O dramalhão midiático-esportivo nacional

16/08/2016

Numa dessas copas do mundo de futebol um dos patrocinadores – se não me engano uma marca de barbeador manual – inventou uma personagem, o Pacheco, camisa 12. Era aquele torcedor apaixonado, para o qual só importava vestir a camisa amarela e sair por aí de bandeira na mão para gritar “Gol do Brasil!” Nada mais acertado para pegar carona no sentimento nacional que ronda o país nessas ocasiões.

O Brasil não ganhou, mas Pacheco continua vivo até hoje, só que na cabeça de narradores/apresentadores e repórteres da maioria das emissoras de Rádio e TV brasileiras que cobrem os grandes eventos esportivos.

Se há duas coisas que são receitas de sucesso de público e audiência no Brasil são o esporte – sobretudo o futebol – e as novelas. Que tal juntar as duas? Foi o que fizeram as TVs e Rádios em todo o país, reforçando aquele nacionalismo que representa a pátria de chuteiras.

Chega a ser ridículo acompanhar a narrativa do ambiente que cerca os jogos e competições em que atletas brasileiros participam. Para começar, a maioria dos coleguinhas sequer conhece as modalidades esportivas e muito menos os competidores, daí recorrerem aos ex-atletas como comentaristas.

Na hora das partidas ou provas o modelo da dramaturgia sobe à cabeça e, na falta do que dizer ou informar, os narradores passam a torcer a favor de qualquer brasileiro (que eles não conhecem e nunca tiveram curiosidade em acompanhar), fazendo aquela “corrente para frente”, como se torcida ganhasse alguma coisa.

Muitas vezes os ex-atletas/comentaristas acompanham os narradores, abandonando a função de analistas e críticos dos competidores para a qual são convidados, para se tornarem apenas torcedores de luxo, com direito a “vamos lá”, “agora vai”, “para cima deles, Brasil” e outras bobagens.

Por isso, não sabiam que o grego das argolas podia rivalizar e até derrotar Artur Zanetti. Da mesma forma desconheciam o potencial de Thiago Braz, que ganhou a medalha de ouro no salto com vara. Na natação nossos competidores não tinham a menor chance, tanto que das cerca de sessenta medalhas não conquistaram nenhuma. Mas sempre havia uma “ponta de esperança” e a “força dessa torcida para empurrar o brasileiro”. Também ignoravam a força do campeão olímpico de Londres, que derrotou o atleta brasileiro da canoagem, tido como medalha de ouro certa antes da competição.

E os nossos repórteres esportivos? Embarcam todos na mesma receita do dramalhão. Após as provas, com vitória ou derrota dos atletas brasileiros, são sempre as mesmas perguntas: “Qual é a emoção deste momento?” ou “O que você sentiu na hora do ponto decisivo?” A receita é sempre arrancar uma cara de choro ou uma lágrima do entrevistado para emocionar o telespectador ou ouvinte. Se ainda assim não der certo o jeito é apelar para aquela: “Você passou por muitas dificuldades para chegar até aqui…”

A coisa chegou a tal ponto que os próprios atletas, quando não alcançam o que deles se cobra, passaram a pedir desculpas aos brasileiros. Pouco ou quase nada é dito sobre a realidade do esporte olímpico, as federações e confederações de esportes, verdadeiros ninhos de ratos comandados por cartolas inescrupulosos, que administram sem qualquer transparência.

No entanto, o mesmo dramalhão que força a emoção e até divide com o expectador/ouvinte/torcedor a responsabilidade pelo triunfo dos atletas brasileiros, também é responsável pela frustração quando a expectativa não se confirma. E na maioria dos casos não se confirma mesmo.

Não importa. Se não deu certo agora é porque faltaram detalhes ou até porque “Deus não quis”. Certamente seremos melhores na próxima… E aí vem toda aquela arenga envolvendo o esforço pessoal de cada atleta, mostrando a família, o passado de dificuldades e a superação da glória, como quem diz “se você quiser você também consegue”.

A objetividade jornalística é jogada na lata de lixo, trocada por uma narrativa puramente emocional e piegas. Na maioria dos casos não se faz uma avaliação dos fatos, os erros e acertos cometidos no caminho das competições, que estrutura existe por trás dos atletas, os exemplos de sucesso de outros países, os recursos materiais e humanos que envolvem a preparação e mesmo o que se passa no esporte olímpico brasileiro.

Esse mar de superficialidade, que procura fundir a dramaturgia e o esporte, serve para render pontos na audiência e aumentar o faturamento das emissoras, mas faz muito mal ao jornalismo e ao esporte.  Está óbvio que o esporte brasileiro não está subordinado a qualquer política governamental séria e que os resultados, com algumas exceções, é desastroso. Mas alguns idiotas ainda atribuem essa simples constatação ao “complexo de vira-latas” do brasileiro.

O papel do jornalismo, de jogar luz sobre os acontecimentos e chamar os envolvidos a debater os problemas e buscar soluções, foi abandonado por uma mídia que confunde seus interesses empresariais com a necessidade de triunfo a qualquer preço ou tragédia, para reconfortar os derrotados e leva-los a acreditar que da próxima vez tudo será diferente e chegaremos lá.

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6 Respostas to “O dramalhão midiático-esportivo nacional”

  1. Gustavo Gindre said

    Perfeito!!!

  2. Objetividade é daqueles axiomas praticamente extintos pela fúria do mercado. Difícil de transmitir aos jovens. O chamado protagonismo do profissional da mídia se fez prioritário. Cada um conta “sua própria estória”. Mas os construtos são esses mesmos a que você refere. E aí as estórias acabam parecidas, e repetidas.

  3. Meu caro Henrique Acker, e realmente insuportável estas transmissões e associação com a dramaturgia, como bem frisou você, uma choradeira, um sofrimento, e para depois uma explosão de alegria, ou seja, calça de veludo ou bunda de fora, não estaríamos numa sociedade do espetáculo, como salientou aquele escritor francês, Guy debort, afinal, e gosto da afirmação dele, a sociedade do espetáculo, é um sol que nunca se põe, é uma pauta contínua de drama e expiação, realmente estes meios de comunicação passou de todos os limites.

  4. Paulo Renato Pinto said

    Belo texto, raciocínio lógico… Parabéns, Acker.

  5. luis fernando. said

    na globo chega a ser constrangedor o medo que os comentaristas de qualquer esporte do gavião urubueno.eu passei longe da globo e do sportv nesses jogos.além do dramalhão nas transmissões ainda tem jornalistas que insistem em fazer perguntas de cunho pessoal

  6. luis fernando. said

    fazer do neymar heroí nacional é demais.

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