A grande mídia brasileira decididamente perdeu a vergonha. As grandes cadeias de TV e de Rádio e os principais jornais criaram duas nomenclaturas para classificar a ditadura militar que usurpou o poder em Honduras: governo de “fato” e governo “interino”.

De “fato” o que houve foi um golpe militar, que interrompeu o mandato do presidente eleito, Manuel Zelaya. Interino é tudo que é provisório, passageiro, algo que não se pode afirmar neste momento no caso dos golpistas de Honduras. No Brasil muita gente acreditava na interinidade da ditadura e ela durou 21 anos. Mas o que caracteriza o atual governo hondurenho? Sua “interinidade” ou a forma como chegou e exerce o poder?

Estranha maneira de classificar uma ditadura repudiada mundialmente. Os mesmos veículos de comunicação se arvoram em condenar como ditaduras o governo de Hugo Chavez e o governo de Cuba. Pouco importa se Chavez foi eleito e reeleito e se as mudanças eleitorais que lhe permitem ser reeleito passaram pelo crivo das urnas. Tão pouco importa se foi a guerrilha e um levante popular que apearam do poder a ditadura militar de Fulgêncio Batista em 1 de janeiro de 1959. Batista que, por sinal, era apoiado ostensivamente pelo governo “democrático” estadonidense.

Terrorista, para eles, é Cesare Battisti, que aderiu à luta armada na Itália nos anos 70 como recurso político para denunciar e derrotar a democracia cristã. Battisti, de acordo com estes senhores, tem que ser deportado e entregue ao governo fascista do senhor Berlusconi. Fazer de Battisti um criminoso comum é colocar um sinal de igual entre a sua luta e a de muitos brasileiros, que deram a vida no combate à ditadura militar.

Já o terror praticado pelos latifundiários e homens do agronegócio contra os sem-terra, que assassinou centenas de lideranças no campo, não merece a menor atenção da grande mídia brasileira.

O episódio de Honduras demonstra o quão atrasados e reacionários são os proprietários e principais articulistas das grandes cadeias de TV e dos jornalões. Numa incrível peripécia querem fazer crer à opinião pública nacional que existe um governo de “fato” ou “interino” em Honduras e que, ao permitir a presença de Zelaya em nossa embaixada, o governo brasileiro seria responsável por uma intervenção indevida em outro país.

Existe algo mais parcial que isso? Este é o modelo de “liberdade de expressão” defendido pelos donos das grandes cadeias de comunicação do país. É essa tentativa de manipulação vergonhosa da opinião pública que vem sendo combatida por outros governos da América Latina.

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Presidente, Governador, Prefeito, religiosos e outras figuras menos cotadas da política e dos negócios aproveitam os holofotes para declarar apoio e mil motivos para defender a candidatura do Rio a sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Por trás disso há um verdadeiro consórcio de interesses privados, sempre financiados por dinheiro público.

O Congresso já aprovou as garantias, que envolvem cerca de R$28,5 bilhões para a realização das obras de infra-estrutura. O governo municipal repassou mais R$3,5 milhões para o sr. Carlos Artur Nuzman (eterno presidente do COB) fazer lobbie em defesa da candidatura da cidade.

E Copa de 2014!? No início foi dito que não haveria um tostão de público no financiamento das obras previstas para o evento. Agora, confirmado que o Brasil será a sede, o discurso mudou: o BNDES já liberou linha de crédito de cerca de R$ 4,5 bilhões para reforma e construção de novos estádios e mais R$5 bilhões para outras obras que envolvem a realização da Copa.

O melhor exemplo do negócio privado em que se transformaram os eventos esportivos foi o que aconteceu no estádio Beira-Rio, na partida Internacional e Flamengo, pelo Campeonato Brasileiro de futebol. Era evidente que não havia condições de jogo, mas como os patrocinadores pagaram e a Rede Globo manda nas transmissões do Campeonato, a partida foi realizada num pantanal.

Outro exemplo vergonhoso foi o escândalo da Fórmula 1, com a trapaça admitida por um piloto para favorecer seu companheiro de equipe a vencer o campeonato de 2007.

O capitalismo contemporâneo conseguiu esvaziar o espírito olímpico e congraçamento entre atletas e povos representados nas competições desportivas internacionais. Perdidos entre tantas marcas estampadas em seus uniformes e vinhetas de anunciantes, os atletas viraram garotos-propaganda de anunciantes e patrocinadores.

O esporte a que assistimos na TV nada mais é que uma das maiores fontes de lucro para grandes empresas e corporações multinacionais. Daí porque são cada vez mais fundadas as suspeitas de manipulação de resultados, visando favorecer quem paga mais. Do velho espírito olímpico só sobrou mesmo a paixão do desportista e do torcedor.

O professor Daniel Arão Reis (História Contemporânea da UFF) tem utilizado em suas entrevistas e aparições públicas as expressões “Reformismo moderado” e “Reformismo radical”, para definir os governos não conservadores que emergiram na América Latina nos últimos anos.

