A revolução cubana, seus valores e desafios

27/11/2016

Nunca fui a Cuba, desconheço detalhes da realidade daquele país. O que sei  foi a partir de leitura, sobretudo do livro “A Ilha”, de Fernando Moraes, no qual o autor descreve o processo revolucionário e as dificuldades daquele país, que vive sob o maior embargo econômico que a humanidade já conheceu. O que tive de mais próximo foi um boné do Movimento 26 de Julho, que meu pai trouxe de lá.

Não sou cubanófilo e nem fidelista. Não credito em caudilhos e grandes pais da pátria, que fazem tudo de bom para os seus filhos. Aliás, o mito da guerrilha que desceu a Sierra Maestra desconhece o fato de que o povo cubano já construía nas cidades toda uma resistência urbana ao regime de Fulgêncio Batista.

Entendo que os líderes são apenas porta-vozes de seus povos, em determinados momentos históricos. Foi assim com Sepé Tiaraju, Zumbi, Garibaldi, João Cândido e Getúlio Vargas, só para citar alguns na História do Brasil.

Não desconheço, pelas informações que disponho, as distorções e equívocos cometidos no processo revolucionário cubano. Entre eles a postura sectária do governo com a Igreja Católica e a forma absurda como eram tratados os homossexuais, como se fossem doentes a serem curados pelo Estado.

O desmoronamento da URSS deu a Cuba e aos cubanos a oportunidade de encarar suas dificuldades e buscar seus caminhos, sem depender de petróleo e comércio com outro país, ainda que essa tenha sido sempre uma relação econômica muito vantajosa para a Ilha.

O período “especial” não foi apenas um momento de crise econômica, mas também de rediscussão de valores da própria Revolução. No entanto, apesar dos que afirmavam que Cuba seria tragada pela onda de restauração capitalista que varreu o Leste Europeu, não foi o que se viu.

Fidel e a cúpula do Partido Comunista Cubano reviram suas posições quanto aos homossexuais e a Igreja e fizeram autocrítica na prática. Para isso foi de muita valia a aproximação com Frei Beto.

Pelas informações que circulam houve 17 a 18 mil cubanos que preferiram ir atrás do canto da sereia estadunidense, os chamados “balseros”. Esses se juntaram aos gusanos de Miami, que além de nutrirem ódio pela Revolução de 1959, engrossam o eleitorado de Donald Trump.

Fidel e Che encarnaram um sentimento de luta contra a ditadura militar de Fulgêncio Batista (apoiada e financiada pelo governo dos EUA), que oprimia e desgraçava o povo cubano. Por isso são respeitados, não só em Cuba, mas em toda a América Latina, inclusive pelo staff do governo dos EUA.

O que os dois representam? Para os revolucionários são exemplos de combatentes pela causa do socialismo. Para outros – os mesmos que veneram Caxias e condenam Bolívar – são ditadores sanguinários. Para os povos são líderes que fizeram de suas vidas exemplos de conduta (mesmo com seus equívocos), apesar da revista Forbes insistir em publicar que Fidel faria parte de uma casta de milionários, o que nunca foi provado.

Revoluções não são isentas de problemas, cheirosas, higiênicas. Não é possível controlar o ímpeto revolucionário das massas, quando resolvem fazer justiça. Os tribunais populares e fuzilamentos que se seguiram à Revolução cubana expressam isso. Ao menos os acusados tiveram direito de defesa em público, o que não ocorreu em muitos outros processos mundo afora, inclusive em revoluções e guerras do chamado Primeiro Mundo. A minoria de contrarrevolucionários fugiu e foi gastar suas fortunas em Miami.

Fala-se em milhares de presos políticos e tortura em Cuba. No entanto, não há informações concretas e de fontes isentas a este respeito.  O que temos é uma blogueira que critica o regime e difunde os valores da sociedade de consumo, um pequeno movimento de mulheres que se vestem de branco e meia dúzia de porta-vozes de uma oposição.

Com os avanços que conquistou nas áreas sociais, principalmente na Educação e na Saúde pública, Cuba provou, como outros países que experimentaram viver sob experiências não-capitalistas, que é possível construir uma sociedade com outros valores, com destaque para a solidariedade, a cultura e uma justiça que não está subordinada aos privilégios de uma minoria.

O exemplo disso foi o envio de tropas cubanas a Angola (1987/89), quando os sul-africanos e grupos pró-EUA tentavam impedir que o MPLA assumisse o governo daquele país, após a retirada dos portugueses e a declaração da independência. Foi graças ao apoio político e militar de Cuba e seus filhos que a humanidade começou a derrotar o apartheid na África do Sul e Namíbia, países que contavam com o apoio dos EUA.

Outro exemplo é o programa de apoio de médicos cubanos, que no Brasil tomam parte do “Mais médicos”, mas que se estende a experiências semelhantes em muitos outros países.

É provável que a morte de Fidel e a aposentadoria de Raul (prevista para 2018) simbolize o fim da Era da velha guarda de Sierra Maestra. Uma nova geração deve assumir o comando da Ilha e não se sabe que caminhos serão trilhados. É evidente que existem conflitos de interesses geracionais, que envolvem os que nasceram antes da Revolução e quem veio bem depois.

Imagino que para uma parcela privilegiada de brasileiros, com os problemas básicos da vida já solucionados, Cuba seja mesmo um país de apertos e chatice. Afinal, por lá ainda não existem shoppings centers, concessionárias de automóveis, celulares e smartphones de última geração, grandes supermercados e outras catedrais do consumo.

No entanto, com certeza para a grande maioria dos brasileiros, que vende o almoço para comprar o jantar todos os dias, provavelmente a vida em Cuba seja bem melhor do que o cotidiano nas favelas e periferias.

O grande desafio para a humanidade continua a ser a horizontalização do poder, a efetiva participação popular nos destinos dos povos e nações, o que não é exclusividade de Cuba, país que ainda não foi capturado pelo sistema financeiro internacional.

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