Partidos, poderes, facções e a “mexicanização” do Brasil

30/01/2017

O ano mal começou e já somos bombardeados com notícias escabrosas da vida política. Primeiro a morte um tanto estranha do ministro do STF, Teori Zavascki. Agora a disputa pela presidência da Câmara e do Senado, com candidatos que representam alas do governo Temer nas duas casas legislativas.

Em qualquer país mais sério a morte de Teori levaria a uma investigação profunda, não só por se tratar de um ministro da mais alta corte do Judiciário, como também por se tratar do responsável pela relatoria das delações premiadas da Operação Lava-Jato no STF.

Nenhuma hipótese seria descartada e não haveria precipitação na busca de um substituto para o relator, antes de se chegar a alguma conclusão. No entanto, como tem feito há algum tempo, o Supremo Tribunal Federal virou uma instância política, que procura acomodar os interesses do sistema financeiro, do Executivo e do Legislativo.

De outro lado, assistimos a um frenesi nos bastidores do Congresso Nacional, com articulações à esquerda e à direita para ver quem fica com um quinhão da Mesa Diretora da Câmara e do Senado.

Nada contra, não fosse pelo fato de que todos os candidatos lançados para presidir as duas casas são da base do governo Temer, até então denunciado pelo PT e o PCdoB como governo golpista.

Ora, o governo Temer deixou de ser golpista? Não, é claro. O golpe não foi contra Dilma e o PT, mas contra a frágil democracia brasileira. O objetivo principal: a pilhagem do orçamento público, para extrair da arrecadação e das verbas públicas o melhor quinhão para assegurar o pagamento da dívida pública aos credores e manter as negociatas do baixo clero.

Temer se aboletou no Planalto sem consentimento do eleitorado e tem uma das maiores rejeições populares desde o fim da ditadura militar (algo em torno de 8% de aprovação, dizem as pesquisas). O que acontece é que a conveniência de manter postos e cargos fala mais alto, dentro do pragmatismo da vida política institucional.

Esses dois exemplos se inscrevem no que se transformou a vida política nacional: facções criminosas disputando fatias do poder. Longe dos partidos políticos apresentarem projetos para os principais problemas nacionais, debater saídas de fôlego para a crise em que Dilma e Temer jogaram o país.

Enquanto o cidadão comum se vira para pagar as contas, saldar as dívidas, procurar ou manter o emprego, os porta-vozes dos principais partidos políticos e instâncias de poder procuram saídas negociadas para administrar seus interesses, assegurando ao sistema financeiro a condução da política econômica que arrocha a grande massa.

Assim, não se deve estranhar que os grupos criminosos sigam o exemplo que “vem de cima” e se organizem em “comandos”, dispostos a manter seus espaços de poder (inclusive o sistema carcerário). É a resposta lógica da bandidagem ao que se assiste da pilhagem do Estado, organizada por partidos políticos e membros dos três poderes.

Afinal, o que é o governo Temer, senão uma quadrilha de corruptos do baixo clero, a mando do sistema financeiro, que vivem garimpando jogadas e negociatas para enriquecimento ilícito? O que é o STF senão um colegiado de magistrados que lá estão por indicação política e que vive da fogueira das vaidades e das benesses do Judiciário? No que se transformaram o Congresso Nacional e as demais casas legislativas estaduais e municipais, senão instâncias parasitárias, com altos salários, auxílios paletó e outras mamatas?

Aqui em baixo os simples mortais vão levando a vida como podem. Depois da euforia do impeachment de Dilma, os setores mais reacionários da classe média parecem conformados em sua hipocrisia. Preferem um governo totalmente corrupto e desmoralizado do que algo que se assemelhe a uma distribuição de parte da renda nacional, através de programas sociais.

Por sua vez, a juventude, totalmente desiludida com a luta política tradicional, não parece disposta a fazer coro com uma oposição que não tem nada de novo a oferecer, a não ser o velho receituário econômico e os conchavos de sempre com as classes dominantes.

Já a classe trabalhadora, alheia a tudo isso, sabe que terá pela frente mais problemas com as reformas previdenciária e trabalhista, mas não encontra ferramentas para se organizar ou porta-vozes legítimos, dispostos a enfrentar os desmandos do governo golpista.

Aos partidos políticos resta a tentativa de se safar das delações premiadas da Lava-Jato e preparar o terreno para 2018. O PT quer Lula de novo, mas pode se contentar com Ciro Gomes. O PMDB quer voltar à sua atuação de bastidores, sem protagonismo e sem a presidência, que lhe garanta o quinhão de ministérios e verbas públicas. No PSDB impera a luta interna entre grupos que apoiam Aécio, Serra e Alckmin. A ultra direita sonha com Bolsonaro.

Nas periferias, favelas e vilas o que impera é o poder do tráfico de drogas/armas e os serviços impostos por comandos paralelos, como as milícias. E esse cresce a cada dia, apontando para algo semelhante ao que se vive no México: roubalheira institucionalizada nas estruturas formais do país e caos no cotidiano das massas.

Anúncios

Uma resposta to “Partidos, poderes, facções e a “mexicanização” do Brasil”

  1. Telma said

    muito bom texto…diz o que tinha vontade de falar..mas, não tinha organizada em palavras…perfeito

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: