Neofascismo ou “mexicanização”?

08/04/2018

Um fantasma ronda a esquerda brasileira: o receio do “neofascismo”. A tese de que estaria crescendo um movimento fascista ganha cada vez mais corpo entre dirigentes, ativistas e militantes, a partir de uma colagem de fatos. A prisão de Lula, o assassinato de Marielle Franco, o crescimento da popularidade de um candidato que apregoa o retorno ao regime militar, os tiros em ônibus da caravana de Lula no sul do país, etc.

Fosse apenas uma tese não haveria qualquer problema nessa avaliação da realidade pós-golpe de 2016. No entanto, essa análise leva a determinadas políticas, que vão mover a militância e trazer consequências. A história do fascismo só pode ser contada a partir das primeiras décadas do século XX, com base em determinadas premissas.

Os países que adotaram este tipo de regime, notadamente a Alemanha, a Itália, Espanha e Portugal, o fizeram em função de algumas premissas básicas: a existência de camadas médias numericamente importantes em relação à sua população; o crescimento de organizações/partidos fascistas, com ideologia e disciplina; a construção de milícias fascistas; o apelo ao discurso hegemonista, com base no resgate de períodos históricos em que esses países tinham papel preponderante no cenário mundial; e o uso do anticomunismo como elemento fundamental para combater e aniquilar adversários.

Ora, não por acaso o fascismo, que ensaiou seu projeto em países como a Argentina e o Brasil naquele mesmo período, não obteve êxito no chamado terceiro mundo. A maior de todas as razões para isto foi a falta de uma base de classe que o sustentasse. Em outras palavras, é praticamente impossível ao fascismo vingar em sociedades formadas por imensa maioria de pobres e mestiços, nas quais as camadas médias não representam nem 30% da população.

Da mesma forma faltam elementos consistentes na tese de crescimento de um projeto neofascista no Brasil da segunda década do século XXI. Não há qualquer semelhança entre a atividade de milícias paramilitares que controlam partes do território, por conta da ausência do Estado e de seus interesses econômicos imediatos (venda de gás, net, internet, transporte de vans, etc), e as milícias fascistas das primeiras décadas do século passado, movidas pelo anticomunismo.

O surgimento de movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL pode ensejar uma boa discussão, mas são grupos que não conseguem dialogar com a maioria, simplesmente porque seu programa ultraneoliberal não encontra eco na população mais pobre e marginalizada. Isso não quer dizer que se deve desprezá-los na luta política.

Se a cara do que enxergamos não se assemelha ao fascismo e nem mesmo ao neofascismo, então o que é? O capital mundializado elegeu como seu objetivo sugar as economias, colocar os estados nacionais a seu serviço e reduzir a presença do Estado ao mínimo. A estratégia é manter e estimular os nichos de mercado e concentrar cada vez mais a produção e o consumo.

A consequência disso é que populações e territórios inteiros estão sendo largados ao “Deus dará”, sem qualquer proteção trabalhista e social. Ora, é nesses espaços que crescem gangues, que “oferecem serviços”, exploram o comércio de drogas/armas e tudo que sobra do banquete do grande capital. O melhor exemplo disso é o México, onde se afirmam cartéis, como o Jalisco Nova Geração e os Zetas.

A esquerda brasileira se atém a uma leitura permanente e necessária da superestrutura da economia e da vida política. Na verdade, ela ainda está distante da realidade concreta vivida pela esmagadora maioria de nosso povo. Isso a impede de observar o que acontece na base da sociedade e intervir aí. E este tem sido o terreno de atuação de grupos de narcotraficantes varejistas, milícias com fortes laços com o Estado e igrejas neopentecostais nas favelas e periferias.

A tarefa que está posta para os que lutam por uma sociedade livre da exploração no Brasil exige mais do que reeditar teses que a esquerda usou e serviram para as primeiras décadas do século XX. Enfrentar grupos fascistóides nas ruas é queimar energias e se igualar a eles, o que não terá a aprovação da maioria de nosso povo, que sofre cotidianamente com a violência.

Melhor será investir energias ao retorno paciente e no diálogo nos locais de trabalho, estudo e moradia, nos quais a militância terá que enfrentar uma realidade muito mais dura e complexa. Acrescente-se a isso a necessidade de diálogo entre as forças de esquerda (inclusive nos processo eleitorais que virão), bem como a formação de frentes de luta com setores democrático e progressistas.

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