Linha 4: o Metrô dos bacanas

27/06/2016

 

metrooriginalMapa do projeto original do Metrô do Rio 

Tudo bem, admito que é difícil ser contra o que costumaram chamar de “progresso”. Ainda que esse “progresso” custe as casas e a história de milhares de pessoas que moravam nos arredores da Vila Olímpica ou dos novos corredores expressos do BRT, incontáveis horas de atrasos e engarrafamentos de centenas de milhares de cariocas e moradores da Baixada, Zona Oeste, Niterói e São Gonçalo que precisam transitar pela Avenida Brasil e a Ponte.

O tal “progresso” nos impõe ser sede dos Jogos Olímpicos, assim como fomos recentemente da Copa do Mundo. É o mundo dos megaeventos, das grandes arenas, dos novos esportes vendidos em grandes estruturas circenses, com seus mega patrocinadores e a sua mega mídia, ávida em nos mostrar a “emoção” dos atletas por algumas semanas.

A que ponto chegou a irracionalidade desse verdadeiro “bota abaixo” do século XXI, promovido pela Prefeitura e o Governo do Estado. O autódromo foi para o espaço e de quebra a Vila Autódromo, vizinha da Vila Olímpica, teve que sumir do mapa. Afinal, Vila Olímpica não é lugar para pobre fedorento, como diz aquele megaempresário da construção civil que vai herdar milhares de metros quadrados da Barra, em empreendimentos imobiliários, assim que os jogos encerrarem.

Isso se levarmos em conta que o Estado encontra-se em situação caótica, a partir de previsões de arrecadação de royalties que não se confirmaram, com a queda dos preços do barril do petróleo no mercado internacional. Somem-se a isso os R$ 138 bilhões de incentivos fiscais concedidos nos últimos anos a grandes empresas que se instalaram no Rio e patrocinadores de campanhas eleitorais.

Em plena crise de falência dos cofres públicos, dilapidados pelas gordas quantias investidas em obras faraônicas que vão virar sucata depois dos Jogos, o governador interino consegue R$ 2,9 bilhões do governo federal para concluir as obras da linha 4 do Metrô e garantir a segurança nas Olimpíadas. Já os salários dos servidores estaduais, bem como de aposentados e pensionistas, está sendo parcelado e pago com atrasos que causam inúmeros prejuízos ao funcionalismo.

Agora pare e pense: a quem a obra da linha 4 do Metrô vai beneficiar?

Basicamente às pessoas que se deslocam da Barra/São Conrado para o Centro do Rio e vice-versa. A grande massa dos trabalhadores que presta serviços na Barra e São Conrado vive nas comunidades daquela região: Rocinha, Vidigal, Rio das Pedras, Cidade de Deus. Portanto, esses não necessitam de Metrô para se deslocar, porque são atendidos por linhas de ônibus naquele trecho.

Tampouco a outra parte de trabalhadores que precisa sair da Baixada, Zona Oeste e São Gonçalo para a Barra o fará pela Linha 4, o que demandaria um tempo absurdo de viagem, ainda mais tendo como opções o BRT e a Linha Amarela que, pelo menos em tese, deveriam facilitar o deslocamento.

Pois bem, quem vai se beneficiar com a Linha 4 do Metrô do Rio, tal como ela está desenhada, é a classe média alta da Barra e São Conrado, que se desloca ao Centro do Rio para trabalhar, além dos seus filhos, da PUC. É isso mesmo, o Metrô, que deveria ser um transporte de massa, vai consumir bilhões dos cofres públicos em obras superfaturadas para beneficiar uma ínfima minoria da população do Rio.

Originalmente a Linha 4 sairia da Carioca (Centro), passando por Laranjeiras, Botafogo, Humaitá até a Gávea, dali podendo fazer a futura integração com a Barra. Mas o governo do Estado deixou o desenho original de lado e optou por fazer da Linha 4 uma extensão da Linha 1, o que diminui as opções e pouco ajuda em desatar o nó do trânsito da Zona Sul, o que seria desejável para a cidade.

Pior ainda, abandonou a idéia inicial de ligar a Zona Oeste do Rio (Jacarepaguá) a São Gonçalo através do Metrô, sob a Baía de Guanabara. Optou por essa extensão da Linha 1 até a Barra, que chamou de Linha 4, deixando de fora a grande massa gonçalense que todos os dias perde horas no deslocamento entre as duas cidades, usando as barcas ou ônibus pela Ponte Rio Niterói.

E tudo isso ao custo astronômico de R$ 9,7 bilhões, dos quais R$ 6,6 bilhões foram financiados pelo BNDES, 70% a mais do que a previsão inicial de R$ 5 bilhões. Isso sem contar o aditivo de última hora, estimado em R$ 900 milhões para a conclusão das obras.

O projeto original fora orçado em 1998, para ser concluído em 2003, ao custo de R$ 392 milhões pelo consórcio Rio Barra S.A. Porém, há cálculos que indicam a possibilidade dos gastos totais chegarem a R$ 19 bilhões de reais, só para concluir o trecho de 16 km e seis estações.

Formam o consórcio Rio Barra SA dois consórcios: 1) Consórcio Construtor Rio Barra, formado por Queiroz Galvão (líder), Odebrecht Infraestrutura, Carioca Engenharia, Cowan e Servix; 2) Consórcio Linha 4 Sul, formado pela Odebrecht Infraestrutura (líder), Carioca Engenharia e Queiroz Galvão.

O traçado original do Metrô do Rio (projetado em 1968) previa 67 quilômetros de extensão, 54 estações e três ramais que cruzariam a cidade, com conexões com a Baixada (Linha 2 – Pavuna), Zona Oeste (Linha 3 até São Gonçalo) e Linha 1 (Zona Sul a Tijuca), todas conectadas pelas estações do Centro. Este era o desenho de um Metrô democrático, porque atenderia ao grosso da população do Rio e Grande Rio, e racional, porque desanuviaria o trânsito da cidade.

Enfim, a Linha 4 do Metrô, que não é mais do que uma extensão da antiga Linha 1 e vai beneficiar uma minoria dos cariocas, é passado à opinião pública como o grande legado das Olimpíadas. Obra superfaturada, construída pelas mesmas empreiteiras de sempre e com a assinatura corrupta do velho e conhecido PMDB.

* Em conversa com um sindicalista metroviário soube que o quilômetro construído na Linha 4 custou, em média, R$ 800 milhões, o mais cara do mundo. Outra pérola da nova obra é que ao lado da Estação General Osório, em Ipanema, foi construída outra estação, de forma que os passageiros que chegarem da Linha 1 terão que sair da composição e entrar nesta nova estação para seguir pela Linha 4.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: