A esquerda brasileira e o movimento dos PMs e seus familiares

13/02/2017

Estranho a reação da maioria da esquerda brasileira diante das mobilizações e protestos de policiais militares. Uma parte condena e outra se omite, poucos se dignam a apoiar o movimento. Ora, em que sentido a defesa de reivindicações mais do que justas, como melhores salários, pagamento de salários e gratificações atrasadas, pode alterar a convicção de que é preciso desmilitarizar a Polícia?

Por que não se pode apoiar e ser solidário aos policiais e seus familiares, justamente quando se enfrentam com governos estaduais e o próprio governo Temer? Isso impede o debate sobre o fim da estrutura militar, a necessidade de uma policial civil técnica, subordinada a regras e controles democráticos?

O fato concreto é que essas mobilizações (sobretudo no E. Santo e Rio), capitaneadas pelas esposas e parentes dos policiais, demonstram a insatisfação de boa parte da tropa com a política de segurança pública dos governantes e com o oficialato. Agora já se espalha o boato de que uma parcela dos homicídios cometidos no E. Santo, durante os dias de mobilização da PM, teriam sido cometidos por grupos de extermínio formados por policiais.

Outra forma de atacar o movimento é dizer que os mesmos policiais militares que não estão em serviço nas ruas, aproveitam a paralisação para fazer bicos em empresas de segurança privada. Se quisessem acabar com essas empresas os governantes não tolerariam e nem legalizariam o “bico”. Mas as classes dominantes não podem passar sem a segurança privada e preferem incentivá-la que oferecer condições dignas aos PM. Ao contrário, oferecem o “bico” como solução, mantendo os policiais ainda mais reféns desta estrutura perversa.

Isso é típico da covardia mais vil das classes dominantes. Quando é para fazer o trabalho sujo usa a PM como capatazia para qualquer serviço, inclusive reprimir greves e manifestações populares, mas quando os policiais decidem se insurgir contra baixos salários e péssimas condições de trabalho, investem na criminalização da tropa junto à sociedade.

A maior demonstração disso é a tentativa de impedir que o movimento se alastre a outros estados, através do envio de um Projeto de Lei ao Congresso Nacional, que visa “regulamentar” greves nos “setores essenciais” e criminalizar qualquer movimento dos policiais.

Há quem acredite que a luta dos PMs e seus familiares prejudica mais a população pobre. Trata-se de um argumento frágil, porque os trabalhadores e suas famílias vivem em seu cotidiano nas favelas e periferias entre a repressão policial e da bandidagem.

Fui, sou e sempre serei um crítico contundente da militarização da polícia. Sempre que debato o tema defendo (como indica que é a vontade da maioria dos policiais em inúmeras pesquisas) o fim da Polícia Militar, a formação de uma única polícia civil, profissional, com formação superior, bem remunerada e treinada, voltada ao combate de crimes comuns.

Cansei de denunciar no rádio e em inúmeros artigos as barbaridades da violência e da corrupção policial, sobretudo das polícias militares nas áreas de favelas e periferias. Os maiores adversários dessas posições são os porta-vozes das elites, que confundem isso propositalmente com a defesa dos bandidos e dos direitos humanos acima da lei.

E agora? Onde estão os defensores dos “justiceiros” fardados? Estão do lado dos governantes reacionários, como Temer, Raul Jungmann, Paulo Hartung e Pezão. A eles se somam os responsáveis maiores pela grande rede de corrupção que impera nas PM: parte dos comandantes e do oficialato, que complementam sua renda com o “arrego” de traficantes e motoristas.

Alguns fazem vistas grossas e até tem interesses na formação de grupos de milicianos, nova modalidade de exploração das populações das favelas. São eles os sócios de empresas privadas (quase sempre em nome de familiares) de segurança, das empresas de reboque, de outras que prestam serviços nos quartéis e que vivem do achaque da população e da bandidagem (arrego) e da corrupção.

É evidente que as polícias são estruturas e corpos especiais de repressão do Estado burguês, como bem frisou V. Lenin em seu “O Estado e a Revolução”. Mas isso não impede que até mesmo dentro das polícias surjam contradições com governantes e suas políticas reacionárias. No entanto, é preciso observar que, diferentemente da época em que os policiais eram recrutados sem critérios objetivos, hoje eles são servidores públicos concursados.

Os baixos salários, as más condições de trabalho e o atraso de pagamentos têm a ver com a política econômica recessiva do governo, o arrocho salarial que atinge a todo o funcionalismo público e a corrupção reinante dentro e fora dos quartéis.

Obs: Incluo no rol de esquemas de corrupção que envolve setores da PM os acordos com o jogo do bicho e a exploração de caça níqueis.

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