As origens e a organização do tráfico de drogas no Brasil

24/09/2017

O crescimento do tráfico de drogas e de armas é um fenômeno mundial, na medida em que o consumo de entorpecentes se tornou um negócio extremamente rentável, com um mercado internacional, e sempre foi combatido com apelos morais e pouco racionais.

No Brasil a primeira organização criminosa que lançou mão do tráfico de drogas foi a Falange Vermelha. Ao final da década de 70, depois de conviver nos presídios do Rio e perceber como os presos políticos se organizavam para construir uma rede de solidariedade externa, parte da bandidagem decidiu criar uma espécie de irmandade para defender os presos comuns e suas famílias, completamente desamparadas pelo Estado.

As primeiras ações foram assaltos a bancos, o que rendeu bons resultados, mas desencadeou uma perseguição implacável da polícia. Muitas lideranças foram mortas ou presas. Foi então que se desenvolveu uma lógica de conquista e domínio de territórios, a partir das favelas, espaços urbanos em que o Estado estava ausente e de difícil acesso para a polícia. A partir daí, o financiamento do grupo passou a ser feito com a venda de maconha e, mais tarde, a cocaína. Nos anos 80 uma nova geração assume e passa a adotar o nome de Comando Vermelho (CV).

Criado a partir de um grupo de lideranças que foram removidas do Carandiru, após o massacre de 1992, o Primeiro Comando da Capital (PCC) também surgiu dentro da cadeia (Taubaté-SP), com a finalidade de organizar a massa carcerária contra os maus tratos e más condições nos presídios.

Aos poucos, por contar com líderes articulados e a fama de práticas sanguinárias – como cortar as cabeças dos adversários – o PCC cresceu e organizou uma rede de solidariedade e ações criminosas fora das cadeias. Sua atuação se expandiu por todo o estado de São Paulo.

Com a permissividade do Estado, incapaz de oferecer alternativas de sobrevivência e ascensão social aos setores mais desfavorecidos da juventude, essas duas facções criminosas cresceram e se expandiram, fazendo alianças com outros grupos regionais em todo o país.

Para o crescimento do tráfico de drogas e armas muito colaborou a corrupção policial e a falta de interesse das classes dominantes em compreender e atacar o problema. Grande parte da polícia usa sua prerrogativa de corpo armado do Estado para extorquir e vender armas para traficantes.

Já os grupos políticos dominantes toleram o tráfico, desde que este não mexa com seus negócios. Partidos e líderes políticos das elites fazem um discurso demagógico contra a bandidagem, mas realizam acordos com as facções criminosas quando se trata de buscar votos nas comunidades dominadas por elas.

O chamado “crime organizado” atua em todo o Brasil, recebendo drogas de países vizinhos produtores de maconha e cocaína, além de armas, através do contrabando do Paraguai e dos EUA, nações em que o controle de venda de armamentos é limitado.

O PCC e o Comando Vermelho não são, propriamente, organizações que comandam o tráfico internacional de entorpecentes, mas redes fundamentais para a venda no mercado brasileiro e no escoamento de drogas para os mercados da Europa.

Até o final de 2016 o PCC e o CV mantinham relações de colaboração, dividindo espaços e alianças pelo país. O PCC é uma organização mais sofisticada e começou numa época em que o mercado consumidor demandava a cocaína e o crack. Sua ação envolve um esquema empresarial de lavagem do dinheiro que arrecada. Já o CV começou com a maconha e depois a cocaína. Sua organização é menos sofisticada, limitando-se a recolocar os recursos que arrecada no próprio negócio do tráfico.

Aparentemente as operações mais sofisticadas e organizadas (compra e contatos nos países produtores de drogas e contrabando de armas) são executadas pelo PCC. Já o CV tem sua atuação mais focada na rede de abastecimento de drogas no mercado interno, em aliança com outros grupos no Rio e no Brasil.

Os principais líderes vivos do PCC são Marcola, Gegê do Mangue, Paca e Edilson Mirosca. A eles se juntou o Fantasma, que ficou responsável por recrutar membros e organizar o PCC no Rio. Já no CV os líderes mais influentes são Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco e Marcinho VP, todos presos.

No início de 2017 estouraram conflitos dentro das penitenciárias no Norte e no Nordeste do país, que originaram dezenas de mortes. Foi o anúncio do rompimento oficial entre CV e PCC. No Rio, dois grupos com alguma força – o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Amigos Dos Amigos (ADA) – decidiram se fundir, no que hoje se denomina de Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

A disputa pelo comando da Rocinha é parte desta guerra entre os principais grupos organizados do tráfico de drogas. O PCC decidiu se aliar ao TCA, para enfraquecer o CV e seus aliados. Não se pode dizer que Rogério 157, ex-preposto de Nem, esteja incorporado ao CV, mas sabe-se que ele não acompanhou Nem e seus comandados na aliança com o PCC.

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