Por trás do circo do futebol brasileiro

14/10/2016

Toda rodada do Campeonato Brasileiro os comentaristas globais usam a expressão “lance polêmico”. É uma forma elegante ou cínica de dizer que houve erro de arbitragem, geralmente em lances que definem jogos. Imediatamente torcedores, repórteres, treinadores, árbitros, “especialistas” e um monte de gente se envolve na discussão que, via-de-regra, não gera qualquer modificação no sistema de arbitral do futebol.

O interessante é observar que desde que se instituiu o campeonato por pontos corridos a renda e o público do campeonato passou a cair, até porque as competições passaram a durar o ano todo, como ocorre com o Brasileirão e a Copa do Brasil. É verdade que a transmissão ao vivo pela TV aberta ou a cabo roubou boa parte do público dos estádios, hoje transformados em “arenas”.

O grande problema dessa fórmula dos pontos corridos é que ela não favorece à lógica comercial, porque se um ou dois clubes dispararem na ponta do campeonato as torcidas das outras agremiações perdem o interesse de acompanhar os jogos.
Para compensar esse “perigo”, que na verdade deveria servir para estimular o crescimento dos demais clubes, usa-se de diversos meios. O mais importante deles é dividir a competição de 20 clubes em três torneios: 1) os que disputam a liderança; 2) os que disputam as vagas para a Taça Libertadores da América (que agora serão seis); 3) os que disputam para não cair para a série B.

No entanto, existem outras formas de assegurar os interesses da emissora de TV que detém a exclusividade de exploração e comerciais das imagens do Campeonato Brasileiro. Uma delas é garantir que os clubes mais populares estejam sempre disputando a liderança dos torneios, incluindo a Copa do Brasil. E para isso vale fazer vista grossa ou pressão indireta sobre o trabalho da arbitragem.

Os árbitros são sugestionados a entender que Flamengo e Corínthians, os dois clubes de maior torcida, não podem ser prejudicados em qualquer circunstância. Erros que prejudiquem esses clubes não são tolerados pela comissão de arbitragem da CBF, que serve de sócia dos interesses da Rede Globo, e coloca os juízes na “geladeira”. E não há qualquer contradição entre promover os dois maiores em torcida do Rio e São Paulo, porque os torcedores dos clubes rivais certamente acompanham seus jogos. Afinal, a rivalidade não tem fim e também rende boa audiência.

Não há provas, mas há inúmeras evidências disso. Só no atual campeonato houve erros capitais, que definiram o resultado de partidas a favor do Flamengo em mais de cinco jogos. No entanto, caso a arbitragem fosse imparcial nessas partidas, o Flamengo estaria distante demais da ponta do campeonato, copada pelo Palmeiras, o que se refletiria na queda de audiência e de arrecadação junto aos patrocinadores. No caso do Corínthians, que está mal no Campeonato Brasileiro, o que explica os erros crassos de arbitragem no jogo com o Fluminense pela Copa do Brasil?

O futebol, como de resto tudo que se promove na sociedade capitalista, é um grande negócio, que movimenta fábulas de dinheiro. No entanto, os que mais perdem com essa fórmula-negócio são os clubes, os torcedores e os próprios jogadores. Quem mais ganha com isso é a empresa que detém os direitos de transmissão e imagem, os patrocinadores, os empresários de atletas e os cartolas.

Em outros países todos esses problemas estão presentes, uns mais outros menos, dependendo das circunstâncias. Ocorre que no Brasil há um porém: a principal emissora de TV é dona do espetáculo. Para provar isso basta ver o que diz o documento da CBF, que comunica a antecipação do jogo entre Santa Cruz e Botafogo de 22 de outubro (sábado) para 19 de outubro (quarta-feira), cujo conteúdo reproduzo abaixo:

INFORMAÇÃO DE MODIFICAÇÃO DE TABELA DATA: 10/10/16
Às Federações e Clubes:
Comunicamos a modificação abaixo assinalada, com relação à tabela original do Campeonato Brasileiro Série A/2016:
Jogo 312: Santa Cruz/PE x Botafogo/RJ
Modificação:
De: 22/10, sábado, às 17h0
Para: 19/10, quarta-feira, às 21h45
Local: Estádio do Arruda, no Recife/PE (mantido)
Solicitante: Rede Globo de Televisão
Motivo: Atender a grade de programação da Rede Globo.
Para: Feds.: PE / RJ
GLO / STV / PRE / POT / OUV
Manoel Flores
Diretor de Competições

O conteúdo dá bem a ideia de como funciona a coisa. No boletim da CBF não há sequer a preocupação de informar se os dois clubes foram consultados e se estão de acordo, além da administração do Estádio do Arruda. Oficialmente os dirigentes dos clubes em questão não manifestaram qualquer desagrado em relação à mudança de data do jogo, que encurtará o tempo de descanso e preparação de seus atletas para a partida.

Fica evidente que a Confederação Brasileira de Futebol é parceira e faz as vontades da Rede Globo. Isso pode nos remeter ao raciocínio lógico de que tudo que se passa nos bastidores do futebol brasileiro é de conhecimento da empresa. E também que a Globo tem mais do que uma parceria com a CBF, inclusive no que diz respeito à captação de patrocínios que envolvem a própria seleção brasileira de futebol.

Ou seja, os interesses econômicos e financeiros que envolvem o futebol brasileiro passaram a determinar as tabelas, a forma e o local do espetáculo e, em última instância, que clubes são interessantes privilegiar nas disputas, visando garantir o retorno de audiência da TV e os negócios de patrocinadores. Coisa semelhante aconteceu com os desfiles das escolas de samba, transformados no “maior espetáculo da Terra”, segundo a Rede Globo.

Há quem afirme que tudo isso não passa de “teoria da conspiração”. Particularmente detesto essa conduta, que coloca tudo e todos sob permanente suspeita, muito comum quando não se tem provas ou evidências consistentes sobre os interesses que movem os conflitos na sociedade. Como não sou adepto dela, vou colecionando evidências que me convencem, cada vez mais, que os únicos ingênuos no futebol brasileiro somos nós, os seus apaixonados torcedores.

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2 Respostas to “Por trás do circo do futebol brasileiro”

  1. luis fernando. said

    eu sou contra os pontos corridos,essa mania que o brasil tem de copiar campeonato europeu.deveria começar pela justa divisão de cotas.mais isso a ‘democrática’ rede globo nem que ouvir falar.ontem mais um gol irregular a favor do queridinho da mídia,mais tirando o mauro cézar pereira da espn,os defensores da moralidade no futebol brasileiro ficaram mudos.

  2. luis fernando. said

    aliás o flu bem que mereceu,eles sempre caminharam de mãos dadas.

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