O Brasil faz-de-conta da mídia empresarial brasileira

27/09/2017

Há dias assisto às entradas ao vivo de repórteres das principais redes de TV aberta, “direto da Rocinha”, como anunciam os âncoras do noticiário. Mentira, eles não passam da Via Apia. Para quem não sabe, trata-se de uma das principais entradas da favela, beirando o asfalto de quem sai do Túnel Zuzu Angel.

De lá ou de outro ponto das redondezas da Rocinha, às vezes da passarela que liga a comunidade ao outro lado da rua (Autoestrada Lagoa-Barra), rapazes e moças paramentados com coletes e, às vezes, capacetes com a inscrição “Imprensa”, repetem comunicados oficiais ou o óbvio: “Há pouco ouvimos um tiroteio”.

Não há nada mais artificial e rasteiro do que pretender informar à sociedade sobre o que se passa em um lugar sem ao menos estar naquele lugar. Que dirá sem conhecer o lugar. É assim que assisto, perplexo, ao noticiário sobre a “guerra na Rocinha”, como se houvesse “mocinhos e bandidos”, numa fábula hollywoodiana. Assim as coisas são tratadas, o que justifica a histeria pela intervenção militar, hoje no Rio, amanhã em todo o país. Por que não?

É assim que todos os dias nos acostumamos com a narrativa superficial na telinha sobre o que acontece no Mundo, no Brasil e na nossa cidade. Poucos repórteres e equipes de reportagem, pouca investigação, muito comentário e achismo, pouco fato, pouco substantivo e muito adjetivo, sem contar as lições de moral e as caras e bocas de apresentadores.

Melhor consultar o site da BBC Brasil ou o El País digital, que reservam reportagens e entrevistas com moradores e personagens que vivem o dia-a-dia da Rocinha. Para descobrir os meandros da briga de facções (CV X TCA com apoio do PCC) o jeito é acompanhar o canal da TV Coyote, ancorado por um jovem paulistano no Youtube.

O repórter que mais conhece a Rocinha é um inglês, que se mudou e morou três meses na favela, gravou 28 horas de conversas com o Nem e publicou o livro “O dono do morro”. Misha Glenny estudou o tráfico de drogas por quatro anos e, em entrevista à Globonews, ainda confessou conhecer pouco do assunto.

No Rio já perdemos o Correio da Manhã, a Última Hora, o Jornal do Brasil, a Tribuna da Imprensa e a Luta Democrática. Nas bancas estamos limitados a ler as manchetes de dois grupos empresariais de comunicação: O Globo (Extra e Meia Hora) e O Dia (Expresso).

Cercada de uma mídia empresarial medíocre, mais atenta à venda de produtos do que ao papel de informar, a sociedade fluminense e brasileira assiste todos os dias a um noticiário faz-de-conta. Uns mais outros menos sensacionalistas, uns mais outros menos apelativos, mas todos, absolutamente todos superficiais. O Brasil de verdade não encontra lugar nas páginas dos jornais, nas reportagens de rádios e TV e nos sites dos grandes grupos de comunicação.

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