A “salvação da pátria” e a guerra infantil nas redes sociais

20/09/2017

Há uma grande parcela do povo brasileiro que vive a expectativa de que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, uma salvação virá para nos redimir de nossos problemas. É assim nos clubes de futebol (à procura de um grande craque), na religião (em busca de um messias), com a saúde (receitas milagrosas) e até na sorte (um grande prêmio na loteria).

Enquanto esse fetiche da “salvação da pátria” se resume às questões pessoais, crenças e desejos, tudo bem. Mas quando isso passa para o plano da política as coisas se complicam. É a tentativa de projetar no outro tudo que gostaríamos de ser e fazer e que não podemos ou não temos a coragem.

“Se fulano vencer vai ser f…”. “Se beltrano assumir tudo vai mudar”. “Se cicrano souber disso a cobra vai fumar”. São expressões comuns, repetidas aos quatro ventos pelas pessoas, que reforçam esse fetiche do semideus, o todo poderoso que vai dar um jeito nas coisas que julgam erradas.

Na esquerda o fetiche é com Lula, ainda que nem de esquerda ele possa ser classificado. Ou por acaso Lula anda defendendo o socialismo, a expropriação do grande capital e um regime baseado em conselhos populares por aí? Mas os que o julgam de esquerda não querem saber e sentenciam: “O Lula vai voltar e aí vocês vão ver…”.

Ver o que? O que foi que se viu em oito anos de Lula na Presidência? Muito menos ousadia do que os três anos incompletos de João Goulart e suas reformas de base, acusado de comunista e derrubado por um golpe militar. Nem aos pés dos menos de três anos de Allende e seu governo da Unidade Popular, no Chile. E muito menos do que representou Hugo Chaves e seu socialismo do século XXI para a Venezuela.

No campo oposto, o da direita, o fetiche está em Jair Bolsonaro. De repente, um ex-oficial do Exército, afastado das Forças Armadas por atos de indisciplina, virou o exemplo a ser venerado, ao ponto de muitos o chamarem de “mito”. “Se o Bolsonaro chegar à Presidência vai acabar essa pouca vergonha”, sentenciam por aí.

Será que essas pessoas já pararam para observar as palavras e atitudes destemperadas de seu ídolo? Será que não entenderam que Bolsonaro vive num teatro, que faz de sua atuação a representação de uma personagem em busca de um filão eleitoral ultraconservador? Será que não enxergam que seu “mito” fez disso um meio de vida para se eleger por vários mandatos?

Pior que isso só os que usam a decepção política da maioria dos brasileiros para pregar o velho receituário do regime militar. “No tempo dos militares não tinha corrupção, vivia-se em paz”, decretam. Isso só reforça a necessidade de uma revisão histórica completa acerca dos 21 anos da ditadura militar brasileira.

Ou seja, grande parte dos brasileiros adultos parece não ter saído da infância, busca em algo ou em alguém, tal qual uma criança que espera por um milagre ou um herói, a redenção do país. Como se a solução dos nossos problemas não fosse da responsabilidade de todos, em vez de ser delegada a um salvador que virá, não se sabe de onde, para curar-nos de todos os nossos males.

Talvez esse comportamento infantil explique a guerra nas redes sociais, em que imperam os adjetivos e xingamentos de lado a lado. Essa personificação da disputa política deixa de lado o debate sobre as engrenagens do sistema, às quais estamos presos, enquanto se discute o “Fla X Flu” despolitizado de lulistas e bolsonaristas.

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