Sob a bandeira do “nacionalismo” se escondem outros interesses

06/10/2017

A crise política espanhola, exposta a partir do plebiscito de 1 de outubro na Catalunha, desperta muitas paixões. Há quem vá à História da formação do país, há séculos atrás, para justificar o sentimento nacionalista do povo catalão. Outros ficam nos episódios que marcam a ditadura fascista de Francisco Franco para defender a independência da Catalunha.

Certamente tudo contribui para o debate, menos o apelo demagógico dos “nacionalistas” dos dois lados. Sim, porque os que são contra a independência da Catalunha o fazem sob o discurso de defesa da nação espanhola, que correria sério risco de se desmantelar caso os catalães abandonem o país. Já os nacionalistas catalães também defendem sua independência em nome da formação da sua própria nação.

Afinal, o que todo este “nacionalismo” traduz e esconde? O nacionalismo é uma expressão da identidade que une determinado povo de determinada região, forjado a partir de costumes, língua, tradições. Mas este mesmo nacionalismo sempre procurou ocultar algo fundamental: os catalães ricos têm muito mais em comum com os madrilenhos ricos do que os dois com seus respectivos povos.

O que os catalães ricos querem é o direito de ampliar, expandir e avançar em seu direito de fazer negócios e obter mais riquezas, sem dar muita satisfação à Madri. E o fazem a partir da velha exploração dos catalães trabalhadores, por mais que falem a mesma língua, que torçam pelo mesmo clube (não esqueçamos que lá também existe o Español), que tenham os mesmos costumes. Ou será que o senhor Puidgemont vive os mesmos problemas da maioria do povo catalão?

E o que querem os espanhóis ricos, aliados do senhor Rajoy e seu PP? Garantir que os trabalhadores da Catalunha continuem a produzir e a contribuir com seus impostos, para assegurar os interesses das velhas elites madrilenas.

Portanto, travado sob o signo do nacionalismo, este embate só produz uma falsa polêmica, escondendo interesses de classe inconfessáveis. É evidente que é direito do povo catalão ir às urnas e dizer se quer ou não pertencer à Espanha. Também é claro que não se pode tolerar a proibição de um plebiscito e o uso da violência policial contra os que foram às urnas em 1 de outubro.

Mas é uma falácia considerar que a maioria dos catalães quer a independência, sabendo-se que somente 42% dos eleitores foram às urnas e que a esmagadora maioria dos que são contra sequer foram votar. Além de se desconhecer o fato de que todas as pesquisas de opinião concluem que a população da Catalunha sempre esteve dividida a respeito deste tema.

Puidgemont já deixou claro que está disposto a um novo acordo entre o governo central de Madri e a Catalunha, mesmo depois de tudo que se passou após o 1 de outubro. E ele sabe que uma independência, neste caso, não será acolhida pelos demais países da União Européia, também sob a ameaça de movimentos independentistas.

Rajoy, por sua vez, sabe que se esticar demais a corda pode ser até defenestrado de sua condição de primeiro-ministro, sob a acusação de não ter capacidade de gerenciar a unidade da Espanha. Ambos terão que encontrar uma saída. Pelo histórico e o interesse de classes que os dois defendem certamente não será um acordo positivo para o povo espanhol e nem para o povo catalão.

Como se vê, o problema é complexo, não se trata de um Fla X Flu e muito menos de um Real Madri X Barcelona.

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