O fim da “Nova República”

19/04/2016

A se consumar o impedimento da Presidente Dilma, teremos o marco de uma ruptura constitucional e, portanto, o fim de um período recente de nossa História. Será o fim da chamada “Nova República”, expressão usada para definir o período pós-ditadura militar, com a promulgação da Constituição de 1988.

Depois de inúmeras emendas e remendos que a desfiguraram, a carta constitucional do país será definitivamente rasgada, com um golpe parlamentar, que não tem base legal. Esse desfecho político para uma crise que se acumulou a partir da reeleição de Dilma Rousseff será, de fato, um marco na História do Brasil.

A responsabilidade, é evidente, está numa aliança entre política e mercado, reunindo velhos caciques conservadores com oportunistas de plantão, como o Presidente da Câmara dos Deputados, vestida de verde e amarelo e com uma pitada de histeria anticomunista. É claro que todo o discurso da direita mais tacanha serve apenas para embalar os trouxas, porque o que interessa ao mercado é atingir seus objetivos.

A parcela mais reacionária da classe média serviu apenas para gritar suas frustrações e preconceitos nas manifestações dos bairros ricos das grandes cidades. Os verdadeiros objetivos do mercado são ampliar o processo de privatização dos setores que ainda permanecem sob a responsabilidade do Estado, inclusive a Previdência Social, a Saúde e a Educação.

Para a “retomada do crescimento” a receita é clara: por fim a toda a legislação e a rede de proteção social que resta da era getulista e que foi preservada na Constituição de 1988. Para isso, a meta é acabar com a supremacia da CLT nos acordos trabalhistas e aumentar a idade exigida do trabalhador para a aposentadoria.

Mas a responsabilidade por este desfecho que pode ser trágico é também do PT, sobretudo de seus dirigentes. Programas sociais são importantes porque dão dignidade, crédito de massa ajuda a autoestima do trabalhador, mas nada disso mexe com a consciência dos mais pobres e menos favorecidos. Ao contrário, sem um processo educacional que amplie sua compreensão dos fenômenos sociais  pode torna-los adeptos da ideologia do consumo e não do bem-estar comum.

Da mesma forma, banqueiros, empresários do agronegócio, grandes empreiteiros, executivos das montadoras e de outros setores do mercado jamais vão conter sua ambição e respeitar regras democráticas, quando se trata de defender seus lucros e negócios. Isso se revelou em toda a falta de gratidão com as bilionárias isenções de impostos, incentivos fiscais e juros baixos do BNDES, tão presentes nos últimos anos na política econômica e fiscal do governo Dilma.

Muito ruim com Dilma, pior ainda com Temer

Como resposta a uma crise econômica internacional, que derrubou as comodities exportadas pelo país e reduziu o apetite das grandes potências econômicas mundiais, o governo Dilma entregou o leme da economia ao representante do sistema financeiro. O que fez o senhor Joaquim Levy? Manteve as elevadas taxas de juros, o pagamento em dia dos juros e amortizações da monstruosa dívida pública e cortou investimentos públicos. Resultado: inflação, recessão, redução da produção, desemprego e queda brutal da arrecadação de impostos.

Cercado por uma crise econômica que ajudou a provocar e acuado pelo escândalo na Petrobras, o governo Dilma foi perdendo terreno, popularidade e credibilidade. Era tudo que a mídia empresarial (que continuou recebendo as verbas publicitárias do governo durante todos esses anos) esperava para cornetar, semear desinformação e incentivar o movimento de rua contra o governo.

Onde estão os aliados e amigos fiéis do PT? Os ministros que Lula e Dilma nomearam para o STF lavaram as mãos sobre o pedido de Impeachment. O PMDB virou as costas e numa aliança entre o vampiro e o caranguejo decidiu apear Dilma do poder. A Fiesp passou a apoiar a deposição da Presidente. O Agronegócio chamou seus representantes e ordenou que votassem pelo impedimento. Os banqueiros oficialmente não fizeram nada, até porque continuam com seus altos lucros assegurados.

Chega a dar pena de uma Presidente desfigurada, derrotada por um parlamento formado por larápios. E ainda há quem venda a ilusão de que sua queda poderá ser revertida no Senado. Seu vice, Judas Temer, articula abertamente com os representantes do mercado, negocia seu ministério e se prepara para presidir o país por dois anos e meio, sem que para isso tenha recebido um voto sequer.

O mais patético de tudo é que a trama golpista acontece à luz do dia, sob a aura das instâncias do Estado democrático de direito, com o incentivo da mídia empresarial, apesar da indignação da imprensa internacional. E por que? Porque Dilma e o PT quiseram ser mais realistas que o rei, quiseram agradar demais ao mercado e esqueceram da maioria do povo brasileiro.

Por mais que se esforcem os movimentos populares, intelectuais e antigos militantes (muitos deles desiludidos com o PT) só conseguem juntar a outra parte da classe média, de esquerda, para defender a frágil democracia brasileira, que conquistamos com tanta luta.

Onde anda o povo que não reage? Nas ruas, nos bairros populares, periferias e favelas, sem emprego, sem esperança e sem disposição sequer para ir às ruas defender o governo. Mal sabe ele que o que vem por aí será muito pior.

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