Perdas e ganhos no primeiro turno das eleições 2016

12/10/2016

É forçoso reconhecer que o maior vitorioso nas eleições municipais de 2016 foi o PSDB, não só pelo número de prefeituras que conquistou, mas pela expressão que seus candidatos tiveram em grandes centros, regiões metropolitanas e principais capitais do país. O PMDB, como sempre, manteve sua expressão eleitoral e também obteve resultado satisfatório. O PSB e o PDT cresceram por um viés de direita e algumas legendas menores também avançaram. Mas em meio a uma crise de legitimidade dos partidos, sobressaem as lideranças regionais, acima das legendas.

O grande derrotado, é óbvio, foi o PT. Não que o partido esteja morto ou condenado definitivamente ao ostracismo. O envolvimento do setor que comanda o PT não é menor na Lava-Jato que o PMDB, o PP e mesmo o PSDB, caso o grupo midiático-judicial não tivesse interesses tão evidentes na condução dos escândalos e tratasse o caso de forma equilibrada. No entanto, a exposição negativa do PT e a impopularidade da Presidente Dilma contribuíram decisivamente para o resultado eleitoral pífio nessas eleições.

Isso se deve às escolhas políticas que o próprio PT fez nos últimos anos, que o isolou de um campo da esquerda e forneceu aos partidos conservadores a força necessária para desalojá-lo da Presidência, através de um golpe parlamentar. O próximo passo, sem dúvida, será tornar Lula inelegível, apagando as esperanças de ressurgimento do partido nas eleições de 2018. A saída para esse partido será realizar uma profunda autocrítica, renovar sua direção e mudar sua orientação política para a esquerda. O desgaste do grupo encabeçado por Lula, Zé Dirceu e Palocci é evidente.

O problema é que a derrocada petista respingou em toda a esquerda, que praticamente ficou estacionada em sua mediocridade eleitoral. É verdade que o PSOL avançou em algumas das principais capitais, como Rio, Belém e Porto Alegre, tendo resultados honrosos em algumas outras, como Natal e Florianópolis, mas ainda muito calcado no destaque de algumas de suas lideranças locais e não como projeto político em si. O PSTU e o PCO mais uma vez se consolidaram como esquerda marginal, invisível no processo político.

Se houve um grande derrotado fora das hostes governamentais foi, sem dúvida, a Rede Sustentabilidade de Marina Silva. Seus candidatos obtiveram resultados inexpressivos em praticamente todas as capitais, com exceção de Macapá e Rio Branco. Logo após o primeiro turno, um grupo de intelectuais decidiu lançar manifesto rompendo com o partido.

Essa espécie de “terceira via”, que buscava se afirmar entre a polarização PT X PSDB, apresentando-se como uma alternativa no plano das ideias ambientalistas e com métodos horizontais em sua construção partidária, não suportou duas eleições. O que era para ser o pilar de sustentação daquele projeto, a figura de Marina Silva, acabou sendo justamente o ponto de discórdia que causou o rápido desgaste da legenda.

A ladeira abaixo começou no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, quando Marina decidiu apoiar Aécio Neves (PSDB) contra Dilma Rousseff (PT). Seria compreensível se Marina desse um apoio crítico a Dilma e talvez o melhor fosse mesmo não assumir qualquer compromisso naquele momento. Mas sua opção à direita decepcionou a muitos na esquerda e no campo progressista, que viam seu projeto partidário com expectativas. Não seria de espantar se aquela decisão tenha sido tomada a partir de um cálculo político de quem pretende cobrar o apoio dos tucanos num eventual segundo turno, em 2018.

O segundo desastre para a Rede se deu quando da mudez de sua principal liderança diante da crise política que culminou com o golpe parlamentar de 2016. Recentemente Marina deu entrevista ao Estadão, afirmando que a reforma política já começou com a operação Lava-Jato. Agora, no primeiro turno das eleições municipais, Marina e sua Rede conseguiram fazer alianças como a de Porto Alegre, com o PMDB, além de Niterói (RJ), em torno de um candidato que saiu do PT e tem fortes ligações com o PMDB regional e a máfia das empreiteiras.

Ainda assim, em pleno segundo turno, Marina sequer manifestou seu apoio a candidatos como Freixo (Rio) ou Edmilson (Belém), contra candidatos que representam o que há de mais atrasado na política nacional. Aliás, a mesma postura de Ciro Gomes (PDT), que vem se preparando para ser a alternativa eleitoral em 2018 junto ao eleitorado de esquerda ou progressista. Os dois sabem que não podem reforçar o PSOL, mas Marina foi mais além, provavelmente vislumbrando um apoio do eleitorado evangélico à sua candidatura presidencial daqui a dois anos.

Não lamento por Marina, que historicamente sempre teve posturas mais moderadas que a do grupo dirigente do PT, mas por uma série de amigos e companheiros que caíram em sua Rede. A começar por Heloísa Helena, figura cuja trajetória de luta nada tem a ver com a de Marina, seu ambientalismo ongueiro e seu personalismo messiânico. A política dá muitas voltas e pode ser que este prognóstico se desfaça até 2018, mas será muito difícil a Marina atrair novamente gente séria em torno de sua liderança e sua candidatura presidencial.

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Uma resposta to “Perdas e ganhos no primeiro turno das eleições 2016”

  1. Henrique ,certamente este é um momento de muita reflexão ,primeiro aquilo que Max falou e os trabalhadores enfrentaram na comuna de paris “A questão do estado” onde a classe trabalhadora foi praticamente dizimada . A questão da luta dentro do Estado burgues deve ser repensado. Segundo, conjunturalmente o lava jato mostrou-se cabo eleitoral da direita e trouxe de volta o conceito de direita e esquerda que nos últimos anos si misturaram .Hoje fica claro que é de direita e esquerda ,isto não significa ser revolucionário ,mas para mim esta colocado aquela velha proposta da esquerda de frente popular e condenar todos os partidos e nem uma concessão aos partidos que apoiaram o golpe. Isto não significa revolução mais um momento oportuno como devemos conduzir daqui para a frente.Cito abaixo alguns tópicos para analise:
    -A questão do estado mesmo com um partido de esquerda.
    -O estado pós revolução
    -Construir com os partidos de esquerda “só os partido que não apoiou o golpe” uma proposta de governo que deve se constituir nas três níveis , presidente governo e prefeitura e parlamenta e vereadores.

    -Deslocar o cenário de lutas para fora do parlamento.

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