Infiltrados e provocadores

26/05/2017

Toda vez que acontece um quebra-quebra, agências bancárias depredadas e outras escaramuças que descambam em formas violentas de protesto, volta à tona o debate sobre a infiltração de provocadores, visando à criminalização das manifestações e dos movimentos populares. Isso esteve muito em voga a partir de 2013, com o emprego da chamada tática black bloc nas manifestações de rua, por parte de grupos de jovens.

Alguns atribuem o uso das táticas bloc a anarquistas, outros a autonomistas. Temo que este debate esteja se sofisticando ou tomando tempo demais, quando o foco de nossas atenções deveria estar voltado para coisas bem mais importantes. Mas, já que o assunto voltou à pauta, vamos a ele.

Como até hoje ninguém conseguiu oferecer um estudo mais profundo a respeito ou sequer uma reportagem confiável que mostre esses grupos por dentro, pretendo apenas dar alguns pitacos.

1 – Infiltrados – Depois que recebi cópia de documento de um órgão de segurança em que constava meu nome e de um companheiro, com o relato de uma reunião ocorrida em São Paulo, durante os anos 90, no qual havia detalhes de tudo que fora discutido, cheguei à conclusão óbvia que o aparelho de repressão continua intacto, anos depois do final da ditadura militar. Portanto, certamente até hoje há infiltrados e provocadores em todas as organizações de esquerda e movimentos populares;

2 – Provocadores – Certamente há uma divisão de tarefas entre os agentes da repressão: alguns compilam dados e outros agem nas atividades de rua, os chamados provocadores. Eles existem para estimular o conflito violento com a polícia e a depredação generalizada. Assim, é possível construir e “provar” o discurso de que a luta popular é, por si só, violenta;

3 – Violentos – Se observarmos as lutas populares em todo o Planeta veremos que elas possuem características semelhantes. As manifestações de rua, por princípio, são sempre pacíficas e reivindicam algo concreto ou expressam um sentimento de repúdio a algo ou alguém (políticos, governos, etc). No entanto, as classes dominantes usam da violência institucional – autorizada ou não – para forjar o confronto e criminalizar as lutas e os movimentos insurgentes. São inúmeros os exemplos de experiências de luta em que há grupos que enfrentam a polícia: na Coréia usam escudos, capacetes e até porretes; na França são constantes os confrontos de rua nas recentes lutas contra as reformas neoliberais. Mas esses mesmos recursos muitas vezes são usados pela direita, como na Venezuela, muito mais violentos;

4 – Baderneiros – Outra característica do discurso midiático empresarial é taxar os que lutam de “baderneiros” e de baderna todos os protestos que denunciam os interesses do sistema. Assim, ao classificar a todos os manifestantes de “baderneiros”, a mídia pretende desqualificar as manifestações e as reivindicações populares;

5 – Vândalos – O mais recente adjetivo usado para classificar quem protesta é “vândalo”. Ao pé da letra “vândalo” é um povo de origem germânica, que por isso mesmo foi tratado de “bárbaro” pelo Império Romano, que então dominava a Europa e grande parte da África e Oriente Médio. No imaginário popular o “vandalismo” é confundido com atitude dos que danificam, deliberadamente, bens públicos ou privados ou, de forma mais objetiva, selvageria. Mas quem eram os “bárbaros”? Nada mais do que povos que foram massacrados durante séculos pelos civilizados romanos e decidiram se levantar para defender seu direito a existir livremente, enfrentando o Império.

6 – Depredação de patrimônio – Quando se trata de agências bancárias, ônibus urbanos e lojas de departamentos é bom lembrar que tudo isso está coberto por seguro. Portanto, os “prejuízos” são cobertos e a vida continua. Há coisas que fogem ao controle, como o quebra-quebra de prédios públicos, o que, de fato, constitui prejuízo para a sociedade. No entanto, os prejuízos alegados nestes casos são ínfimos, comparado ao prejuízo perpetrado por agentes públicos e corruptores, que assaltam cotidianamente o erário público.

A violência policial contra manifestações tem a ver com a velha forma das elites brasileiras em tratar os movimentos reivindicatórios como “caso de polícia”. Enquanto as classes dominantes encararem protestos de rua como “baderna” o tratamento que darão será o mesmo: porrada e bomba.

No caso do Brasil é preciso observar que a polícia militarizada é usada em larga escala nas incursões que redundam em feridos e mortos nas favelas e periferias. Só recentemente setores da classe média que participam de protestos estão sentindo na pele aquilo que já é regra para o povão.

Particularmente nunca fui dado a me apaixonar por táticas de luta que incluam qualquer tipo de violência. Encaro uma passeata como momento de protesto político. Não me preocupo com táticas de rotas de fuga, uso de pedras, paus, escudos, etc. Mas não condeno os que se enfrentam com a repressão, quando são atacados por de policiais em manifestações públicas.

As táticas black bloc se assemelham, de certa forma, ao ludismo, movimento nascido entre as primeiras levas de operários que, sem conhecer formas de organização e luta mais evoluídas, voltavam-se contra os patrões procurando dar-lhes prejuízo pela via da obstrução ou quebra proposital das máquinas. Obviamente, essa forma de agir se mostrou insuficiente e logo foi superada pela organização sindical.

Os que se incomodam ou têm receio de serem confundidos com infiltrados, provocadores, violentos, vândalos ou baderneiros devem ficar em casa ou, no máximo, assistir a tudo pela TV do botequim. Também podem adotar o protesto virtual como saída, assim ninguém se machuca. Para o sistema, estamos todos rotulados, sejam as nossas intenções as mais pacíficas ou não.

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