Um relatório preliminar sobre os acontecimentos nas cidades da Região Serrana, elaborado pelo CREA-RJ, aponta as causas da tragédia e confirma que mais de 80% das mortes ocorridas poderiam ter sido evitadas, não fosse o descaso do poder público com o desmatamento e a ocupação do solo urbano.

No documento o CREA-RJ denuncia o descumprimento da legislação ambiental, já que toda a região está em área de Mata Atlântica, que foi sendo devastada ao longo das últimas décadas, sobretudo nas encostas. A construção de moradias a menos de 30 metros de distância dos rios é outra falta absurda, que jamais foi coibida pelas Prefeituras.

Além de apontar as causas do morticínio, o CREA-RJ levanta soluções para conter a força das águas, como a construção de barragens próximas às nascentes, pequenas ondulações ao longo dos rios e obras de contenção de encostas.

Ora, se os técnicos do setor estão afirmando que houve negligência na ocupação do solo urbano e descumprimento da legislação ambiental, as autoridades responsáveis devem, no mínimo, ser chamadas aos tribunais para responder por seus atos ou omissões. Prefeitos, ex-prefeitos, secretários, ex-secretários, fiscais, enfim, toda essa gente tem que prestar contas à sociedade.

É evidente que não se pode eximir de responsabilidade os vereadores, cabos eleitorais e toda a raia miúda da política rasteira, que troca votos por terrenos em áreas impróprias para construção e colaboram para o crescimento da arrecadação de IPTU pelas prefeituras.

Mas não é possível que uma chuvarada, por mais forte que tenha sido, ceife a vida de mais de 800 pessoas e deixe outros 400 desaparecidos, sem que ninguém responda por isso. Ou será que vamos continuar culpando São Pedro?

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A morte de mais de 800 pessoas em duas horas de chuvas fortes é um escândalo gigantesco. Guardadas as devidas proporções a Austrália passou por três semanas de alagamento numa área igual ao território da França e da Alemanha juntas, contabilizando 29 mortes e algumas dezenas de desaparecidos. Há muitos erros acumulados e muitas explicações a dar.

Durante a Segunda Guerra Mundial praticamente todas as grandes cidades da Europa adotaram o sistema de alarme sonoro para avisar a população sobre bombardeios aéreos inimigos. Treinado por uma rede de apoio, o povo sabia o que fazer e para onde se dirigir quando as sirenes tocavam. Muitas mortes foram evitadas desta maneira. Só que isso aconteceu há mais de 60 anos.

Hoje, os equipamentos modernos podem detectar com antecedência os fenômenos meteorológicos e suas conseqüências, possibilitando a emissão de comunicados aos órgãos governamentais. Foi o que aconteceu na tarde do dia 11 de janeiro, quando o INMET remeteu um alerta de chuvas fortes às Prefeituras da Região Serrana.

A única autoridade municipal a tomar iniciativa concreta foi o Prefeito de Areal, que gravou mensagem e colocou carro-de-som na rua, avisando a população ribeirinha para sair de suas casas porque o rio que corta a cidade estava transbordando. Medida simples, porém eficaz. Nenhuma morte foi registrada em Areal, apesar da destruição e das perdas materiais.

Incrível é que a Prefeitura de Petrópolis não ativou uma estação meteorológica moderna, com 19 postos. O projeto custou 550 mil aos cofres públicos, num convênio entre a Prefeitura e o Ministério da Ciência e Tecnologia, mas não funciona por conta de um contrato de operação que custaria mais R$900 mil por ano. Com este sistema seria possível prever a catástrofe.

Também não basta alertar a população, é preciso criar estrutura para que as pessoas das áreas mais frágeis possam se refugiar rapidamente e em segurança. Isso exige treinamento de pessoal. Além disso, é fundamental que as equipes da Defesa Civil e dos bombeiros contem com equipamentos e treinamento adequados para operar em caso de emergência. Não foi o que se viu nas cidades mais afetadas pela tragédia da Serra, sobretudo nas primeiras horas após o acontecido.

