Uma novela chamada Brasil

18/09/2016

Nas últimas semanas o país foi sacudido por fortes emoções. Aliás, este é o segredo do folhetim em capítulos, que deu origem às novelas televisivas que hoje conhecemos nas telinhas. Essa fórmula fez tanto sucesso que foi adotada pela grande mídia em todas as frentes: no jornalismo, na política, no entretenimento e até no esporte.

O segredo é esticar a corda ao máximo, carregar nas tintas e extrair dos personagens, sejam lá quais forem, a emoção que se debulha em lágrimas. Na falta de originalidade ou criatividade, todos apelam à fórmula novelesca para tratar qualquer assunto e disputar audiência.

Gugu, Fausto Silva, Luciano Hulk e outros apresentadores menos cotados mostram sempre a vida sacrificada de algum pobre coitado, para depois “surpreendê-lo” com um caminhão ou uma casa nova, tudo com direito a reunião de família e choradeira geral. É infalível, o auditório vai ao delírio. Para que debater os motivos que levam tantas famílias à pobreza extrema?

O futebol é farta fonte para emocionar a audiência. Com sua cobertura exclusiva dos campeonatos, a Globo encaixa seus programas esportivos diários, sempre com reportagens que destacam personagens com suas histórias de “superação”. E é claro, o auge da matéria é o pranto do entrevistado, quase sempre com direito a musiquinha de fundo e câmera lenta. O importante é destacar que quem luta conquista. Para que discutir a máfia que domina o futebol e o esporte no país?

A cobertura política também virou folhetim, dividindo personagens entre “bonzinhos” e “malvados”. No quadro de preferências globais, que procura esconder os objetivos políticos e empresariais do maior monopólio de comunicação do mundo, elegem-se bodes expiatórios. Este ano já são três: Dilma (mulher dura, guerrilheira, incompetente, etc); Eduardo Cunha (vilão, corrupto, perigoso, etc); e agora Lula (grosseiro, populista, dono de triplex, sítio de e outros pecados).

O vilão Lula é acusado pelo grave pecado de possuir sítio em Atibaia e apartamento no Guarujá, de acordo com seus acusadores. Mas FHC pode ter apartamento em Paris, afinal ele é sociólogo. Cunha, por sua vez, o patinho feio disposto a fazer o jogo sujo das elites, envergonha os comentaristas da Globo News, enquanto Moreira Franco, Eliseu Padilha e Meirelles são tratados com reverência pelos urubus da grande mídia empresarial.

Dilma, alvo da revolta de parcela da classe média reacionária, é autoritária e despreparada para lidar com o Congresso. Já Temer é um advogado constitucionalista, com uma mulher jovem, bela e recatada, o que o credencia a tocar o barco da crise, pelo menos enquanto der conta do recado.

A apresentação da peça acusatória do Tribunal da Inquisição de Curitiba, protagonizado por yuppies do Ministério Público Federal, teve direito a Power Point, com bolinhas e tudo, apontando para Lula, “comandante” do maior esquema de corrupção que se viu neste país.

Chegaram à conclusão que o “comandante” levou R$ 3,8 milhões de um total de R$ 87 milhões, através de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro da OAS, que cuidou da reforma do triplex no Guarujá e do armazenamento dos bens que Lula acumulou na Presidência da República. E assim mesmo sem provas cabais, mas muita convicção. Como se sabe, em alguns casos as acusações são tão inconsistentes que o vilão pode se tornar herói.

Os analistas da Globo não se dão sequer ao trabalho de discutir a origem e a dimensão da crise política e econômica no Brasil, identificar gargalos e desafios, os acertos e erros dos governos do PT. Jornalismo para que? Mais valem as opiniões e ilações que os fatos. O negócio é cair de pau nos inimigos da vez e rolar macio com os amigos.

Nesta novela a explicação é simples: “A dona de casa sabe que não pode gastar mais do que recebe”. Melhor repetir o mantra da necessidade do “ajuste fiscal”, que defendiam também com Joaquim Levy, ainda no governo Dilma.

Segundo eles, o governo “gasta demais” e a saída é cortar tudo, menos a mamata de grandes grupos empresariais, com fartos subsídios estatais e pouco imposto a pagar. Ah, e não podemos passar por “caloteiros”… Por isso, seja qual for o custo, temos que honrar com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, que consome todos os anos cerca de 45 0/0 do Orçamento da União.

Na luta por audiência e patrocínios a grande mídia empresarial não se dá nem ao respeito na hora de tratar das tragédias do cotidiano. Armou-se um tremendo bafafá global de uma semana em torno da morte do ator Domingos Montaigner, protagonista da novela das 21 horas.

O sujeito parecia mesmo gente boa e bom ator. Mas daí a transformá-lo num dos maiores atores dos últimos tempos é zombar da dramaturgia. E para não perder audiência, Record e Bandeirantes não ficaram para trás, fazendo cobertura ao vivo desde o local da morte, passando pela funerária, aeroporto, velório e enterro.

Foram cinco capítulos, todos recheados de entrevistas, depoimentos e farta choradeira. Mas pouco se falou das circunstâncias da morte, do perigo do mergulho em rios caudalosos e da falta de segurança na área, que já vitimou outras 16 pessoas só este ano.

Em tempos de internet e redes sociais o que predomina no Brasil ainda é a mídia empresarial, sobretudo a TV. Sua fórmula de sobrevivência é simples e barata: transformar tudo em novela, dividida em capítulos, e todos em personagens, separados entre os que são do bem e do mal.

Até aqui a fórmula parece dar resultado, o que não quer dizer que será eficaz para sempre. Afinal, mesmo nas novelas, não são poucos os casos em que os vilões roubam a cena e caem nas graças dos telespectadores.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: