Garotinho, Cabral, a Delta e a chacina da CDD

22/11/2016

Duas personagens centrais da política fluminense estão sob fogo cruzado: Garotinho (prisão domiciliar) e Sérgio Cabral (detido em Bangu 8) são a expressão da degeneração da vida política brasileira, reproduzindo esquemas de corrupção as mais comuns e alimentando uma cadeia de correligionários e apaniguados de seus respectivos clãs.

É verdade que corrupção não é novidade e também que ela se reproduz, da mesma maneira, de Norte a Sul do país. Continuamos vivendo sob o regime de capitanias hereditárias, onde oligarquias disputam espaços, carregando poderes e desafetos por gerações. São os nossos coronéis urbanos. Mas o caso do Rio merece destaque, por se tratar de um dos estados mais importantes econômica e politicamente, além de abrigar a antiga capital do país.

Os Cabral e os Garotinho nem sempre foram desafetos. Ao contrário, depois de dois mandatos dos Garotinho, em que Sérgio Cabral Filho foi Presidente da ALERJ e Eduardo Cunha líder do governo na Assembléia, ficou acertado que Cabral sucederia Rosinha no Palácio Guanabara. Com o apoio do clã Picciani e de outros políticos tradicionais abrigados sob a legenda do PMDB, Serginho foi eleito e depois reeleito.

No meio do mandato de Cabral, Garotinho (então deputado federal) abriu fogo e rompeu relações com o governador. Por sua vez, Sergio atraiu desafetos de Cesar Maia, entre eles Eduardo Paes, que veio a ser eleito para a Prefeitura do Rio, pela mesma legenda do PMDB.

O governo Cabral e Pezão apenas deu continuidade e amplificou a relação íntima entre a Delta Construções, empresa de matriz pernambucana de Fernando Cavendish, e o Estado do Rio. Na verdade a Delta surgiu no Rio durante o governo Garotinho no final dos anos 90 e na virada do século, com obras de menor monta. A empreiteira foi se firmando e se tornou uma das que mais contratos firmava com o Estado e a prefeitura da capital, então sob o comando de César Maia.

Durante a gestão de Garotinho o Rio teve secretário estadual de saúde com mandado de prisão expedido por algumas vezes, em função de improbidade administrativa, e o chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, preso por corrupção e formação de quadrilha. Lins foi acusado e preso por comandar a lavagem dinheiro de bicheiros, que também controlavam o jogo de caça-níquel.

Parte do dinheiro lavado seria usado em enriquecimento dos membros da quadrilha e para campanha eleitoral. Lins já fora investigado anos antes por ter seu nome numa lista de policiais militares encontrada no bunker do bicheiro Castor de Andrade. Era, então, oficial PM.

Unidos pelo “ideal de defesa do Rio”, os Cabral e os Garotinho deram uma trégua para convocar manifestações (2011 e 2012) contra a nova divisão dos valores dos royalties do petróleo. Servidores públicos tiveram ponto facultativo, as empresas de ônibus liberaram coletivos para o transporte de manifestantes. Rosinha trouxe caravana de Campos e outras cidades do litoral Norte Fluminense, diretamente atingidas pela diminuição de arrecadação que a medida provocaria. Todos estavam preocupados com o rombo que ficaria, porque usaram os royalties como garantia na negociação de dívidas do estado e até para o pagamento dos servidores.

O atual governador, Luiz Fernando Pezão, surge nesse jogo apenas como mais uma peça. Foi secretário de obras de Cabral e tocou o governo até onde pode. Foi acionado para assumir o governo depois da crise de 2013, quando Cabral decidiu sair de cena. Hoje tem no colo um governo endividado, que isentou R$ 138 bilhões de impostos as grandes empresas em cinco anos (2008 a 2013), terceirizou e encareceu as despesas do estado com serviços que deveriam ser públicos.

O resultado de toda esta bandalheira foi o atraso no pagamento de servidores e fornecedores, fechamento de serviços como os restaurantes populares e o anúncio de um pacote de maldades contra o funcionalismo (transformado em bode expiatório da crise), que Pezão pretende aprovar na Assembléia Legislativa.

Incursões e UPP: duas políticas de insegurança pública

Na gestão de sua esposa, Garotinho foi secretário de segurança, sem alterar o modus operandi da PM. O costume era fazer incursões nas favelas, nas quais ocorriam combates com traficantes e varejistas e logo depois a retirada das tropas, deixando um rastro de pouca eficiência contra a criminalidade, além de mortos e feridos, muitos deles inocentes. Foi na época de Garotinho que surgiram as milícias, disputando territórios com os comandos do tráfico varejista de drogas.

Já no governo Cabral, além da caixinha de 5% de “compromisso” e de 1% de “taxa de oxigenação”, pagos pelas empreiteiras, surgiu a chamada Unidade de Polícia Pacificadora. Era uma espécie de modelo de UPA transplantado para a segurança pública, com grupos de patrulhamento fixo da PM em algumas favelas. Em muitas as instalações eram iguais às da saúde, em containers, o que demonstra a provisoriedade do projeto.

Apesar dos inúmeros alertas do ex-secretário de segurança de Cabral e Pezão, José Mariano Beltrame, de que aquele modelo só serviria se viesse acompanhado de políticas públicas para a população das comunidades, pouco ou quase nada foi feito para acompanhar o trabalho policial. No entanto, sabe-se que a implantação das UPP ganhou apoio e até recursos financeiros de milionários, como Eike Batista.

O resultado é o que se vê hoje: desmoralização das UPP, a partir do despreparo dos policiais em lidar com a população e a retomada de territórios por grupos de traficantes varejistas. Só que agora em disputa com as milícias, que crescem em toda a capital e região metropolitana, inclusive com influência política e representantes nas câmaras de vereadores.

Depois do pedido de demissão de José Mariano Beltrame, diante da crise escancarada do modelo das UPP, em 2016, a política de segurança voltou à estaca zero. O governo estadual retomou a política de enfrentamento nas favelas. E o maior exemplo disso, até aqui, foi a chacina na Cidade de Deus, depois que a mídia divulgou a queda de um helicóptero da PM nas proximidades da comunidade.

Numa disputa por territórios, Comando Vermelho e milícia disputam a área de Jacarepaguá. A mídia insufla o sentimento de revanche na tropa, anunciando a derrubada de um helicóptero da PM que sobrevoava a região, em meio a tiroteios.

Na madrugada de sábado para domingo, o BOPE faz o trabalho sujo numa região de mata. No dia seguinte, sete corpos são resgatados pelos familiares. Outros tantos são atendidos nos hospitais da região. Oficialmente esses são os números da incursão policial, mas nas redes sociais policiais falam de 18 mortos e 14 feridos. Nenhum policial alvejado.

Horas mais tarde o secretário de segurança informa que a perícia preliminar não encontrou perfurações por projéteis de balas nem na carcaça do helicóptero nem nos corpos dos quatro policiais mortos. Barbárie pura, alimentada pela insanidade de parcela da classe média e insuflada por uma mídia irresponsável e parcial.

Como se pode constatar, os Garotinho e os Cabral nunca foram flores que se cheire, inclusive seus sucessores que estão prestes a dar prosseguimento às obras dos dois clãs, No máximo são adversários, mas não inimigos. Os interesses que nasceram e cresceram nos governos dos Garotinho apenas se firmaram e foram multiplicados nos governos Cabral.

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2 Respostas to “Garotinho, Cabral, a Delta e a chacina da CDD”

  1. MHelena Silva said

    O que é CDD da manchete ?

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