Apuração do assassinato de Marielle pode ser decisiva para a vida política brasileira

18/03/2018

O assassinato da vereadora Marielle Franco suscita uma série de hipóteses para o crime e debates importantes para o país. Não é comum a execução de um membro do Poder Legislativo de uma capital da importância do Rio, mulher mais votada em 2016, socialista, lutadora contra o racismo e defensora dos direitos humanos.

Só por esses aspectos já se pode compreender a importância que este caso assume, diferentemente de um crime comum e da morte de tantos e tantos outros brasileiros, por mais que todos sejam igualmente chocantes. Um inquérito policial, imagina-se, não pode descartar qualquer hipótese.

Crime passional? Dificilmente um assassino nessas circunstâncias contrataria mais de duas pessoas e dois veículos para eliminar alguém. Em situações como essa o próprio desafeto costuma ser o autor do crime. Neste caso, os depoimentos de pessoas mais próximas, parentes e amigos levaria a uma elucidação relativamente simples e rápida.

Dívidas? Basta à polícia solicitar a quebra do sigilo bancário da vítima e tomar o depoimento de familiares e do círculo de amizades. Não consta que a vereadora estivesse com este tipo de problema, mas também não seria difícil identificar e localizar possíveis credores. No entanto, mesmo admitindo essa hipótese, seria um exagero que agiotas dessem fim a alguém que tem fonte de renda fixa e ganhos razoáveis, comparados aos dos demais brasileiros.

Acerto de contas do tráfico? Circulou nas redes sociais uma versão de que Marielle teria sido eleita com apoio de traficantes varejistas ligados ao CV, que controlam a Maré. De acordo com esta mesma versão, traficantes estariam descontentes com sua atuação. O mapa eleitoral desmente esta hipótese, porque Marielle fazia parte dos chamados candidatos de opinião, que recebem votos de eleitores de diversas regiões, justamente por ter posições políticas conhecidas e uma atuação marcante. Na região da Maré ela recebeu cerca de dois mil votos, num total de 46 mil de toda a cidade.

Ambição do suplente imediato de seu mandato? Já aconteceu do envolvimento de suplentes na eliminação de titulares de mandatos parlamentares. Às vezes por acertos políticos anteriores, às vezes por mera ambição política. Mas quem conhece o presente e o passado de João Batista Babá, por mais que possa discordar de suas posições políticas, não pode crer nesta versão.

Restaria a hipótese de crime político, em resposta às atividades do mandato, o que poderia der investigado por duas vertentes principais: 1) As denúncias que Marielle fez sobre as atividades violentas promovidas por alguns policiais do 41º BPM na Favela do Acari, o que atinge os interesses de grupos de extermínio dentro da polícia; 2) O fato de Marielle ter se pronunciado publicamente contra a intervenção federal/militar no Rio e de ser uma das relatoras da comissão parlamentar formada para acompanhar as atividades promovidas pelos interventores.

Mexicanização?

Até agora as imagens recuperadas que antecedem ao crime mostram que dois veículos seguiram o carro em que a vereadora e seu motorista estavam e foram executados. Ou seja, havia pelo menos três pessoas envolvidas na ação. A arma e a precisão do atirador demonstram que não se tratou de um serviço de amador, visto que três tiros acertaram a cabeça de Marielle.

O grande problema é que, se confirmada a hipótese mais provável de eliminação política, o caso se transforma num crime contra o regime e suas instituições. E não se trata apenas de mais um dos membros do Poder Legislativo, como já ocorreu com parlamentares de municípios do Grande Rio com histórico de execuções de políticos por envolvimento com grupos de poder local, como os da Baixada e São Gonçalo. Trata-se de uma vereadora eleita na defesa de uma série de bandeiras políticas claras, todas elas polêmicas e que dividem opiniões.

Se, ao contrário do anunciado, as autoridades apresentarem uma versão pouco convincente ou uma apuração pela metade, estará dado o sinal verde para que novas execuções levem o país a uma escalada de assassinatos, contaminando de vez a vida política brasileira, como ocorreu em outros países, como o México. Vale lembrar que a morte de Teori Szavaski, no início de 2017, em circunstâncias pouco comuns, ainda paira como algo nebuloso para a opinião pública.

Essa prática mafiosa poderá atingir não só gente da esquerda, mas também qualquer pessoa que ouse confrontar os interesses desses grupos. Por isso, reveste-se de especial importância o acompanhamento das apurações por parte de uma comissão independente, tal como pediu a ONU, com a participação de parentes e companheiros de trajetória política de Marielle.

Desvendar este crime bárbaro pode ser determinante para puxar o fio da meada de uma série de estruturas de poder econômico e político que ser formaram no Rio e no país ao longo das últimas décadas, com ramificações dentro e fora do Estado brasileiro. Será também a oportunidade de demonstrar que, mais importante do que uma intervenção com tropas das Forças Armadas, com custos elevados e pouca eficácia, é preciso limpar os porões da vida política, enlameados de negócios escusos e cumplicidade entre as oligarquias e grupos mafiosos.

Resta saber se os responsáveis pela apuração terão a independência suficiente para chegar aos assassinos e, principalmente, aos mandantes do crime.

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