de “Família Scolari”.

Sabella, Tabarez e Felipão ainda refletem o futebol praticado por aqui nos últimos anos. Um futebol esvaziado de talentos, de fortes retrancas, de clubes falidos, que privilegia a defesa em detrimento do ataque. Um futebol feio, desorganizado dentro e fora de campo. Já se percebe que o resultado da Copa das Confederações foi enganoso, porque grande parte das equipes que vieram disputá-la não o fizerem levando o torneio a sério.

Posso queimar a língua porque a Copa está só começando. Afinal, Espanha e Inglaterra, de quem se esperava mais, já estão fora da disputa. Quem sabe tudo muda depois da fase de classificação? Até aqui o que se viu foi prevalecer uma combinação de técnica e aplicação tática, com destaque para a Alemanha e a Holanda. As seleções do Chile, da França e do México merecem menção honrosa, pela aplicação e a técnica de alguns de seus jogadores. As grandes surpresas ficam por conta da Costa Rica, Gana e Argélia, que mostraram força e técnica quando foi necessário.

Chilenos só queriam assistir a uma partida de futebol

Oitenta e oito chilenos foram detidos e convidados a sair do Brasil, depois que um grupo conseguiu entrar no Maracanã, quando o jogo de seu país contra a Espanha começava. Os presos foram tratados como vândalos por parte da mídia. Noticiou-se que a opinião pública chilena condenou e viu com espanto e vergonha a atitude de seus compatriotas.

Tudo bem que não foi o melhor dos comportamentos, mas eu mesmo, por diversas vezes assisti a abertura dos portões do antigo Maracanã em jogos, quando o estádio não estava lotado e havia muita gente sem ingresso do lado de fora. Outras vezes as arquibancadas eram liberadas para o povo da geral. Ninguém dizia que eram vândalos e ninguém foi preso por isso.

O que leva pessoas vindas de outro país a invadir um estádio de futebol? Estavam lá para roubar? Queriam brigar com alguém? Não, óbvio que não. Viajaram porque queriam ver o jogo da seleção de seu país, mas não tinham ingresso. Certamente procuraram a via legal para assistir ao jogo, mas não conseguiram. Do lado de fora do Maracanã os cambistas ofereciam entradas entre mil e dois mil dólares, à vontade, sem serem incomodados pela polícia.

Já há evidências de que existe um sistema de desvio de ingressos da Copa, além dos conhecidos ingressos falsos. De onde saíram esses ingressos? Dos “vândalos”? A que interesses este esquema de venda ilegal de ingressos atende?

Dentro das “arenas” a responsabilidade pela segurança é de empresas contratadas pela FIFA. O esquema de segurança público da Copa, no entorno dos estádios, está voltado para baixar o pau e impedir manifestações contrárias ao evento. Nenhum dos dois foi montado para garantir os interesses dos torcedores.

Futebol é um jogo de conjunto, no qual 22 jogadores são distribuídos num gramado de 100 por 60 metros. Ao contrário do que muita gente pensa, futebol é um jogo muito mais parecido com xadrez, pensado, um jogo que se ganha dominando o meio do campo.

É claro que o objetivo é colocar a redondinha na rede adversária, mas até chegar lá é preciso construir jogadas, ter alternativas que envolvam os 11 atletas do time. O cérebro de uma equipe de futebol está nos meias armadores, aqueles caras que são capazes de colocar a bola aonde quiserem, deixando os atacantes e laterais em condições privilegiadas para fazer o gol.

Não que no meio do campo só seja preciso jogadores habilidosos, mas não é possível tomar conta de um jogo, tomar a iniciativa e criar oportunidades de gol sem esse tipo de jogador. E ele está cada vez mais escasso no futebol brasileiro. Por que? Porque o futebol brasileiro abriu mão de suas características ofensivas para se tornar igual aos demais.

Hoje, a maioria dos clubes que disputam os campeonatos brasileiros da primeira e segunda divisões não têm sequer um bom meia. Sobram cabeças de área ou volantes, num futebol que se tornou chato e feio. Nas divisões de base, entre a garotada, todos querem ser Neymar ou Thiago Silva, mas ninguém lembra que sem Didi, Zito, Ademir da Guia, Gerson, Rivelino, Dirceu Lopes ou Tostão o futebol brasileiro não teria chegado aonde chegou.

O erro da seleção brasileira começa na convocação, quando o tio Scolari esquece um Paulo Henrique Ganso e insiste com Paulinho e Luis Gustavo, dois botinudos que jogam só para desarmar os adversários, na bola ou com faltas. Todos os times vencedores no mundo tiveram e têm meias armadores de qualidade.

Atualmente o preparo físico ganhou destaque no futebol e os jogadores se transformaram em atletas. Os espaços dentro de campo são cada vez menores, o que justifica ainda mais a necessidade de contar com meias armadores de qualidade. A seleção do Scolari pode até chegar e, quem sabe até ganhar a Copa 2014, mas essa probabilidade diminui diante de outras seleções com meios de campo bem articulados.

