Povão sofre com a crise e não vê motivos para ir às ruas

31/03/2016

O que poderia evitar a manobra parlamentar golpista pelo impeachment de Dilma? Só a pressão popular, as ruas. Mas as ruas estão divididas como, aliás, estiveram as urnas em novembro de 2014. Até agora, a grande massa da população se mantém distante das manifestações pró e contra Dilma.

O governo que emergiu das urnas já dava claros sinais de fragilidade, cada vez mais cercado de aliados de pouca credibilidade. O que afasta ainda mais a grande massa deste governo não são as ligações evidentes entre o PT, Lula e Dilma com as grandes empreiteiras. Não é a corrupção que ofende o povão, embora o tom apelativo quanto ao tema faça efeito.

O que este governo não oferece aos trabalhadores, aos pobres e à juventude são condições mínimas de sobrevivência, algo que era possível ter no horizonte durante a primeira década deste século, com o governo Lula. Ainda mais quando adota uma política recessiva, de “ajuste fiscal”.

A Petrobras abalada, as pedaladas fiscais, a Operação Lava-Jato, tudo isso contribui para dar elementos e jogar lenha na fogueira da crise política, que é acompanhada pelo setor mais abastado da população. Para quem vive o dia a dia lutando para pagar as contas, procurando emprego e batalhando por um prato de comida o que preocupa são outras coisas.

O endividamento das famílias é superior a 45% da renda, o desemprego gira em torno de 10% do mercado de trabalho, cresce o número dos que trabalham por conta própria (perdendo benefícios, com remuneração variada e inferior), cai o poder de compra da população.

Essas são as questões mais sentidas pela grande massa. É essa instabilidade que faz muitos que votaram em Dilma se sentirem traídos ou “decepcionados”, como aponta a pesquisa do Instituto Data Popular com as “classes” C, D e E.

Está na cara que as manifestações pró-impeachment são capitaneadas por setores que sempre estiveram descontentes com o governo. Como indicam todas as pesquisas a grande maioria que participa é de brancos de classe média alta, com mais de 45 anos, que votaram na oposição.

Do outro lado os que aderem às manifestações contra o impeachment também são de classe média, uma parcela que já teve participação política e se afastou, outra que sempre votou em partidos ou candidatos de esquerda e uma parcela ligada aos movimentos populares pela terra e pelo teto.

Portanto, o que ocorre entre os pobres que compõem a grande massa dos brasileiros é uma espécie de decepção. Desconfiam da turma dos bairros mais ricos que vai às ruas pedir impeachment, mas também não se sentem estimulados a gritar contra o “golpe” e a favor de Dilma.

É neste cenário de desolação que prevalece uma lógica formal para tratar da crise política. De um lado os falso-moralistas da oposição conservadora, legítimos representantes das classes dominantes. De outro, o PT e seus aliados, recém-alçados à condição de agentes do poder no Estado, com políticas que os levaram a chafurdar no mesmo pântano que antes criticavam, sob o slogan da “Ética na política”.

Por isso, a chave para decidir esta parada não está em quem grita mais alto “Fora Dilma” ou “Não vai ter Golpe”, ou mesmo a simples contabilidade de parlamentares que se pode cooptar com cargos públicos por este governo ou por um possível governo Temer. A chave está na mudança da política econômica do governo, que devolva a confiança das massas populares, a partir do estímulo ao emprego, ao consumo, à educação e à saúde públicas de qualidade.

O mesmo governo que oferece cargos a deputados em troca de votos contra o impeachment, esquece de dialogar com o povão, baixando pacotes econômicos que cortam R$ 21 bilhões (4,2 bi para a educação e 2,3 bi para a saúde), além de propor o fim do reajuste do salário  mínimo a cima da inflação.

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