Outra medida importante seria realizar uma faxina no corpo de fiscais das Prefeituras, renovando o quadro e oferecendo salários dignos que evitem a prática da corrupção. O problema é que isso mexeria com um verdadeiro vespeiro de interesses, que envolve muita gente graúda.

Se essas medidas não derem resultado ainda há a velha e boa cadeia para secretários, vereadores e prefeitos, cujos municípios registrem óbitos por descaso em relação à fiscalização de construções em áreas de risco.

Quando ninguém espera ela aparece. Menos pela campanha de mídia e mais pela generosidade e solidariedade, duas qualidades inerentes ao ser humano e que nunca deveriam ser esquecidas. A quantidade de donativos e voluntários que surgiram do nada para ajudar os desabrigados da tragédia da Região Serrana do Rio é uma demonstração da força popular.

Tanto faz o tamanho e a qualidade do que foi doado. O que salta aos olhos é a vontade de ajudar ao próximo, a preocupação com o desalento de milhares de irmãos que nem conhecemos. Essa energia é o que há de mais puro em toda a tragédia, marcada pelo descaso, oportunismo político e falta de planejamento das chamadas autoridades.

Casas, barracões, igrejas, ruas, condomínios, não importa o espaço, milhões de pessoas ajudando sem nada pedir ou exigir em troca. Não se sabe de onde os donativos aparecem e conseguem chegar a quem precisa, mesmo que parte seja desviada pelos oportunistas de plantão ligados ao poder público.

Exemplo mais tocante desta solidariedade é a mobilização dos demitidos do SAMU, um grupo de 1.500 agentes de saúde treinados, dispensados pelo governo estadual em 2008, quando o serviço foi entregue ao Corpo de Bombeiros. Com seus próprios veículos e equipamentos, grupos de vinte demitidos do SAMU sobem a Serra e se revezam por 48 horas, ajudando a resgatar pessoas e a tratar dos mais necessitados.

Em contrapartida existem sempre as ajudas interessadas, a politicagem que desvia donativos, que associa doações a vereadores, secretários de governo e seus cabos eleitorais. Da mesma forma envergonha ver os oportunistas que tiram vantagem da desgraça alheia, especulando com preços de gêneros de primeira necessidade, como alimentos e até água. Sem esquecer os espertinhos, que entram em casas abandonadas para roubar pertences de desabrigados. Uma minoria, escória da sociedade.

A esses se somam os governantes de hoje, que empurram os problemas para seus antecessores, como se nada tivessem a ver com o caso. Coincidentemente muitos deles pertencem ou já pertenceram aos mesmos partidos. Anunciam planos mirabolantes que já nascem mortos, comprometidos que estão com interesses eleitorais e econômicos de seus financiadores de campanhas. São engodos, improvisos que não atacam os problemas, prenúncio de novas tragédias.

Lamentavelmente a força popular que emerge em momentos com este se dispersa na confusão da vida. Mas seu exemplo demonstra que o povo, com sua união, tem em suas mãos a chave para enfrentar todos os problemas. Essa é a energia positiva, que transforma a sociedade e, quem sabe, ainda construirá um novo país mais justo e fraterno.

Caos em Friburgo

19/01/2011

Uma viagem que dura aproximadamente uma hora de automóvel chega a demorar duas. É o trajeto entre Teresópolis e Friburgo, pela Rodovia 040, no dia 18 de janeiro de 2011. No caminho, os distritos de Bonsucesso e Vieira, que pertencem à Teresópolis, bastante castigados pelas cabeças d´água.

O cenário é desolador. Cheiro insuportável de cadáveres, línguas de lama cobrindo áreas extensas (do tamanho de um campo de futebol), de um lado e de outro da estrada. Ainda é possível ver gente cavando com pás e enxadas, para tentar encontrar parentes e amigos desaparecidos ou simplesmente salvar seus pertences e limpar o que restou de suas casas.

