A dura realidade do esporte olímpico no Brasil

09/08/2016

Para além de toda a corrupção envolvendo os R$ 38 bilhões gastos nas Olimpíadas do Rio, há algo intrigante nos primeiros resultados da delegação brasileira dentro das arenas. Uma delegação de 400 atletas, de quase todas as modalidades, mas que deixa muito a desejar no confronto com esportistas de outras nações.

Ainda é cedo para um balanço criterioso, no entanto, a julgar pelos primeiros resultados, parece que o sonho olímpico tem muito mais a ver com as estruturas montadas especialmente para os Jogos do que com a preparação dos atletas em si.

No caso da natação, por exemplo, até aqui não colocamos sequer um atleta brasileiro nas finais. O judô já tem uma medalha de ouro, mas se espera mais deste que é um dos esportes em que temos uma de nossas maiores tradições olímpicas. No atletismo não temos nenhum nome de ponta, apesar de certa evolução em algumas provas.

Com a punição da Rússia, que perdeu toda a delegação de atletismo para os jogos do Rio, talvez o Brasil consiga melhorar seu desempenho nesta modalidade, mas nem isso está garantido. Mesmo que venhamos a ter um resultado melhor em algumas modalidades, a impressão que se tem é que montamos a maior delegação do Brasil de todas as Olimpíadas sem nenhuma ambição esportiva.

A distribuição de recursos para federações e confederações pode explicar um pouco esta situação: enquanto a CBF ficou com 57% de todos os recursos (R$518,9 milhões) e o Volei com R$107,4 milhões em 2015, as demais 20 confederações concentram não mais do que 30% do dinheiro investido para estrutura e formação de atletas.

A esmagadora maioria desses recursos é de fontes públicas: Banco do Brasil, Correios, Caixa Econômica, Infraero e Petrobras. Outros 19% dos investimentos são de convênios com o Ministério dos Esportes e 18% são repasses das loterias federais. O que sobra (13%) são de contratos com TV e outros.

Ainda assim, dos R$ 907 milhões investidos nas 22 confederações desportivas brasileiras em 2015, pouco se sabe. A corrupção, a falta de transparência e de democracia são as marcas da maioria destas entidades, nas quais imperam caciques e figuras que não prestam contas, não chamam os atletas a opinar e definem contratos e prioridades a partir de critérios duvidosos.

Como afirmou em entrevista em 2015 ao Jornal Zero Hora o ex-atleta e ex-treinador de vôlei, Bebeto de Freitas, o esporte no Brasil é uma casca de ovo podre. “Se a gente pegar, nos últimos 10 anos, todos os escândalos das federações e confederações, de contas que não batem, documentos e contratos ilegais… Existe uma forma de exercer o esporte no Brasil que é terceirizar. A forma que se encontrou para manipular o esporte no Brasil é terceirizando. O dinheiro vem do governo, eles pagam essas empresas, e o que acontece depois ninguém vai atrás para saber”, afirmava Bebeto um ano antes das Olimpíadas.

Outros países já provaram que é possível tornar o esporte numa política de largo alcance e inclusão social. No entanto, num país de 200 milhões de habitantes, a receita é massificar o esporte na base. E isso só pode começar pela escola, tornando obrigatório não só a prática desportiva acompanhada de professores de Educação Física desde o Ensino Fundamental, como a construção de estrutura física necessária para isso nas próprias escolas.

Com um mínimo de recursos e tempo será possível aos professores selecionar os que mais se destacarem nas diversas modalidades esportivas. Dali pode-se firmar convênios com os clubes sociais e esportivos, dando a estes incentivos para que desenvolvam um trabalho sério de estrutura e pessoal para a formação de atletas. A última ponta da cadeia deve ser a Universidade, não só com bolsas de estudo para os atletas, mas desenvolvendo todo um sistema de pesquisa e apoio técnico e científico ao desempenho dos jovens esportistas.

O apoio direto e indireto à prática esportiva de massa desde cedo cria inúmeras possibilidades de melhoria na sociedade: o incentivo ao espírito coletivo nas crianças; um melhor desempenho dos estudantes em sala de aula; o fortalecimento dos clubes como células de formação de base de atletas; o emprego de centenas de milhares de professores e treinadores; e, finalmente, a construção de um futuro para milhares de atletas, que poderão ser profissionais do esporte mesmo depois do encerramento de suas carreiras esportivas.

Os poucos bons resultados que colhemos até aqui nas Olimpíadas são muito mais por conta do esforço individual de atletas e treinadores, do que da política de esportes no Brasil. No entanto, a situação tende a ficar pior. Com o avançar da crise econômica e a política do governo Temer de corte de investimentos públicos, a ressaca olímpica pós Jogos do Rio pode ser ainda mais danosa para o esporte olímpico no Brasil.

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