Inversão de valores

16/01/2017

Desde que a mídia empresarial adotou o discurso do “mercado” todo poderoso, um Deus acima de tudo, que regula as vidas de todos, nota-se que algumas noções básicas como solidariedade, justiça e dignidade vêm sendo substituídas por competitividade, foco, empenho pessoal, produtividade e outras.

Palavras como “privilégio” e “dever” tiveram seus significados invertidos e o interesse privado se impôs ao coletivo, o indivíduo passou a ter mais importância que a comunidade.

No Brasil isto está flagrante nas entrevistas com “especialistas”, homens de negócios cujas cabeças estão voltadas para o lucro, que passaram a comentar de tudo um pouco, desde os hábitos mais simples da população até os sonhos das pessoas.

Escola pública equipada, com bons professores e em tempo integral virou privilégio, assim como hospital público com médicos em número suficiente, leitos de CTI, equipamentos e conforto para os pacientes (hoje transformados em “clientes”).

Os direitos dos idosos, conquistados a duras penas nas últimas décadas, como aposentadoria digna, prioridade em filas de bancos e atendimento especial em repartições públicas, também são tratados como privilégios.

Até mesmo a carteira assinada se transformou num privilégio, diante do mar de trabalhadores temporários e precarizados. No mundo do trabalho passou a ser privilégio ocupar um emprego em empresa que oferece plano de saúde e vale-alimentação.

Ora, se questões mínimas que somam para a dignidade do ser humano e que foram arrancadas com muito sacrifício por gerações são tidas como privilégios, o que dirão da situação dos presidiários e seus familiares?

Longe de recuperar os apenados, o sistema penitenciário brasileiro é formado por ilhas, nas quais os presos estão largados à sua própria sorte. A obrigação de recuperar os prisioneiros nunca foi meta a ser alcançada.

No máximo a massa carcerária serve para justificar contratos superfaturados, que envolvem a alimentação, os produtos de limpeza e tudo que diz respeito ao sistema. Tanto gasto não se verifica em condições dignas para os presidiários. Isso sem falar na humilhação de seus familiares.

Em contrapartida, para uma parcela da sociedade brasileira não há deveres a cumprir. Boa parte dos empresários não paga impostos, ou porque repassam tudo aos consumidores de seus produtos e serviços ou, simplesmente, porque sonegam.

As grandes empresas poluem o meio-ambiente e são pouquíssimos os casos de multas aplicadas que são arrecadadas. As concessionárias de serviços públicos, que deveriam ser fiscalizadas em prol do interesse social, quando são multadas recorrem e, via de regra, conseguem anistias.

Os magistrados recebem todo tipo de benefício e muitos vivem em situação de promiscuidade com grupos empresariais, seja por relações de compadrio e até financiamento de cursos e seminários.

O mesmo se pode dizer da casta de profissionais das oligarquias que comandam a vida política no país, que sobrevive da relação promíscua com o aparelho de Estado e dos financiamentos privados de suas campanhas.

Os banqueiros cobram os juros em taxas exorbitantes, sem qualquer controle do Estado. Vivem da agiotagem oficializada sobre o cidadão comum e as finanças públicas, como no caso da cobrança de juros da dívida pública, que apesar disso só faz crescer ano após ano.

Os senhores das terras também não pagam impostos, muito menos os grandes investidores do “mercado”. As grandes fortunas não são taxadas e quem paga impostos é a população, taxada diretamente no consumo ou nos contracheques, no caso daqueles que ainda estão no mercado de trabalho formal.

Em verdade o que há é uma imposição de valores que representam os interesses mesquinhos das elites. O problema é que isto tem consequência sobre as novas gerações, criadas numa sociedade injusta, cada vez mais voltada para o privado em detrimento do interesse público.

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