Surgimento e crescimento das milícias no Rio e Grande Rio

25/09/2017

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Braço importante da violência urbana e da extorsão de moradores das áreas mais pobres do Rio e Grande Rio, as milícias ocupam hoje (2017) mais da metade das regiões governadas pela criminalidade. Formadas inicialmente em nome do combate à violência das facções criminosas, as milícias, comandadas por policiais e ex-policiais e bombeiros, passaram a adotar as mesmas práticas da bandidagem.

Primeiro ofereciam proteção armada a comerciantes e moradores de favelas e bairros populares, depois entravam com outros serviços, como a venda de TV a cabo, internet, transporte alternativo, venda de gás em botijão, etc. Hoje esses grupos fazem acordos com setores da bandidagem para explorar pontos de camelôs, caça-níqueis e até prostituição. Mais recentemente somou-se a essas áreas de arrecadação o próprio tráfico de drogas, com o recrutamento de ex-traficantes.

O crescimento das milícias está associado à percepção de que o Estado não cumpre o papel de prover as comunidades carentes do mínimo necessário nas áreas sociais, e que elas estão largadas à sua própria sorte e ao domínio da bandidagem. Essa percepção fez crescer os olhos de policiais e ex-policiais que residem ou atuam nessas regiões, muitas vezes chamados por comerciantes a intervir para “limpar a área” de marginais.

No entanto, foi nos anos 90 que essa atuação informal se transformou em organização criminosa. A maior das milícias de que se tem notícia no Rio atende pela alcunha de Liga da Justiça, em função de dois policiais que agiam na Zona Oeste, apelidados de Batman e Robin. Aos poucos, sua atuação se estendeu por toda a Zona Oeste do Rio.

Em 2008 o deputado Marcelo Freixo comandou a CPI das milícias, na Assembleia Legislativa do Rio. 226 pessoas foram apontadas como membros das milícias, incluindo vereadores, deputados e até um ex-secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, e um ex-chefe de polícia, Álvaro Lins. Alguns dos acusados foram presos posteriormente, inclusive Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman.

Entre os milicianos destacavam-se o deputado estadual Natalino José Guimarães, o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras (DEM), o vereador André Ferreira da Silva, o Deco (PR), o vereador por São Gonçalo Geiso Pereira Turques, o Geiso do Castelo (PDT), e o vereador por Duque de Caxias Sebastião Ferreira da Silva, o Chiquinho Grandão (PTB), além dos vereadores eleitos Carmen Glória Venâncio Guimarães, a Carminha Jerominho (PT do B), e Cristiano Girão (PMN). Também foi indiciado o ex-deputado estadual e ex-chefe da Polícia Civil do Rio Álvaro Lins.

Observe-se que a atuação de milicianos organizados se expandiu para a Baixada Fluminense e São Gonçalo, áreas mais pobres e densamente povoadas do Grande Rio.

Dados do Ministério Público mostram que desde 2007 até o primeiro semestre de 2017 foram 1.276 prisões de milicianos, sendo 235 de PM. Nos últimos dez anos, no entanto, o perfil dos envolvidos mudou, com destaque para ex-policiais, assim como o seu modus operandi. Os policiais da ativa passaram a agir por trás desses grupos, mas não aparecem diretamente nas ações os grupos milicianos.

Antes prevalecia o assassinato e exposição dos mortos, como forma de mandar recado. Agora, os milicianos somem com os corpos de suas vítimas. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o Rio tem mais de 33 mil desaparecidos, desde 2002. Desse total, as delegacias da Zona Oeste lideram o ranking no estado, com destaque para Campo Grande (3.088) e Santa Cruz (2.365).

O poderio das milícias, que já controlam mais da metade das áreas conflagradas, supera em muito os grupos do tráfico varejista de drogas. Elas têm contato direto e gente trabalhando nos órgãos de segurança do Estado, o que facilita sua atuação e camuflagem. Sua influência política se manifesta na eleição de prefeitos, deputados e vereadores, o que as torna uma força política poderosa em todo o Rio e Grande Rio.

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