O plebiscito que assustou a Europa

24/06/2016

A União Européia, fundada oficialmente em 1993, foi planejada como bloco econômico e político para se contrapor aos avanços dos EUA e do bloco asiático, capitaneado até então pelo Japão. Eram ainda os primórdios da mundialização do capital ou da globalização econômica.

No entanto, como projeto pensado e executado sob a égide do capital, a UE teve como principal objetivo servir às estratégias de expansão dos grandes conglomerados econômico-financeiros europeus. A frente deles os grandes bancos alemães e franceses, aos quais se aliaram, mais tarde, as grandes empresas britânicas.

Sob a pressão do grande capital, os países mais pobres da Europa aderiram ao projeto da União Européia. No entanto, tiveram que adotar uma série de ajustes exigidos pela Troika (União Europeia, Banco Central Europeu – BCE – e FMI), que exigiu limites nos investimentos públicos, privatizações, redução de direitos trabalhistas e previdenciários, aumentos de impostos e congelamento de salários.

Ao mesmo tempo, os preços de produtos agrícolas deixaram de ser subsidiados em diversos países e os pequenos produtores e comerciantes passaram a depender do crédito privado, enfrentando em seus países de origem a concorrência da inundação de produtos de países vizinhos e das grandes empresas atacadistas e comerciais europeias.

Para realizar essa política os governos europeus que aderiram ao bloco ampliaram suas dívidas públicas, tornando seus países reféns dos grandes bancos alemães e franceses, principais credores dessas dívidas. Quando a crise imobiliária norte-americana chegou à Europa, a partir de 2008, contaminando primeiro as empresas de capital britânico com investimentos nos EUA, e depois todo o sistema, veio a falência de diversas empresas e o desemprego em massa.

Para se defender, assim como fez nos EUA, o capital financeiro cobrou dos Estados a recuperação das instituições bancárias e de crédito. Bilhões de euros foram carreados para ajudar aquelas instituições. E foram essas mesmas instituições financeiras que passaram a cobrar a fatura dos empréstimos concedidos aos estados mais pobres da UE, o que desembocou numa crise que atingiu diversos países, como Itália, Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia.

No caso da Grécia, a Troika agiu de maneira cruel, empurrando o país para um beco sem saída, quase desembocando em sua retirada da União Europeia. As medidas que se seguiram, adotadas pelo governo do Sryza, significaram perdas históricas para os trabalhadores, aposentados e a juventude grega.

Ficou evidente que a União Europeia é comandada de Bruxelas, pela Troika, voltada para preservar os interesses de um grupo seleto de burocratas a serviço do grande capital, e não por um parlamento europeu ou outra instituição política que aja por consenso entre todos os seus membros.

Paralelamente à criação do bloco da UE, o novo ciclo migratório de pessoas que deixaram as ex-colônias dos países da África, do Leste Europeu e até da Ásia e buscaram melhores condições de vida na Europa Ocidental, aumentou de forma vertiginosa. Esse movimento se deu por duas razões: guerras e falta de condições mínimas de sobrevivência em alguns destes países (fruto inclusive da colonização predatória de países europeus) e necessidade de mão de obra barata no Continente Europeu.

Ocorre que novas correntes migratórias surgem recentemente, justo num momento de crise econômica, o que provoca reações negativas, capitaneadas por conservadores e grupos neofascistas. Os chanceleres francês e alemão tentam amenizar o problema, mas na prática a UE adota cada vez mais restrições para resgatar levas e levas de migrantes que fogem das guerras no norte da África e Oriente Médio, provocadas pela política externa do bloco europeu e seu aliado, os EUA.

O resultado do plebiscito que retira a Grã Bretanha da União Europeia é fruto da frustração de grande parte da população britânica com as promessas de uma situação melhor e da falta de credibilidade política dos que defenderam a permanência na UE. A isso se soma o crescimento do discurso racista e xenófobo, pregado pelos setores mais conservadores. Este sentimento cresce em toda a Europa e pode representar o fim da UE, a menos que o projeto seja repensado como um todo.

A União Europeia só pode se manter e consolidar com base em novas premissas, que visem a preservar os direitos e avanços sociais, trabalhistas e previdenciários dos povos. Qualquer união forjada por cima, em nome do interesse do grande capital, tende a impor um modelo restritivo, que ameaça o padrão de vida alcançado na Europa do pós-guerra.

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Uma resposta to “O plebiscito que assustou a Europa”

  1. luis fernando. said

    o covarde ex-prefeito de londres boris johnson depois de insuflar a saída do reino da ue,simplesmente desistiu de concorrrer.se deu conta da trapalhada que cometeu.

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