O futebol dá mais uma lição de vida

14/08/2016

O futebol reflete em muito os dilemas e contradições da sociedade brasileira. Dele é possível extrair boas e más lições, expondo nossas chagas, mas também oferecendo respostas muitas vezes inesperadas.

Há muito a seleção brasileira reflete o caos do Brasil dentro e fora de campo, que tem traços de capitalismo selvagem, coronelato e amadorismo caótico. Não por acaso os resultados têm sido pífios, inclusive nos torneios de clubes das Américas.

Pois não é que foi no dia dos pais, data comemorada, mas tão relegada ao segundo plano, que o futebol nos deu outra grande lição!/ E teve que acontecer justamente com o meu Botafogo FR.

Na semana do primeiro jogo do returno do Campeonato Brasileiro em que o alvinegro enfrentaria o São Paulo, a diretoria do clube paulista fez uma proposta para a transferência do treinador do Botafogo, Ricardo Gomes, para o clube do Morumbi. E o pior é que Gomes aceitou, abandonando o clube na sexta-feira pela manhã, no último treino que antecedeu ao jogo do final da semana.

Em princípio qualquer profissional pode receber propostas de outro clube ou empresa. O que é estranho é que a proposta seja feita exatamente dias antes do jogo em que as duas equipes se enfrentariam pela mesma competição. Ou seja, são entidades esportivas filiadas a uma Confederação (CBF), mas o que prevalece mesmo são os interesses econômicos.

A maioria dos comentaristas esportivos chamou a isso de “lógica do mercado” e até mesmo o Presidente do Botafogo considerou a transação normal. No entanto, parece que os deuses do futebol não concordaram com a negociata. Depois de noventa minutos de um jogo morno, o lateral esquerdo alvinegro, Diogo Barbosa, foi à linha de fundo e cruzou rasteiro para Sassá balançar a rede do tricolor paulista, em pleno Morumbi.

Alguém se lembrava de Ricardo Gomes depois que o treinador teve um AVC em pleno Engenhão, quando comandava o Vasco numa partida contra o Flamengo, em 2011(int). Como já fez inúmeras vezes com atletas e treinadores considerados acabados para o futebol, o Botafogo foi buscar Gomes em casa, no ano passado, dando a ele a oportunidade de retomar sua carreira interrompida e esquecida.

Em episódio semelhante o meia Willian Arão, que se destacou pelo Botafogo na segunda divisão em 2015, fez um compromisso por debaixo dos panos com a diretoria do Flamengo antes de encerrar o ano. Arão quebrou o contrato que tinha com o Botafogo, mesmo depois que o clube depositou por duas vezes o valor acertado para sua renovação. Este mesmo atleta antes de chegar ao Botafogo cheirava a peixe no Corinthians, onde sequer era relacionado entre os reservas.

A diferença é que Arão é um jovem, que assim como Neymar, tem em seu pai o mau exemplo da figura do procurador/empresário/cafetão sem escrúpulos. Já Ricardo Gomes é um profissional experiente e sabe que sua atitude prejudicaria o clube que o resgatou, que se encontra numa condição incômoda e perigosa na tabela do campeonato. Não foi o São Paulo que o procurou em casa, quando ele ainda dava clara demonstração de debilidade física e estava há quatro anos afastado dos gramados.

Pois bem, a resposta não demorou. O jogo foi xoxo, fraco, como de resto tem sido a maioria das partidas do futebol brasileiro nos últimos tempos. Mas Sassá saiu do banco de reservas para dizer mais uma vez aos escroques do futebol – inclusive ao presidente do Botafogo, que justificou a transação na véspera do jogo – que ainda existe uma ética rondando os estádios.

A bola que balançou a rede são-paulina nos acréscimos da partida de domingo, 14 de agosto de 2016 (Dia dos Pais), teve um gosto especial. Não um sabor de vingança ou de mágoa, mas de justiça, de alívio, retirando do peito e da garganta do torcedor alvinegro um grito de gol que valeu muito mais do que os três pontos conquistados na partida.

Foi preciso que um jogador saído das divisões de base do Botafogo FR, comandado por um treinador interino também formado no clube, colocasse o pé e desviasse a bola para o gol do São Paulo FC, como quem diz: por mais que só se pense em grana e negociatas no futebol, ainda existe um código de ética dentro de campo.

Talvez seja por essas coisas que o futebol é apaixonante. Talvez sejam essas coincidências do destino que fazem do Botafogo FR um clube tão especial. Obrigado, Botafogo FR, pelo presente que deu a todos os esportistas no Dia dos Pais.

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2 Respostas to “O futebol dá mais uma lição de vida”

  1. Paulo said

    Mandou bem, os mercenários e os vampiros do futebol, vez ou outra quebram a cara. Torço sempre muito por isso.

  2. Zenildo Tabosa Viana Filho said

    Muito bom, como sempre, gostei muito do que você escreveu sobre o William Arão, estava fedendo a peixe e ninguém queria.

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