Seledunga é o fundo do poço?

13/06/2016

O velho João Saldanha sempre dizia que os cartolas se reuniam todas as noites para tramar o fim do futebol brasileiro, mas não conseguiam porque o futebol brasileiro é maior que todos eles.

Saldanha se foi, mas no final de sua vida lançava um alerta: “Todo time agora tem que ter um cabeça-de-área”. Era justamente para criticar o que se costumou chamar de “Era Dunga” na seleção, um futebol defensivo, botinudo, feio. Hoje o botinudo é o treinador da seleção e João ficou na saudade.

Pois é, João; parece que as elites conseguiram o que era impossível: destroçaram o futebol brasileiro. No afã de arrumar uns trocados e enriquecer rapidamente, a cartolada instalada na CBF, nas federações e nos clubes aceitou ser sócia minoritária do esquemão internacional do futebol.

E isso teve consequências óbvias para o futebol dentro e fora dos campos. Desde os anos 90 o futebol brasileiro passou a integrar o sistema montado pela FIFA, fornecendo mão de obra de boa qualidade e barata para os clubes europeus. Mais tarde o mercado se abriu ainda mais, com a entrada dos árabes.

Com a lei Pelé um monte de empresários do futebol passaram a cafetinar garotos e jovens pobres. Os dirigentes de clubes simplesmente terceirizaram as divisões de base e muitos saem sem sequer terem atuado entre os profissionais. As vendas e contratações de jogadores beneficiam empresários, dirigentes e até treinadores, menos os clubes, que estão falidos.

Para amealhar mais alguns trocados, a cartolada vendeu o espetáculo a preço de bananada para a Rede Globo, que paga pelo direito de transmissão dos campeonatos regionais e brasileiros muito menos do que as emissoras europeias pagam aos clubes do velho continente. Resultado: a Globo faz o que quer e fatura muito mais com seus patrocinadores do que todos os clubes juntos.

Tem jogo depois da novela das nove, jogo aos sábados à noite, jogo aos domingos pela manhã e às 16 horas, em pleno horário de verão. É jogo na TV aberta e paga todos os dias em todos os horários. Os treinadores reclamam porque não têm tempo sequer para treinar seus times. No meio do ano, em pleno campeonato brasileiro, alguns clubes passam por verdadeiros desmontes, na janela de contratação do futebol europeu.

Os estádios, como de resto tudo mais, vão sendo privatizados e transformados em “arenas”, nas quais os investidores passam a fazer suas programações e o futebol é apenas mais uma de tantas atrações. O ingresso de um jogo de série A ficou caro e as “arenas” estão vazias, já que o torcedor deixou de ser a razão do espetáculo, passando a ser mero telespectador em casa ou num bar. Não por acaso os garotos preferem usar camisas de clubes europeus que as dos brasileiros.

Nas divisões de base dos clubes, entregues a cafetões de meninos, os jovens atletas não são treinados para entender o futebol como jogo coletivo, mas para se destacarem individualmente, de forma que apareça logo um clube estrangeiro interessado em leva-los embora. A formação é deficiente, mas o dinheiro é forte.

Essa combinação de interesses, que nada tem a ver com o futebol em si, tomou conta do espetáculo e o transformou em algo esvaziado e desinteressante para a juventude e os antigos torcedores. Não por acaso as arenas estão às moscas e os jogos são de baixa qualidade.

Só quem perde com essa situação são os clubes e o torcedor, justamente os dois fatores fundamentais para a paixão pelo futebol.  Os clubes porque estão endividados e administrados por dirigentes oportunistas, que em sua esmagadora maioria querem enriquecer a custa do futebol. Os torcedores porque estão cada vez mais desencantados com a baixa performance de seus clubes.

De protagonista do futebol mundial, o futebol brasileiro se transformou em mero coadjuvante. Não é por acaso que nossa seleção foi eliminada da Copa por 7 x 1 pela Alemanha, dentro do Mineirão. Agora, em nova passagem de Dunga pelo comando da seleção, fomos eliminados duas vezes antes de chegarmos às semifinais da Copa América, uma vez pelo Paraguai e outra pelo Peru.

Da CBF não se pode esperar nada. É uma subsidiária dos esquemões financeiros que envolvem a FIFA, com jogos contra adversários inexpressivos para agradar patrocinadores e outras mutretas. A mídia, que poderia estimular um debate mais profundo sobre o futebol brasileiro, é parte interessada neste esquema, o que limita suas críticas e impede que se produza ideias novas que reformulem por completo o futebol dentro e fora de campo.

Só se pode esperar algo mais profundo dos jogadores mais experientes e dos torcedores que não estejam comprometidos com as organizadas. Daí a importância de organizações do tipo Bom Senso Futebol Clube. Há quem diga que com a derrota e eliminação para o Peru na Copa América chegamos ao fundo do poço. Os mais pessimistas acham que o fundo ainda não foi alcançado e que será com uma eliminação do Brasil da Copa da Rússia. Será?

Para sair das especulações e críticas rasteiras e oportunistas a saída é parar com o “achismo” e ouvir os envolvidos. O grande papel que caberia à CBF e à mídia neste momento seria convocar torcedores, jogadores, técnicos, dirigentes de clubes e imprensa especializada para debater os rumos do futebol brasileiro, extraindo daí as propostas mais consistentes para a reformulação do esporte. A democracia ainda é a melhor receita sempre.

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