Pitacos sobre o segundo turno no Rio

05/10/2016

A chegada de Marcelo Freixo ao segundo turno das eleições municipais, no Rio, com o bispo Crivella tem inúmeras facetas a serem consideradas. É a afirmação de uma esquerda não petista, que procurou defender a democracia contra a ruptura institucional, patrocinada pelos golpistas. É a afirmação de uma esquerda que tem apelo na juventude e em suas bandeiras libertárias. É a afirmação de uma esquerda que rejeita compromissos com o poder econômico e os grandes financiadores de campanha.

Isso tudo e muitos outros argumentos somam para explicar os 18% de Freixo no primeiro turno e sua ida ao segundo turno, inclusive aspectos de ordem subjetiva, como a empatia do candidato. Mas há outro aspecto fundamental que não pode ficar de fora da análise do resultado do primeiro turno: o governo Paes se apresentou com uma candidatura frágil, facilmente atacável e que dividiu sua própria base.

Paes colocou questões pessoais acima da política

A escolha de Pedro Paulo como seu sucessor foi muito mais uma determinação pessoal de Eduardo Paes do que um cálculo político racional. Talvez o Prefeito acreditasse que Pepa fosse uma espécie de Dilma, quando Lula a lançou a Presidência, ou seja, um poste. Talvez achasse que sua obra a frente da Prefeitura garantiria votos o suficiente a quem quer que por ele fosse indicado. Talvez desconfie das pretensões em carreira-solo tanto de Índio da Costa quanto de Osório. Mas a verdade é que a candidatura de Pepa era um tremendo telhado de vidro, pelas questões que o fragilizavam pessoalmente, além de não unificar a base governista.

O resultado do primeiro turno indica claramente que a soma dos votos de Pedro Paulo (16,12%), Índio da Costa (8,99%) e Roberto Osório (8,62%), todos originários da equipe de Paes (total de 33,73), alcançaria percentual suficiente para levar um candidato do governo Paes ao segundo turno. Pode-se argumentar, com razão, que política não se mede apenas somando votos. É verdade, mas certamente uma candidatura forte, que unificasse o campo governista, teria votos para chegar ao segundo turno com chances de vencer.

Segundo turno é outra eleição

Dito isso, é fundamental que em pouco tempo de campanha a candidatura de Freixo fuja das armadilhas eleitorais e consiga crescer, sobretudo nos bairros populares e favelas. Para isso deve evitar polêmicas no campo religioso, conter o ímpeto de parcela da militância que coloca como bandeira central de campanha as questões ligadas aos costumes, numa sociedade majoritariamente conservadora. Crivella tentará pegá-lo por esses aspectos, ligando sua candidatura a uma consequência imprevisível caso seja vitoriosa, uma espécie de “aventura”.

Freixo tem um ponto muito positivo a seu favor: o tom didático de sua oratória. Isso precisa e pode ser melhor explorado agora, no segundo turno da campanha, quando os candidatos terão tempo igual de campanha na TV e no Rádio. Foi algo que o ajudou muito no embate com Pedro Paulo, nos debates do primeiro turno. Agora o confronto é com um candidato mais maduro, sereno, astuto, com boa penetração e que sabe falar com os setores populares.

Disputa em aberto

No entanto, a disputa está em aberto. Mesmo a grande massa de eleitores que se absteve, votou nulo ou em branco (cerca de 40%), sofrerá pressão muito maior no segundo turno eleitoral, quando o voto será decisivo. Como nenhum dos candidatos conseguiu maioria expressiva no primeiro escrutínio, é de se supor que a luta pelo voto será mais acirrada.

Estão em disputa os votos dos demais candidatos, majoritariamente conservadores. O apoio pessoal e partidário de algum deles pode não ter muita influência sobre o eleitor, diante de uma escolha por exclusão, o “mal menor”. O que pode pesar nessa definição é justamente a posição de Freixo e do Psol em relação ao impeachment da Presidente Dilma, diametralmente oposta a de Crivella.

Crivella tem a vantagem de largar na frente, mas também encontra muita rejeição nas camadas médias em função de seu vínculo umbilical com a Igreja Universal, do bispo Macedo. Freixo precisa avançar para a Zona Oeste e a Leopoldina, duas áreas em que sua votação foi muito baixa e nas quais Crivella saiu vitorioso no primeiro turno. Nessas áreas populares o voto a ser disputado é, sobretudo, do eleitor que votou em Pedro Paulo, um voto governista.

Firmeza e diálogo com o eleitorado

A polarização política do país pode ser um fator diferencial neste segundo turno, diferente de outras eleições. Crivella tentará vincular Freixo ao PT, inclusive porque Freixo foi do PT e o Psol foi contra o impeachment de Dilma. No entanto, Crivella foi ministro de Dilma e só pulou fora do barco quando ele já estava afundando.

Como se vê, o xadrez político da eleição à Prefeitura do Rio neste segundo turno é mais complicado do que parece. O desafio de Freixo é enorme num quadro que é extremamente desfavorável para a esquerda, em função da desmoralização do PT, através da operação jurídico-policial-midiática conhecida como “Lava-Jato”.  Mas não é impossível, diante das fragilidades de seu adversário.

Será necessária uma postura firme, mas de diálogo tanto com os mais pobres quanto com setores da classe média, sem abrir mão de apresentar propostas factíveis, que coloquem uma alternativa de gestão ao poder dos grupos monopolistas, que mandam e desmandam no Rio. Será preciso franqueza com o eleitor nas ruas e nos debates.

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