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Praticamente fechada a primeira rodada da fase de classificação, já se pode destacar algumas coisas desta FIFA World Cup Brazil 2014. A primeira e mais importante é a integração das torcidas e turistas de todas as partes do mundo com os brasileiros.

Tudo bem que a maioria da população não entende lhufas do que os gringos dizem, mas de alguma maneira tenta orientar e ajudar os estrangeiros. É a velha e boa cordialidade do cidadão brasileiro, sempre acolhedor.

Fora dos gramados tudo como d’antes. A conhecida truculência das polícias militares, desbaratando manifestações com algumas centenas de pessoas na base do tiro, bombas e cassetetes. Os jornalistas destacados para cobrir esses eventos quase sempre sofrem as mesmas barbaridades reservadas aos manifestantes. Os nacionais já não estranham, mas os estrangeiros se assustam.

Ainda repercute na mídia e nas redes sociais a vaia para a presidente Dilma, no estádio do Itaquerão. Petistas indignados acusam a elite branca, que paga ingressos mais caros e freqüenta camarotes, de puxar o coro mal educado para a presidente. Alguns colegas da imprensa seguem por esta mesma linha.

Pode ser, mas se o problema é a tal elite branca, o que Michel Temer e Renam Calheiros estavam fazendo ao lado de Dilma? Quem distribuiu os convites? Quem financiou e quem se beneficiou da festança da FIFA com dinheiro público? De repente, num país em que o ditador Médici foi vaiado em pleno Maracanã, agora é falta de educação vaiar presidente? Será que o PT também está tão elitizado que seus membros nem lembram mais que estádio de futebol é lugar de palavrão e vaia?

O problema é que naquela época o Maracanã era outro, freqüentado pela classe média baixa nas arquibancadas e o povão na geral. Hoje, graças às arenas multiuso da FIFA, quem freqüenta é uma turma mais abastada. Ditado popular: quem pariu Mateus que o embale…

Em campo, com a bola rolando, deu gosto ver os jogos Holanda 5X1 Espanha, Itália 2X1 Inglaterra e Alemanha 4X0 Portugal. Sem dúvida, alguns países europeus conseguem aliar técnica dos jogadores e aplicação tática, fazendo do futebol um esporte coletivo, bonito de se ver.

A Argentina, de tantos craques, apenas treinou contra a Bósnia, favorecida pelo gol contra do adversário aos três minutos do primeiro tempo. Já o Brasil, com seu meio de campo de botinudos, precisou de uma arbitragem desastrosa para vencer a Croácia. E o Uruguai, tão temido, levou três da Costa Rica e tropeçou nas pernas envelhecidas de seus principais jogadores.

Escrevo essas linhas sem ter visto ainda os jogos de Rússia e Bélgica, mas já deu para sentir quem tem garrafa vazia para vender dentro de campo nesta Copa.

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O filósofo que dirige a selenike adotou de vez a máxima do seu xará, goleiro do Flamengo

Começou mal a Copa do Mundo da FIFA no Brasil. Antes da partida de estréia manifestações de protesto no Rio e em São Paulo, com farta distribuição de porrada e bomba. As notícias davam conta de quatro jornalistas feridos, um argentino, um francês e duas norte-americanas. Caíram na besteira de atravessar o caminho da briosa corporação policial militar do Estado de São Paulo, que não alivia ninguém.

Em campo predominou a conhecida preferência da arbitragem em favor da seleção que sedia a Copa. Não é uma exclusividade do Brasil, mas o japinha foi o grande destaque da partida. Pênalti que não existiu no segundo gol e falta escandalosa de Ramires no terceiro. Na seleção brasileira salvaram-se Oscar e Neymar. O meio de campo com Paulinho e Luis Gustavo demonstrou ser uma nulidade em termos de criação. Pelo que jogou a Croácia merecia ao menos um empate.

Para coroar a fraca exibição só mesmo a entrevista coletiva de Scolari, que esgrimiu toda a sua arrogância e mau caratismo, ao afirmar que viu dez vezes o lance e saiu convencido de que foi pênalti. Se a regra fosse aplicada Fred – que não jogou nada – deveria ter sido advertido com o cartão amarelo.

O mais desmoralizante foi a FIFA levar um pito, com extrema elegância, do treinador croata. Como não tive oportunidade de ouvir, ver ou ler outros comentários, a não ser dos colegas do SporTV, fiquei mais uma vez envergonhado com a desfaçatez dos jornalistas e ex-atletas, que procuraram minimizar a influência desastrosa da arbitragem e ressaltar aspectos positivos na fraquíssima exibição da seleção brasileira. Pior que o desempenho do time só o da Presidente, que foi lembrada em alguns momentos pela torcida. Aliás, custei a encontrar um negro nas arquibancadas da “arena” do Itaquera.

Pelo jeito, a frase do goleiro Felipe (Flamengo), após a decisão do Campeonato Carioca deste ano com o Vasco, contagiou muita gente, inclusive o seu xará, Felipão. É bom o treinador do Brasil botar as barbas de molho, porque as laterais de seu time são duas tetas, pelas quais outras seleções poderão se criar nesta Copa.

Sete anos para construir um estádio e as obras inacabadas maquiadas com plásticos e tapumes. Do lado de dentro falhas na iluminação e falta de comida. E o show está só começando…

Já que o assunto é Copa do Mundo não vou fugir da raia. Tenho visto, lido e ouvido de tudo dos defensores da festança. Depois do velho jargão dos que repetem Nelson Rodrigues, que numa crônica antes da Copa de 1958 escreveu sobre o “complexo de vira-latas” do brasileiro, agora aparecem novos argumentos.

O pacheco (camisa 12), aquele personagem da Gillete que representava o torcedor fanático, está de volta, agora encarnado nos petistas de plantão. Viraram torcedores fervorosos da seleção canarinho. Fazem exatamente o mesmo que condenaram, quando governos anteriores tentavam tirar uma casquinha política e surfar num possível sucesso da seleção brasileira.

Também tem aquele pessoal em cima do muro, que prefere dizer que não é contra a Copa, que vai torcer pelo Brasil, mas faz questão de lembrar que é contra a corrupção e os desmandos, blá, blá, blá e lero-lero. Um discursinho politicamente correto, para agradar a gregos e goianos. Uma bobagem, porque a Copa da FIFA é sinônimo de corrupção e desmandos. São os “murilos”.

Mas os piores são os estuprados, quer dizer, aquela galera que adotou o slogan do “relaxa e goza”. Já que a Copa vai acontecer mesmo, que a roubalheira já rolou descarada e não há mais nada a fazer… Então o negócio é tomar todas e vibrar com a nossa seleção. A musa dessa turma é a neta do João Havelange.

Adoro futebol, mas sou contra a Copa porque não se trata de uma competição esportiva, mas de um grande evento organizado por uma instituição multinacional privada – a FIFA – que cria e submete o governo e a população do país sede a determinadas regras draconianas. E junto com os patrocinadores ainda fatura horrores. Haja propaganda e programação no Rádio e na TV!!!

Adoro futebol, mas sou contra a Copa porque apesar de acontecer no Brasil, nunca o povo brasileiro esteve tão distante dela, até mesmo dos treinos da seleção brasileira. Vamos assistir pela TV e olhe lá, porque nos estádios só vai entrar quem tem grana para pagar preços absurdos, o que em condições normais de temperatura e pressão faria o Procon interditar os jogos.

Adoro futebol, mas sou contra a Copa porque aquele pessoal que veste a camisa amarela e entra em campo não tem qualquer identificação com o torcedor brasileiro, com raras exceções. Quem lembra deles jogando por aqui? Que clubes defenderam? Uma verdadeira legião estrangeira, a maior parte jamais vestiu a camisa de um grande clube no Brasil.

Sou contra a Copa porque ela não diz respeito ao cidadão brasileiro, apesar de ser realizada no Brasil. Gosto de futebol e vou assistir aos jogos, como sempre fiz. Não para torcer pela selenike do Felipão, ao contrário (quero que ela se exploda!), mas para apreciar o futebol. Que vença o melhor e só. No dia seguinte continuaremos enfrentando a mediocridade do nosso dia-a-dia.

Dia desses perdi a paciência com um cidadão que nunca vi mais gordo. Pode ser a tal intolerância que anda rondando a vida do brasileiro, que não confia mais em nada e em ninguém. Ta legal, mas, como diz o ditado, quem fala o que quer ouve o que não quer.

Estava eu sentado em frente ao computador, na sala em que trabalho, dentro da ASSIBGE – Sindicato Nacional, quando o sujeito parou no balcão de recepção, provavelmente para tomar um café. Ele não me via e eu não o enxergava também, apesar da porta da minha sala estar aberta.

Um colega funcionário perguntou como estava a greve. Aí começou a ladainha: “Eu não estou em greve porque não acredito nesta greve”. E deitou falação. Sem vê-lo, comecei a interpelar o sujeito. Que petulância! O cara fura a greve e ainda vai ao balcão do Sindicato para mal-dizer o movimento dos outros?

Quanto mais eu falava para ele ouvir, mais ele retrucava com argumentos torpes. Afinal, para fura-greve qualquer desculpa serve, de joelho inchado, dor de cabeça até a doença da mãe. Sei não, acho que estou mesmo ficando velho. Não tenho mais paciência para a desfaçatez de gente com mais de 30 anos na cara.

A gente ali, ralando, fazendo hora extra, outras centenas de sindicalistas deixando a vida particular de lado, para um traste vir encher o saco. Se ainda fosse um garoto, mas pelo visto tinha mais de 40.

Todo mundo tem direito de pensar diferente. Não concorda com a greve? Então vai para a assembléia, pede a palavra, expõe seu ponto de vista e voto. Se ganhar, tudo bem, a greve acaba. Se perder, a greve continua. Mas quem perder deve acatar a decisão da maioria. Democracia é assim.

E ainda tem gente que fura-greve tem o direito de ir e vir, etc e tal… Devia haver um termo de compromisso, assinado por todo fura-greve, abrindo mão de qualquer conquista obtida pelo movimento dos trabalhadores.