História da humanidade ou estórias da carochinha?

22/07/2016

Por que o avanço da luta de classes é fundamental como parteira da humanidade, tal como Karl Marx identificou? Porque é do embate entre os de baixo e os de cima que a humanidade atravessou toda a sua História e conheceu avanços extraordinários. Se não houvesse luta de classes provavelmente a humanidade teria estacionado nas sociedades primitivas.

Todas, absolutamente todas as conquistas econômicas, trabalhistas, culturais, tecnológicas, da saúde, tudo que se conhece hoje como progresso é fruto da evolução da sociedade. E essa evolução se deu pelo motor da luta de classes, pelo enfrentamento entre classes opostas e da oposição de seus interesses, que empurrou a humanidade.

O século XX foi um marco na História. Foi nele que se deram as revoluções, levando os de baixo ao poder, e não apenas ao governo. A Rússia e a China, dois países miseráveis de maioria camponesa e analfabeta, em apenas algumas poucas décadas se transformaram em potências mundiais. Foram o exército soviético e o de Mao Tsé Tung que derrotaram o eixo nazifascista na II Guerra Mundial. E não por acaso foi a União Soviética o principal alvo dos exércitos de Hitler.

Coréia, Cuba, Angola, Moçambique, Nicarágua e alguns outros países também experimentaram processos revolucionários no século XX. Alguns mais bem sucedidos que outros. Há quem esqueça propositalmente, mas foram as tropas cubanas que enfrentaram e fizeram recuar o exército racista sul-africano, que avançavam rumo ao território angolano nos anos 80. Muito do colapso do regime do apartheid se deve à derrota infringida pelos cubanos aos brancos sul-africanos.

Assim como os trabalhadores do campo e da cidade triunfaram em alguns países, no intuito de buscar uma vida digna para seus filhos, também tiveram que enfrentar desafios para os quais talvez ainda não estivessem preparados. Um deles seria conjugar o socialismo com a democracia e a participação popular. Esse despreparo levou a erros graves, ao surgimento de castas burocráticas descoladas da realidade da maioria e ao colapso daqueles regimes. Este, aliás, é um acerto de contas que permanece em aberto no meio da esquerda.

No entanto, são enormes e inegáveis os avanços alcançados em apenas algumas décadas de regimes não capitalistas. É evidente que esses avanços devem ser comparados com a realidade em que aqueles povos viviam antes em seus territórios. E que realidades eram aquelas? O camponês da China e da Rússia, que vivia explorado pelos seus senhores, não tinha o que comer e era muito comum que seus filhos morressem antes de chegar aos 5 anos de vida, enquanto os que sobreviviam estavam condenados a trabalhar para o resto de suas vidas sem jamais por os  pés numa sala de aula.

Não é brincadeira alimentar 1,5 bilhão de pessoas ao menos três vezes ao dia, muito menos construir um parque elétrico e industrial com tecnologia capaz de levar o homem ao espaço. Ou talvez alcançar os índices mais elevados de elogio em serviços como saúde e educação.

Mas o avanço da luta de classes não se limitou aos países que por uma razão ou outra derrubaram as elites do poder. Em toda a Europa foram os trabalhadores e camponeses que impuseram ao Capital uma série de conquistas, como a estabilidade no emprego, o salário mínimo, a carga limite de trabalho semanal, a previdência, a saúde e o ensino público e laico. Foram avanços impensáveis para a maioria dos povos europeus de antes da segunda guerra.

Como milhões de outros brasileiros fui obrigado a saber que Pedro Álvares Cabral “descobriu” o Brasil, em 21 de abril de 1.500. Da mesma forma ouvi de professores que os negros foram trazidos para o Brasil porque os indígenas daqui eram “indolentes” e não eram afeitos ao trabalho. Formei e cantei hinos sem saber em que circunstâncias aquelas canções foram compostas.

Por esta mesma metodologia só descobri quem foi Zumbi e o que foi Palmares ao ouvir um samba do Império Serrano. Jamais saberia que milhões de indígenas foram assassinados e suas terras usurpadas pelos bravos “bandeirantes”. Tampouco ouviria falar nos Sete Povos das Missões e do massacre perpetrado pelas tropas da tríplice aliança na Guerra do Paraguai.

E o que dizer da guerra do Contestado, em que colonos do Paraná e Santa Catarina se enfrentaram por suas terras com tropas federais? Quem faria ideia do que foi Canudos e seus habitantes? Quem saberia o que foi a Revolução Praieira, em Pernambuco, ou a Cabanagem, no Pará? Tudo isso foi fruto da investigação de jornalistas, historiadores, escritores que testemunharam ou que se embrenharam Brasil afora para ouvir relatos e coletar dados sobre tantos e tantos episódios.

A leitura marxista da História não conforma um ensino dogmático ou uma escola “que toma partido”. O marxismo é uma ferramenta para a compreensão e transformação da realidade a partir do aprofundamento dos fatos. A fragmentação de dados, sua exposição sem qualquer conexão e a citação de nomes de líderes e datas é, ao contrário, o esvaziamento da História, uma narrativa vazia e sem nexo transformada em estórias da carochinha.

Essa é uma leitura da História, é claro. Há outras que atribuem os avanços sociais a escrituras sagradas, à divindades, ao empreendedorismo das elites, à genialidade de indivíduos, etc. No entanto, essas versões carecem de comprovação, de base científica. São apenas dogmas, com os quais se pode ou não concordar.

Se eu fosse professor de História não me preocuparia somente em passar aos alunos e aferir o conhecimento de fatos e narrativas, presentes nos livros e apostilas. Chamaria a atenção de todos sempre para a luta de classes como elemento decisivo, usado pela humanidade para superar a contradição entre o atraso e o progresso, presente em todos os conflitos. É esse o verdadeiro nó que incomoda aos autores do brilhante projeto “Escola sem partido”.

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