Leite derramado

31/08/2016

No momento em que escrevo este artigo os senadores se preparam para retomar a sessão que deve interromper o segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff. Por não haver qualquer base jurídica para tal, fica evidente que o impedimento de Dilma tem caráter eminentemente político. Mas afinal, por que chegamos a esta situação?

O maior responsável pela destituição de Dilma é o seu próprio grupo político, formado por parte da cúpula e expoentes do PT. Ao sair de uma reeleição apertada, no final de 2014, Dilma e seus companheiros decidiram agradar ao “mercado”.

Cederam à chantagem da mídia empresarial, capitaneada pelas Organizações Globo, cujo receituário é cortar gastos públicos e manter juros elevados, para assegurar os ganhos do sistema financeiro, inclusive os credores da dívida pública brasileira.

Não por acaso a condução da política econômica foi entregue ao senhor Joaquim Levy, notório representante do setor financeiro. Suas primeiras medidas foram justamente passar a faca nos investimentos sociais, contingenciar as verbas dos ministérios e assegurar elevadas taxas de juros.

O resultado disso foi uma recessão brutal, que representou um duro golpe na produção, provocando mais inflação e desemprego em massa. Enquanto o povo sofria, a Rede Globo reclamava que Levy ainda não tinha carta branca para aumentar os cortes.

Dilma, que já não contava com maioria na Câmara dos Deputados, foi se enfraquecendo na medida em que seu governo cortava as verbas dos ministérios de seus aliados. O PMDB e demais partidos da chamada “base aliada”, sempre viveram das benesses da estrutura do Estado brasileiro.

O projeto dessa gente nada tem de político ou ideológico, mas apenas de sobrevivência. Trata-se dos herdeiros das capitanias hereditárias, que há séculos vivem de forma parasitária das relações econômicas que derivam do poder político.

É evidente que Eduardo Cunha teve papel importante no encaminhamento do pedido de abertura do impedimento de Dilma. Como tesoureiro informal de grande parte das campanhas eleitorais de seus pares em todo o Brasil, Cunha foi eleito com folga para comandar a Câmara dos Deputados, derrotando o candidato do governo e da oposição neoliberal, formada pelo PSDB/DEM.

Sem dúvida que para isso muito contribuíram as manifestações de rua, coordenadas por grupos de direita e estimuladas pelas Organizações Globo. Alimentadas pelas investigações da Operação Lava Jato, elas deram a base de apoio de grande parte das camadas médias para o golpe político institucional que ora se confirma.

Mas o destino do governo Dilma foi traçado quando fez a opção por uma política econômica recessiva e concentradora da renda. A inflação e o desemprego, aliados à intensa propaganda sobre a corrupção nos governos petistas, tiraram dos setores populares qualquer energia para ir às ruas defender o mandato da Presidente.

A julgar pelas medidas já adotadas e pelas que anunciou o governo Temer tem o firme propósito de fazer em dois anos o que o “mercado” sonhava que o PT fizesse na íntegra: a entrega do que resta do orçamento do país a grandes grupos privados e ao sistema financeiro. Como o PT não se propôs a assumir este programa na íntegra e Dilma perdeu as condições políticas para governar, a bola da vez está com Temer e a “base aliada”, comandada pelo PMDB e o PSDB.

Ainda não se sabe a que custo e em que ritmo as reformas pretendidas pelas classes dominantes serão impostas. Elas já estão anunciadas: aumento da idade mínima para aposentadoria; cortes na Educação e na Saúde públicas; congelamento de investimentos, salários e concursos nos serviços públicos; privatização da exploração do petróleo da camada do pré-sal e de empresas estatais; imposição do negociado sobre a legislação trabalhista. Tudo para garantir superávits primários e o pagamento em dia de juros e amortizações da dívida pública aos credores do sistema financeiro.

Aos trabalhadores, à juventude, aos aposentados e aos setores mais conscientes das camadas médias restará virar a página dos governos petistas, resistir, lutar e construir um novo polo político à esquerda, com uma cultura profundamente combativa e democrática. E essa alternativa não pode se prender exclusivamente ao processo eleitoral, ainda que dele deva participar.

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2 Respostas to “Leite derramado”

  1. Graciela Peçanha S. Costa said

    Parabéns, Henrique, pela nota.
    Aí vai uma contribuição que a meu ver se soma a sua.

    http://blogjunho.com.br/reinventar-a-esquerda-e-reorganiza-la/

  2. sergio amaral said

    Henrique meu amigo! A direita esta sempre unida! E a esquerda dividida!!

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