O mesmo cenário de lama corrida e pedras de rio por cima das propriedades e em meio aos escombros de casas pode ser encontrado em Vieira e Bonsucesso. Pelo caminho, máquinas retirando lama vermelha que escorre dos barrancos, em meio ao temor de novas chuvas. Equipes de resgate fazem o que podem, mas a precariedade é grande diante do despreparo das autoridades e serviços públicos em lidar com a situação. Só cinco dias depois do acontecido estabeleceram comandos unificados de ação entre órgãos das três esferas (municipais, estaduais e federais) nos três municípios mais afetados.

Mais próximo a Friburgo é possível perceber o caos. Várias equipes de operadoras de telefonia tentam restabelecer a comunicação pelo caminho. Há muitos postos caídos e fiação espalhada pela estrada. Havia pelo menos duas grandes interrupções do tráfego de veículos nas proximidades de Friburgo. Já na entrada da cidade a lama se transforma em poeira e muita gente circula de máscara cirúrgica para evitar a contaminação.

O Centro da cidade ainda vive a confusão deixada pela tragédia. As lojas reabriram, mas pouca gente entra para comprar alguma coisa. Os sinais de trânsito não funcionam e em alguns pontos a sinalização é feita por homens da Prefeitura. Lama e detritos aos poucos vão sendo recolhidos, mas ainda há muita sujeira. Por todo lado as pessoas fazem relatos do que ocorreu em sua região. Todos conhecem pessoas mortas ou desaparecidas. Nos pontos de ônibus os passageiros esperam um bom tempo por condução.

Na Prefeitura desembarcam em comitiva oficial o ministro Nelson Jobim e o governador, ambos com ar consternado. Lá dentro mais uma reunião para estudar possibilidades. Fala-se em remover os que ainda estão em áreas de risco, se preciso com mandato judicial e força policial.

Parece até que os culpados são as próprias vítimas… Como prêmio vão ganhar um acampamento em barracas de lona para morar por uns dois anos, até que as primeiras casas sejam entregues aos desabrigados, de preferência com palanque e em véspera de eleição.

São cerca de 20 mil desabrigados e desalojados em toda a Região Serrana, mais de 700 mortos e centenas de desaparecidos. Décadas de descaso e corrupção, ausência de política habitacional e nenhum mapeamento sério dos riscos. Fiscais que aceitam propina e prefeitos que fecham os olhos para arrecadar mais IPTU. E agora aparecem as autoridades para arrumar soluções de mentirinha, jogando para a mídia.

Não por acaso o povo está de saco cheio dessa gente, se é que se pode chamar isso de gente.

Cenas que jamais tinha visto em minha vida pude presenciar na Posse, bairro devastado pelas cabeças d´água que arrasaram Teresópolis na madrugada de 12 de janeiro. Pedras que rolaram e terra em quantidade suficiente para cobrir de um a dois metros o calçamento e engolir o gramado das casas e sítios da Região. Ruas sumiram, carros e motos amassados e revirados por toda parte, lama por dentro dos poucos cômodos de casas que restaram.

Mais adiante, no bairro do Campo Grande, uma comunidade inteira de gente pobre foi varrida do mapa, ou melhor, da encosta em que se espremia. Acredita-se que ao menos a metade da população do local morreu ou está desaparecida.

Em meio ao cenário de flagelo, bombeiros encontraram mais três corpos. A Geografia do lugar indica claramente um vale cercado de montanhas por todos os lados. Partes de encostas formam nacos, como se um gigante tivesse mordido e arrancado pedaços.

No trajeto, passando pelos bairros Espanhol e Caleme, muita coisa destruída. As máquinas conseguiram reabrir o caminho. Assim mesmo, um trecho teve que ser percorrido por dentro de um sítio, já que a estrada Teresópolis-Itaipava ficou obstruída em diversos pontos.

O horror se completa com a visita ao IML. Em meio ao improviso, na garagem de um imóvel em frente à Delegacia de Teresópolis, cerca de 15 cadáveres ainda sujos de lama, inchados, enrijecidos pelo tempo e desfigurados ficam expostos em balcões, para identificação dos parentes. São transportados até lá por helicópteros.