Embora estejam fora dos padrões conhecidos, estas duas definições parecem válidas quando se analisa a política e o comportamento destes governos e seus governantes. No caso do grupo dos moderados se destacam Lula, Lugo (Paraguai), Michele Bachelet (Chile) e Cristina Kirschner (Argentina). Do outro lado, sem necessariamente estar em oposição, estão Hugo Chavez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador).

No essencial todos são mesmo reformistas, pelo menos não estão propondo nenhuma ruptura radical com a ordem política vigente. Mas na forma de lidar com as coisas os métodos e propósitos parecem bem distintos. Lula, Lugo, Bachelet e Kirschner operam mudanças dentro dos limites constitucionais impostos pelas elites de seus países. Pouco operam no cenário internacional.

Já Chavez, Morales e Correa encaram seus mandatos como uma espécie de ponte para atravessar as desigualdades econômicas, sociais e culturais de seus povos. Daí porque defendem e tratam de mudanças constitucionais que permitam avançar na construção de novas sociedades, mais próximas e fiéis aos interesses da maioria. Por isso, não têm medo de expor o desejo de uma América Latina mais integrada e independente, o sonho do grande libertador Simon Bolívar.

Bachelet é produto da Concertacion, uma espécie de frente política de tudo e todos que sepultou a Ditadura de Pinochet. Por isso mesmo, não mexe uma palha na estrutura social e econômica do país. Lugo ainda não disse bem a que veio e mesmo em seus limites segue como uma esperança para o povo paraguaio. Cristina é a continuidade de um governo que também não rompeu com a velha política econômica neoliberal, que arrasou a Argentina, apesar de enfrentar a oposição ferrenha dos grandes latifundiários. Lula é o que conhecemos: muita garganta e uma política para agradar gregos e goianos, transferindo renda a rodo para as classes dominantes e migalhas do Bolsa Família, salário mínimo e do crediário popular para as massas.

Na Bolívia, Morales enfrentou nas ruas a tentativa de divisão política do país, patrocinada por uma elite tacanha e reacionária. No Equador, Correa desmistificou a dívida externa, ao promover uma auditoria independente. Na Venezuela, Chavez avança em medidas sociais, políticas e econômicas e aos poucos vai promovendo uma ruptura da exclusão social a que o povo foi condenado pelas elites locais.

Os quatro primeiros não sofrem ataques tão duros e diretos, seja das elites de seus respectivos países seja da mídia ou do governo norte-americano. Já os três últimos são alvos preferenciais de uma campanha de difamação, patrocinada pelos grandes grupos de comunicação de seus países e das agências internacionais de (des)informação.

A crise de Honduras e das bases militares norte-americanas na Colômbia não só revelam as diferenças entre eles, mas também servirão de oportunidades para evidenciar caminhos e projetos distintos para “la nuestra América”.

A possibilidade do Rio sediar as Olimpíadas de 2016 criou um verdadeiro alvoroço entre governantes e gatunos de plantão, dispostos a qualquer coisa para abocanhar recursos. Calcula-se em R$ 36 bilhões os gastos para colocar a cidade em condições de receber as competições.

Madri e Chicago foram praticamente descartadas por não oferecerem as garantias oficiais de investimentos exigidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Sobrou Tóquio, cuja população parece não estar disposta a arcar com os custos da farra olímpica, e o Rio.

Não faltam ao Rio – cidade com serra, mar, lagoas – todas as condições naturais ideais para a competição, que dura duas semanas. Mas a cidade continua apresentando problemas de infra-estrutura gritantes. O COI, de forma até generosa, só localizou dois: falta de leitos na rede de hotéis e dificuldade de transporte.

Para vender o peixe do Rio foi montada uma apresentação futurista, com um programa de computador. Não satisfeitos os donos do negócio estão criando filmetes publicitários, como os que foram fabricados no largo do Curvelo (Santa Teresa) e na Cinelândia (Centro). São flagrantes de um Rio que não existe, aproveitando o cenário natural de alguns pontos da cidade, forjando situações artificiais de um cotidiano de harmonia que o carioca desconhece.

Será que as campanhas anteriores, que arrecadaram alguns milhões, e o próprio exemplo dos Jogos Panamericanos de 2004 não foram suficientes? Onde está o famoso “legado do PAN”, que geraria milhares de empregos e traria 16 projetos de infra-estrutura vitais para a cidade? Como andam os resultados do esporte olímpico nacional nas competições internacionais? Exemplos: desempenho pífio no mundial de Atletismo e no mundial de Judô.

