O “caranguejo” e o baixo-clero

18/04/2016

Muita gente ficou abismada com o baixo nível da maioria dos deputados que votaram pelo Impeachment da Dilma. Muitos agradeciam familiares e citavam suas cidades e regiões, nos quinze segundos de fama que antecediam à votação. Na verdade, aquilo é o chamado “baixo clero”, que há tempos passou a ser decisivo para a aprovação de qualquer projeto na Câmara.

Com o andar da carruagem e a degradação da vida política a Câmara de Deputados se tornou uma espécie de Câmara de Vereadores de luxo. Infelizmente os deputados ficam em Brasília e não podem apresentar projetos de mudança de nomes de ruas ou que tornam suas associações em organizações sem fins lucrativos, para não pagarem impostos.

Essa chusma de semi-analfabetos pauta sua atuação parlamentar pela negociação de verbas para suas emendas para obras em seus municípios e suas bases eleitorais. Às vezes conseguem aqui e acolá um cargo da administração pública em órgãos federais em suas regiões. Sua especialidade é o toma-lá-dá-cá.

Esses vereadores de luxo, via de regra, conseguem mandatos pela legenda partidária, impulsionadas pelos chamados puxadores de votos, aqueles candidatos com grande quantidade de votos que arrastam consigo outros colegas do mesmo partido. Para se ter uma ideia, somente 36 dos 513 deputados eleitos em 2014, tiveram votos suficientes para se eleger. Os outros 477 são “puxados”.

Ainda assim, essa turma não está em Brasília do nada, eles foram eleitos. Quem os elegeu? A grande massa do eleitorado brasileiro está alheia à política. A grande maioria desconfia e outra grande parte odeia os políticos. Por isso, na hora da urna deposita o voto em qualquer um ou naquele sujeito famoso, conhecido, que com sua votação massiva vai arrastar essas malas para o Congresso.

Essa é a base comandada por Eduardo Cunha. Não importa o partido, o que importa é arregimentar essas figuras grotescas para uma zona de conforto que lhes assegure sobrevivência política e dividendos pessoais. Alguns outros políticos já cumpriram o papel de dirigir o baixo clero na Câmara, mas nenhum obteve mais sucesso que Cunha.

Trata-se de uma turma que não tem formação e muito menos estratégia política. Ou seja, essas figuras estão no Congresso Nacional para participar do quem dá mais, navegando ao sabor das ondas, de preferência nos partidos médios ou de menor expressão. Divididos ou atuando por conta própria não teriam a menor condição de sobreviver num ambiente político comandado por profissionais. Por isso, precisam de um líder que os reúna e negocie seus votos.

Comandado por Cunha, o baixo-clero participa da Comissão de Ética só para travar o andamento do processo de impedimento do Presidente da Câmara. Do que adianta o governo prometer mundos e fundos para os líderes partidários de agremiações como o PP, PSD, PRB, PR e outras se, na verdade, quem comanda boa parte dessas bancadas é Cunha? Daí porque uma das grandes ilusões do PT foi contar com essas figuras na hora do vamos ver.

Com a experiência de três mandatos e sua inteligência voltada exclusivamente para usar essa massa de votos a seu favor, Eduardo Cunha conseguiu segurar a Comissão de Ética e colocar em votação o processo de admissibilidade do Impeachment da Presidente da República. Isso, graças ao baixo-clero.

O “caranguejo” é pragmático. Sabe que não teria a menor chance entre os políticos tradicionais, aqueles poucos que ainda perdem suas noites em reuniões para traçar táticas, propor projetos para atender aos interesses de sua classe, sejam eles ruralistas, banqueiros ou grandes empresários.

Cunha oferece seus préstimos aos seus financiadores de campanha, como os planos de saúde, através de emendas e projetos que os beneficiam. Ele conhece as regras como ninguém, percebe com esperteza os interesse e contradições em jogo. E usa o baixo-clero para seus objetivos. Ele é o juiz, conhece o Regimento Interno e é dono da bola.

O grande vencedor do episódio do Impeachment de Dilma, portanto, não é Temer, provável futuro presidente do país. O maior beneficiário desta trama é o próprio Cunha, ao qual Temer deve seu mandato biônico. E isso lhe dará um vínculo cada vez mais sólido com o possível chefe do Executivo.

Por isso, provavelmente Cunha não perderá seu mandato e ninguém deve se assustar se permanecer à frente da Câmara dos Deputados. Com ele, uma série de parlamentares do baixo-clero que votaram contra o governo e que também estão citados como beneficiários de corrupção nos inquéritos da Operação Lava-Jato e em outros crimes. Afinal, tudo tem seu preço…

* Em janeiro de 2015 Eduardo Cunha venceu a eleição para Presidente da Câmara com 267 votos, contra 136 de Arlindo Chinaglia (PT) e 100 de Julio Delgado (PSB). É só fazer a conta do pedido de Impeachment para entender o peso da bancada do Cunha.

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