Na relação de mortos já confirmados consta a identificação de vários como “mulher” ou “homem”. Muitas crianças estão entre os 266 mortos da lista oficial. A maioria do Campo Grande, Bonsucesso, Vieira e Poço dos Peixes, todas áreas pobres da cidade. Constam também alguns mortos do Caleme e Posse.

O que mais impressiona é o cinismo das autoridades. Nenhuma delas deu crédito ao alerta metereológico emitido pelo Inmet, 12 horas antes da tragédia. Moradores das comunidades ou bairros da cidade não foram sequer comunicados ou convocados a se retirar de suas casas, diante da iminência da tragédia.

Como prêmio de consolação os prefeitos receberam um decreto do Governador, que determina calamidade pública por 180 dias na Região. Assim, Prefeituras poderão fazer contratos sem licitação, sob a justificativa da urgência para a realização de obras de reconstrução das cidades.

A grande mídia insiste em classificar o ocorrido como a “maior tragédia natural” de todos os tempos. Diante dos fatos tenho que concordar com a palavra de um geólogo da USP, que em entrevista admitiu: o descaso dos governantes com a coisa pública só começará a ser enfrentado no Brasil quando os responsáveis forem penalizados criminalmente.

Nos dias 17, 18 e 19 de janeiro estarei na Região Serrana para realizar cobertura jornalística para o Programa BOCA LIVRE, que vai ao ar há cerca de 15 anos, pela Rádio Tropical 830 AM (www.tropical830am.com.br), das 13h às 14h. A cobertura será realizada com o apoio da colega Ana Thiengo e pretendo transformar o material colhido em comentários aqui no Blog. Acompanhe.

Mais de 500 mortes e muitos desaparecidos. Esse é só um primeiro balanço da tragédia da Região Serrana do Rio, quando uma tromba d´água provocou um rastro de destruição semelhante a uma tsunami.

Abrigar os que perderam tudo e retirar os que ainda estão correndo riscos são tarefas emergenciais. A solidariedade humana se encarrega de suprir a falta de alimentos, água potável e material de higiene e limpeza para os milhares de desabrigados. Aos governantes resta os velhos chavões e explicações que não convencem a mais ninguém.

Todos os especialistas ouvidos alertam para a falta de políticas públicas, omissão e conivência dos governantes, com a ocupação desordenada do solo e o inchaço das cidades. Mas afinal, onde está o nó do problema (int). Um alerta metereológico é desrespeitado e a Defesa Civil trabalha em sistema de socorro e não de prevenção.

Concentração é a palavra chave para explicar os males acumulados na sociedade brasileira nas últimas décadas. O Censo 2010 registra que 85% da população brasileira vive em cidades, que existem mais de 10 grandes regiões metropolitanas com milhões de pessoas amontoadas, vivendo em condições sub humanas. E por que, se o Brasil tem um território de 8,5 milhões de km quadrados (int)

As três cidades mais atingidas pela tragédia são das que mais incharam nos últimos anos, seja pela construção de casas de temporada seja pelo crescimento de favelas em seu entorno. O desmatamento, a impermeabilização do solo, a construção em pontos de risco, tudo isso foi facilitado pela falta de política de urbanização, somado à uma rede de corrupção rasteira, que liga fiscais a secretários, vereadores e prefeitos, justamente os que deveriam combater as irregularidades.

A concentração comanda a lógica econômica que dita as regras na sociedade brasileira. São as grandes empreiteiras e seus empreendimentos imobiliários que impermeabilizam o solo. Os grandes viadutos e avenidas servem ao rodoviarismo, para dar vazão ao automóvel. O poder público não enfrenta a gula dos grandes grupos econômicos, muito ao contrário, deixando as cidades ao deus dará.

Enquanto os poderes econômico e político estiverem concentrados nas mãos de grandes grupos monopolistas e seus testas-de-ferro o Brasil será uma eterna promessa, com ilhas de prosperidade cercadas de bolsões de miséria, atraso e catástrofes por todos os lados. Qual será a próxima (int)