Em vez de mamar nas tetas do dinheiro público, contando histórias da carochinha, governantes das três esferas poderiam estimular um programa de massificação de esportes nas escolas públicas de todo o país. O resto é picaretagem dos piratas da modernidade, sempre dispostos a pilhar os recursos públicos que envolvem a montagem e realização do espetáculo. A conta é claro, quem paga é o cotribuinte…

Em pleno Dia da Independência o governo Lula retomou a velha prática colonial: trocar produtos de valor por espelhos e contas. Em 2006 houve várias atividades promovidas pelo governo brasileiro na França, no que ficou conhecido como o ano do Brasil na França. Festança, show de Gilberto Gil e companhia, badalação e de concreto… nada.

Agora, em contrapartida, é a vez do ano da França no Brasil. Ninguém menos que o próprio presidente da França em pessoa veio ao Brasil para as comemorações do 7 de setembro. Sarkozy certamente não veio pra bancar o bôbo da corte, ao contrário. Ganhou de presente a confirmação da compra de cinco submarinos (um movido a energia nuclear) e 30 helicópteros franceses.

Voltou ao seu país com a certeza de que a empresa francesa também está muito bem cotada para fechar negócio com o governo brasileiro ainda em 2010. Serão 36 aviões de caça. Nossos espelhinhos? Sarkozy anunciou interesse na aquisição de 10 aviões cargueiros brasileiros, negócio que só será fechado em 2015.

E as nossas continhas? O governo francês promete apoiar a reivindicação de um assento definitivo do governo brasileiro no Conselho de Segurança da ONU. Ou seja, vamos desembolsar cerca de R$ 30 bilhões em troca do apoio francês a uma hipotética cadeira no Conselho de Segurança da ONU.

Ah! Sarkozy também prometeu empenho para que o Rio seja sede das Olimpíadas de 2016. Muito bom esse acordo…

Há meses o País se vê bombardeado por propagandas do Ministério da Saúde, visando prevenir a Gripe H1N1, mais conhecida como Gripe Suína. Epidemiologistas renomados questionaram e criticaram publicamente a demora e a burocracia na entrega do medicamento Tamiflu aos pacientes, mesmo quando diagnosticada a doença.

Depois de mais de 600 casos de óbito confirmados, um dos dirigentes da Agência Nacional de Saúde admitiu que o estoque do medicamento é simplesmente insuficiente. Para alívio geral, finalmente o Tamiflu estará liberado nas farmácias… em 2010.

Mais uma vez fomos engabelados pelo discurso oficial (incluindo o Sr. Ministro Ex-temporão), que jamais admitiu a hipótese de não haver medicamento em quantidade, o que provocou a não distribuição para a rede farmacêutica e foi a verdadeira causa da via crucis burocrática para que o paciente tivesse acesso ao remédio.

Resta à sociedade o consolo da ação do Ministério Público Federal, que vai acionar a União pedindo indenização para as famílias das vítimas. Tudo bem, mas no final quem vai pagar a conta somos nós mesmos. Ao ministro restaria o bom senso de pedir o boné e sair de cena. Ah, infelizmente ele não pode: é do PMDB.

Em perseguição a ladrões de um veículo, três guardas municipais de São Caetano adentraram a favela de Heliópolis, em São Paulo. Na confusão deram dois tiros fatais na adolescente Ana Cristina de Macedo, que retornava da escola. De acordo com a tia da moça, ela foi atirada dentro do carro da GCM e só foi conduzida ao hospital depois que policiais civis e militares chegaram ao local. Dois bandidos fugiram, mas a menina perdeu a vida.

Não demorou e a revolta dos moradores se espalhou pela comunidade. Um carro da GCM foi apedrejado e a polícia de choque foi chamada para conter os ânimos.

Um dia depois a revolta popular se transformou em explosão social. Ônibus e carros foram parados e incendiados por grupos de jovens, que enfrentaram a tropa de choque da PM de São Paulo com pedras, paus e fogos de artifício.

A Rede Globo tenta atribuir o incidente a um suposto bilhete, escrito à mão por traficantes, que anunciava o pagamento de cesta básica para quem participasse. É a velha forma de transformar revolta popular em “baderna” e criminalizar os “de baixo”. Pode até haver interesse por parte da criminalidade em explorar o fato, mas este é o aspecto menos relevante em questão.

Um dos três GCMs envolvidos no caso tem em sua ficha profissional uma expulsão da Polícia Militar, o que já indica problemas na sua contratação pela Prefeitura de São Caetano. Outro fator que chama a atenção é que em São Paulo guardas municipais podem portar armas de fogo. E o terceiro é que empreenderam uma perseguição a um veículo, adentrando em outra cidade e sem comunicar à Polícia Militar.

A militarização da segurança pública é uma marca da sociedade brasileira que se aprofundou com a ditadura militar. Estima-se que existam oficialmente cerca de 700 mil seguranças privados com porte de arma, o dobro do número de policiais em todo o país. Isso sem contar a enorme quantidade de empresas de “segurança” que atuam irregularmente. Já passou da hora de por um ponto final à militarização da segurança pública no Brasil e criar uma só polícia, civil, com viés tpecnico e investigativo.