Rio, o inferno é aqui

08/07/2016

A mídia empresarial se assusta com o número de policiais militares mortos no Rio de Janeiro em 2016. Só nos primeiros seis meses foram 57 óbitos e mais de 200 feridos, ainda que muitos desses casos tenham ocorrido fora do horário de serviço.

Tão preocupante ou mais é o número de civis mortos em decorrência de operações policiais. De acordo com dados oficiais (ISP) foram 25 pessoas mortas para cada policial militar e civil em 2015.

De acordo com a ONG Human Rights Watch, mais de 8 mil pessoas morreram pela ação de policiais fluminenses nos últimos dez anos. O número de casos investigados pelo Ministério Público do Rio também parece insignificante, diante da quantidade alarmante de situações em que há vítimas fatais.

As práticas de forjar uso de armas pelas vítimas, alegar legítima defesa e troca de tiros, ocultação de cadáver e remoção dos feridos a hospitais para desfazer a cena do crime são conhecidas. Nem crianças escapam desta postura macabra de policiais.

Em que pese todos esses expedientes criminosos e a conivência de investigações mal feitas e inconclusivas, o que chama a atenção é o número de cadáveres, decorrente da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.

Oficialmente a Polícia Militar é acionada para combater a criminalidade e o tráfico de drogas nas favelas. No entanto, este combate esconde o verdadeiro objetivo: extorsão e venda de armas a traficantes varejistas. Quando os dois lados não se acertam, aciona-se a PM para incursões, muitas das quais são apenas desculpas para pressionar o tráfico a ceder o “arrego”.

O “arrego” nada mais é do que o complemento de renda dos comandantes e oficiais, que dividem a maior parte do bolo com seus superiores, sobrando uma parcela que é dividida entre a tropa. Portanto, o tão decantado combate ao tráfico de drogas é apenas uma retórica oficial para um negócio rentável.

Mas por que cresce o número de policiais mortos? Porque a relação entre policiais e traficantes – ambos bandidos – que participam deste jogo é sempre tensa. Nem sempre o combinado é cumprido, de um lado e de outro. Daí que surge o que se costumou chamar de “esculacho”, quando bandidos são maltratados, torturados e assassinados, ou simplesmente emboscados à traição.

A reação dos traficantes varejistas também é igualmente truculenta. Tornou-se comum o assassinato de policiais, mesmo fora de serviço, quando são assaltados e sua identidade é descoberta.

No meio dos confrontos, como demonstrou o documentário “Cenas de uma guerra particular”, estão os mortos por “balas perdidas”, disparadas a esmo em confrontos.  Além deles, as próprias comunidades são abaladas com o fechamento de escolas e do comércio durante as incursões policiais. Isso deixa um rastro de prejuízos, que vai de vidas humanas até a precarização dos serviços.

A própria mídia empresarial que lamenta e homenageia os policiais mortos alimenta a indústria da morte, com programas policialescos que incentivam a violência do Estado todos os dias. Seus apresentadores tratam os policiais como honestos e heróis, que colocam suas vidas em risco para defender a sociedade contra marginais, um discurso maniqueísta e rebaixado que mascara a complexidade do problema.

Daí surgem os “justiceiros” da sociedade, sob o slogan “bandido bom é bandido morto”. Surgem também os parlamentares policiais, sempre com posições conservadoras, esgrimindo os argumentos de mais violência contra a bandidagem.

O governo Sérgio Cabral Filho apostou suas fichas na implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), que foram sendo implantadas como instrumento de ocupação policial e contenção da violência nas favelas mais próximas das áreas da classe média alta da capital.

Ocorre que o projeto acenava vagamente com a necessidade de uma ocupação social das favelas, o que jamais aconteceu. Milhares de novos PM foram recrutados para trabalhar nas áreas “pacificadas”. No entanto, como nada do que foi prometido avançou, o tráfico varejista acabou se adaptando a um convívio com as UPP e, aos poucos, voltou a comandar suas ações de dentro dessas comunidades.

Para não desmoralizar o projeto e assegurar a supremacia do controle policial das áreas “pacificadas”, a segurança pública voltou a impor as incursões, com o choque e o BOPE. No entanto, quando essas tropas de combate se retiram das favelas, são os policiais das UPP que permanecem e encaram o cotidiano de revoltas de moradores e traficantes.

Assim, não é difícil entender a escalada do número de mortes de policiais nos últimos meses no Rio. É a violência do Estado provocando mais violência, cuja consequência não poderia ser outra senão mais mortes. Isso só evidencia a falência da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, apesar do orçamento da pasta ser da mesma monta que o da Saúde e da Educação.

As cenas de tristeza e choro de parentes e amigos de policiais nos enterros de policiais são tão comoventes quanto das vítimas da violência policial. Com a diferença de que os mandantes destes soldados só aparecem para ressaltar a bravura dos PM e a maldade da bandidagem, mas jamais para questionar a própria política de segurança pública adotada pelos que governam o Estado.

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