Ali, o profeta que nocauteou as injustiças

07/06/2016

Em plena ditadura militar, na década de setenta, algumas vezes pude assistir com meu irmão às lutas de Muhammad Ali pela TV. Era diferente, muito diferente de tudo que já tínhamos visto. Os outros eram só lutadores, às vezes bons, às vezes medianos, mas nenhum igual a ele.

Seu estilo de lutar era original, um espetáculo. Bailava no ringue, usava o jogo de pernas para bater com precisão no adversário e sair rapidamente de seu alcance. Muitas vezes fazia do outro lutador seu sparring, deixando-o no centro do tablado e circulando à sua volta, girando como se dançasse ao seu redor. Outras vezes chamava o oponente para bater mais forte, enquanto fechava a guarda e esperava o melhor momento para desferir contra ataques mortais.

Seus golpes eram mais precisos do que fortes, mas suficientemente certeiros para nocautear os oponentes. Apesar de seu tamanho, Ali só usava a força suficiente para derrubar os outros boxeadores. Nunca foi de surrar ou esmurrar ninguém até a exaustão. Lutava com inteligência e isso o distinguia de todos.

Como explicou George Foreman, um de seus maiores adversários, Ali não lutava por dinheiro, por isso era tão difícil enfrentá-lo e vencer. Ele desafiava os outros boxers porque sabia se expressar. Usava as palavras para mandar recados, quase sempre relacionados a questões políticas, raciais, contra as injustiças.

Em plena década de sessenta, no auge de sua forma, já campeão, Ali recusou-se a servir ao exército norte-americano no Vietnã. Alegou que nenhum vietcong fizera nada para que ele fosse lá jogar bombas e disparar tiros contra aquele povo, ao contrário dos brancos norte-americanos.

Aquilo lhe valeu a cadeia e a perda do cinturão de campeão. Sua atitude corajosa o transformou num porta-voz da comunidade negra. Não era mais apenas um atleta brilhante, mas um ídolo dos negros que extrapolava fronteiras. Diferente de Pelé, que parou por um dia uma guerra entre dois países quando foi jogar na África, Ali parou um país inteiro por semanas, quando derrotou Foreman no Zaire, em 1973.

Tornou-se amigo de Malcon-X, líder dos panteras negras, grupo político revolucionário estadonidense. Foi então que se converteu ao islamismo e adotou o nome de Muhammad Ali. Mais tarde conheceu e se tornou amigo de Fidel Castro. Sua atitude desafiadora denunciava a existência do apartheid no país que se dizia o mais democrático do Planeta.

Ali tinha consciência que não lutava apenas boxe. Demolia seus oponentes primeiro moralmente, com suas palavras e provocações, depois com seu bailado estonteante, seu jogo de corpo e seus golpes fatais. A impressão que se tinha era que cada adversário que colocavam na sua frente – em sua maioria de negros – tinha a missão de calar aquele sujeito impertinente, que fazia e dizia o que todos os demais negros pobres queriam fazer.

Por vezes sua luta se tornava cômica, porque o outro lutador não conseguia atingi-lo e se cansava de tanto tentar. Ali zombava dos que usavam a força para tentar derrotá-lo. Fugia dos golpes do adversário como no filme de Chaplin, em que ele confundia o oponente a tal ponto que esse chegava a brigar com o árbitro da luta.

Foi três vezes campeão mundial dos pesos pesados. Mas mesmo os grandes campeões se ressentem das feridas e golpes que sofreram ao longo de suas carreiras. Ali foi acometido de Parkinson anos depois de deixar os ringues, mas jamais foi esquecido. Foi tão grande para a causa negra nos EUA e no mundo quanto Nelson Mandela.

Como era emocionante assistir às lutas de Ali, mesmo que fossem tarde da noite. A TV ainda era em preto e branco e a imagem nem sempre muito nítida. Era uma mistura de luta e dança, de sapateado e força, de músculos e frases repetidas sem parar, a desafiar os adversários e insuflar o público. Ali era um líder e um grande artista de todas as causas justas. A ele todas as homenagens são insuficientes.

Descanse em paz, campeão!

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