Viver ou desgastar?

16/11/2016

A complexidade da vida contemporânea, com sua enorme gama de problemas a resolver na sociedade de consumo, faz do ser humano uma espécie em eterno sofrer (sufferre, em latim = sob ferros).

Sofremos quando crianças, quando somos alvo do assédio de adultos que projetam suas frustrações e expectativas não realizadas em nós. Na escola sofremos quando não somos convidados a participar, mas apenas tomar parte de um plano preestabelecido para nós.

Sofremos quando adolescentes, quando surge o dilema “estudar ou trabalhar”, e não temos opções para desenvolver nossas sensibilidades e despertar vocações.  Também sofremos quando descobrimos o amor e que não somos donos de ninguém, que ao contrário da publicidade e a moral vigente, trata-se de um sentimento complexo, a exigir um jogo de cintura que nem sempre temos ou estamos maduros para ter.

Sofremos quando entramos no mercado de trabalho, geralmente para fazer o que não queremos, mas porque só tem reconhecimento social quem tem emprego. Sofremos se somos de família pobre, porque precisamos estudar para ter diploma de doutor; se somos de família remediada temos que estudar para ser doutor e levar uma vida melhor que a de nossos pais.

Esse sofrimento aumenta quando finalmente conseguimos uma vaga definitiva no mercado de trabalho, mesmo para ganhar pouco e sabendo que a maior parte do nosso tempo laboral será consumidos com coisas e tarefas que nos entediam e não nos realizam.

Sofremos muito quando nos deparamos com a morte de alguém próximo, algo para o qual nunca fomos preparados, que se transforma em choque e perda irreparável, ainda mais quando ocorre por acidente ou repentinamente.

Sofremos também quando somos pais ou mães, pela necessidade constante e a preocupação permanente de sustentar e acompanhar outras vidas, dependentes de nós por um longo tempo.

Voltamos a sofrer quando encaramos a dura realidade do desemprego, porque a sociedade capitalista não tolera os que não estão encaixados no sistema. Somos levados até a ter dores de consciência, como se fôssemos os responsáveis por esta “tragédia”.

Sofremos quando nos omitimos frente às injustiças (e são tantas…), porque sabemos que elas existem, estão escancaradas na nossa frente, mas muitas vezes preferimos seguir a manada a levantar a voz e lutar.

Também sofremos quando esperamos ansiosos pelo reconhecimento dos nossos filhos, sem entender que eles têm suas vidas e planos, independente das nossas vontades e projetos.

O sofrimento humano também aparece quando ansiamos pelo reconhecimento no trabalho, já que não somos recompensados pelos filhos. Nos iludimos porque os patrões e os chefes têm suas metas e, no fundo, somos apenas mais um na engrenagem dos planos empresariais.

Sofremos quando vemos os outros com equipamentos modernosos, embora os nossos ainda funcionem bem. Não podemos parecer desatualizados, necessidade artificialmente criada para estimular o consumo em massa.

Sofremos quando descobrimos que nossas carências e frustrações transformaram-se em vícios e está na hora de encontrar forças para abandoná-los ou controlá-los, caso contrário eles tomarão conta das nossas vidas.

Sofremos quando encaramos exercícios e dietas, porque nunca lembramos que consumimos porcarias todos os dias, do açúcar refinado a gordura hidrogenada. E também sofremos em academias, em ritmo de música Techno e vitaminas milagrosas, porque nos impingem o entendimento da velhice como algo vergonhoso, parasitário e desmoralizante, quando ela é apenas mais uma etapa da vida.

O sofrimento aumenta quando chegamos à reta final da vida e o valor da aposentadoria mal dá para pagarmos as contas e os remédios, que dirá aquela viagem sonhada. E sofremos mais ainda quando lembramos tudo que deixamos de fazer quando tínhamos mais saúde, recursos e menos tempo.

Mas o risco de sofrimento é ainda maior quando finalmente descobrimos que não demos atenção e não fomos capazes de reparar nas belezas à nossa volta. Sofremos tanto, mas tanto, por coisas e realizações apenas superficiais e momentâneas. No final, muito do que queríamos fazer não fizemos, esperando o momento “certo” que nunca chegou.

Não há coisa mais preciosa do que a vida. Vencemos uma corrida com bilhões de concorrentes e depois de um esforço de nove meses somos paridos, sempre com muito esforço e sofrimento. Por isso, vida é para ser vivida intensamente em todos os momentos, não é para ser desgastada, mas para ser desfrutada.

  • A palavra “desgastar” vem da combinação de des (intenso) e vastare (tornar deserto), em Latim.
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