Jornalismo ou manipulação?

19/03/2016

Do que trata o jornalismo? Da apuração de fatos de relevância para a sociedade, traduzidos e amplamente difundidos em forma de notícia. Para dar credibilidade à notícia o profissional de imprensa deve se cercar do máximo possível de fontes e opiniões distintas, sempre procurando dar voz e vez ao contraditório.

Ocorre que essas regrinhas básicas do jornalismo estão sendo jogadas na lata do lixo todos os dias pelos principais meios de comunicação brasileiros, seja na TV, no Rádio ou na internet. Sobretudo neste momento, quando há um acirramento político no país.

Quem está afirmando isso é um profissional de imprensa que foi apresentador e comentarista por 17 anos de um programa de Rádio numa emissora comercial. No Programa Boca Livre cansamos de convidar Jair Bolsonaro, peemedebistas, tucanos, petistas, dirigentes de partidos de esquerda e de movimentos populares.

O debate de ideias, com posições distintas, enriquece a sociedade, o contraditório ajuda a amadurecer ou a modificar opiniões. O jornalismo tem papel fundamental neste sentido, daí a importância de sua independência. Por isso mesmo, o jornalismo patronal é uma afronta ao jornalismo, anulando o debate e pregando a unanimidade como modo de encarar os fenômenos sociais.

Na ânsia de impor à sociedade suas opiniões ou a linha editorial do meio de comunicação para o qual trabalham, alguns jornalistas estão distorcendo a apresentação dos fatos, carregando nas tintas favoravelmente aos seus pontos de vista, demonizando uma das partes em conflito e beatificando personagens com análises escancaradamente parciais.

Isso nada mais é do que confundir a vontade pessoal do analista com a realidade, o que fere a ética profissional dos jornalistas. Na TV aberta e fechada o noticiário está carregado de críticas escancaradas ou veladas ao governo, o que seria legítimo não fosse pelo fato de que os espaços reservados ao contraditório são limitados, quando existem.

Os casos mais evidentes disso estão em programas e noticiários da Globonews, justamente uma emissora que trabalha 24 horas com jornalismo. O dia inteiro seus apresentadores e comentaristas não fazem a menor questão de tratar os assuntos com imparcialidade.

O Jornal Nacional há muito representa o que há de mais superficial e faccioso em matéria de telejornal. Para fundamentar a linha editorial das Organizações Globo, a editoria apela, via de regra, a “especialistas”, quase sempre porta-vozes do mercado financeiro e ex-ministros de governos tucanos, sem deixar isso claro aos telespectadores.

A mesma conduta parcial ocorre na esmagadora maioria dos programas de “debates” nas emissoras de TV e de Rádio, escalando todos os convidados com a mesma posição ou posições semelhantes.

Ora, se a cobertura e apresentação dos fatos devem obrigatoriamente estar ancoradas em distintas opiniões, a análise deve procurar se pautar ainda mais pelo cuidado profissional, distanciamento e serenidade, sob pena de transformar a opinião pessoal ou empresarial em verdade absoluta e que não pode ser questionada.

É inadmissível que os meios de comunicação se prestem a usar material “vazado” de investigações sigilosas para fundamentar seu noticiário. Se isso já representa uma ilegalidade para a Polícia e um abuso para a Justiça, é mais leviano ainda quando passa a ser conduta amplamente utilizada pela mídia.

Por se tratar de meios que estão submetidos à concessão pública, os canais de TV e as emissoras de Rádio devem primar por uma conduta democrática, plural e respeitosa no trato dos assuntos retratados em suas programações. O que temos assistido e ouvido nas últimas semanas, com algumas exceções, é uma enxovalhação não do governo, do PT e de seus líderes, mas da prática jornalística.

Aparício Torelli, o Barão de Itararé, grande jornalista e fundador de alguns jornais da imprensa carioca, costumava dizer: “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. A frase ficou célebre, mas é sabido que ela se referia à independência necessária dos jornalistas em relação aos patrões e dos veículos de imprensa para com o poder público. Nem por isso Torelli abria mão de editar seus jornais com o rigor profissional.

Cabe à Federação Nacional dos Jornalistas, bem como seus sindicatos filiados, assumirem uma atitude corajosa e coerente, tomando as providências cabíveis na defesa do Código de Ética do Jornalista, cobrando das empresas e também dos profissionais o mínimo de decência e responsabilidade social no exercício da profissão.

Não se pode cobrar imparcialidade das empresas de comunicação, visto que são apenas e simplesmente empresas e estão submetidas às regras do mercado. Seria mais honesto – como ocorre em outros países – que essas empresas anunciassem publicamente suas posições, para que leitores, espectadores e ouvintes aderissem conscientemente a elas. Por isso, o contraponto à tentação tendenciosa dos patrões só pode ser exercido pelos profissionais de imprensa.

É do trabalho do jornalista e de sua responsabilidade com a sociedade que se pode extrair um jornalismo digno e responsável, atento, sobretudo, aos fatos e não subordinado a versões. E isso vale para todo tipo de veículo de comunicação.

Não é admissível aceitar como natural que programas que se proponham a analisar assuntos da maior gravidade para a vida do país, reúnam três ou mais vozes com o mesmo pensamento ou pensamento semelhante. É só o que temos visto na TV e no Rádio ultimamente, o que faz com que se dê credibilidade à voz corrente de que a grande mídia se tornou o maior partido da oposição conservadora em atividade no país.

Para quem não conhece ou jamais teve acesso ao Código de Ética do Jornalista, publico aqui o link: http://www.fenaj.org.br/materia.php?id=1811.

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